O Ermitão da Glória/XI

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O Ermitão da Glória por José de Alencar
Capítulo XI: Novena

A primeira vez que Maria da Glória saiu da câmara para a varanda, foi uma festa em casa de Duarte de Morais.

Ninguém se cabia de contente com o regozijo de ver a menina outra vez restituída às alegrias da família.

De todos o que mostrava menos era Aires de Lucena, pois por instantes sua feição velava-se com uma nuvem melancólica; mas sabiam os outros que dentro d'alma ninguém maior, nem tamanho júbilo sentira, como ele; e sua tristeza naquele momento era a lembrança do que sofrera vendo a moça a expirar.

Aí estava entre outras pessoas da privança da casa, Antônio de Caminha que se houvera galhardamente na perseguição dos franceses, embora não lograsse capturar a presa a que dera caça.

Não escondia o moço o regozijo que sentia com o restabelecimento daquela a quem já tinha chorado, como perdida para sempre.

Nesse dia revelou Maria da Glória aos pais um segredo que escondia.

— É tempo de saberem o pai e a mãe que fiz um voto a Nossa Senhora da Glória, e peço sua licença para o cumprir.

— Tu a tens! disse Úrsula.

— Fala; dize o que prometeste! acrescentou Duarte de Morais.

— Uma novena.

— O voto foi para te pôr boa? perguntou a mãe.

Corou a moça e confusa esquivou-se à resposta. Acudiu então Aires que até ali ouvira calado:

— Não se precisa saber o motivo; basta que o voto se fez, para se dever cumprir. Tomo sobre mim o que for preciso para a novena, e não consinto que ninguém mais se encarregue disso; estais ouvindo, Duarte de Morais?

Cuidou Aires desde logo nos aprestos da devoção, e para que se fizesse com o maior aparato, resolveu que a novena seria em uma capela do mosteiro, para a qual se transportaria de seu nicho da escuna a imagem de Nossa Senhora da Glória.

Diversas vezes foi ele com Maria da Glória e Úrsula a uma loja de capelista para se proverem de alfaias com que adornassem a sagrada imagem. O melhor ourives de São Sebastião incumbiu-se de fazer um novo resplendor cravejado de brilhantes, enquanto a menina com suas amigas recamava de alcachofras de ouro um rico manto de brocado verde.

Nestes preparativos consumiam-se os dias, e tão ocupado andava Aires com eles, que não pensava em outra cousa, nem já se lembrava do voto que fizera; passava as horas junto de Maria da Glória, entretendo-se com ela dos adereços da festa, satisfazendo-lhe as mínimas fantasias; essa doce tarefa o absorvia por modo que não lhe sobravam nem pensamentos para mais.

Afinal chegou o dia da novena, que celebrou-se com uma pompa ainda não vista na cidade de São Sebastião. Foi grande a concorrência de devotos que vieram de São Vicente e Itanhaem para assistir à festa.

A todos encantou a formosura de Maria da Glória, que tinha um vestido de riço azul com recamos de prata, e um colar de turquesas com arrecadas de safiras.

Mas suas joias, de maior preço, as que mais a adornavam, eram as graças de seu meigo semblante que resplandecia com uma auréola celeste.

— Jesus!... exclamou uma velha beata. Podia-se tirar dali, e pô-la no altar que a gente havia de adorá-la como a própria imagem da Senhora da Glória.

Razão, pois, tinha Aires de Lucena, que toda a festa a esteve adorando, sem carecer de altar, e tão absorto, que de todo esqueceu o lugar onde se achava, e o fim que ali o trouxera.

Só quando, terminada a festa, ele saía com a família de Duarte de Morais, acudiu-lhe que não rezara na igreja, nem rendera graças à Senhora da Glória por cuja milagrosa intercessão escapara a menina da cruel enfermidade.

Era tarde porém; e se passou-lhe pela mente a ideia de tornar à igreja para reparar seu esquecimento, o sorriso de Maria da Glória arrebatou-lhe de novo o espírito naquele enlevo, em que o tivera preso.

Depois da doença da menina dissipara-se o enleio que ela sentia na presença de Aires de Lucena. Agora com a chegada do corsário, em vez de acanhar-se, ao contrário expandia-se a flor de sua graça, e desabrochava em risos, embora roseados pelo pudor.

Uma tarde que passeavam os dous pela ribeira, em companhia de Duarte de Morais e Úrsula, Maria da Glória, vendo embalar-se airosamente sobre as ondas a escuna, soltou um suspiro e voltando-se para Lucena, disse-lhe:

— Agora tão cedo não vai ao mar!

— Por quê?

— Deve descansar.

— Somente por isso? perguntou Aires desconsolado.

— E também pelas saudades que deixa aos que lhe querem, e pelos cuidados que nos leva. O pai que diz? Não é assim?

— Certo, filha, que o nosso Aires de Lucena já tem feito muito pela pátria e pela religião, para dar-nos também aos amigos alguma parte da sua existência.

— Toda vo-la darei doravante; ainda que tenha eu também saudades do mar, das noitadas de bordo, e daquele voar nas asas da borrasca, em que o homem acha-se face a face com a cólera do céu. Mas, pois, assim o querem, seja feita a vossa vontade.

Estas últimas palavras proferiu-as Aires olhando para a menina.

— Não se pese disso, tornou-lhe ela; que em lhe apertando as saudades, embarcaremos todos na escuna, e iremos correr terras, onde nos levar a graça de Deus e de minha Madrinha.