O Ermitão da Glória/XVI

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O Ermitão da Glória por José de Alencar
Capítulo XVI: A Boda

Eram cerca de 4 horas de uma formosa tarde de maio.

Abriam-se de par em par as portas da Matriz, no alto do Castelo, o que anunciava a celebração de um ato religioso.

Já havia no adro de São Sebastião numeroso concurso de povo, que ali viera trazido pela curiosidade de assistir à cerimônia.

À parte, em um dos cantos da igreja, recostado ao ângulo, via-se um velho marujo que não era outro senão o Bruno.

O contramestre não estava nesse dia de boa sombra; tinha um semblante carrancudo, e às vezes fechando a mão calejada ferrava um murro em cheio na carapuça.

Quando seus olhos, espraiando-se pelo mar, encontravam a escuna, que de âncora a pique balouçava-se sobre as ondas, prestes a fazer-se de vela, o velho marujo soltava um suspiro ruidoso.

Depois voltava-se para a Ladeira da Misericórdia, como se contasse ver chegar desse lado alguma pessoa, por quem estivesse esperando.

Não se passou muito, que não apontasse no alto da subida, um préstito numeroso, o qual seguiu direito à portaria da Matriz.

Vinha no centro Maria da Glória, vestida de noiva, e cercada por um bando de virgens, todas de palma e capela, que iam levar ao altar a sua companheira.

Seguiam-se Úrsula, as madrinhas e outras damas convidadas para a boda, a qual era sem dúvida das de maior estrondo que se tinham celebrado até então na cidade de São Sebastião.

Aires de Lucena assim o determinara, e de seu bolso concorreu com o cabedal necessário para a maior pompa da cerimônia.

Logo após as damas, caminhava o noivo, Antônio de Caminha, entre os dois padrinhos, e no meio de grande cortejo de convidados, dirigido por Duarte de Morais e Aires de Lucena.

Ao entrar a portada da igreja, Aires destacouse um momento para falar a Bruno, que avistando-o, viera a ele:

— Aprestou-se tudo?

— Tudo, meu capitão.

— Ainda bem; daqui a uma hora partiremos, e para não mais voltar, Bruno.

Ditas estas palavras, Aires entrou na igreja. O velho marujo que adivinhara quanto sofria naquele momento o seu capitão, ferrou outro murro na carapuça, e tragou o soluço que lhe estava estortegando na garganta.

Dentro da Matriz já os noivos tinham sido conduzidos ao altar, onde os esperava o vigário paramentado para celebrar o casamento, cuja cerimônia logo começou.

O corsário, de joelhos em um dos ângulos mais obscuros do corpo da igreja, assistia de longe ao ato; mas de momento a momento acurvava a fronte sobre as mãos esclavinhadas, como absorvido em fervente oração.

Não rezava, não; bem o quisera; mas um tropel de pensamentos se agitava em seu espírito abatido, que o arrastava ao passado, e o fazia reviver os anos devolvidos.

Repassava na mente seu viver de outrora, e acreditava que Deus lhe enviara do céu um anjo da guarda para o salvar. No caminho da perdição, ele o encontrara sob a forma de uma gentil criança; e desde esse dia sentira despertarem em sua alma os estímulos generosos, que o vício nela havia sopitado.

Mas por que, tendo-lhe enviado essa celeste mensageira, lha negara Deus quando a quis fazer a companheira de sua vida, e unir ao dele o seu destino?

Aí lembrou-se de que já uma vez Deus a quisera chamar ao céu, e só pela poderosa intercessão de Nossa Senhora da Glória a deixara viver, mas para outro.

— Antes não houvésseis atendido ao meu rogo, Virgem Santíssima! balbuciou Aires.

Nesse instante Maria da Glória, de joelhos aos pés do sacerdote, voltou o rosto com súbito movimento e fitou no cavalheiro estranho olhar, que a todos surpreendeu.

Era o momento em que o padre dirigia a interrogação do ritual; e Aires, prestes a ouvir o sim fatal, balbuciava ainda:

— Morta, ao menos ela não pertenceria a outro.

Um grito repercutiu pelo âmbito da igreja. A noiva caíra desmaiada aos pés do altar, e parecia adormecida.

Prestaram-lhe todos os socorros; mas embalde, Maria da Glória rendera ao Criador sua alma pura, e subira ao céu sem trocar a sua palma de virgem pela grinalda de noiva.

O que tinha cortado o estame da suave bonina? Fora o amor infeliz que ela ocultava no seio, ou a Virgem Santíssima a rogo de Aires?

São impenetráveis os divinos mistérios, mas podia nunca a filha ser a esposa feliz daquele que lhe roubara o pai, embora tudo fizesse junto depois para substituí-lo?

As galas da boda se trocaram pela pompa fúnebre; e à noite, no corpo da igreja, ao lado da essa dourada via-se ajoelhado e imóvel um homem que ali velou naquela posição, até o outro dia.

Era Aires de Lucena.