Nova Viagem à Lua/II

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Nova Viagem à Lua
por Artur de Azevedo


O teatro representa o exterior do botequim que se acha em frente ao portão do Jardim Botânico. À direita, o edifício, com a tabuleta Restaurant Campestre. À esquerda cerca rústica e portão com cancela. Ao fundo, bosque de bambus. Mesas e cadeiras de ferro, etc.

Cena I[editar]

Primeiro Criado, Segundo Criado e Criado

(Os criados estão ocupados em arranjar uma mesa que está no meio da cena, repleta de acepipes, cristais, jarras com flores, etc.)

Coro de Criados - Que belas iguarias!

Não é Todos os dias

Que se vê tanto afã

no Restaurant

Vi melhor,

vi pior,

coisa assi’

nunca vi!

Primeiro Criado (Mostrando ao segundo um peru de forno que traz num prato.) - Olá Trancoso,

vem cá: vê tu

como é cheiroso

este peru!

Segundo Criado (Mostrando ao primeiro um presunto de fiambre que traz em outro prato.) - Sim, cheira muito,

mas vê também

este presunto

que cheiro tem!


Repetição do coro


(Findo o coro, os criados, que têm acabado de arranjar a mesa, entram no botequim.)

Cena II[editar]

Machadinho e Luís

Luís (Trazendo Machadinho pelo braço.) - Vem cá, vem cá...

Machadinho - Espera... espera... (Quer voltar.)

Luís (Trazendo-o à boca de cena.) - Mas, enfim, de que meio te serviste para fazer com que papai viesse à corte?

Machadinho (Com volubilidade.) - Do mais simples: fiz-lhe ver que a ascensão só podia efetuar-se do Corcovado. Fiz-lhe grandes preleções sobre distâncias, etc. Ele a princípio hesitou, mas convenceu-se, afinal, de que era necessário ceder. Ainda assim impôs a condição que só viria na véspera da ascensão, e que eu partiria antes dele, imediatamente, para mandar construir o foguete. Esta conversa foi de madrugada; às seis da manhã estava eu de viagem. Ainda estavas dormindo; não quis acordar-te, e eis aí por que ignoravas em que pé estão as coisas. - Uf! que está quente hoje! (Vai a sair; Luís toma-lhe a passagem.)

Luís - Apenas chegados ontem à noite, viemos da Estação para cá.

Machadinho - Que é dele?

Luís - Dorme.

Machadinho (A meia voz) - Se visses! É um imenso foguete de papelão bronzeado, em cujo bojo existe um espaçoso compartimento, capaz de conter folgadamente seis pessoas. Tem seis janelas e uma porta, que fica na cabeça. O construtor saiu-se. Mandei fotografar o carro e o foguete. (Vai saindo)

Luís (Retendo-o) - Para quê?

Machadinho - Para convencer ao velho de que seu risco foi seguido à risca. Arrisquei só Três mil réis com a fotografia.

Luís - Então fostes ao Lopes?

Machadinho - É o meu freguês.

Luís - Pagaste?

Machadinho - Arrisquei apenas, já disse: posso pagar ou não. - Os Netos da Lua hão de brilhar este ano! Caramba!

Luís - Invejo este teu gênio inventivo!

Machadinho - É para que saibas. (Vai saindo e para junto à mesa.) Este banquete foi mandado servir por ordem minha. Faz parte também do meu plano.

Luís - Estou impaciente por ver em que dá tudo isto.

Machadinho - Hás de ver. Hei de deitar um pouco de ópio no copo em que teu pai tiver de beber, o velho adormece... e verás o resto. (Vai a sair.)

Luís - Mas, vem cá, filho: não haverá perigo?

Machadinho - Não tenhas receio: é uma pequenina dose, que o fará dormir, só até a meia noite. (Vai a sair.)

Luís - Onde diabo queres ir com tanta pressa?... Estás só... (Imita-o)

Machadinho - Quero esperar essa gente.

Luís - Que gente?

Machadinho - Ah! Imaginas que este baltazar é só para nós Três! Tinha que ver! Olha: além do Augusto e do Silva, hão de vir as repúblicas do Sousa, do Bento e do Guedes... A Sara...

Luís - Que Sara?

Machadinho - Aquela francesa do Hotel dos Príncipes, com quem o Fonseca anda a esbodegar a legítima materna. Vem também a Elisa, a Chiquinha, a Maroca da Rua do Senhor dos Passos...

Luís - Ai, ai, ai! Não vá o velho desconfiar!

Machadinho - Não desconfia não. As raparigas hão de portar-se bem. Darei as providências... (Vai a sair.) O Augusto e o Silva, coitados! andam na faina desde pela manhãzinha: estão preparando a sala da sociedade para o baile de hoje, que também entra no programa. (Vai a sair.) Ah! vi a Zizinha e dei-lhe esperanças...

Luís - Obrigado, meu bom amigo, obrigado.

Machadinho - Agora, é abrir vela aos tufões... e o resto à sorte! (Vai a sair, entra Arruda.)

Cena III[editar]

Machadinho, Luís e Arruda

Arruda - Bons dia, seu doutô; cumo vai a coisa?

Luís - A benção, papai?

Arruda - Deus Nosso Senhor Jesus Cristo te faça santo.

Machadinho - O foguete está pronto e já lá está no Corcovado. Temos de partir às quatro horas da tarde. Foram precisos cento e cinqüenta burros possantes para levaram-no até lá!

Arruda - Ora não estar lá eu! E onde arranjou tantos doutô, seu burro? Oh! me descurpe, me descurpe, moço. A gente às vez se engana! (Emendando.) E onde arranjou tantos burro, seu doutô?

Machadinho - Com a Companhia dos Bondes Marítimos.

Arruda - Ahn...

Machadinho - O foguete foi conduzido num carro especial que mandei construir. Invenção minha! Veja isto. (Dá a fotografia a Arruda que deita os óculos e examina-a atentamente.) - Veja como está catita! Levamos dezesseis bandeiras nacionais, hein? É isto que aqui se vê! Temos dentro uma sala e uma alcova. A importância do saque que me mandou está quase inteiramente gasta. Uf! que calor!

Luís - Insuportável.

Arruda - Não faz má... Sou podre de rico e quero i à Lua!

Machadinho (Dando um documento a Luís, á parte.) - Aqui tens o saque: guarde-o. (Alto.) De hoje a dois dias estaremos na Lua, se não sobrevier no sistema planetário algum impertinente fenômeno atmosférico que desvie o foguete do seu curso!

Arruda - Fala que nem um livro.

Machadinho - Senhor Arruda, mandei preparar este banquete, a que só hão de assistir notabilidades científicas. Vem o sábio naturalista Flowers e sua senhora, o Barão e a Baronesa do Canal do Mangue...

Arruda (Atalhando-o.) - Convidou o Júlio Verne?

Machadinho (Prontamente.) - Também, também! (Gesto de Luís.) Oh! mas aquele Verne é um malandro! Virá ou não!

Arruda (À parte.) - O diabo é se o Santos sabe que vim à corte. pega fogo na canjica. (Alto.) Ó Lulu, sobre o que nós falemo, bico, hein? Senão ponho um ovo quente na língua.

Luís - Esteja descansado, papai.

Arruda - Entonces tá tudo pronto, não?

Machadinho - Tudo.

Arruda - Ora viva Deus!


Canto

Zás!

Trás!

Vou viajar.

Trás!

Zás!

pelo ar!

Que prazer

eu vou ter!

Zás, trás, zás!

(Durante o canto entram Augusto e Silva)

Todos - Zás, trás!

Que prazer

Trás, zás!

vamos ter!

Cena IV[editar]

Machadinho, Luís, Arruda e Silva

Arruda - Sejem bem aparecido! (Apertos de mão.)

Machadinho - Então já?

Silva - Viemos de carro... Encontramos no caminho uma troça...

Machadinho (Tossindo.) - Sim... sim... o Barão e a Baronesa... o Verne... (Sinais de inteligência.) Estão se demorando!

Augusto - O bonde estava descarrilhado. (A Arruda.) Vimos despedir-nos.

Silva - Vamos deixá-los ao bota fora.

Luís - Obrigado.

Augusto - Mas como está hoje o dia quente!

Machadinho (A Arruda.) E isso é uma vantagem para a nossa viagem.

Arruda - Tá bom, tá bom... Fiquin conversando. Eu vou dá um giro. Quero vê estas parage. (Sai)

Cena V[editar]

Machadinho, Augusto, Silva e Luís

Todos (Menos Luís.) - Viva a pândega!

Machadinho - Somos uns danados!

Augusto - Sabe que as meninas de Ubá mandaram-nos um “nós, abaixo assinados”, pedindo para nos demorarmos mais alguns dias? Como era para a felicidade daquele povo, ficamos.

Silva - A Dona Rosinha mandou-te muitas lembranças. Falando seriamente, aquela moça está extraordinariamente apaixonada por ti.

Machadinho - Deixa-te de pilhérias.

Silva - É verdade ou não é. Luís?

Luís - Pelo menos parece.

Machadinho - O que parece é que vocês querem se divertir à minha custa!

Todos - Oh!

Augusto - Somos incapazes.

Machadinho - Está bem, está bem! (Ouve-se rodar um bonde.) Aí chega o bonde. (Consultando o relógio.) Como vem atrasado.

Cena VI[editar]

Machadinho, Augusto, Silva, Luís, Sara, Chiquinha, Fonseca, cocotes, estudantes.

(Os recém chegados entram às gargalhadas, apontando para Fonseca que vem todo sujo de lama e com o chapéu amarrotado.)


Arieta


Sara -‘Stou furiosa,

muito nervosa-

pudera não!

De estar zangada,

desesperada

tenho razão.

Três horas - onde? -

dentro de um bonde!

Oh! nunca mais.

(A Fonseca) - De cá os sais! (Fonseca dá-lhe um vidrinho de sais que ela aspira.) De mais a mais, o meu Fonseca

caiu no chão.

Que trambolhão!

Apareceu-me uma enxaqueca!

Ó sapristi!

Que dor aqui! (Leva a mão à cabeça.)

Ah!

‘Stou furiosa, etc.

Machadinho (A Fonseca.) - O que foi isso, ó meu calouro?

Fonseca - Que viagem, meu amigo, que viagem! O diabo do bonde descarrilhou Três vezes, e, se não fosse isso, chegávamos mais cedo. A terceira vez, desci para ajudar os homens que estavam a querer deitar o carro nos trilhos... e, quando ia subir, escorreguei e caí... fiquei neste estado.

Todos - Ah! Ah! Ah!

Sara - Pauvre Petit! (À parte, beliscando-o.) taisez-vouz done; voyez qu’on se moque de vouz!

Fonseca - En bien... Ne te fâche pas.

Sara (A Luís.) - Recebi o seu bilhete... et me voilá! O Machadinho disse-me que você instava pela minha vinda.

Machadinho - Fazia questão de gabinete. (Trepando a uma cadeira.) Minhas senhoras e meus senhores, atenção!

Todos - Hum... hum....

Machadinho - Pior!

Silva - O assunto é grave!

Augusto - O negócio é sério!

Todos - Atenção!

Machadinho - Não levem o negócio de flauta. É muito sério o que lhes vou dizer. Vocês Todos, rapazes, sem exceção de um só, são notabilidades científicas! Respondam pelos nomes que eu lhes der. E vocês, meninas, são as senhoras destes senhores. Todos vocês são bastante inteligentes para me não deixar ficar mal. Ó Fonseca, tu és o Barão do Aterrado.

Fonseca - Está dito. (A Sara.) En ce cas, tu es la Baronesse.

Sara - Oh! Mon Dieu, quel français que tu me chantes lá!

Chiquinha - Eu o que sou?

Machadinho (Descendo da cadeira.) - Logo saberás.

Chiquinha - Eu quero ser condessa.

Machadinho - Está bem, está bem... Tomem sentido nos nomes pelos quais forem apresentados.

Fonseca - Apresentados? A quem?

Machadinho - Ao Senhor Arruda!

Sara - Qu’est-ce que c’est ce Senhor Arruda?

Machadinho - Verão... verão...(A Fonseca.) Ó Barão, não vá entornar o caldo... Tenho medo de você...

Fonseca - Não há novidade. Pas de nouveauté!

Machadinho - Agora o riso e o prazer!

Sara - Et pour commencer... (Chamando) Garçon, du champagne!

Luís (A Machadinho.) - Olha que papai pode vir...

Machadinho - Vou prevenir que nos previnam. (Um criado traz champanha, Machadinho fala-lhe baixinho.)

Sara - Encham os copos!

Todos - Viva! (Enchem-se as taças de champanha.)

Machadinho (De taça em punho.) - Um brinde!

Todos (No mesmo.) - Viva!

Machadinho - Ao nosso anfitrião! E há de ser recitado!

Todos - Apoiado.

Machadinho (Recita.) - Quando a taça espumante transborda,

a nossa alma remonta-se ao céu!

Quem viveu sem tomar uma mona

foi um odre que nunca se encheu!

Todos - Não serve! Não serve! A cantora!


Coro Geral


Coro Geral - Esqueçamos

e bebamos!

Beber!

Felizes sejamos

e toca a beber!

Sara - É nisso que consiste o prazer!

Coro - Beber!

Sara -Amigos, a taça

rechaça

a desgraça!

Coro - Beber!

Machadinho - Beber até cair!

Beber até dormir!

Coro - Beber!

Esqueçamos

e bebamos!

Beber!

Felizes sejamos

e toca a beber!

Machadinho - Agora, submeto à casa uma proposta!

Sara - Voyons!

Machadinho - Um passeio na lagoa antes de jantar. Quem rema? Temos um escaler.

Augusto - Todos nós remamos!

Todos - Apoiado! Todos nós! Vamos!


Repetição do coro.


(Saem Todos pelo fundo.)

Cena VII[editar]

Arruda, [Sara e Coro]

(Durante as cenas que se seguem os criados deitam o jantar na mesa.)

Arruda (Entrando.) - Pois, senhores, o Jardim Botânico é isto? Uma coisa tão falada nas foia? É com aquilo que se gasta tantos cobre? Lá na fazenda há muito capim mió que aquele rasteiro que tem ali! Tíbio! Eu pensei que era outra coisa! Vi umas erva-de-santa-maria, umas flor...(Tomando um periódico que está sobre a mesa.) Vamos a vê que as foi diz de novo. (Lê, deitando os óculo. Ouve-se fora o seguinte:)


Barcarola


Sara -Minha barquinha dourada,

que vento queres levar?

De dia, vento da terra;

de noite, vento do mar.

Coro - -Minha barquinha dourada,

que vento queres levar?

De dia, vento da terra;

de noite, vento do mar.

Arruda (Lendo com dificuldade.) - Certa sociedade carna... carnavalesca... (Não sei o que é) prepara um chistosa crítica à célebre Viagem à Lua! (Zangado, arremessando o periódico.) Que desaforo! É inveja! É inveja só!

Cena VIII[editar]

Arruda e Luís

Luís - O que é que tem, papai?

Arruda - Lê. Preparum uma crítica à nossa viaje! Vão criticá o diabo que os carregue, cambada! Eu só queria sabê quem foi!

Luís- Não pense nisso, os seus convidados já chegaram.

Arruda - Que dê eles?

Luís - Vossemecê não estava. Enquanto se deitava o jantar, foram dar um passeio pela lagoa. Vá Vossemecê vestir a casaca. É de etiqueta.

Arruda - Com este calô... Enfim... (Vai saindo e volta.) Havemo de mostrá a esses biltre das foia que vamos à Lua! (Sai)

Cena IX[editar]

Luís [só]

[Luís] Está a chegar o desenlace desta farsa, e, no entanto, tremo! Não quis acompanhar esses rapazes, para poder combater algum obstáculo imprevisto! Oh! papai, perdoa! Tu eras capaz de fazer o mesmo a vovô por via de mamãe!


Coplas


I


Capaz de tudo sou por ela,

por Zizinha, meu doce bem;

inda não vi, nem viu ninguém

mulher assim, mulher tão bela!

Seus olhos têm da noite a cor,

mas brilham como o sol sereno...

Para conter tamanho amor,

Cuido que meu peito é pequeno!

Ah! meu pai, meu bom papai,

os meus embustes perdoai!


II


Os meus suspiros são tamanhos

quando me ponho a imaginar,

que pra com ela me casar

é só mandar correr os banhos!

Eu de ventura hei de morrer

no dia em que sair da igreja

levando assim... (Menção de dar o braço.)

Minha mulher,

rubra, da cor de uma cereja!

Ah! meu pai, meu bom papai,

os meus embustes perdoai!

Cena X[editar]

Machadinho, Augusto, Silva, Luís, Fonseca, Sara, Chiquinha, estudantes, criados e cocotes

Machadinho - Esplêndido passeio!

Sara - Magnifique... Uf! mais il fait chaud!

Augusto - A mesa está posta.

Silva - Tenho uma fome!

Machadinho - Esperemos pelo Senhor Arruda. Ah! ele aí vem...

Cena XI[editar]

Os mesmos e Arruda

Arruda (Entrando.) - Senhoras donas... senhores...

Machadinho - Apresento-lhes o nosso anfitrião!

Arruda - Não me mude o nome, seu moço. Manuel Arruda, criado de Suas Senhoria...(Cumprimentam-no; atrapalham-no.)

Todos - Senhor Arruda! - Viva! - Folgo de conhecê-lo! - Sou seu criado! - etc.

Arruda (Satisfeito.) Obrigado, minha gente.

Machadinho (Apresentando-lhes Fonseca e Sara.) - Sua Excelência, o Senhor Barão do Aterrado e Sua Excelentíssima Senhora Baronesa. (Grandes mesuras de Fonseca e Sara.) O célebre Flowers, de quem já tive a honra de falar-lhes... A Senhora Condessa...

Chiquinha - Marquesa... Marquesa...

Machadinho - Ah! é verdade. Foi promovida esta noite... A Senhora Marquesa da Cochinchina.

Arruda - Da Cochinchina? Tenho lá na fazenda muito boas galinha da sua terra.

Machadinho (Apresentando-lhe um estudante baixo.) - El Señor Dom Ramón Oribe Fuentes Guadaquivir de la Trindad Consuelo, Ministro de la Patagonia!

Arruda - O nome é mais comprido que o dono; Vacê memo tem esse nome todo! Safa! Mas por que é que a gente tá assim em pé? Vamos comer... (Sentam-se Todos à mesa.) Eu quero falá!

Todos - Fale! Fale! Pois não!...

Arruda (Erguendo-se.) Eu sinto que não posso dizê o que tenho pra dizê porque as coisa...(Mudando de tom, ao suposto Ministro da Patagônia.) Vacê memo tem esse nome tão comprido? Eu não! Eu cá sou o Manuel Arruda só; cando eu nasci, era muito pequenino; por isso meu pai não quis me dá nome comprido.

Todos - Ah! Ah! Ah! - Volte ao assunto! - Entre na matéria! - Não admito!

Arruda - Isto foi para me sarvá, porque eu tinha me atrapaiado todo. (Outro tom.) Minha gente... (A Machadinho.) Ah! é verdade: O Júlio Verne veio?...

Machadinho - Ainda não reparei! Está por aí o Júlio Verne? Oh! Júlio Verne! (Gargalhadas.) Qual! Não veio! Aquilo é um malandro! (Dizendo isto tem deitado ópio no vinho de Arruda.)

Arruda - Lulu, expilica essas coisa a esta gente.

Luís - Minhas senhoras e meus senhores, papai...

Machadinho - Não! Falo eu!

Arruda - Vacê tá fechando a boca do rapaz!

Sara - Ah! qu’il fait chaud!

Arruda - Fechou, sim senhora, e o Lulu não pôde falá. (À parte.) É bem boa...

Machadinho - O Senhor Arruda, o Luís e eu agradecemos o terdes honrado...

Arruda - Ter desonrado! A quem? (Risadas.)

Machadinho -... o terdes honrado este banquete com as vossas presenças.

Arruda - É tal e quá! Muito bem!

Machadinho - Na hora em que a pátria vai ser nobilitada pelo arrojado cometimento de um de seus filhos, vós, que não vos alistastes nas fileiras dos incrédulos, vinde dar palmas ao talento. Eu brindo, em nome do Senhor Arruda, o ilustrado auditório!

Todos - Hip! Hip! Hurra!...

Sara - Ah! qu’il fait chaud!

Arruda - Sinto-me um pouco pesado...

Machadinho - Oh! mas é verdade!... Está um calor insuportável! Estou alagado!

Augusto - Uf! Quem pode comer assim?...

Machadinho - Interrompamos o banquete; talvez refresque o tempo.

(Levantam-se Todos da mesa e descem à cena. Arruda levanta-se com custo; está a cambalear de sono.)


Final


Coro - Fiquemos em colete,

e, co calor que está,

deixemos o banquete!

Logo reviverá!

(Durante o coro, Todos, menos Arruda, tiram os casacos.)

Machadinho (Recebendo de um criado um maço de ventarolas fechadas.) - Atenção.

Coro - Atenção!

Machadinho (Distribuindo as ventarolas pelos personagens.) - Amigos meus, o calor pressentindo...

Arruda - Estou quase caindo...

Machadinho - ... trouxe estas ventarolas.

Mágicas são

toquem nas molas

que nos cabos estão;

incontinenti abrir-se-ão!

(Todas as ventarolas, que são comicamente exageradas, abrem-se como por encanto.)

Alguns - Oh! meu Deus! que calor!

Que horror!

Que tempo abrasador!

Luís (À parte.) - Coitado de papai...

Arruda - Meus senhores, estou cai não cai!

Sara - Ah! qu’il fait chaud!

Alguns - Tudo alagado está!

Eu alagado estou!

Arruda - Mas esta não é má!

Não há que vê: tou pronto!

Não bebi quase nada e já me sinto tonto!

Coro - Que grande calor!

Que forno, Senhor!

Machadinho - Fa caldo !

Ai, que calor

abrasador!

Escaldo!

Isto é, talvez,

noventa e Três!

Coro - Fa caldo !

Ai, que calor

abrasador!

Escaldo!

Isto é, talvez,

noventa e Três!


I


Machadinho - É pra dar cavaco!

Pois da festa no melhor

o calor, que é velhaco,

nos vence pelo suor!

Mas mal o tempo mude,

vamos pra mesa outra vez!

Olá! Deus nos ajude!

Caramba! é noventa e Três!

Oh! que calor abrasador!

Coro - Uf! Uf!

Fa caldo !

Ai, que calor

abrasador!

Escaldo!

Isto é, talvez,

noventa e Três!

Arruda - Com sono

pra cá não vim;

já dono

não sou de mim!


II


Machadinho - Graças às ventarolas,

com alguma viração...

Este calor é um bolas!

Oh! que maldita estação!

Nem mesmo alguns sorvetes

se encontram no restaurant.

Calor, tu nos derretes,

se duras até amanhã!

Oh! que calor

abrasador!

Coro - Uf! Uf!

Fa caldo !

Ai, que calor

abrasador!

Escaldo!

Isto é, talvez,

noventa e Três!

Arruda - Tragam-me já uma cadeira!

De sono tou mesmo a caí!

(Trazem-lhe uma cadeira, na qual ele cai sentado.)

Coro - De sono está mesmo a cair!

Arruda - Que vinho mau! Que brincadeira!

Quero dormi! Quero dormi!

Coro - Pode dormir! Pode dormir!

(Arruda adormece.)

Uf! Uf!

Fa caldo !

Ai, que calor

abrasador!

Escaldo!

Isto é, talvez,

noventa e Três!


[Cai o pano]