O Coruja/III/IX

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O Coruja por Aluísio Azevedo
Terceira Parte, Capítulo IX


Leonília, logo em seguida àquela célebre visita que lhe fez o Coruja, isto é, logo que embolsou o dinheiro que ele lhe levou, fez vir o Aguiar à presença dela e lhe disse:

— Sabes? Resolvi largar de mão o casamento de Teobaldo e parto no primeiro paquete que daqui sair.

— Pois tu vais deixar o Rio de Janeiro em semelhante ocasião? perguntou o rapaz, sinceramente espantado; vais partir sofrendo em silêncio o que acaba de te fazer aquele miserável?

— É verdade.

— Pois nem ao menos procuras vingar-te?

— Oh! quanto a isso, mais devagar, meu amigo!

— Ah!...

— Era preciso que eu não o tivesse amado apaixonadamente e não me tivesse abaixado até à última humilhação a que conduz o amor, para não guardar contra ele um ódio terrível e uma terrível necessidade de fazer-lhe mal.

— Bom.

— Mas, por enquanto, não quero. Seria tolice. Ele que se case, que siga o seu destino; mais tarde hei de estar ao seu lado.

Aguiar tentou ainda convencê-la de que a melhor coisa a fazer contra Teobaldo era desmanchar-lhe o casamento; nada, porém, conseguiu e pôs à disposição dela o seu auxílio.

Leonília partiu com efeito no primeiro paquete que encontrou a sair do Rio de Janeiro; foi em busca do seu incorrigível banqueiro e, durante quatro anos, ajudou-o a liquidar o resto de dinheiro que ainda lhe encontrou.

Quando o viu reduzido a espinha, bateu de novo a bela plumagem, completando o bilhete que lhe deixara da outra vez com esta frase: "Até nunca". E tornou então para o Rio de Janeiro, não com os mesmos encantos e as mesmas pedrarias que trouxera da primeira viagem, porque ia já se enterrando muito em idade e fazendo-se demasiadamente gorda, mas voltou com a mesmíssima preocupação que levara a respeito de Teobaldo.

Um dos seus primeiros cuidados, chegando à corte, foi pedir notícias dele.

É inútil dizer que as obteve, ainda mais completas do que procurava, porque no Rio de Janeiro essas coisas se conseguem com extrema facilidade, principalmente quando é uma Leonília quem as busca. Mas de tudo o que lhe constou a respeito do pérfido amante, só uma circunstância lhe encheu deveras as medidas: — a inesperada intimidade de Aguiar em casa de Branca.

Conhecendo o caráter "daquele tipo"; sabendo quais foram os esforços que ele empregou para casar com a prima e quão grande a sua decepção por não o conseguir, calculou logo que espécie de intenções o levaram a se fazer de novo amigo do homem que lhe roubara a mulher amada. Entretanto, por conhecer também de que força era o Aguiar em manha e disfarce, receava que o hipócrita realizasse os seus intentos contra a esposa de Teobaldo, mas, com tamanho jeito e habilidade, que ninguém viesse a descobri-los. E isto, que para ele representaria sem dúvida o complemento da vingança, para Leonília não era mais do que um fato do qual podia se tirar o melhor partido, metendo-o em circulação.

Interrogou o Aguiar sobre esse ponto, e o Aguiar respondeu jurando que a prima era um modelo de honestidade conjugal.

— Bom, disse Leonília, é o que vamos ver...

E esperou.

Esperou e de olhos bem abertos. Nos passeios de carro que ela costumava fazer à tarde ou à noite, preferia em geral as bandas de Botafogo, circunstância em que nada havia de extraordinário, porque este bairro era então o mais próprio e usado para isso.

Mas, chegando em certa altura da praia, mandava sempre abaixar a cúpula do carro e afrouxar o passo dos animais; às vezes, chegava até a estacionar por alguns minutos debaixo de alguma árvore, como quem espera por alguém ou pretende descobrir alguma coisa; outras vezes saltava em terra e entretinha-se a uma pequena volta pelo cais.

Foi assim que ela, na tal noite da entrevista da mulher do conselheiro, viu o Aguiar surgir na porta de Teobaldo com a mulher deste pelo braço.

— Olé! disse consigo e, auxiliada pela escuridão, pode observá-los à vontade, sem ser pressentida.

Viu-os trocarem em segredo algumas palavras, depois meterem-se resolutamente no carro que os esperava na rua e que tomou logo a direção da cidade. Leonília acompanhou-os, recomendando ao seu cocheiro de guardá-los a certa distância e não os perder de vista.

Durante todo o tempo que Branca levou no terraço a espreitar o marido, ela rondou a porta da casa; casa aliás já sua conhecida, pois que até pernoitara aí uma noite com Teobaldo, depois de uma grande ceia, que o Aguiar oferecera aos amigos num dia de seus anos.

O primo de Branca estava longe de se supor espiado, e não procurou esconder a sua contrariedade defronte de Leonília.

— Mas com que diabólica intenção fizeste semelhante coisa? perguntou ele, depois de ouvir da cortesã a confissão de que ela o seguira desde Botafogo.

— Ora essa! respondeu Leonília, sem dominar o seu contentamento, para vingar-me, está claro! Quero que repitas agora o que disseste da inquebrantável honestidade de tua prima!

— Pois olha, juro-te que não mentiria sustentando o que afirmei a respeito dela.

— Tem graça!

— Não posso te explicar as circunstâncias muito especiais, que determinaram o que acabas de ver, mas afianço-te que Branca tem sido até hoje uma esposa verdadeiramente casta...

— Ora deixa-te disso, e fala com franqueza.

— Mas, filha, juro-te que estou dizendo a verdade. As aparências muitas vezes enganam.

— Bem! Não queres falar, tanto pior para ti... Outros descobrirão aquilo que não me queres confessar.

— Mas se não há nada!

— Não tratemos mais disto; acabou-se!

— Não! Mas é que tu me podes comprometer muito seriamente...

— Pois se tens medo de mim, fala com franqueza e eu farei as coisas de modo a não ficares comprometido. Não admito é que me queiras convencer a mim, de que levas a estas horas uma mulher à tua casa de rapaz solteiro, talvez para discutirem algum ponto de moral doméstica!... Isso, hás de ter paciência, mas não passa... E, por conseguinte, dize lá o que entenderes, mas desde já te previno de que tenho sobre o fato o meu juízo formado.

— Se tens já o teu juízo formado, para que diabo queres então que eu fale?

— Porque com isso não fico sabendo menos do que já sei.

— E se eu não quiser falar?

— Nesse caso darei parte desta entrevista a Teobaldo; e ele que proceda como entender.

— E como conseguirias provar?

— Ora! Isso seria o menos! Bastava-me o cocheiro, que é meu conhecido antigo; e demais não sabes se eu estou só; posso ter testemunhas.

— Mas que diabo lucras tu com a minha confissão?

— Não é disso que se trata! Quero saber é se confessas ou não confessas que és o amante de tua prima?

— Desde que afianças que, se eu não confessar, vais perde-la para sempre... Confesso!

— Confessas então que és o amante da mulher de Teobaldo?

— Que remédio!

— E há quanto tempo?

— Desde que a conheço. Bem sabes que ela é a única mulher que amei até hoje...

— Não! Pergunto desde quando ela é a tua amante de fato, desde quando a possuís!

— Não sei, já não me lembro.

— E que tencionas fazer?

— A que respeito?

— A respeito dela. Pergunto se tencionas continuar como até agora, ou visto que a amas, se tens a intenção de tirá-la do marido.

— Isso não é coisa que preciso que ela consentisse.

— Ela não quer?

— Creio que não.

— Não lhe perguntaste?

— Nunca.

— Não creio.

Ele sacudiu os ombros.

— Bem... murmurou Leonília, depois de uma pausa. — Adeus.

— Posso então confiar em ti, não é verdade? perguntou Aguiar, apertando-lhe a mão.

— Podes confiar abertamente. Adeus.

— Até outra vez.

Leonília afastou-se, tomou o seu carro e desapareceu. Aguiar, muito contrariado com o que acabava de suceder, foi-se deixando ir pelas ruas, procurando consolar-se com a idéia que ainda havia de possuir como amante aquela que o rejeitou para marido.

E, já sentado à mesa do hotel, onde ele costumava cear, dizia de si para si enquanto esperava o chá:

— No fim de contas fui muito feliz em não me ter casado com ela!