O Almada/Canto segundo

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O Almada
por Machado de Assis



I


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II




Em doce paz agora refazendo
Tantas forças há pouco despendidas
Na crua guerra contra o vão Senado
Que, sobre ser desprimoroso e bronco,
Era um grande atrevido, e imaginava
Atar-lhe as bentas mãos, vedar-lhe o passo,
Se da antiga capela à várzea humilde
(Para poupar às reverendas plantas
A subida da íngreme ladeira)
O mártir Sebastião mudar quisesse, [1]
Às sombras se acolheu da casa sua
O regedor da fluminense igreja.
Não de outra sorte o ríspido pampeiro,
Depois que os campos e revoltos mares
Desabrido varreu, as asas frouxas
De novo enrola, o ímpeto refreia
E à morada dos Andes se recolhe.

III



Então a Gula, que jamais lograra
De todo triunfar na infante igreja,
A vil Preguiça revoando busca
E vai achá-la cochilando à porta
De um amável garção, que os bens houvera
E o nome dos avós, à custa ganhos
De muita cutilada e muita lança
Em África metida. Ali com ela
Descem Indigestões e Apoplexias,
Sua querida e diligente prole;
Umas pálidas são, outras vermelhas,
E todas ofegantes e cansadas,
De esvaziar boticas sem descanso
E encher continuamente os cemitérios.
Com a pesada planta a Gula toca
O peito da Preguiça, que estremece,
Abre os olhos a custo, a custo a língua
A mastigar começa alguma frase;
Quando a Irmã, nestas vozes prorrompendo,
A palavra lhe corta: "Será crível
Que do nosso poder sempre mofando
Só a Ira governe há tanto tempo
A fluminense igreja, e que o prelado,
Das nossas armas em desdouro eterno,
Num perpétuo lidar empregue os dias,
Que nem ócios, nem jogos, nem banquetes
A raiva lhe moderem? Mana amiga,
Dentro em breve prostradas ficaremos.
Que o poder usurpando a pouco e pouco
Ela só reinará no mundo inteiro".


IV


Deste jeito falando a voraz Gula,
Os brios da Preguiça abala e acorda,
E a lembrança lhe traz desconsolada
De quantas vezes a terrível Ira
As obras malogrou das artes suas.
"Vamos (lhe diz) a cercear-lhe o gosto
Do triunfo. Propício ensejo é este
Mais que nenhum; esse revolto oceano
Que dous mundos divide, a acender guerras,
A rebelar o coração dos homens
A bárbara transpôs". Isto dizendo,
Toma nos braços a Preguiça e voa,
Com certa frouxidão cortando os ares,
E a Guanabara descem. Entre a ermida
Que ao nazareno artífice votara
A piedade cristã, e esse edifício
Que albergue foi de míseros culpados,
E onde hoje troa o popular Congresso,
A casa do prelado aos olhos surge. [2]
Ali descendo a Gula e a Preguiça
Invisíveis penetram, e nos braços
O fogoso pastor e seus amigos
Sem muito esforço ao coração apertam.

V


Adeus, guerras! Adeus férvidas brigas!
Os banquetes agora e as fofas camas,
Os sonos regalados e compridos,
As merendas, as ceias, os licores
De toda a casta, as frutas, as compotas
Com intervalos de palestra e jogo,
A vida são do jovial prelado.
Ele a queda não vê do grande nome,
Inda há pouco temido; nem as chufas
Lhe dão abalo no abatido peito.
Em vão algum adulador sacristã
Os ditos da cidade lhe levava,
As dentadas anônimas da gente
Maliciosa e vadia; o grande Almada
Às denúncias do amigo vigilante
Os nédios ombros encolhia apenas,
Fleumático sorria, e um bocejo
E cum arroto respondia a tudo.

VI


Com ele os dias docemente passam
Dez ou doze ilustríssimos amigos,
Entre os quais a figura majestosa
Campeava do profundo Vilalobos,
Que era a flor dos doutores da cidade,
Vigário do prelado, e a mais robusta [3]
Das colunas da igreja fluminense.
O pregador Veloso ali brilhava
Pelas risadas com que ouvia as chufas
Do ínclito prelado, de quem era
Convencido capacho, e que esperava [4]
A posição haver de Vilalobos
Que a tribo lhe empregou dos seus parentes.
Esse era o pregador das grandes festas,
De tal quilate e tão profunda vista,
Que quando orava em dias de quaresma
Analisava os textos, e exprimia
A doutrina evangélica de modo
Que a não reconhecera o próprio Cristo.

VII


Segue-se o impávido escrivão Cardoso, [5]
Que mede nove palmos de estatura,
E tem força no pulso como gente,
E inda é mais destemido que forçoso.
O Lucas, com quem foi ingrata e avara,
Ao dar-lhe entendimento, a natureza,
Também ali com eles palestrava.
E, sem nada entender, de tudo ria;
Mas, sendo sempre igual, a madre nossa
Em estômago o cérebro compensa
Ao gordo comilão, que não contente
De devastar as nobres iguarias
Quando na casa do prelado come,
Com os olhos devora, inda faminto,
A tamina dos pretos da cozinha.
Vinha depois o Nunes, o Duarte,
E quatro ou cinco mais; porém faltava
Meia dúzia de padres venerandos,
Em quem poder não teve a Gula nunca,
Nem a mole Preguiça, e que enjoados
Da vida solta que viviam esses,
As sandálias à porta sacudindo,
Da aborrecível casa se alongaram
Levando n'alma a austeridade antiga
E a pureza imortal da santa igreja.

VIII


Os mais deles em frívola conversa,
Os sucessos do dia comentavam.
Ali o alcaide-mor e o seu governo,
Entre contínuas mofas e risadas,
Dos amáveis ferrões picados eram,
E bem assim o temerário Mustre
Que de si mesmo cheio, presumia
Ter o rei na barriga, e na cabeça
Toda a ciência humana concentrada.
Vinha depois algum picante caso
De monacal discórdia, ou de profana
Namoração que o Nunes abelhudo,
Para o baço espraiar do grande Almada, [6]
E fazer jus às boas graças dele,
Pelas ruas colhia, e temperava
De combinadas pausas e trejeitos.

IX


Finalmente falavam da aventura
Do almotacé Fagundes, que, dançando
Na Rua do Alecrim com suma graça,
Tão derretido contemplava as moças
Que de ventas caiu no pó da sala.
Ao vê-lo na ridícula postura,
Desataram a rir as cruéis damas,
Os gemidos cessaram das rebecas
E pôs-se toda a casa em rebuliço;
Até que o triste e pálido gamenho,
O corpo levantando e mais o ramo
De flores que no peito atado havia,
Foi na cama chorar o seu desastre.

X


Iam assim as horas desfiando
Os mandriões sagrados quando a nova
Da vitória das duas gordas culpas
Troa às orelhas da terrível Ira.
Sobre um campo voando de batalha
Ela os olhos pascia; ela no sangue
Satisfeita mirava o duro rosto;
Súbito estaca; as ríspidas melenas
Impetuosa sacode; e sufocando
Um rugido feroz dentro do peito,
Rompe, como um tufão, da terra às nuvens,
Os ares corta e à bela terra desce
Que houve de Santa Cruz a lei e o nome.
Enfim assoma ao áspero penedo
Que a jovem Niterói, como atalaia,
Eternamente guarda. Alguns instantes
Dali contempla os tetos da cidade,
E, outra vez devolvendo impetuosa
As rubras asas, atravessa o golfo,
E firma os pés na desejada praia.

XI


Tudo jazia em paz. Eis que um barbeiro
Que de um vizinho escanhoava o rosto,
De mil alheios casos discursando,
Irrita-se de súbito, e de um golpe
Acaba no freguês a barba e a vida.
Não distante, no célebre Colégio,
Dous enxadristas de primeira plana
Uma grave batalha pelejavam
Assentados na cerca. O Doutor Lopes,
Não sei se com razão, se por descuido,
Come um cavalo ou torre ao Padre Inácio.
Este reclama; aquele encolhe os ombros;
Encaram-se com gesto de desprezo,
Passam do gesto à voz, da voz ao pulso,
Engalfinham-se, rolam pela terra,
Bufam, rasgam-se, mordem-se, desunham-se,
E assim mordidos e rasgados ambos
No chão sem vida longo tempo jazem.

XII


E também ela à fresca sombra posta
Do copado arvoredo, reclinada
Sobre a urna gentil das águas suas,
A Carioca estremeceu. Nas veias
Sente pular-lhe o sangue. Rubras flores
De cajueiro e parasitas que ela,
Para toucar-se, co’os mimosos dedos
Entretecia, desparzidas todas
As lançou na corrente. Qual outrora
Quando por essas praias ressoava
O som da inúbia, palpitar-lhe sente
Mais forte o coração. Súbito irada
Os negros fios ásperos sacode
Que ao longo da trigueira espádua caem,
E veloz arrojando-se nas ondas,
Sublevá-las intenta; encher com elas
Campos e montes... Infeliz! Cansada,
Arquejante e chorosa se recolhe;
Não ficou Natureza de seus braços
Tamanha empresa; e a linfa que murmura,
Como sentida dos maternos males,
Lânguida volve as preguiçosas ondas.

XIII


De tais sucessos desdenhando a Ira
À casa se encaminha do prelado.
Já não arde o furor nos olhos dela;
Pensativos os leva; um meio busca,
Um decisivo golpe com que abale
A adormecida igreja, quando a tunda
Ocorre do tabelião pacato
Freire, amador de moças e aventuras.
Quem as armas brandiu daquele crime?
As mãos dos servos do prelado foram.
Este caso em seu íntimo revolve
A fera culpa; os olhos fita; pensa...
Repentino sorriso os lábios lhe abre;
Arreganho disséreis de faminto
Jaguaruçu; achado é o grande golpe.
As asas bate a Ira e revoando
À casa vai do esmorecido Freire.

Notas[editar]

  1. O sucesso a que aludo ocorreu justamente três meses antes do conflito da devassa. A matriz da cidade estava então na igreja de São Sebastião; Almada tentou desfabricá-la e mudá-la para a ermida de São José, mudando ao mesmo tempo o santo, padroeiro da cidade. Abalou-se por esse motivo o povo; a Câmara, ouvidas as autoridades, dirigiu ao prelado uma carta comunicando a resolução em que estavam ela e o povo de deixar tudo no mesmo estado, até vir de el-rei a resolução que se lhe ia mandar pedir.
    A resposta do prelado é um documento do seu gênio fogoso e impaciente. Depois de repreender duramente a Câmara, marca-lhe três dias para revogar a resolução tomada sob pena de a declarar incursa na excomunhão da Bula Da Ceia, e dá enfim as razões que tinha para o que intentava fazer. A concessão única, segundo se vê da carta, foi conservar na igreja do oratório a imagem do santo.
    Melhor se conhecerá do homem pelo estilo, se todavia é exato o aforismo de Buffon. A carta do prelado terminava assim:
    "Em todo o ano não há quem vá um domingo à matriz e agora lhes chegou este zelo. Lêem-se as cartas de excomunhão às paredes, correm-se banhos, fazem-se as festas da Páscoa e Natal aos negros do vigário, e sobretudo está o Santíssimo na igreja e tem a chave dela um secular, tesoureiro da confraria, que entra nela de dia e de noite, e nisto se não adverte. Tudo o que há na igreja matriz hei de mudar para baixo, e só o altar de São Sebastião com o santo, sua fábrica e confraria, e um signo, hei de deixar na matriz; para ter cuidado da igreja hei de pôr um ermitão.
    A Câmara resistiu; o governador interpôs os seus bons ofícios, e moveu o prelado a suspender a excomunhão até resolução de el-rei.
    Na carta então dirigida pela Câmara a Afonso VI vejo citado um alvará régio ordenando que os prelados, bem como outros ministros, fossem morar no alto da cidade, o que eles não faziam, circunstância que me deu idéia dos dois versos:
     
    Para poupar às reverendas plantas
    A subida da íngreme ladeira.
     
    Além da carta régia, temos a carta do bispo D. Francisco, no princípio do século seguinte (1703), dando conta à rainha da complicada história da mudança da Sé. O bispo diz: "... E alongando-se... a residência dos ministros da Sé, que privados das comodidades necessárias às suas subsistências, procuram a vivenda no centro da povoação, foi mais difícil o serviço da igreja, e conseqüentemente pouco exata a prática dos deveres de cada um dos empregados nos benefícios e cargos anexos da catedral". [N. do A.]
  2. Não será preciso lembrar ao leitor católico que São José era carpinteiro em Nazaré. A casa do prelado (segundo leio em Pizarro, tomo III, pág. 177, nota) ficava entre a ermida de São José e o edifício, que foi cadeia e é hoje Câmara dos Deputados. [N. do A.]
  3. O licenciado Francisco da Silveira Vilalobos era o vigário-geral e exercera inteiramente a prelazia do Rio de Janeiro. [N. do A.]
  4. Capacho não está ainda incluído nos dicionários no sentido que lhe dá o povo para exprimir um homem servil. A locução todavia é pitoresca e merece as honras de cidade. Penso que mais de um escritor a tem empregado neste sentido: nos diários é vulgar. [N. do A.]
  5. O Padre Rafael Cardoso foi quem intimou o ouvidor-geral a entregar a devassa.
    Cardoso e Vilalobos são figuras que a história me ofereceu; os demais companheiros de Almada são personagens de imaginação; a uns e outros dei as feições e o caráter convenientes à ação e ao gênero do poema. [N. do A.]
  6. Espraiar o baço é tradução de épanouir la rate, não minha, mas de Filinto Elísio, que assim se exprime numa nota. [N. do A.]