O Bobo/V

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O Bobo por Alexandre Herculano
Capítulo V: A madrugada


O céu oriental começava a dourar-se com os primeiros raios de sol que surgiam na vermelhidão da madrugada. Alumiando com serena e ainda frouxa claridade o burgo assentado na baixa, iam reflectir-se trémulos no orvalho pendurado nas folhinhas da relva pelas veigas circunvizinhas; e batendo de soslaio nas muralhas e torres do castelo tingiam as pedras alvas e lisas de cor pálida. Era um alvorecer de manhã de estio no Minho, tão suave, tão poético e pinturesco, que talvez por isso aí colocaram os antigos pagãos o Letes, esse rio cujas águas faziam esquecer as penas e os deleites da vida. Esta virtude, porém, do clima, este deleite que se encontra no aspecto daquelas lindas paisagens, no murmurar dos arroios perenes, nas sombras dos arvoredos frondentes e na risonha verdura dos prados, não tinha podido fazer esquecer ao conde de Trava os riscos da sua situação. Atormentado pelos receios do desfecho da luta em que lhe era forçoso entrar, tinha-se revolvido toda a noite no seu leito, sem poder dormir, ora arrependendo-se de haver tratado tão duramente o moço Afonso Henriques, ora fervendo-lhe na alma desejos de vingança atroz contra o mancebo e contra os barões de Portugal, que sucessivamente se declaravam pelo bando do infante. A ideia de se ver cercado em Guimarães por aquele mesmo a quem meses antes fazia esgotar até às fezes o cálix da humilhação acendia-lhe o orgulho e a cólera a ponto indizível. Então punha-se a calcular as probabilidades de uma batalha cam-pal. Tinha consigo mil lanças entre cavaleiros de Galiza e de Aragão: muitos ricos-homens de Portugal parecia conservarem-se fiéis, não a ele, mas a D. Teresa; e os borgonheses, companheiros do conde Henrique, educados nas ideias da absoluta lealdade, e investidos pela maior parte em tenências de terras e em alcaidarias de castelos, davam-lhe toda a certeza de que não abandonariam aquela de quem as tinham recebido.

Com estes elementos diversos ele podia ir em arrancada contra a hoste de D. Afonso, superior talvez em peonagem e besteiros, mas assaz inferior à sua em homens de armas. Se, porém, os barões portugueses que ainda se não haviam declarado contra a rainha a abandonassem, a vitória não seria tão fácil de obter: e posto que o conde tentasse minguar o valor e perícia dos cavaleiros de aquém-Minho para se esforçar a si próprio, a lembrança de que um tal acontecimento seria possível era, entre todas as que o assaltavam, a mais importuna, e a que principalmente não o deixara repousar durante as curtas horas de uma noite de Junho, a qual para ele fora uma das mais longas da sua vida.

Assim, apenas a luz duvidosa da aurora raiava no oriente, já a ponte levadiça do Castelo de Guimarães descia à voz impaciente de Fernando Peres, montado no seu ginete andaluz. Os atalaias viram-no sumir entre a casaria do burgo, e daí a pouco tornar a aparecer além dos valos alevantados à roda da povoação. Acompanhava-o já outro cavaleiro, cujas feições a escassa luz da madrugada não deixava bem divisar, mas que alguns dos esculcas apostavam ser Garcia Bermudes, o íntimo amigo do conde; o único homem que sabia moderar o seu carácter violento e altivo e que parecia senhor de todos os segredos daquela alma dissimulada e ambiciosa. Fosse quem fosse o cavaleiro, o conde rodeou com ele os valos e, passando perto outra vez do castelo, os dois se embrenharam numa selva profunda, que se estendia a pouca distância deste para a parte do norte.

O cavaleiro era de feito o valido de Fernando Peres. A amizade dos dois se travara e crescera na Palestina. Garcia salvara o conde em certo recontro no qual o filho de Pedro Froilaz, a pé e coberto de feridas, mal se defendia já com um troço de espada partida, da multidão dos sarracenos, que o cercavam. Desde então, companheiros de perigos e deleites, nunca mais se haviam separado. Era uma destas fraternidades de armas de que os tempos bárbaros nos oferecem tantos exemplos, porque ainda então existia a individualidade do homem de guerra, hoje completamente anulada pelo valor fictício a que chamamos disciplina.

Ao passar pelo burgo, o conde avistara o cavaleiro, de cujos olhos também fugira nessa noite o sono, posto que por bem diverso motivo. Pela primeira vez Fernando Peres de Trava desejou esconder ao seu amigo os pensamentos que lhe vagueavam no espírito. Todos eles se resolviam num sentimento único - o temor. Envergonhava-se de si mesmo, e não ousava confessar a fraqueza do seu coração àquele cujas faces nunca vira demudadas no meio dos maiores riscos. Procurando dar ao semblante carregado uma expressão de alegria, bradou de longe ao cavaleiro, que, embebido em cismar profundo, nem sequer sentira o tropear do ginete:

— Madrugador sois, Garcia Bermudes. Já vejo que ainda vos lembram as alvoradas de ultramar.

Garcia sofreou a mula de corpo em que ia montado, e volveu para trás os olhos. No seu gesto estava impressa a mais profunda melancolia.

O conde esporeou o ginete até emparelhar com o cavaleiro, e estendeu a mão para ele. Garcia Bermudes apertou-a na sua, e Fernando Peres sentiu que esta estava trémula e febril.

— À fé que mal te foi a noite passada: a tua mão é ardente; tens no rosto pintado o padecimento.

— Verdade é, nobre conde - respondeu tristemente o cavaleiro -; duas noites semelhantes à que passei, e estes cabelos estarão brancos, e este braço vergará como o de um velho ao sopesar a lança.

— Mas porque assim padecendo te diriges para a campina, húmida com o rocio da noite, quando talvez pudesses repousar agora no sono da madrugada?

— É porque busco o ar e a luz do céu como um refrigério; é porque sinto cá dentro um fogo que me devora, e preciso de respirar livre na solidão.

O conde viu duas lágrimas bailarem sob as pálpebras do cavaleiro. Parou espantado. Era inaudito, monstruoso, impossível o que via. Nunca a dor de feridas, a sede nos desertos, a fome nos castelos sitiados, e até a morte de amigos queridos no campo de batalha lhas haviam arrancado. Ocorreu-lhe então um pensamento súbito, porque Fernando Peres era hábil em conhecer os afectos humanos. Parou, e, cravando a vista de lince no rosto de Garcia Bermudes, disse-lhe no tom firme e positivo de quem descobrira um segredo:

— Garcia, tu és infeliz pelo amor!

O cavaleiro corou levemente e, com a voz afogada, respondeu:

— É verdade!

O conde sabia que ele amava Dulce: toda a corte o sabia. Fernando Peres folgava com a ideia de prender por laços mais fortes que os da amizade aquele esforçado homem de guerra à fortuna de D. Teresa e à sua. Dulce seria disso um penhor, e a afeição particular que ela mostrava ao cavaleiro persuadira o conde e a infanta de que os seus intentos e desejos seriam brevemente cumpridos. A tristeza de Garcia, a que não achava outra razão possível depois de um sarau a que tinham assistido tantos cavaleiros mancebos e gentis-homens, lhe fez crer que entre os dois amantes se alevantara alguma destas procelas com que o suão mirrador do ciúme costuma entenebrecer às vezes o céu risonho desta quadra da vida tão bela e tão passageira. A resposta de Garcia o confirmou nesta ideia.

— Dulce traiu-te, pois? - prosseguiu o conde sem tirar dele os olhos.

— Não - replicou o cavaleiro -, porque nunca fui amado por ela!

Estas palavras eram uma fria e morta expressão, como para representar paixões violentas o é sempre a linguagem dos homens; e todavia no acento com que haviam sido proferidas revelava-se bem o martírio atroz do orgulho ofendido e do amor desprezado que ralava o coração de Garcia.

— Nunca!? - interrompeu Fernando Peres. - Cria eu contrário: tinha talvez razão para o crer. Se, porém, não é Dulce a dama dos teus afectos, ousarei eu perguntar a Garcia Bermudes o nome da sua amada e a causa do seu padecer?

No tom destas palavras havia o que quer que era de ironia e mot ej o.

— Conde de Trava - replicou o cavaleiro -, só disse que jamais fui amado por Dulce: não que eu não a amava. Nunca o encobri a ninguém, e vós sabeis que muitos segredos meus, que todos ignoram, nunca de vós os escondi.

O modo sentido e de amarga repreensão com que Garcia respondera fizeram conhecer a Fernando Peres que a ferida aberta naquele coração era dolorosa e profunda. Então, estendendo de novo para ele o braço, disse-lhe sorrindo:

— Vamos: falemos sério e perdoa o meu gracejar. Se amas Dulce, ela será tua. Cóleras de amantes passam como a nuvem varrida do norte; e que não fosse assim, seria eu o tufão que a afugentasse. Sabes que Dulce é a filha adoptiva da rainha. Será tua esposa a um aceno do conde de Trava; e não é o conde de Trava o teu mais verdadeiro amigo? Oh, abre-me o teu coração!

E apertava entre as suas a mão do cavaleiro.

Garcia Bermudes alevantou para ele os olhos húmidos e tristes. Por algum tempo ficou em silêncio, e por fim exclamou:

— Não sabes o mal que me fizeste; não sabes o bem que ora me fazes! Sufocava-me o peso da minha agonia: deixá-la, enfim, dilatar-se!

Então, seguindo por meio da selva, narrou ao conde tudo o que se passara na véspera, e a larga história do seu desditoso amor, que o mundo cria retribuído e feliz. Aquela narração eloquente, como a paixão lha ensinava, chegou a comover o ânimo de Fernando Peres, que, distraído a princípio, escutara pacientemente essa larga confidência, com o único intuito de tornar mais íntimos pela gratidão os laços que prendiam à sua sorte um homem, de cujo esforço tanto carecia na dificultosa situação em que se achava.

E assim, apenas Garcia cessara de falar, o conde bradou - e desta vez as suas palavras vinham da alma:

— Cavaleiro, Dulce será tua mulher: juro-o pelas cinzas de meu pai!

Era o mais grave juramento de Fernando Peres. Poucas vezes o ouvira Garcia Bermudes jurar pelas cinzas de Pedro Froilaz.

— Dulce - prosseguiu o conde - é órfã e nobre: por foro de Portugal à sua mãe adoptiva, senhora dos préstamos de que ela é herdeira, pertence escolher aquele que há-de desposá-la. Tu serás o escolhido, e sê-lo-ás talvez hoje mesmo. Afirma-to o conde de Trava.

O cavaleiro ficou por largo espaço pensativo. Reflexões encontradas tumultuavam no seu espírito. Nestas eras civilizadas em que a ideia do amor é mais pura nos corações que o compreendem, nenhum ânimo generoso deixaria de recusar com horror esse meio violento de satisfazer seus desejos. Naqueles rudes tempos, porém, a generosidade e a delicadeza dos afectos morais era mais um instinto confuso que uma doutrina definida, gravada na alma pela educação e pelas crenças sociais. Era por isso que Garcia hesitava entre o íntimo aconselhar de uma nobre consciência e o cego desejo de paixão ardente. A tenuíssima esperança que ainda lhe restava fez triunfar, enfim, a sua natural generosidade.

— Não - disse ele -, não quero dever à obediência o que só quisera merecer pelo amor.

— Que importa? - interrompeu Fernando Peres. - Deixa, Garcia, aos trovadores essas afeições que se pagam de submissão e suspiros. Juramento feito pelas cinzas de meu pai nunca deixei de cumpri-lo. Poderia agora fazê-lo?

O cavaleiro pareceu meditar um momento; depois acrescentou:

— Bem o sei; mas promete-me uma só cousa.

— Qual é? - atalhou vivamente o conde.

— Que não será hoje que o cumpras.

— Oh, quanto a isso - respondeu Fernando Peres sorrindo -, não o jurei eu. Nem poderia jurá-lo. O conselho dos barões, que vai daqui a pouco ajuntar-se nos paços de Guimarães, deve ser demorado e tempestuoso. Conheces o que lá há-de tratar-se; e que não conto com todos os ricos-homens de Portugal como conto contigo. Teremos brava batalha.

— Enquanto este braço puder menear uma acha de armas; enquanto nestas veias houver uma gota de sangue, aquela ferirá sem piedade os teus inimigos, este será derramado para te defender a ti.

O conde caíra naturalmente na realidade da vida, e voltara ao habitual egoísmo de que por momentos Garcia Bermudes o fizera sair. Quando o avistara, ao atravessar o burgo, tinha-lhe ocorrido consultar o cavaleiro, cuja mestria de guerra ele conhecia, sobre o sistema que devia seguir ao começar a luta com Afonso Henriques, luta que bem conhecia ser inevitável. Aproveitando o ponto em que tocava quase imprevistamente, foi, sem revelar nunca os receios que o assaltavam, conduzindo a conversação de modo que, depois de haverem rodeado o bosque, ao entrarem no castelo, os dois haviam calculado e disposto todas as traças que julgavam oportunas para chegarem naquela guerra iminente a um desenlace feliz para a bela infanta de Portugal e por consequência para o ambicioso filho de Pedro Froilaz.