O Bobo/III

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O Bobo por Alexandre Herculano
Capítulo III: O Sarau


Oaspecto do burgo de Guimarães indicaria tudo menos um desses raros períodos de paz e repouso; de festas e pompas civis e religiosas, que, semelhantes aos raios do Sol por entre nuvens húmidas de noroeste, alegravam a Terra, sorrindo a espaços no meio das tempestades políticas que varriam, naquela época, o solo ensanguentado da Península. Como se houvera alargado um braço até então pendente, o castelo roqueiro tinha estendido do ângulo esquerdo da torre do miradouro uma comprida couraça de vigas e entulho que vinha morrer em um cubelo na orla exterior do burgo. Depois, da extremidade daquela muralha inclinada, do outeiro para a planura, corria a um e outro lado do baluarte uma tranqueira de pouca altura, donde facilmente besteiros e frecheiros poderiam despejar a salvo seu armazém em quaisquer inimigos que cometessem a povoação. O cubelo era como o punho cerrado do disforme braço que saía da torre alvarrã, e a tranqueira como uma faixa com a qual o gigante de pedra parecia tentar unir a si o burgo apinhado lá em baixo em volta do edifício monástico, que já contava dois séculos, o Mosteiro de D. Muma. O próprio edifício, posto que avelhentado e fraco, também parecia animado de espírito guerreiro; porque as ameias que coroavam o terrado do campanário, pouco antes cobertas de ervas e musgo, estavam agora limpas e gateadas de novo, ao passo que por entre elas se divisava uma grossa manganela assentada no meio do eirado em disposição de arrojar pedras para a campanha, que se dilatava diante do formidável engenho.

Todavia estas evidentes cautelas e precauções militares desdiziam bastante do que então se passava no castelo. Era pela volta das dez horas de uma noite calmosa de Junho. A lua cheia batia de chapa nas muralhas esbranquiçadas, e as sombras das torres maciças listravam de alto a baixo as paredes dos paços interiores de faixas negras sobre a pálida silharia de mármore, tornando-a semelhante ao dorso da zebra selvática. Contrastavam, porém, a melancolia e silêncio deste espectáculo nocturno as torrentes de luz avermelhada jorrando por entre os mainéis que sustinham ao meio das altas e esguias janelas as bandeiras e laçarias de pedra. Estes mainéis e bandeiras, formando flores e arabescos, recortavam de mil modos aqueles vãos afogueados e brilhantes, rotos através das listas alvacentas e negras, de que a lua arraiava a fronte do soberbo edifício. Na penumbra do extenso pátio que corria entre as muralhas e a frontaria do paço, branquejavam os saios dos cavalariços, que tinham de rédea as mulas de corpo dos senhores e ricos-homens; cintilavam os freios de ferro polido e as selas à mourisca, tauxiadas de ouro e prata; ouvia-se o patear dos animais e o sussurro dos servos conversando e rindo em tom sumido.

Mas era lá em cima, nas salas esplêndidas, que se viam passar rápidos como sombras os vultos de damas e cavaleiros arrebatados no turbilhão das danças; lá soavam as melodias das cítolas, das harpas, das doçainas, por entre as quais rompiam os sons vívidos das charamelas, o estrépito das trombetas, o rebombo dos tímpanos; e quando aquelas toadas afrouxavam e morriam em sussurrar confuso, retinia uma voz áspera e aguda no meio daquele ruído de festa. Então fazia-se um profundo silêncio, que não tardava a ser partido por gritos e risadas estrondosas, que restrugiam pelas abóbadas, cruzavam-se e confundiam-se repercutidas em burburinho infernal. Via-se claramente que a embriaguez da alegria havia chegado ao auge do delírio, e que daí avante não podia senão decrescer. O tédio e o cansaço não tardariam a separar aquela companhia lustrosa, que parecia esquecer nos braços do deleite que tudo ao redor dela, no castelo e no burgo, anunciava as tristezas da guerra e os riscos dos combates.

De feito, já nos reais aposentos da bela infanta de Portugal muitos dos ricos-homens e infanções, apinhados aos cinco e seis, aqui e acolá, ou encostados aos balcões da sala de armas, começavam a falar com viva agitação dos sucessos do tempo. As donzelas iam assentar-se nas almadraquexas enfileiradas junto da parede no topo da sala, onde se erguia, cousa de um pé acima do pavimento, o vasto estrado da infanta. Esta, na sua cadeira de espaldas, escutava Fernando Peres, que, firmando a mão no braço da cadeira, e curvado para ela por detrás do espaldar, com aspecto carregado, parecia dirigir-lhe de quando em quando palavras breves e veementes, a que D. Teresa, que não saíra do seu lugar desde o começar do sarau, respondia muitas vezes com monossílabos, ou com um volver de olhos em que se pintava a angústia, desmentindo o sorriso forçado que, frouxo e passageiro, lhe adejava nos lábios.

Junto ao topo do estrado, do lado esquerdo da infanta, um jovem cavaleiro em pé falava também em voz baixa com uma formosa donzela, que, reclinada na última almadraquexa, respondia entre risadas aos ditos do seu interlocutor. E todavia no gesto do cavaleiro, na vivacidade das suas expressões, no seu olhar ardente se revelava que as respostas alegres da donzela desdiziam das palavras apaixonadas do mancebo, cujo aspecto se entristecia visivelmente com aquela alegria intempestiva e cruel.

Ao pé de uma das colunas de pedra, que subindo ao tecto se dividiam como os ramos de uma palmeira em artesões de castanho, os quais morrendo nos vértices das ogivas em bocetes dourados pareciam sustentar a renque de lampadários gigantes pendentes da escura profundeza daquelas voltas; ao pé de uma destas colunas, no lado oposto da sala, três personagens falavam também havia largo tempo, sem fazerem caso do tanger dos menestréis, do doudejar das danças, do sussurrar confuso que redemoinhava em volta deles. Era a sua conversação de género diverso das duas que já descrevemos. Aqui os três indivíduos pareciam tomar todos vivo interesse no objecto de que se ocupavam, ainda que de modo diferente. Um deles, alto, magro, trigueiro e calvo, porém não de velhice, porque era homem de quarenta anos, trajava um saio negro, comprido, e apertado pela cintura com uma larga faixa da mesma cor, vestuário próprio do clero daquele tempo; o outro, ancião venerável, tinha vestida uma cogula monastical, igualmente negra, segundo a usança dos monges bentos; o terceiro finalmente, o mais moço dos três, era um cavaleiro que mostrava ter pouco mais de trinta anos, membrudo, alvo, cabelos anelados e louros - um verdadeiro nobre da raça germânica dos Visigodos. O clérigo calvo, com os olhos quase sempre fitos no chão, só os punha de relance naquele dos dois que falava; mas este olhar incerto e sorrateiro bastava para descobrir nele uma indiferença hipócrita e uma curiosidade real. No rosto do velho pintava-se profunda atenção, principalmente às palavras do mancebo, as quais, enérgicas, veementes e rápidas, davam testemunho das vivas comoções que agitavam a sua alma.

Dos três grupos em que no meio de tantos outros fizemos principalmente reparar o leitor, já ele conhece as personagens do primeiro - a viúva do conde Henrique e Fernando Peres de Trava. Para clareza desta importante história necessário é que lhe digamos quem eram os que compunham os outros dois, e lhe expliquemos os porquês da situação respectiva de cada um desses indivíduos.

Entre as donzelas da infanta-rainha uma havia em que ela, mais que em nenhuma outra, tinha posto as suas afeições e complacências; e com razão: criara-a de pequenina. Dulce era filha de D. Gomes Nunes de Bravais, rico-homem que morrera na rota de Vatalandi combatendo como esforçado a par do conde borgonhês. Expirando, o nobre cavaleiro encomendou sua filha órfã à protecção do conde. Este não se esqueceu da súplica do guerreiro moribundo; trouxe a órfã para seus paços, e entregou-a a sua mulher. Nos tenros anos, Dulce prometia ser formosa, e, o que não era de menos valor, de um carácter nobre e enérgico e ao mesmo tempo meigo e bondoso. Pouco a pouco D. Teresa lhe ganhou amor de mãe. Até aos vinte anos, que já Dulce contava, este amor não afrouxara, nem no meio dos graves cuidados que cercaram a infanta nos primeiros anos da sua viuvez, nem com a louca afeição do conde Fernando Peres. As esperanças que a donzela dera se haviam inteiramente realizado. Dulce era um anjo de bondade e de formosura.

Mas este anjo inocente, rodeado dos carinhos das mais nobres damas, das adorações dos mais ilustres cavaleiros da corte, parecia ter encerrado inteiramente o coração ao amor. Verdade é que entre os mancebos sempre atentos a indagar as inclinações das donzelas, tinham existido suspeitas de que esta indiferença e frieza era mais simulada que verdadeira. Eles haviam observado que os olhos de Dulce costumavam fitar-se com desusada complacência num donzel, que bem como ela fora criado na corte. Era este Egas Moniz Coelho, primo do ancião Egas Moniz, senhor de Cresconhe e Resende e aio do moço infante Afonso Henriques. Pouco diferentes em idades, semelhantes em génio e carácter e educados juntos, desde tenros anos, pelo respeitável senhor da honra de Cresconhe, os dois mancebos haviam contraído amizade íntima. Na mesma noite e na Sé de Zamora tinham velado as armas. Como prova da sua independência política, D. Afonso tomara do altar a armadura e a si próprio se fizera cavaleiro. Das mãos dele recebeu depois o mesmo grau, alvo da ambição de todos os mancebos nobres, o seu amigo de infância; e o infante e Egas, até aí irmãos pela afeição mútua, ficaram ainda mais unidos pela fraternidade das armas.

As suspeitas dos moços cavaleiros tinham nascido pouco depois da vinda de D. Afonso e de Egas para a corte de Guimarães. Mas semelhantes suspeitas breve se desvaneceram. Inesperadamente Egas Moniz partiu para as guerras de ultramar, ou, como hoje se diz, para a cruzada. Ninguém atinou com o motivo desta súbita resolução. Todavia, se os amores com Dulce existiam realmente, era essa paixão que o afastava dela. Nascido com espírito ardente, trovador e guerreiro, Egas precisava de obter glória, porque as almas poéticas daquele tempo não compreendiam o amor sem renome, nem talvez sem este o encontrariam no seio de nobre donzela, digna de sua afeição. A Terra Santa era naquela época o campo mais fértil para os ceifadores de glória: as reputações adquiridas na Palestina retumbavam por todo o orbe cristão. Era o amor que arrastava Egas para essa vida de riscos, privações e combates? Quem poderia dizê-lo? Ninguém sequer o pensou.

O que é certo é que depois da sua partida, Dulce pareceu mais triste que de costume. Porém, se eram saudades, ou essa alma enérgica soube esconder seu martírio e devorar no silêncio e na solidão da alta noite as suas lágrimas, ou as saudades se extinguiram no meio da vida risonha e distraída da corte. O moço trovador tinha esquecido a todos: pode ser que também a ela.

Entretanto uma nuvem de cavaleiros a cercaram de adorações. Debalde! Só um esperava acender alguma faísca de amor neste coração gelado. Era Garcia Bermudes, cavaleiro aragonês, valido do conde de Trava, e uma das melhores lanças de Espanha, que com ele viera a Portugal. Dotado de generoso ânimo, mas sobradamente altivo, e confiado no próprio mérito, Garcia Bermudes amava a donzela querida de D. Teresa, e esperava ser correspondido; porém, no coração de Dulce achara um afecto que lá não quisera encontrar: amor sim; mas amor de irmã. Era ele quem no meio das festas obtinha todas as preferências da filha adoptiva da infanta: a sua conversação a que mais lhe aprazia. Contudo, quando no meio do ruído e alegria dos saraus, ou cavalgando no ginete possante e correndo ao lado do palafrém de Dulce pelas florestas e sarçais, nas montarias e caçadas, ele buscava ensejo para proferir essas palavras veementes que escutadas sem cólera coroam esperanças de muitos dias, e repelidas entenebrecem o futuro e devoram uma existência, Dulce esquivava sempre com um gracejo esse instante decisivo, e o aragonês, apartando-se dela, amaldiçoava a hora em que a amara, para daí a pouco imaginar novo ensejo em que pudesse resolver por uma vez o seu incerto destino.

Dulce era a donzela, assentada na extrema almadraquexa do estrado; Garcia Bermudes, o cavaleiro com quem ela falava e ria; e o que entre os dois se passava, uma repetição dessas cenas em que tantas vezes a destreza da mulher que não ama sabe triunfar cruelmente da mais terrível entre as mais terríveis paixões, o amor do homem, recalcado no coração pela indiferença daquela a quem no abismo do seu orgulho disse: "tu serás minha!".

Dos três personagens que, em pé no outro extremo do vasto aposento, pareciam alheios a tudo quanto passava em volta deles, embebidos em disputa violenta, um era o célebre Gonçalo Mendes da Maia, ao qual, em verdes anos, estremadas gentilezas de armas tinham feito dar o apelido de Lidador, de que por toda a sua larga vida ele se havia de mostrar constantemente digno. Era o outro o capelão de D. Teresa o muito honrado Martim Eicha, filho do mui excelente váli de Lamego, Eicha, que submetido pelo conde Henrique abraçara o cristianismo. Martim Eicha seguira o exemplo paterno, e, como em todas as opiniões deste mundo os renegados são os mais fervorosos na sua nova crença, achara ele em consciência que para se mundificar das torpezas do islamismo devia abraçar a pura vida do sacerdócio. Cónego da Sé de Lamego, restaurada por Fernando Magno, e que nesta época se achava unida à de Coimbra, o bom do tornadiço não pudera na santidade do seu ministério riscar do espírito a lembrança profaníssima de que nascera filho de um váli. Voavam-lhe os pensamentos altivos para os paços reais, como à gata da fábula fugiam as unhas para o murganho depois de transformada em mulher.

Finalmente os seus desejos cumpriram-se. A bela infanta de Portugal chamou-o à corte, apenas dela saiu desgostoso o arcebispo de Braga, cujo carácter austero mal sofria os amores de Fernando Peres e de D. Teresa. Martim Eicha era o homem talhado para o caso. O seu evangelho fora, por assim dizer, escrito num palimpsesto do Corão, e as doutrinas do Profeta, relativas à metade mais formosa do género humano, reverdeciam-lhe às vezes através da severidade das sacras páginas e confundiam-se a seus olhos com elas. Por esta causa, vinha o cónego Martim Eicha a ser o capelão mais a ponto naquelas intrincadas circunstâncias, em que os princípios de teologia moral andavam em tanta harmonia com os costumes, como neste bendito século décimo nono as sãs doutrinas políticas andam conformes com a realidade dos factos.

Era, finalmente, a terceira pessoa daquela trindade argumentadora e disputante, o abade do Mosteiro de D. Mumadona, velho folgazão mas honesto, que na mesa dos banquetes despejava uma taça de vinho, e ainda um canjirão de cerveja, ou varria uma palangana de dobrada, iguaria mimosa desse tempo, com o mesmo fervor e devoto recolhimento com que na solidão da sua cela rezava as horas canónicas, ou garganteava no coro salmos e antífonas com os seus frades. Apesar dos benefícios que o ascetério de Guimarães recebera da infanta; apesar do gasalhado que encontrava no paço, o bom do velho torcia sem rebuço o nariz à tão íntima privança do conde Fernando Peres com a rainha. Não porque desse ouvidos aos maldizentes, que ainda nas mais puras acções vertem a peçonha de seus estômagos danados, mas porque não podia negar crédito ao que seus olhos viam, e a experiência e razão lhe ensinavam. Enxergava ao longe o crescer da tempestade que ameaçava assolar a terra de Portugal: vira nascer, engrossar e rebentar como um vulcão o ódio entranhável, acumulado por anos, entre o senhor de Trava e o moço Afonso Henriques; vira dividir-se a fidalguia em dois bandos; e quando o infante, dois meses antes da época da nossa história, desaparecera dos paços de Guimarães, seguido de vários ricos-homens e cavaleiros da sua parcialidade, o bom do abade conhecera que uma terribilíssima luta se ia travar entre a mãe e o filho, luta desnatural e monstruosa, cujo desfecho, fosse qual fosse, não podia deixar de gerar muitos crimes. A precipitação com que se fortificara o burgo, e as notícias vagas de que o infante se aproximava de Guimarães com uma hoste numerosa, e acompanhado do arcebispo de Braga e dos seus homens de armas, lhe punham ante os olhos, como iminentes e inevitáveis, as cenas tremendas que de longo tempo previra. O estado dos negócios públicos era o objecto da acesa prática dos três; ou, por nos servirmos de uma francesia da moda, eles faziam política.

Era também o perigo que os ameaçava a ambos; era a nuvem procelosa que viam já no horizonte da sua vida, até aí tão povoada de deleites, tão rica de esplendor e de predomínio, o pensamento que turbava a fronte do nobre Fernando Peres, e fazia gotejar pelas faces da bela infanta as lágrimas, que em vão ela tentava conter. Com olhos enxutos e ânimo de ferro, a filha de Afonso VI tinha vivido, durante dezasseis anos, quase sempre nos campos de batalha, nos arraiais junto aos castelos cercados, ou encerrada nestes defendendo-os. Com olhos enxutos e ânimo de ferro, tinha visto várias vezes as rotas dos seus homens de armas, e tinha fugido com eles; assistira a muitas cenas de carnificina; ouvira muitas vezes pela alta noite, na tenda de guerra, gemidos de moribundos, e o uivo do lobo descendo das brenhas guiado pelo cheiro do sangue; havia apenas um ano que se vira constrangida a curvar a cerviz à fortuna de seu sobrinho, o imperador Afonso Raimundes; mas nunca sentira coar-lhe pelas veias o terror ou o desalento: a sua alma era a de guerreiro, escondida debaixo das formas delicadas e suaves de mulher. Criam-no todos: cria-o ela. Mas o prestígio pas-sou. A dura prova a que a pusera uma paixão desgraçada revelava enfim a fraqueza feminil. Até então no jogo dos combates apenas arriscara o vasto senhorio de Portugal; mas no que se lhe oferecia agora expunha o amante, expunha todo o futuro, toda a esperança e todos os contentamentos. Por isso as lágrimas da bela infanta corriam. Quem sabe se também entre estas alguma era por seu filho?

O sarau daquela noite fora para ela um longo martírio. O espectáculo do rir e folgar, o transluzir da alegria em tantos gestos faziam-lhe mais carregada a negra nuvem da sua tristeza: era um tracto doloroso, cruel, dilatado; era como o prelúdio medonho de um cântico infernal; mas cumpria sofrê-lo resignadamente. Dos cavaleiros portugueses, que seguiam ainda a corte, muitos ânimos titubeavam indecisos entre o balção do infante e o pendão da rainha de Portugal; e a hesitação ou o temor seria o sinal para essa fidalguia brilhante passar ao campo contrário. Fernando Peres contava com os cavaleiros galegos, asturianos e aragoneses, de que pouco a pouco se rodeara: mas seria isto bastante para o salvar e salvar a infanta? Eis o que era mais que duvidoso. Com a astúcia de fingido desafogo e destemor ele tentava enganar os que vacilavam, e fazer-lhes crer, dançando na borda do abismo, que fácil lhe seria galgá-lo.

Mas o senhor de Trava não se lembrava nos seus cálculos políticos de uma circunstância que devia influir no resultado final deles. O grande pensamento do conde Henrique; o pensamento que o audaz borgonhês acariciara por tantos anos, e a que votara a existência - a independência do condado de Portugal -, não morrera com ele: germinou, alimentou-se, e cresceu nas guerras com os Leoneses, guerras até certo ponto civis, em que D. Teresa prosseguira com tenacidade implacável. As mais províncias da Espanha gradualmente foram parecendo aos olhos dos cavaleiros portugueses uma terra estrangeira, estranhos os filhos delas. Um sentimento de nacionalidade surgiu nos corações, vago e confuso, mas enérgico. E no meio dos seus graves cuidados e das suas previsões profundas, o conde de Trava não se esquecera de que vira pela primeira vez o sol sob o céu da Galiza.

Se D. Teresa triunfasse, ele - o estrangeiro - seria o senhor da nobre e livre terra de Portugal. D. Afonso Henriques, porém, nascera aquém do Minho. Assim, muitos daqueles que o ambicioso filho de Pedro Froilaz supunha indecisos na véspera da grande luta eram já seus inimigos.

É o que o leitor melhor avaliará por si próprio se quiser escutar a conversação travada entre Gonçalo Mendes da Maia, o santo abade do Mosteiro de D. Mumadona e o mui reverendo capelão da rainha. Não será grande o incómodo: basta-lhe lançar os olhos para o capítulo seguinte.