Numa e a Ninfa/IV

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Numa e a Ninfa por Lima Barreto
Capítulo IV


O bonde ia agora atravessando os Arcos. Sob a luz de um dia brumoso, encoberto, um dia pardo, a cidade se estendia irregular e triste. Bondes, carros, transeuntes passavam por debaixo da arcaria secular. Escachoavam, marulhavam, redemoinhavam como as águas de um rio. As casas eram vistas pelos fundos e os passageiros entravam um pouco na vida íntima dos seus habitantes.

Viam-se criadas a lavar, homens em trajes de banho, casais que almoçavam - todas essas cenas familiares iam sendo desvendadas pelo elétrico que rodava devagar, quase roçando as bordas do velho aqueduto do conde de Bobadela.

Foi um alívio quando penetrou pelo flanco da montanha de Santa Teresa, guinchando estrepitosamente, vencendo a rampa que o levava morro acima. A cidade se foi vendo melhor. Lá estavam as ruas centrais, cobertas de mercancia; mais além a Cidade Nova; acolá a pedreira de São Diogo, chanfrada, esfolada e roída pela teimosa humanidade; a estrada de ferro, o Mangue...

As torres das igrejas subiam aos céus com os seus votos e desejos. Do zimbório da Candelária, muito calmo na sua curva suave, o lanternim olhava tudo aquilo com superioridade e curiosidade e curiosa indiferença.

O mar parecia coagulado ou feito de um líquido pesado e espelhante; os navios estavam como incrustados nele e as ilhas pareciam borrões naquele espelho fosco.

A vista caía sobre um veículo, um carro, por exemplo, e, dali, poucos metros acima do solo, não se podia perceber se era um "coupé" de luxo ou um carro da Misericórdia, se era uma traquitana de praça ou o "landau" do presidente.

Não se separavam bem as pessoas e as coisas: o que se via era aquele ajuntamento, aquela aglomeração, que lá do alto parecia ser uma existência, uma vida, feita de muitas vidas e muitas existências. Não era o palacete ou o cortiço, não era o patrão ou o criado, não era o teatro ou o cemitério, não era o capitalista ou o mendigo; era a cidade, a grande cidade, a soma de trabalho, de riqueza, de miséria, de dores, de crimes de quase quatro séculos contados.

O bonde chegou ao largo do Guimarães, e D. Edgarda se viu novamente mergulhada numa atmosfera urbana. Uma praça cercada de casas, "rails" a cruzarem-se, bodegas, armarinhos, um cenário de praça de cidade pequena. O veículo continuou e agora lhe veio pensar para onde marchava aquilo tudo, para que fim, para que destino, se encaminhava o resultado de tanto trabalho e de tanta inteligência empregados na criação, na edificação daquela imensa colmeia humana. Pensava, mas não viu nenhum; não quis, porém, o seu espírito acreditar que tudo o que aquilo representava de inteligência, todo o amor acumulado ali, todo o sofrimento que porejava daquelas paredes e se evolava daqueles telhados, não se destinassem a um remate, a um destino superior qualquer.

Contudo, no instante, a sua meditação se resumiu em sentir a inanidade das nossas criações e teve a imensa visão do inútil dos nossos esforços para o bem e para o mal.

O bonde galgava a montanha relinchando longamente, traindo o esforço que fazia, e aproximava-se da residência do Dr. Macieira Galvão, governador eleito do Estado das Palmeiras. Dentro de dias, ele e a família embarcariam para lá e D. Edgarda vinha fazer a visita de despedidas, na expectativa de não poder ir ao embarque.

Macieira tinha nas Palmeiras a posição que seu pai em tinha Sepotuba e admirava-se que a sua família consentisse naquela partida, em vésperas de grandes acontecimentos políticos. Bentes já declarara pelos jornais que era candidato, deixando até o ministério. Xisto, o outro ministro que era candidato oficial, resignara a candidatura; e, pelo que diziam, tratava de aderir a Bentes, como estava fazendo toda a gente, oposicionistas e governistas. Não julgava de bom alvitre Macieira abandonar o Centro e deixar que Bentes fosse cercado pelos seus adversários. Não lhe diria nada. Que tinha com isso? Seu pai já devia ter tomado as precauções necessárias e era o bastante. Quanto ao marido, ela estava sossegada, pois o seu pai saberia escorá-lo. O terremoto não chegaria a abalá-lo; e ele, até ali tão assustado, vivia tranqüilo e sem medo algum. Ainda agora, pouco antes de sair, tivera ocasião de verificar. Vestia-se quando ouviu que a chamavam:

— Edgarda! Edgarda!

Compôs-se um pouco, escondeu entre as rendas da camisa as suas firmes espáduas, e foi ver o marido no aposento aproximo.

— Como é que se diz, Edgarda. É talwég ou tálweg?

Disse-lhe, e Numa continuou tranqüilamente a estudar o discurso que devia pronunciar brevemente. A mulher ainda se demorou um pouco a ouvi-lo, a apreciar o seu minucioso estudo da peça, que ele recitava, quase de cor, com a sua voz, às vezes áspera, mas volumosa, articulando nitidamente as palavras.

O bonde avizinhou-se mais: Edgarda saltou e desceu em pouco uma rua transversal que escorregava suavemente pelas abas do morro. Metros após descansava a sua longa mão enluvada no botão da campainha que brilhava, no portão de um amplo "chalet" risonho.

A casa toda era cercada pelo jardim e a varanda ao lado desaparecia sob um dossel de trepadeiras. A mulher de Numa ficou à espera um instante. Antes que o criado lhe viesse atender, uma outra pessoa, um rapaz bem apessoado, bigodes encerados, surgiu à varanda a modos de quem ia sair.

— Por aqui, D. Edgarda?

Desceu a pequena escada e veio abrir o portão que dava para a rua.

A visita pode responder.

— É verdade, venho despedir-me... D. Celeste não está, Doutor Felicianinho?

O moço, sempre sorrindo, afirmou que estava e levou-a até o interior da casa. Ainda não era doutor, mas estava no fim do curso. Sabia-se mal a origem da grande proteção que gozava aquele rapaz da família de Macieira. Vindo do interior, a estudar no Rio qualquer coisa, aí pelo segundo ano de engenharia, começara a freqüentar a casa e dentro de seis meses nela se instalara completamente. Recebia da família tudo que necessitava: roupa, livros, dinheiro e corria que isso obtivera devido à paixão que inspirara à velha D. Alice, mãe de Macieira Galvão, de quem se fizera amante.

Ao encontrá-lo no portão, Edgarda pôs-se por instantes a imaginar como aquele moço de vinte e poucos anos, tão elegante, quase bonito, podia viver com uma velha de quase setenta, uma ruína, inteiramente escorada por postiços e ingredientes.

Via-o já formado, colocado, casado, subindo e compreendeu então a natureza de seu amor e a razão de sua complacência.

Não era a primeira vez que ali vinha; e, da sala em que estava, conhecia bem as alfaias e móveis. Tudo era caro, senão de bom gosto; mas, da forma que estavam arrumado, não tinham nada de inteligente ou artístico. Ressumava de tudo uma exibição de riqueza, uma necessidade de provar fortuna, mas nunca um sentimento superior de luxo, de arte, de conforto ou gosto.

Não custou em vir ao encontro da amiga, D. Celeste. Entrou com aquela sua bonacheirice roceira, risonha, contente e foi toda aberta em alegria que falou à amiga. Havia cerca de vinte anos que passava pelas altas camadas, que a comprimia o código de várias cerimônias de sociedade, mas guardava intactas todas as qualidades e defeitos de sua educação de fazenda. De gostos elementares sem compreensão para as altas coisas, com fraca energia de sentidos, D. Celeste era virtuosa e casta; tinha, entretanto, as ridículas arrogâncias de nossa nobreza campestre - uma dureza e um certo desdém em tratar os inferiores, um sentimento de propriedade sobre eles e um séquito atroz de pequeninos preconceitos e superstições.

Apesar disso, era generosa e caridosa. Sendo assim, à primeira vista era simpática; e quem a analisasse cuidadosamente, achá-la-ia um pouco ridícula, mas sempre simpática. Em a examinando bem, sentia-se perfeitamente tudo o que ela tinha de mau e estreito dentro de si, tudo o que o seu feitio de espírito representava de peso morto na nossa sociedade; por momentos, porém, havia profundas modificações no seu caráter e ela se manifestava em grandes atos de verdadeira grandeza que brotavam da sua exuberância sentimental.

— Eu não esperava você hoje, minha querida Edgarda. Julguei que viesse nas vésperas...

— Desde a semana passada que quis vir, D. Celeste. Quando é o embarque?

— Minha filha, não sei bem... Esse negócios de política andam tão atrapalhados... Macieira está com pouca vontade... Quer ver em que param as modas... Por mim, não tenho grande vontade.

— É grande a capital?

— Qual! É menor que Niterói.

— É Niterói sem o Rio perto, não é?

— O quê? - fez D. Celeste sem compreender. - Quinze dias de viagem! Não há bondes, não há água...

— Compete ao Doutor Galvão por isso tudo.

— Qual! Há tempo para isso? A política monopoliza tudo. É um coronel que quer isso, é um deputado que quer aquilo... Há as brigas. Demais, a renda é pequena, não dá...

— E é saudável?

— Lá isso é; mas não é a cidade que me aborrece. É aquela gente. Que gente!

E fechou a fisionomia cheia de desprezo e desgosto.

— D. Celeste, que tem a senhora com eles?

— Que tenho? Invadem o palácio... Aqui, ao menos a gente está isolada, não precisa estar a toda hora em contato com eles; mas lá - não há outro remédio!

D. Celeste, após uma pausa, refletiu:

— Os deputados e governadores não deviam estar em dependência tão estreita desse povinho - não acha você, Edgarda?

— Creio, mas... Dizem que eles devem ouvir todo o mundo, para bem representar a vontade do povo, por quem são eleitos.

— O povo! Eleitos! Nós é que sabemos como é isso, minha cara Edgarda; nós sabemos disso...

A mulher do senador Macieira riu-se sublinhando a frase; a visita, porém não a acompanhou inteiramente no seu ceticismo pelo nosso aparelho político.

D. Alice, a mãe do senador, vinha entrando, ereta, alta, lembrando ainda o gesto senhorial e distinto, o donaire que devia ter em moça. As massagens não conseguiam disfarçar as rugas da velhice, mas as pinturas davam aos cabelos o vivo negror natural.

Contudo, havia nos olhos alguma coisa de moço; um certo calor, uns fortes reflexos luminosos que aqueciam a sua fisionomia que nevava. Ainda era uma bela velha, cheia de naturalidade, de gestos e encanto de maneiras.

Depois dos cumprimentos, D. Edgarda perguntou à velha D. Alice:

— Então, D. Alice vai também?

— Não, não posso. As viagens fazem-me mal, não posso suportá-las... Demais o Felicianinho vai formar-se e eu não quero... não quero ir.

A nora atalhou:

— Você não imagina, Edgarda, a ternura que mamãe tem pelo Felicianinho... É Felicianinho para aqui, é Felicianinho para ali... Nem para Macieira, que é seu filho, nem para mim, nem para o Orestes, que é seu neto, ela tem os mimos que tem para o Felicianinho.

— Ora! Vocês foram felizes; tiveram pai e mãe e fortuna... Ele é órfão e pobre - não acha que faço bem, Edgarda? Neste mundo, a falta de amor, de carinho, faz mais mal do que a do dinheiro, não é?

— Não há dúvida que sim, mas, às vezes, também estraga - aduziu Edgarda.

— Isso é quando se trata desse amor por aí - fez a velha - mas o da mãe, nunca é demais.

Quando na rua, a mulher de Numa hesitou em se firmar na natureza do sentimento da velha D. Alice. Às vezes, parecia-lhe um simples amor de mulher; em outras, um grande amor de mãe; mas, afinal, concordou que havia as duas coisas juntas, misturadas de tal forma que não se podia saber qual dos dois sentimentos dominava.

O que mais a impressionou, não foi a certeza a que ela chegou de haver em D. Alice uma curiosa mistura ou combinação daqueles dois sentimentos tão diferentes; o que mais admirou foi a candura e a inocência que a velha revelava falando daquele jeito dos seus sentimentos pelo rapaz.

Sentia-se desculpada, perdoada, não porque o amasse como mulher, mas porque amava também o rapaz como mãe; seguia-lhe os estudos, socorria-o de todo o jeito, trazia-lhe sempre diante dos olhos o futuro e a glória.

D. Edgarda já estava no bonde que parou um pouco adiante para dar entrada a um senhor alto que todos os passageiros cumprimentaram. O senador Carlos Gerpes entrou no veículo com agilidade e desempeno. Olhou com aquele seu fino olhar os circunstantes, olhar sempre para a frente, de quem beira precipícios. Não tardou em dar com Edgarda e veio colocar-se num banco, adiante, de modo que lhe pudesse falar.

— Já sei - disse ele - que o Numa, hoje ou amanhã falará sobre o orçamento do Exterior... Deve fazê-lo. É moço e convém aparecer... Hoje, a minha atividade está reduzida; mas, na idade dele, não perdia vasa... Foi ao Lírico?

— Ainda não. Numa não tem podido ir... O senhor sabe...

— Deve ir. Que propriedade, que naturalidade! Os papéis de amorosa então ela os faz muito bem... O amor moderno... Não há aquelas imprecações, aqueles estos antigos... Oh! É perfeito!

Quem o visse falar assim e mesmo na tribuna, não suporia que toda a sua educação e instrução se fizera nos comícios, clubes eleitorais e assembléias políticas; e fora neles que aprendera desde as boas maneiras até finanças, desde noções de aritmética até literatura - o bastante para ser uma notabilidade política, com influência e vencendo todos os obstáculos à manutenção de sua situação.

D. Edgarda explicou melhor por que não tinha ido ver a famosa atriz:

— Numa anda muito atrapalhado... Muito trabalho!... Conferência com este e aquele... As coisas andam tão turvas...

— Turvas! Qual turvas, minha senhora!

Sentou-se melhor no banco e continuou com toda a simplicidade:

— A senhora quer saber de uma coisa... Olhe, minha senhora, vou lhe contar uma história antiga, mas que tem muito ensinamento.

— Para a política?

— Para tudo, minha senhora. Para tudo! Quer ouvi-la?

— Pois não, Senador!

— Um negociante voltava de longe, onde fora comerciar e trazia no navio em que estava embarcado toda a sua fortuna. De repente, arma-se uma tempestade; e, diante da ameaça do naufrágio, o negociante promete que se se salvar mandará rezar em todos os altares da primeira igreja que encontrar, missas em ação de graças aos santos respectivos, iluminado a igreja completamente. Feita a promessa a tempestade amainou e é salvo. Chegando em terra, cumpre a promessa. Vai assistir às missas e repara que um canto escuro da sacristia não tinha vela. Chama o sacristão e pergunta por que não acendera o círio ali. O homem responde que ali era o lugar do diabo. Acenda assim mesmo, ordena o negociante. Foi feita a coisa e ele continuou a sua viagem. No meio do caminho foi roubado pelos salteadores que o deixaram, por muito favor, prosseguir a viagem. Desanimado o pobre seguiu; em meio à jornada, porém, encontrou um cavaleiro que lhe perguntou o nome. Respondeu, e o desconhecido, sabendo que havia sido roubado disse: "Não se incomode, venha comigo." Daí a pouco estava senhor de sua fortuna. O desconhecido indagou: "O senhor sabe quem sou eu?" "Não", retrucou o negociante. "Sou o diabo", disse o outro; e desapareceu.

— Compreendeu?

— Pois não, Senador - fez a moça entre um sorriso.

— Eu, minha senhora, não deixo nunca um canto sem vela; e creio que Cogominho faz o mesmo.

Gerpes não pode continuar a expor pitorescamente a sua filosofia política; outro prócer da República veio tomar o bonde ao lado do colega.

— Como vais, Gerpes?

— Como vais, Martinho? Não conheces D. Edgarda?

O novo passageiro pôs o pince-nez e olhou a senhora com um frio olhar perscrutador, olhar de médico, de médico de consultório freqüentado, e respondeu:

— Não tenho a honra...

— D. Edgarda, esposa do Deputado Numa.

— Ah! Bem!... Já sei que seu marido vai falar.

— É verdade - disse a moça.

— Não convinha alongar o debate - observou Gerpes.

— É... O Bastos quer mostrar que não são só os deputados do Estado dele que o defendem, mas o partido inteiro.

Abriu o Diário Mercantil e correu ligeiramente os olhos sobre a folha.

— Leste o artigo do Fuas Bandeira? - perguntou Gerpes.

— Li.

— Definiu-se.

— É um aviso seguro.

Nada mais disse, encolheu-se, pondo-se a ler o jornal que desdobrara. Martinho era uma das culminâncias da política republicana. Não era só a sua fama de talento e a grande reputação de clínico que lhe davam um grande prestígio; concorria também para isso a estranheza de suas vidas e dos seus gostos.

Alcandorado em um casarão, vivia sibaritamente isolado, cercado de livros, de curiosidades e de sapos. Tinha uma coleção de batráquios de todas as regiões do globo. sapos gigantes, sapos minúsculos, sapos com chifres, sapos com cauda, até um imenso e desmedido sapo, remanescente de uma idade morta, adquirido por alto preço a um paleontologista americano.

Em matéria de amor, era curioso. Não conquistava, não namorava, não flertava, não amava; comprava. Tal dama assim que desejasse, mandava dizer: dou tanto. Às vezes, era um encontro rápido, um cochicho; em outras, o capricho vinha e o caso se demorava meses.

Tinha em si o enfado de Tibério, mas sem ter a sua grandeza monstruosa. Faltavam-lhe o tempo e o sentimento artístico, para selar seus atos com uma exuberância impudica. Moço, trabalhara muito; e feio, vivera sempre à parte das mulheres. Chegando à grandeza, à riqueza, vingava-se, tratando a metade da espécie com mais desprezo que os sapos dos seus tanques.

Por vezes, sentia remorso do seu proceder e o arrependimento vinha todo carregado de ingênuas manifestações sentimentais. Foi talvez em uma dessas crises que, quando ministro, o fez determinar que o busto da República, mandado esculpir para o seu gabinete, tivesse a feição de uma das suas amantes mortas.

Gostava da fama de frio, de cético, de cruel, mas o que havia de mais exato era um cansaço, um esgotamento do seu forte sentir por muito tempo sopitado e nunca bem encaminhado.

Edgarda considerou um pouco aqueles dois homens. Martinho lia com a cabeça baixa, pescoço enterrado, jornal quase sobre os joelhos. Gerpes tinha o pescoço em pé e o pince-nez à altura dos olhos. Neste a audácia espontânea, naquele, o cálculo laborioso.

A esposa de Numa ainda olhava a cidade que a esperava lá em baixo. O bonde caminhava e agora era o esforço para detê-lo na descida que o fazia guinchar nos trilhos.

O acaso que traçou a cidade, parece ter deixado aqui e ali pequenas ruas, travessas, becos, próprios aos amores que não podem ser suspeitados.

Ao lado das ruas principais, ficam o seu sossego e discrição para asilar os amorosos, evitando-lhes grandes rodeios e afastando as suspeitas de quem os vê por elas.

Casas há ainda mais favoráveis aos que amam fora da lei; são as que tem duas ou mais entradas para ruas diferentes. Essas, porém, só são achadas nas ruas centrais, onde o temor de encontrar conhecidos não permite que os apaixonados prudentes as procurem.

Contudo, os mais afoitos e menos cautelosos não as desprezam; e, das ruas centrais, escolhem aquelas mais compridas, as que se alongam até o Campo de Santana, em cujas proximidades, então, armam seus ninhos amorosos.

Esses espécie de amorosos são os médios, aqueles que dispõem de pequenas fortuna ou razoáveis rendimentos; aqueles, porém, que têm maiores recursos fogem dos caminhos batidos, procuram asilos mais seguros e confortáveis.

Escolhem essas travessas mortas em ruas de pouco movimento e à pouca distância da cidade, e de onde, em dez minutos, possam voltar à rua do Ouvidor.

Há sempre uma velha ou um casal complacente, antigos fâmulos da casa, protegidos da senhora ou do amante, que simulam à vizinhança serem donos da casa e acolhem generosamente o amor clandestino.

A nossa população é bisbilhoteira; os nossos vizinhos estão sempre a saber o que fazemos e nós o que eles fazem, de modo que é preciso precauções de estrategista, planos de peles-vermelhas para despistar a vigilância gratuita dos curiosos e fazer calar as suspeitas de sua bisbilhotice idiota.

Quem visse D. Edgarda, após descer um pequeno trecho da ladeira de Santa Teresa, tomar um bonde do Rocio Pequeno, havia de julgar que ia apanhar condução que a levasse ao Rio Comprido ou à Tijuca, par fazer alguma visita. O seu ar natural, a sua atitude de inteira tranqüilidade davam a entender que continuava a cumprir os seus deveres sociais de grande senhora; entretanto, antes que o veículo começasse a trepar a ladeira que existe quase ao fim da velha azinhaga de Mata-Cavalos, ela saltou muito naturalmente, apanhou a calçada, dobrou esta e aquela rua e entrou com segurança em uma casa modesta. muito pobre de aparência.

Nem preciso era que ela desconfiasse e tomasse precauções, porquanto a rua estava deserta e silenciosa, como sói sempre estar à qualquer hora do dia e da noite. Acresce mais que a casa era conhecida e os seus habitantes sabiam perfeitamente que lá residiam uma velha rapariga e uma filha que viviam de costuras, além do filho que trabalhava, como embarcadiço de um paquete.

A sala tinha uma pobre mobília e sobravam utensílios de costura. Havia máquinas, manequins. uma mesa para o corte, figurinos, e a mãe e a filha, uma na máquina e a outra à tesoura, trabalhavam distraídas.

Ambas não tiveram a menor surpresa ao ver Edgarda entrar. parecia que a esperavam e corresponderam com simplicidade ao cumprimento que lhes fez.

A moça costureira franziu um pouco a fisionomia, mas a velha tornou-se logo alegre e foi falar familiarmente com a mulher do deputado. Conhecera-a menina, criara-se na casa do avô, e sempre encontrara na moça uma amiga, uma protetora para os seus tristes dias de viúva pobre.

— Benevenuto já veio, Carola?

— Já, Edgarda. Está lá dentro.

— Você acabou aquela saia?

— Cortei, mas não sabia se você a queria com pressa mesmo.

A filha, que até ali se mantivera calda, acudiu:

— É aquela "salmon", mamãe?

— É.

— Pode ser provada. A senhora quer?

Não teve tempo de responder, pois a velha lhe perguntava:

— Edgarda, que barulho vai haver?

— Barulho?

— Negócio de política. Não é, Lívia?

— Corre aí... Não sei...

— A candidatura do general?

— Sim; mas dizem que o "velho" deixa.

— Deixa? Quem disse isso a você?

— Benevenuto.

— Vou falar com ele. Com licença!

Edgarda atravessou o corredor e foi à sala de jantar. A casa era pequena, não tinha mais que duas salas e dois quartos, dando um destes para a sala de jantar. Havia de permeio aos aposentos uma área que iluminava mal, tanto um como o outro quarto. Mas, assim mesmo, a casa bastava para o destino que ela tinha merecido.

O primo já estava no interior, quando Edgarda lá entrou. Ao vê-la, ele se levantou e um instante beijaram-se, sem dizer palavra.

Parentes próximos, conhecidos deste meninos, o amor só brotou neles depois do casamento da prima. Nunca se haviam conhecido bem, nunca se tinham compreendido; e, nela, o matrimônio como que lhe deu um outro sentido, um antena que descobriu no primo o que lhe exigiram a imaginação e a inteligência.

Casada, um pouco das suas idéias de menina e de moça evoluiu; se os desejos de notoriedade do marido, não se foram também, é porque neles havia muito de seu amor próprio pessoal e o seu casamento fora determinado por esse mesmo sentimento.

Se o marido não quis em começo corresponder a esses desejos, era, entretanto, bastante plástico para ser modelado por eles; o primo, porém, com uma personalidade mais forte, em que sobravam tantas aptidões, não seria capaz de plasmá-los; e sempre mostrara pelos políticos uma indiferença, senão um desdém superior.

O ambiente familiar, as preocupações do pai, as suas conversas, o modo por que, aqui e ali, se referia a ele, fizeram com que a menina Cogominho concordasse, partilhasse essa forma de ver do pai e mesmo o tornasse incompreensível a seus olhos. Tudo isso afastou-a do primo, e do pai, esse sempre vivera afastado, mas sem ódio nem rancor.

Referia-se o senador ao primo afim com condescendência de pai de filho pródigo. Bom rapaz, dizia ele, mas boêmio e extravagante.

Nada mais dizia a respeito do parente e não parecia incomodar-se muito com as opiniões e ditos que proferia ou citava. Nunca se indignava, nunca o censurava e, se uma frase era mais atrevida, fechava a conversa com um - Ora! Você! - e emendava outro assunto. Certa vez não foi com ele mesmo, mas com um dos deputados, que Benevenuto dissera:

— Essa política é desonesta.

— Desonesta! Por quê?

— Por quê? Porque vocês se propõem a fazer a felicidade do país, coisa de que vocês estão convencidos que não fazem, nem tentam de modo algum fazer.

Essas e outras opiniões chocavam a moça, ameaçavam desmontar ou perturbar o seu sistema de idéias; e Edgarda evitou um pouco o primo, sem odiá-lo, sem aborrecê-lo, mas por temê-lo um pouco.

De volta de Sepotuba, esquecida ou já não tão dominada pelas suas primeiras concepções, acolheu o primo com grande efusão, admirou-o, apagando toda a ponta de diabolismo que encontrava nele e amaram-se sem saber como, sem determinar o começo, ora parecendo amor antigo, ora um recente capricho.

Encontravam-se há quase um ano naquela casa discreta, graças à complacência de uma velha conhecida, quase pessoa da família de sua mãe, que lhe prestava aquele serviço mais por dedicação do que por interesse de outra ordem.

Edgarda tirou o chapéu, foi se desabotoando com o auxílio do amante, - tudo muito vagarosamente, com preguiça e sem nenhum ardor; Benevenuto disse-lhe:

— Sabes, Edgarda, que o "velho" vai resignar?

— Não.

— Pois vai, se não resignou já.

— Quem te disse?

— O Inácio Costa... Ele anda sempre informado, vive nos bastidores - ele e o seu primo Salustiano.

— Salustiano? Que tem ele com essas coisas?

Em corpete, colete descansando no toucador, ela sentara-se a uma cadeira, uma perna sobre a outra, e deixara um instante de desabotoar as botinas.

— Que tem?!

— Você é que não adivinhou. Tola - disse ele, beijando-a - ele quer é deslocar teu pai.

— Como?

— É muito simples. Quem dá prestígio a teu pai?

— O partido... Os eleitores...

— Que eleitores! É o governo federal! Que faz Salustiano? Adere a Bentes, desde já; blasona influência; Bentes fica amigo dele; faz-se presidente e transfere o apoio para Salustiano. Admiras que não tenhas visto isto logo!

— Desconfiava, mas...

— Pensavas que Bentes tinha que contar com seu pai?

— Era isso.

— Tinha, não há dúvida; mas não tem. Teria se fosse candidato normal, então trocariam favores; mas Bentes, de qualquer modo, sobe por uma revolução. Dispensa eleição, Congresso, etc. É o que diz o Inácio Costa e é o que se está passando.

A visão daquela insólita queda do pai pareceu-lhe uma desfeita, um insulto; e conquanto ele pudesse prescindir dos proventos do cargo, viu no fato uma humilhação à idade e à respeitabilidade do pai. Tirou uma das botinas e exclamou com raiva:

— É um desaforo!

— Precisa manha, meu amor. O que teu pai deve fazer e os outros também é fingirem grande dedicação a Bentes, fazê-lo prisioneiro, simular admiração pelos seus talentos, e convencê-lo de que é normal a sua ascensão.

Mas, para isso devem exagerar, exagerar tudo, o prestígio que têm.

— Como?

— Com telegramas, retratos nos jornais, artigos, manifestações... Queres saber de uma coisa?

— Que é?

— Desde já vocês devem tratar de organizar uma manifestação a teu pai.

— Como?

— Fala ao Lucrécio, ao Inácio Costa...

— Inácio!

— Sim. Ele quer é por o nome em evidência... Fala a eles... Vamos tratar de outra coisa.

A moça já tinha desfeito a sua "toilette" quase inteiramente e o seu colo nascia por entre as maravilhosas ondas rendadas da camisa. A preocupação não a deixava.

— Deita-te.

— Mas...

— Não pensa mais nisto. O fim do mundo ainda não chegou.

Ela quis afastar a obsessão, a teimosa ansiedade; mas voltava-lhe à idéia o "tombo" na influência paterna, enchia-se um momento de indignação sobretudo contra o tal Salustiano, um seu parente! Tomaria o lugar do pai? Como havia de olhá-lo? Já não quisera ridicularizar o marido?

— Ah! É verdade! Lembrou-se ela.

— Que é, meu bem?

— Já fizeste aquilo?

— Ora! Não te esqueças...

— Não se fala em outra coisa. Ainda agora, no bonde de Santa Teresa...

— Onde foste?

— À casa de Macieira. Por sinal vi o Felicianinho... Está bonito!

— Casa-te com ele.

— Só quando eu tiver setenta anos.

Riram-se brevemente e Benevenuto perguntou:

— Quem encontraste no bonde?

— O Gerpes e o Martinho, que me falaram em Numa... Já fizeste?

— Edgarda, és muito egoísta!... Ainda não me beijaste e...

— Perdoa, meu bem! Tu sabes... É...

E os dois se beijaram longa e fartamente.