O Ermitão de Muquém/I/I

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O Ermitão de Muquém por Bernardo Guimarães
Pouso Primeiro, Capítulo I: O valentão


Na cidade de Goiás, antigamente Vila Boa, existia, há de haver mais de um século, um moço que por suas turbulências e espírito de valentia tinha adquirido a mais estrondosa nomeada por todas aquelas paragens.

Era filho de pais abastados e de boa família; porém educado à larga, abandonado desde a infância a si mesmo, sempre em meio de más companhias, dotado além de tudo de índole inquieta e fogosa, este rapaz, que poderia ser um homem de bem e útil à sociedade, se uma educação regular tivesse dado salutar direção aos instintos de sua natureza, foi-se tornando um valentão famoso, talhado a molde para as galés ou para o patíbulo.

Gonçalo, que assim se chamava, aplicou-se com ardor desde criança ao manejo de armas de toda a qualidade, a domar animais bravos, a caçar, a nadar, enfim a toda sorte de exercícios do corpo os mais rudes e perigosos.

E de feito neste ponto sua educação foi completa; aos vinte anos de idade, não havia em toda capitania quem com mais destreza esgrimisse uma chavasca, quem tivesse olho mais certeiro para uma pontaria, quem melhor se segurasse nos arreios, argüentando os corcovos do burro o mais xucro, e quanto ao nadar, só poderia competir com ele a lontra, ou a capivara.

Era também agilíssimo no jogo da faca; com os pés atados bem juntos e com uma faca em punho desafiava a qualquer, e com tal destreza se defendia que nem assim o podiam tocar.

Era também hábil em manejar as armas dos índios, e sabia atirar a flecha como o mais destro dos Caiapós ou dos Chavantes. Traçava no chão um círculo de dois pés de diâmetro quando muito, entesava o arco, e mandava às nuvens uma flecha; se o ar estava tranqüilo vinha ela cravar-se infalivelmente dentro daquele círculo. Causar-lhe-ia riso a façanha desse camponês da Suíça, do qual se conta que por ordem de um tirano teve de atravessar com uma flecha uma maçã colocada sobre a cabeça de seu filho; Gonçalo teria atravessado um anel.

Mas em vez de pôr ao serviço da pátria e da liberdade sua grande força e valentia, como aquele herói, Gonçalo, áspero e turbulento por natureza e por mania, atirou-se em corpo e alma na carreira da devassidão e tornou-se um completo vadio, um famoso desordeiro.

Em todos os maus lugares, onde quer que houvesse uma orgia, um batuque, uma algazarra qualquer, podia-se jurar que lá se achava Gonçalo puxando barulho, provocando desordens, só para ter ocasião de ostentar sua bravura e fazer sentir a algum desgraçado o peso de seu braço-de-ferro. Nisto consistia todo o seu orgulho, toda a sua glória. Quando em Goiás aparecia algum desses valentões afamados, com um desses apelidos extravagantes que por si sós fazem tremer, como Veneno, Jacaré, Tiracouro, Canguçu, etc., bem barbudo, vestido de couro, armado até os dentes, lá ia Gonçalo procurá-lo e não sossegava enquanto não achasse ocasião de quebrar-lhe a proa.

Entretanto esse moço não era mau por natureza; tinha no fundo excelentes qualidades e generosos instintos de coração, que teriam feito dele um homem precioso, se não fosse a sua má educação e a diabólica mania de querer passar pelo maior valentão do mundo.

Ainda para maior desgraça Gonçalo, antes de chegar aos vinte anos de idade, tinha perdido pai e mãe.

Desde então senhor absoluto de suas ações e de uma tal ou qual fortuna, não encontrou mais paradeiro a seus desvarios e paixões desordenadas.

Um preto velho, famoso feiticeiro, respeitado e temido pelo vulgo, lhe tinha dado certa mandinga ou caborje, amuleto temível e milagroso, que o preto inculcava como um preservativo infalível contra balas, contra raios, contra cobras e contra toda e qualquer espécie de perigos.

Gonçalo, supersticioso como todo o homem ignorante, acreditava piamente em todas essas virtudes da mandinga, e a trazia cuidadosamente cosida em seu cinturão de couro de lontra.

Gonçalo trazia também ao pescoço outro objeto de natureza inteiramente diversa; era um rico relicário de ouro com uma imagem de N. Sr.ª da Abadia, que sua mãe lhe dera em seu leito de morte recomendando e aconselhando que tivesse por aquela imagem particular devoção, e que invocasse sempre o seu patrocínio em todos os trabalhos e perigos da vida. Com efeito Gonçalo tinha a mais viva fé naquela santa imagem, e nunca em dias de sua vida deixou de beijá-la com fervorosa devoção ao deitar-se e ao levantar-se da cama depois de ter rezado uma ave-maria. Assim todas as vezes que se achava em apertos, com uma das mãos apalpava o cinturão, em que trazia o talismã da superstição africana, e com a outra levava aos lábios o relicário, confundindo desta maneira em sua tosca imaginação o culto da mãe de Deus com uma grosseira feitiçaria.

Apesar disso não se passava um só dia em que Gonçalo não fizesse provar a algum pobre cristão a força de seu braço rude e vigoroso. Cabeças e braços quebrados, narizes esmurrados, caras esbofeteadas, costas derreadas, eram façanhas que todos os dias aumentavam a fama e terror de seu nome.

Zombava da justiça, que naquele tempo e naquelas paragens parece que nenhuma força tinha.

Gonçalo muitas vezes dispersou e espancou as milícias encarregadas de prendê-lo por ocasião de alguma das suas falcatruas.

Ele as espalhava a pontapés, como quem arreda com a ponta do pé um tropeço que encontra em seu caminho.

Demais, Gonçalo tinha por si grande número de parceiros, vadios e bandidos como ele, que o temiam e respeitavam, e com os quais contava em ocasião de aperto. Era uma malta de rapazes ociosos e devassos, da qual ele por sua superioridade em forças e destreza e por sua riqueza e generosidade era o chefe natural.

Posto que temido como uma onça e respeitado entre seus camaradas pela sua valentia, Gonçalo não deixava de ser estimado, e em qualquer folguedo a sua presença era indispensável, pois era o companheiro mais alegre e folgazão que se conhecia. Ninguém com mais primor sabia pontear uma viola, cantar modinhas e lundus ou sapatear com mais desgarro e desenvoltura em uma sala de batuque. Gostava de moças, e com tais prendas e uma bonita figura, bem se vê quanto devia ser querido delas.

Era ele pois parceiro infalível em todas as festas, batuques e partidas de prazer, quaisquer que fossem.

À força de ser temido e respeitado, pois ninguém mais ousava experimentar as forças de sua mão-de-ferro, a vida de Gonçalo ia-se por fim monótona e sem acidentes, com o que andava ele mui desconsolado e aborrecido.

Essa vida tranqüila, que ia passando, sem achar ocasião ao menos de dar uns murros ou uns pontapés, o enjoava por tal sorte, que estava resolvido a ir viajar pelos sertões em busca de quanto valentão e facínora afamado por aí houvesse, medir suas forças com eles, matá-los todos e trazer suas orelhas de mimo ao capitão-mor. O destino porém ajeitou as coisas por tal modo, que não foi preciso a Gonçalo sair de Goiás para que fossem completamente satisfeitos os seus desejos.

Entre os comparsas de Gonçalo havia um que, além de ser seu particular amigo, era o único que ousava rivalizar com ele em força e destreza. Era um rapaz por nome Reinaldo, robusto e bem-feito, e geralmente estimado por sua franqueza e lealdade, e que ainda não se tinha deixado inteiramente eivar do espírito de desordem e devassidão dos seus companheiros. Nos exercícios de luta, esgrima e outros era o que dava mais trabalho a Gonçalo, e por vezes acontecia ficar indecisa a vitória. Como era ainda muito moço tinha esperança de uma dia igualar, senão exceder a seu amigo em vigor e agilidade. Os companheiros o aplaudiam e animavam de propósito para humilhar a Gonçalo, cujo orgulho interiormente desejavam ver abatido. Isto fazia espumar de raiva a Gonçalo. Nesses momentos todo o sentimento de amizade desaparecia de seu coração, e não poucas vezes suas lutas e exercícios se teriam transformado em cenas de sangue e morte, se não interviessem os amigos de ambos. Gonçalo tinha bom coração e era excelente amigo, mas prezava acima de tudo a sua reputação de valentia. Esta singular mania encheu-lhe de trabalhos e infortúnios o caminho da vida.