O Bobo/IV

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O Bobo por Alexandre Herculano
Capítulo IV: Receios e esperanças


Dom Bibas não era bobo; era o diabo.

Logo veremos porquê.

Convidámos o leitor para escutar a conversação travada entre Gonçalo Mendes, o abade beneditino e o mui reverendo cónego de Lamego, Martim Eicha. Pode ouvi-los agora. Embebidos no seu grave disputar, todos três se esqueceram completamente do lugar onde estavam, e do sarau, que depois do doudejar vívido e alegre ao redor deles esmorecia já e esfriava em paroxismo final. A noite correra sem que de tal dessem tino. Sobre o tumultuar dos passos, sobre o ruído do falar confuso, sobre as toadas dos instrumentos que afrouxam, ouve-se primeiro o vozear retumbante do Lidador; depois as palavras flautadas, escandidas, melifluamente hipócritas do capelão da infanta; e por último as falas brandas, tardas e suaves do beneditino. Esta gradação corresponde ao progresso de silêncio que principia a predominar na sala: é a medida do tédio que leva de vencida o deleite naquele ajuntamento lustroso.

— ... Eis aí - dizia o Lidador voltando-se para Martim Eicha - o que eu havia previsto; eis aí o resultado final do desenfreado orgulho do senhor de Trava, e dessa desgraçada afeição da rainha. Depois do folgar pacífico em jogos de tavolado e saraus oferecem-nos uma festa de sangue.

— Mas quem sabe se essas novas são verdadeiras? - interrompeu o abade, que parecia olhar duvidoso para o honrado cónego de Lamego.

— Sei-o eu! - replicou este com gesto de sobrecenho e de autoridade. - Ouvi-as do escudeiro que as trouxe - acrescentou com sorriso de mistério - disse-mo quem tão bem como ele o sabia, e acerca disso me perguntava: "Pois que faremos, D. Eicha?" É lástima: é na verdade lástima! Não me sofre o ânimo ver assim um moço ambicioso e louco desacatar com armas rebeldes sua mãe, sua senhora. Largo campo à cobiça de honra e domínios, se pretende ganhar nome e poder, se lhe abre em terras de infiéis. Se tem sede de sangue, derrame o sangue dos malditos ismaelitas, moabitas e agarenos. Os campos do Sul aí estão patentes à ambição dos ousados. Que vão devastar as searas dos Mouros, derribar as suas povoações e castelos, incendiar-lhes as mesquitas, onde diariamente se repetem as blasfémias, torpezas e imundícies do abominável Alcorão. Deus há-de puni-lo: o castigo é infalível, mas para isso a espada cristã encontrar-se-á no ar com a espada cristã, e a lança romperá a cervilheira assinalada com a cruz de Jesus Cristo.

O honrado cónego invectivava assim, todas as vezes que lhe caía a talho, contra os sectários de Mafamede, porque os conhecia de perto.

— Mas - acudiu o abade - se o infante traz esse número de cavaleiros e besteiros; se o mui poderoso arcebispo de Braga o favorece tão claramente; se os burgueses da Sé do Porto e os de Coimbra começam a agitar-se, como deixará a rainha de vir a concórdia com seu filho?

— É impossível - interrompeu Martim Eicha. - Ele pretende que o ilustre conde de Trava lhe entregue as honras e préstamos que tem da munificência real, e que saia destes paços. Não contente com isso, pretende também que sua mãe lhe ceda o supremo poder: invoca o exemplo de Afonso Raimundes e o direito de suceder a seu pai, sem se lembrar que jamais Henrique de Borgonha cingiria a coroa de conde se não houvera sido o esposo de uma filha de Afonso o Grande. Que herdou de feito o infante de seu pai? Um nome glorioso; mais nada. Portugal não é herança dos duques de Borgonha, mas dos filhos dos reis da Espanha, e D. Teresa é filha do último deles.

O Lidador sentiu subir-lhe às faces o rubor da cólera ao ouvir estas palavras.

— É falso - exclamou ele - que a alguém devesse o conde de Portugal os senhorios que deixou a Afonso Henriques: a Afonso Henriques, di-lo-ei sem receio! Se o rei leonês lhe disse: "Vai e hasteia o teu pendão de conde nas fronteiras do Ocidente", era que aos seus ouvidos tinham chegado os gemidos dos cavaleiros do conde Raimundo de Galiza, passados à espada pelos Sarracenos junto de Lisboa. Nunca depois disso, acaudelados por ele, voltaram costas aos infiéis os guerreiros da Cruz. Portugal era até aí um país devastado: era quase um deserto, por onde corriam à rédea solta os almogaures mouriscos; hoje os campos estão cultivados, os castelos seguros, os burgos e cidades renascem das suas ruínas. Respeitai as cinzas do nobre conde: respeitai-as ao menos diante de mim, que dele recebi as armas de cavaleiro, e que ainda combati entre os seus homens de armas. Não sei se vos lembrais disso?!

O Lidador talvez aludia à conquista de Lamego. Era acaso uma injúria que ele dirigia ao filho do váli e não uma pergunta. O certo é que Martim Eicha fitou os olhos no tecto, e depois volveu-os lentamente para o chão, como quem oferecia a Deus a afronta e se resignava nela. Gonçalo Mendes prosseguiu:

— Chamais ao infante rebelde contra sua mãe. Não, vos digo eu!, mil vezes não! Por largo tempo o mancebo generoso viveu nestes paços esquecido, desprezado, como um ínfimo homem de armas. O seu nome escrito nas cartas e doações, acima do nome do conde de Trava, era unicamente o que ainda recordava de quem ele era filho. Escárnio cruel na verdade; porque esse que aí se chamava infante de Portugal era obrigado a curvar a cabeça diante do senhor estranho. É a esse que ele vem arrancar o poder, porque o poder está em suas mãos. Credes que aprovo o feito? Não, por certo. Ante os barões e ricos-homens, na cúria, devera requerer seu direito. Mas perdeu-o acaso porque, esgotado o sofrimento com o excesso da opressão, respondeu à violência com o brado de guerra? Os senhores e infanções portugueses não o crêem. Se o cressem não o teriam escutado: não o seguiriam aqueles que ora o seguem.

O bom do capelão não se deu por vencido e com inflexível tenacidade replicou:

— A rainha D. Teresa domina em Portugal; o conde de Trava é um conde, um rico-homem, um alcaide; mais nada. Os barões portugueses juraram-lhe lealdade a ela, e é contra ela que se rebelam. Dizei-me vós, senhor cavaleiro, de quem tendes vossas honras, coutos e préstamos? De quem, como vós, os têm eles?

— A rainha é a viúva do conde Henrique. Não queirais obrigar-me a dizer-vos o que acerca dela tumultua nesta alma. Basta que responda à vossa pergunta. As honras que possuo herdei-as de meus avós; os préstamos ganhei-os à lança e à espada: foi preço de sangue o que dei por eles. Preito e lealdade? Ricos-homens de Portugal guardam-no a quem lhes guarda seus foros. Têm estes sido guardados? Sabemo-lo nós: sabe-o Deus. Ele será o nosso juiz.

— O juízo de Deus - tornou Martim Eicha com mal disfarçada raiva - profere-se em repto e combate, segundo foro dos bem-nascidos de Espanha. Porque não ides com os acostados que pelejam debaixo do vosso pendão, e vivem da vossa caldeira, ajuntar-vos com o infante? Afirmo-vos que entre ele e a filha de Afonso de Leão há repto e haverá combate. Tereis aí o juízo de Deus.

— Porque eu - atalhou o Lidador cravando nele os olhos indignados -, homem afeito à vida de batalhas, trabalharei até ao fim, para que irmãos não derramem sangue de irmãos em luta de mãe e de filho; porque eu, o homem que, ao abrir os olhos no mundo, a primeira luz que vi foi o reflexo brilhante de armas polidas, e que espero, ao cerrá-los para sempre, vê-las reluzir no volver derradeiro deles, tomei a meu cargo o vosso mister, o mister dos clérigos letrados da corte, dos homens de paz, dos prudentes, que saudais dia em que lanças cristãs topem em escudos de cristãos; que sorrides à imagem desse dia em que esperais ver satisfeitos ódios e vinganças mesquinhas. Tentarei frustrar o atroz pensamento dos maus, e se o meu tentar sair vão, ao menos a consciência há-de ficar-me tranquila.

O capelão, que sabia qual era o carácter violento de Gonçalo Mendes da Maia, julgou acertado não lhe responder: o abade, porém, que se havia conservado em silêncio durante a disputa, tomou nesse ponto a mão.

— Quanto a mim - disse ele -, não me perdoe o Senhor na hora extrema do passamento, se mentem minhas palavras. Sempre e em toda a parte clamei pela paz, e ainda hoje clamo por ela. Também eu como vós quisera que o infante na cúria dos barões requeresse direito; mas como vós também quisera que não lho negasse a rainha, posto que o demande armado. A tal façanha o incitou o orgulho do conde de Trava, e o generoso e nobre sangue que corre nas veias do nobre mancebo. Com a mão sobre o coração vos juro que me horroriza esta guerra desnatural. Mas como evitá-la? Como ousareis vós tentá-lo; vós, talvez o único rico-homem da corte de Guimarães que ousa ser francamente inimigo do conde de Trava?

— Tentá-lo-ei - replicou o Lidador - como leal cavaleiro. Antes que as novas da vinda de D. Afonso, para acometer sua mãe e seu mortal inimigo, houvessem corrido de boca em boca; antes que os mais íntimos conselheiros do nobre Fernando Peres - dizendo isto Gonçalo Mendes olhava para Martim Eicha - nos pudessem asseverar que o sangue se havia de verter, já eu o sabia: sabia-o porque esses valos alevantados à pressa em volta do burgo; essa couraça que os prende ao castelo; os engenhos postos a ponto nos eirados e torres, me diziam sobejamente que nos ameaçava guerra. Guerra de Sarracenos? Não vêm tão longe as suas arrancadas. Guerra do imperador? Não quebrámos até hoje nosso preito com ele. A causa do temor existia, pois, em Portugal. O infante não há três meses que saiu daqui, e já muitos castelos o receberam por senhor. Vi, soube e calei. Mas a cúria dos barões e ricos-homens da corte está convocada para se ajuntar amanhã. Lá, no meio dos que servem e temem, eu, que não temo nem sirvo, falarei bem alto. Mostrarei à rainha que se perde; que D. Afonso tem por si filhos de algo, bispos, burgueses e vilões de beetrias. Direi ao conde: "Nobre conde de Galiza, é necessário ceder ao infante de Portugal." Então, se não for escutado...

— Então?... - interrompeu Martim Eicha.

— Então aceitarei vossos conselhos. No campo do infante ainda cabem dez tendas para mais cem homens de armas, besteiros e fundibulários; ainda lá se pode soltar mais um pendão ao vento assolador das batalhas.

O abade ia de novo falar, pensando talvez como abrandaria a cólera que se acumulava no gesto carregado do Lidador. Mas uma risada que restrugiu por cima das cabeças dos três lhas fez involuntariamente erguer. A fronte de Gonçalo Mendes desenrugou-se repentinamente. Quase ao mesmo tempo ele e o abade soltaram uma gargalhada. Só Martim Eicha não ria.

Tinha razão sobeja.

No calor da disputa, nenhum dos três reparara em Dom Bibas, que se acercara da coluna junto da qual conversavam. O bobo aplicara por algum tempo o ouvido às palavras violentas do Lidador; mas o burburinho dos passos e do falar contínuo, dos sons retumbantes dos instrumentos naquela imensidão da sala o não deixavam perceber senão algumas vozes soltas que muito lhe excitavam a curiosidade. Rodeando o feixe de colunelos, que, segundo o gosto árabe, unidos só pela base e pelo cimo formavam a coluna ou pilastra em que vinham repousar os artesões do tecto, trepara manso e manso firmando-se nos lavores da pedra, e se assentara sobre as grandes folhas de lódão entressachadas de figuras extravagantes de centauros, harpias, demónios e górgonas, em que o arquitecto mostrara ceder às influências da arte normanda, que começava a expulsar a arquitectura sarracena dos edifícios de Espanha. Visto naquela altura, assentado no capitel, com os braços lançados sobre os pescoços de duas figuras horrendas, em que se assegurava, Dom Bibas pareceria também uma criação desvairada da mente do escultor, se, fitando os olhos brilhantes no reverendo cónego e fazendo-lhe uma visagem truanesca, não começasse a cantarolar com um acompanhamento de risadas estrondosas:

Quem me dera o meu infante
Nestes seus paços reais
Doravante! Tr a-lirá,
Ah, ah, ah! Ovençais
Do galego
Só i vejo a cada instante!
Arrenego, Dom Garcia
Desses teus aragoneses,
E também dos portugueses
Que te fazem companhia!
Capelão, Canzarrão,
Ao, ão, ão! Tr a -lir á,
Ah, ah, ah!
Vou fazer de um mouro ao filho
Um famoso arremedilho,
Mui de ver,
Em que a ti te hei-de meter,
Meu rapado, Descarado,
A comer
Um presunto
Com seu unto,
Apesar de São Mafoma,
E do velho lá de Roma
Que te toma
Por um santo,
O que és tanto
Quanto o demo que te leve
Como deve!
Tra lirá,
Ah, ah, ah!

Dom Bibas fez uma segunda visagem ao reverendo Martim Eicha, rodeou o capitel, e desceu rapidamente por entre os colunelos. Daí a pouco a sua voz esganiçada ouvia-se no outro extremo da sala de armas.

O inesperado da jogralidade do bufão tinha feito desatar a rir o Lidador e o abade. Não assim o honrado cónego de Lamego, a quem as alusões insolentes espalhadas naquela trova satírica haviam mortificado ao vivo. A cólera fugira da alma do cavaleiro; mas fora reconcentrar-se na do sacerdote. Nunca Dom Bibas ousara tanto: o fogo da revolta lavrava já no espírito de um vil bobo! O bom do capelão agarrou-se a este pensamento para cerrar os ouvidos à voz da consciência que lhe dizia terem batido no alvo os motejos cruéis do chocarreiro. Assim, com meneios entre hipócritas e altivos, afastou-se dos dois sem os saudar, e desapareceu no meio da turba dos cavaleiros, jurando pela pele a Dom Bibas, e prometendo relatar ao conde de Trava, nessa mesma noite se pudesse, todas as circunstâncias daquela conversação.

A hora, porém, a que o sarau devia acabar soou. A bela infanta estremeceu ao ouvi-la bater na campa da torre albarrã. Sentiu alargar-se a mão de ferro que lhe apertava o coração; a íntima agonia, que a política do conde lhe obrigava a velar sob o aspecto mentido do contentamento, poderia afinal dilatar-se na soledade em torrentes de lágrimas. Encostada ao braço de Fernando Peres, e seguida das suas donzelas, D. Teresa atravessou os aposentos imediatos e recolheu-se à sua câmara. Os ricos-homens e filhos de algo começaram a sair, e pouco a pouco a sala ficou deserta. Apenas um cavaleiro com os braços cruzados e encostado a uma das colunas imediatas ao estrado das donzelas, imóvel, e com os olhos cravados na colgadura da porta por onde D. Teresa saíra, parecia entregue a profunda meditação. Uma voz veio tirá-lo daquele torpor: era a de Dom Bibas, que, repotreado na cadeira da rainha, olhava para ele fito, e lhe salmeava em tom soturno, pela solfa do canto gregoriano, bastas injúrias:

 
Fora, parvo aragonês.
Dom bulrão.
Tlão, tlão, tlão!
Vai tratar de teus amores
No Aragão.
Tlão, tlão, tlão!
As donzelas portuguesas
Lindas são.
Tlão, tlão, tlão!
E por isso haver quer uma
Dom bulrão.
Tlão, tlão, tlão! ADulce é bela donzela;
Mas flor d'aleli Não é para ti. Kirieleison.
Kirieleison.
Requiem ceternam dona eis
Et lux luceat eis.

O cavaleiro pôs-se a ouvi-lo sorrindo; mas aqueles derradeiros fragmentos das preces pelos extintos, entoados lugubremente e reboando no aposento sonoro, assemelhavam-se-lhe aos ecos das orações por finado repercutidas por abóbada de igreja em trintário cerrado. Sentiu correr-lhe os membros um calefrio - não de temor, porque não o conhecia o seu coração; mas de terror - desse religioso terror que na crédula Idade Média, às vezes, e por mil motivos vãos, vergava os ânimos mais esforçados. Era singular o efeito que nele produzia a voz roufenha de Dom Bibas; mas é certo que essa voz despertava na sua alma lembranças de morte e uma indizível tristeza. Revoou-lhe então lá dentro o pensamento de que no cantar do truão havia o que quer que fosse fatídico, e no seu olhar brilhante o que quer que fosse diabólico. Sentia baterem-lhe com força as artérias frontais, e sussurrar-lhe nos ouvidos um zumbido intolerável. Esqueceu-se de quem era o homem que assim se assentara na cadeira real, para dali lhe repartir as últimas injúrias que naquela noite distribuíra com mão larga. A imaginação lhe transformou o gesto jovial do bobo no aspecto tétrico de um enliçador, e o seu cantarolar ridículo nos acentos sinistros de uma velha estriga. Esta espécie de delírio em que havia caído Garcia Bermudes - era ele o cavaleiro - o obrigou a sair precipitadamente da vasta e já mal alumiada sala, e a descer ao pátio interior, sem olhar para trás, sem encarar o bobo, cujo canto soturno findou numa destas gargalhadas, que não parecem vir da alma, e que contristam, porque, naquele que as solta, revelam alienação mental.

Garcia Bermudes parou: o pátio estava deserto: um cavalariço estirado a um canto dormia profundamente, com as rédeas da mula possante enfiadas no braço. O frescor da noite e a serenidade do céu cintilante de estrelas acalmaram o ânimo agitado do cavaleiro; mas o pulso batia-lhe violento e febril. O extravagante pesadelo de homem acordado, que tivera, não procedera do bobo: procedera do lance doloroso por que pouco antes passara. No meio do sarau, na ebriedade da festa, ele ousara finalmente o que até aí não havia ousado. Tudo quanto uma paixão sincera tinha veemente, enérgico, tempestuoso, tudo dissera a Dulce: esse amor, que com tanta arte ela soubera conter nos limites de mistério, deixara de o ser. Mas aquela alma, que parecia tão meiga, tão branda, tão fácil a todos os contentamentos, a todos os afectos, achou-a ele indomável e esquiva a tanto amor. Esta repulsa esmagara o coração de Garcia Bermudes e a sua imaginação delirou. O raio fulminara o cedro: que muito era que ele balouçasse pendido?

O cavalariço despertou, gemendo, a um rijo pontapé do cavaleiro. Este montou de salto na mula, cravando-lhe os acicates no ventre, galgou pelo portal da torre albarrã, e, correndo ao longo da couraça, sem saber como, achou-se à porta da sua pousada, no bairro coutado e honrado do burgo. No meio de desesperação profunda, uma luz ténue lhe bruxuleava na alma. Dulce prometera explicar-lhe o motivo por que refucava tanto amor. Esta revelação seria feita no dia imediato. A hora aprazada fora a do pôr do Sol; o lugar, a galilé contígua à sala de armas, que dava sobre os adarves

do norte, e que a esse tempo devia estar erma. Era uma noite e um dia eternos, que tinha de viver entretanto; mas a esperança mais débil arrosta com a eternidade, e bem que frouxamente o cavaleiro esperava ainda, posto que não ousasse dizê-lo a si mesmo, e talvez nem sequer o cresse.

Daí a pouco tudo parecia dormir no castelo e no burgo. Não era assim: neste velava Garcia Bermudes; naquele o conde Fernando de Trava, a bela infanta e Dulce. Eram quatro agonias, tremendas todas; mas todas elas diferentes.

A variedade é o que mais ama na vida o coração humano. A Providência não se esqueceu de conceder-lhe em grau infinito a variedade na dor.