Nuvens, que em oposição

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
O mesmo amigo pedio ao poeta em outra occasião lhe glozasse este motte, cuja materia foy haver triunfado o dito Fr. Thomaz de certa opposição capitular.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsA Nossa Sé da Bahia
Mote

Nuvens, que em oposição
o sol querem desluzir,
seus raios sabem sentir

por ser seu cuidado em vão.

 
1No Céu pardo de Francisco
pardo à força de nublados
há vapores humilhados,
e soberbos com seu risco:
o soberbo ao sol arisco
se põe, e o humilhado não,
e o sol menos queima então
as nuvens, que chegar vê
em acatamentos, que
Nuvens, que em oposição.
  
2As nuvens, que se lhe opõem
com tão néscio atrevimento,
o sol de um raio violento
queima, abrasa, e descompõe:
tudo o mais o sol dispõe
pare o manter, e cobrir
criar, e reproduzir,
e com razão não tem fé
co’as nuvens ingratas, que
O sol querem desluzir.
  
3O sol por sua altiveza,
e nativo luzimento
não recebe abatimento
e abatê-lo é louca empresa:
quando se atreve a vileza
do vapor, que o vai seguir
na nuvem, que o quer cobrir,
se a subir não tem desmaios,
ao resistir dos seus raios
Seus raios sabem sentir.
  
4Sentem com tanto pesar,
que têm por melhor partido
não haver ao sol subido
que subir para baixar:
era força escarmentar
na queda de Faetão,
e na Icária perdição,
que estes outros se arruinaram,
quando ao sol subir cuidaram,
Por ser seu cuidado em vão.