O Ermitão da Glória/X

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O Ermitão da Glória por José de Alencar
Capítulo X: O voto

Ao cabo do seu cruzeiro, tornara Aires ao Rio de Janeiro onde entrou à noite calada, quando já toda a cidade dormia.

Havia tempos que soara no mosteiro o toque de completas; já todos os fogos estavam apagados, e não se ouvia outro rumor a não ser o ruído das ondas na praia, ou o canto dos galos, despertados pela claridade da lua ao nascer.

Cortando a flor das ondas alisadas, que se aljofravam como os brilhantes reçumos da espuma irisada pelos raios da lua, veio a escuna dar fundo em frente ao Largo da Polé.

No momento em que ao fisgar da âncora arfava o lindo navio, como um corcel brioso sofreado pela mão do ginete, quebrou o silêncio da noite um dobre fúnebre.

Era o sino da Igreja de Nossa Senhora do Ó que tangia o toque da agonia. Teve Aires, como toda a equipagem, um aperto de coração ao ouvir o lúgubre anúncio. Não faltou entre os marujos quem tomasse por mau agouro a circunstância de ter a escuna fundeado no momento em que começara o dobre.

Logo após abicava à ribeira o batel conduzindo Aires de Lucena, que saltou em terra ainda com o mesmo soçobro, e a alma cheia de inquietação.

Era tarde da noite para ver Duarte de Morais; mas não quis Aires recolher sem passar-lhe pela porta, e avistar-se com a casa onde habitava a dama de seus pensamentos.

Alvoroçaram-se os sustos de sua alma já aflita, encontrando aberta àquela hora adiantada a porta da casa, e as frestas das janelas esclarecidas pelas réstias de luz interior.

De dentro saía um rumor soturno como de lamentos, entremeados com reza.

Quando deu por si, achava-se Aires, conduzido pelo som do pranto, em uma câmara iluminada por quatro círios colocados nos cantos de um leito mortuário. Sobre os lençóis e mais lívida que eles, via-se a estátua inanimada, mas sempre formosa, de Maria da Glória.

A nívea cambraia que lhe cobria o seio mimoso, aflava com um movimento quase imperceptível, mostrando que ainda não se extinguira de todo nesse corpo gentil o hálito vital.

Ao ver Aires, Úrsula, o marido e as mulheres que rodeavam o leito, ergueram para ele as mãos como um gesto de desespero e redobraram o pranto.

Não os percebia porém o corsário; seu olhar baço e morno se fitara no vulto da moça e parecia entornar sobre ela toda sua alma, como uma luz que bruxuleia.

Um momento, as pálpebras da menina se ergueram a custo, e os olhos azuis, coalhados em um pasmo glacial, volvendo para o nicho de jacarandá suspenso na parede, cravaram-se na imagem de Nossa Senhora da Glória, mas cerraram-se logo.

Estremeceu Aires, e ficou um instante como alheio a si, e ao que passava em torno.

Lembrava-se do pecado de render ímpia adoração a Maria na imagem de Nossa Senhora da Glória, e via na enfermidade que lhe arrebatava a menina, um castigo de sua culpa.

Pendeu-lhe a cabeça acabrunhada, como se vergasse ao peso da cólera celeste; mas de chofre a ergueu com a resolução de ânimo que o arrojava ao combate, e por sua vez pondo os olhos na imagem de Nossa Senhora da Glória, caiu de joelhos com as mãos erguidas.

— Pequei, Mãe Santíssima, murmurou do fundo d'alma; mas vossa misericórdia é infinita. Salvai-a; por penitência de meu pecado andarei o ano inteiro no mar para não a ver; e quanto trouxer há de ser para as alfaias de vossa capela.

Não eram proferidas estas palavras, quando estremeceu com um sobressalto nervoso o corpo de Maria da Glória. Entreabriu ela as pálpebras e exalou dos lábios fundo e longo suspiro.

Todos os olhos se fitaram ansiosos no formoso semblante, que ia se corando com uma tênue aura de vida.

— Torna a si! exclamaram as vozes a um tempo.

Ergueu Aires a fronte, duvidando do que ouvia. Os meigos olhos da menina ainda embotados pelas sombras da morte que os tinham roçado, fitaram-se nele; e um sorriso angélico enflorou a rosa desses lábios que pareciam selados para sempre.

— Maria da Glória! bradou o corsário arrastando-se de joelhos para a cabeceira do leito.

Demorou a menina um instante nele o olhar e o sorriso, depois volvendo-os ao nicho, cruzou as mãos ao peito, e balbuciou flebilmente algumas palavras de que apenas se ouviram estas:

— Eu vos rendo graças, minha celeste Madrinha, minha Mãe Santíssima, por me terdes ouvido...

Expirou-lhe a voz nos lábios; outra vez cerraram-se as pálpebras, e descaiu-lhe a cabeça nas almofadas. A donzela dormia um sono plácido e sereno.

Passara a crise da enfermidade. Estava salva a menina.