O Ermitão de Muquém/Introdução

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O Ermitão de Muquém por Bernardo Guimarães
Introdução


As peregrinações devotas ou romarias são de uso imemorial em todos os países católicos. Ora penduradas no cume de um rochedo escarpado e quase inacessível, ora fundadas no seio de uma gruta natural, ou em algum vale escuro e triste em meio de florestas ou montanhas alterosas, em toda a parte do mundo cristão encontram-se disseminadas aqui e acolá essas pequenas capelas ou ermidas, que de ordinário devem a sua fundação a alguma lenda miraculosa, e que em épocas determinadas atraem a si milhares de romeiros e peregrinos.

Há sem dúvida grande dose de superstição nessas romarias, e o povo as tem feito perder muito da sua importância e prestígio, multiplicando-as infinitamente, instituindo romarias a granel por toda parte; todavia nem por isso deixam de ser uma das usanças mais poéticas e tocantes do cristianismo.

O Rio de Janeiro possui em seus aprazíveis e magníficos arrabaldes mais de uma ermida, que todos os anos em dias certos atrai imenso concurso de romeiros. A nobre e altiva Paulicéa também todos os anos vê saírem de seu seio milhares de habitantes, que em devota romaria vão levar oferendas e votos à milagrosa Nossa Senhora da Penha, que se adora em sua linda capela erigida a duas léguas da cidade em um risonho outeiro, que domina as aprazíveis lezírias por onde remanseia o Tietê.

Em Minas quem não tem ouvido falar no irmão Lourenço, nesse novo Paulo Eremita, que nos fraguedos da Serra do Caraça passou a vida na prática do mais rigoroso ascetismo e da mais austera penitência, e lá num recinto circundado de crespas e alterosas serranias erigiu um templo com a invocação de Nossa Senhora Mãe dos Homens, e lançou os fundamentos da grande instituição do seminário Caraça, que devia servir de núcleo aos filhos de Vicente de Paula para espalharem a luz da instrução e da fé por toda a província?

A capelinha de Nossa Senhora da Lapa, perto do arraial de Antônio Pereira, a duas léguas de distância do Ouro Preto, cavada pela natureza no flanco de uma montanha, é objeto também do fervoroso culto dos fiéis, e da admiração dos curiosos.

Nas altas e escabrosas cumeadas de uma grande cordilheira campea o arraial de S. Tomé das Letras com suas alvas casinhas, semelhando um bando de brancas pombas pousadas sobre o teto do antigo templo derrocado e denegrido pelo tempo. É crença do povo que o apóstolo S. Tomé viajou e pregou na América, e a alguns sinais parecidos com letras, que se notam em uma pedra, e que se acredita terem sido ali gravadas pelo apóstolo, deve a povoação o seu nome.

Congonhas do Campo, com sua rica e formosa capela tendo por orago o Sr, Bom Jesus do Matosinho, com seu vistoso adro de escadarias, povoado de profetas de pedra (escultura curiosa de um homem mutilado da mão direita, e que atava ao punho o instrumento com que trabalhava), atrai de imensas distâncias os fiéis, que vêm pedir ao milagroso Jesus a cura de suas enfermidades, ou cumprir piedosas promessas.

Há ainda inúmeras outras romarias disseminadas por toda a extensão do império. A origem da fundação de todas essas capelas é quase sempre a aparição miraculosa da imagem de algum santo no interior de uma caverna, no seio de uma floresta, no leito de um córrego, ou mesmo no côncavo de um tronco. Os filósofos do século, os apóstolos da descrença riem-se com desdém dessas ingênuas e tocantes crenças do povo. Todavia seus engenhosos raciocínios, seus sistemas transcendentes, não podem substituir essa fé viva e singela, que alenta e consola o homem do povo nos trabalhosos caminhos da vida. Embora envolvida no cortejo de mil superstições grosseiras, de mil tradições absurdas, deixemos-lhe essa fé, que o acompanha desde o berço que bebeu com o leite materno, e que o consola em sua hora extrema. Seja embora um erro, é um erro consolador, que em nada prejudica ao indivíduo nem à sociedade; a esses filósofos poderíamos responder parodiando aqueles versos que Camões põe na boca do Adamastor:

E que vos custa tê-los nesse engano,
Ou seja sombra, ou nuvem, sonho ou nada?...

Lá bem longe, no coração dos desertos, em uma das mais remotas e despovoadas províncias do Império, existe uma das mais notáveis e concorridas dessas romarias, notável, sobretudo, se atendermos ao sítio longínquo e às enormes distâncias que os romeiros têm de percorrer para chegarem ao solitário e triste vale em que se acha erigida a capelinha de Nossa Senhora da Abadia do Muquém na província de Goiás, cerca de oitenta léguas ao norte da capital e a sete léguas da povoação de S. José de Tocantins, à margem de um pequeno córrego que tem o significativo nome de Córrego das Lágrimas. Das mais remotas paragens acodem romeiros a essa isolada capelinha para implorar à santa o alívio de seus padecimentos e trazer-lhe preciosas oferendas. Durante alguns dias do ano aquele lôbrego e escuro sítio transforma-se em uma ruidosa e festiva povoação; o Muquém é sem contestação a romaria mais concorrida e a mais em voga do interior.

Eis aqui por que ocasião e como nos foi contada a história da fundação dessa importante romaria.

Viajávamos eu e mais dois companheiros vindos de Goiás, e atravessávamos a província de Minas com direção à corte; acabávamos de arranchar em um belo sítio nas campinas graciosamente acidentadas do município do Patrocínio, junto à margem de um ribeirão, chamado Rio de S. João. A paisagem era enlevadora, o tempo magnífico.

O rio corre escoltado em uma e outra margem por uma orla de árvores alterosas e da mais formosa ramagem; o rancho está situado em um delicioso vargedo cerca de duzentos passos de distância do leito do rio, cujo brando murmúrio... não se ouvia, pois corre manso e silencioso como a jibóia escorregando subtilmente pela vereda úmida dos brejos. O tope escuro dos arvoredos destacava-se vivamente no horizonte inflamado pelos clarões do sol poente.

Enquanto os camaradas tratavam de pensar os animais, e preparava-se a comida frugal e grosseira, mas suculenta, do viajante nessas paragens, eu e meus companheiros pendurávamos dos esteios do rancho a nossa rede, essa companheira inseparável do viandante do sertão, em cujo seio tanto lhe apraz embalar-se descansando das fadigas da jornada, e cismando saudades do seu país. Já reclinados a fumar nosso cigarro nos embalávamos indolentemente passeando olhares saudosos por aqueles horizontes, dos quais meus companheiros se afastavam por pouco tempo, e a que eu no íntimo da alma murmurava um adeus talvez eterno, quando ouvimos na estrada a batida de um animal, e alguns segundos depois um cavaleiro aparece e pára à porta do rancho.

— Senhores, nos diz ele depois de saudar-nos, se ainda há cômodo para alguém no rancho, espero que me permitirão fazer-lhes companhia de pouso por esta noite.

— Com muito gosto; o rancho é de todos os viandantes, e se a sua comitiva não é muito grande, cremos que não ficará mal acomodada.

Em poucos instantes descarregou-se a pequena bagagem do nosso novo companheiro de pouso, o qual, como a sua comitiva constava de duas pessoas, ele e seu camarada, aceitou o convite, que lhe fizemos, de jantar do nosso caldeirão.

Entre pessoas desconhecidas e que nada têm a se dizerem, de ordinário a conversação se trava por perguntas. Começamos pois por perguntar-lhe donde vinha.

— De bem longe, nos respondeu ele; venho da famosa romaria de Nossa Senhora da Abadia do Muquém na província de Goiás, de que os senhores decerto hão de ter notícia.

— Por certo, respondi-lhe eu; muito tenho ouvido falar nessa afamada romaria, e, segundo tenho ouvido dizer, é uma das mais bonitas e concorridas que temos.

— Sem dúvida alguma. É uma maravilha que é preciso ver-se para dela formar uma perfeita idéia. Ainda que não seja por devoção, mesmo por espírito de curiosidade vale a pena fazer-se essa viagem para ver como aquele lugar completamente desabitado no fundo dos sertões, onde apenas existe uma capelinha e um casebre sem habitantes, converte-se de repente em uma cidade cheia de vida, de rumor e movimento, composta de barracas, toldas, carros-de-bois, e ranchos cobertos de capim. Reúne-se ali todos os anos, na época da festa, uma população de cerca de dez mil pessoas, que vêm de distâncias enormes, até do Pará e Rio Grande do Sul, umas por devoção e para cumprirem promessas, outras para fazerem comércio, pois que nesses dias aquele lugar torna-se uma feira imensa, onde se compra, vende-se e permuta-se toda a qualidade de mercadorias. Aí os sertanejos do norte de Goiás, e das extremas das províncias da Bahia, Pernambuco, Piauí e Maranhão, vão-se prover de fazendas, quinquilharias, ferragens e vinhos que compram aos negociantes de Meia Ponte e Goiás que conduzem daquele ponto essas mercadorias. Os romeiros também vendem aos negociantes destas duas cidades, e aos de Minas e S. Paulo, grande quantidade de couros, solas, animais cavalares, redes fabricadas pelos índios, escravos, ouro em pó e diamantes.

A importância do produto da venda dos donativos feitos pelos romeiros anda anualmente por 8 a 10 contos, não incluindo-se nessa quantia as dádivas em dinheiro, que também muito avultam.

Mas todo esse movimento e animação dura apenas de seis a oito dias, findos os quais desarmam-se as tendas dos peregrinos, e o Muquém, como um acampamento abandonado, volta ao silêncio e à solidão, ficando de novo a capelinha isolada em meio daqueles tristes e silenciosos ermos.

— E o senhor, disse-lhe eu, desculpe-me a curiosidade, o senhor foi lá simplesmente por devoção e romaria, ou também a negócio.

— O meu fim principal, respondeu, foi o cumprimento de uma promessa feita por minha mulher, que se achando atacada de uma enfermidade cruel, que zombava de todos os remédios e da ciência dos mais abalizados médicos, lembrou-se de implorar a Nossa Senhora da Abadia remédio a um mal de cuja cura os homens tinham desesperado. Pouca ou nenhuma fé eu tinha então nessas promessas e romarias, que considerava como superstições próprias somente do vulgo ignorante. Todavia minha mulher mostrava tanta confiança e fé tão viva que eu nem de leve ousei contrariá-la para não agravar-lhe os sofrimentos.

Prometermos vir ambos em romaria à capela de Nossa Senhora da Abadia do Muquém trazer alguns donativos e adorar a santa em seu próprio altar. Desde então começou minha mulher a melhorar sensivelmente, e acha-se hoje quase completamente boa. Por prudência porém assentamos que ela não viesse ainda este ano; vim eu somente cumprir parte das promessas; mas para o ano, se Nossa Senhora da Abadia continuar a proteger-nos, voltarei com ela, e enquanto eu for vivo, todas as vezes que as circunstâncias o permitirem, hei de fazer uma peregrinação ao Muquém, ainda que não seja senão para depor um simples ramo de flores e rezar uma Salve-Rainha aos pés daquela milagrosa Senhora.

— Muito se fala por toda a parte, repliquei eu, nos milagres de Nossa Senhora da Abadia do Muquém; mas o que acho aí de mais notável e singular é que fossem edificar essa capela e fundar essa romaria lá no fundo de um sertão remoto, podendo ser erigida em qualquer localidade mais vizinha de povoados.

— Essa localidade não foi escolhida por ninguém, e segundo conta a lenda, foi indicada pelo céu para nela se edificar a capelinha que aí existe. O senhor, pelo que vejo, não sabe a história de sua fundação.

— Não, senhor; apenas tenho ouvido alguma coisa de uns e outros a esse respeito muito por alto e vagamente.

— Pois não deixa de ser curiosa e interessante essa história; e se não se enfadam de escutar-me, eu a contarei com muito gosto, posto que seja algum tanto longa.

— Ainda que a narração tenha de durar a noite inteira, não nos enfadará, e o escutaremos com muito prazer. Da minha parte perderia de bom grado duas noites de sono só para ouvir essa história.

A proposição do viajante foi aceita pois por mim e por meus companheiros com o mais vivo prazer. De feito, quem não gostará, ao descair de uma noite pura e silenciosa, em um aprazível e tranqüilo pouso em meio das solidões, recostado preguiçosamente em uma rede a fumar um bom cigarro depois de ter saboreado uma xícara de café, quem não gostará de escutar a narração de uma lenda popular?

O sol já tinha desaparecido inteiramente do horizonte; sombra, fresquidão e melancolia desciam sobre a terra no manto cinzento do crepúsculo.

O nosso jantar estava pronto; improvisou-se a mesa sobre algumas canastras reunidas, em torno das quais cada um acomodou-se do melhor modo que pôde, e serviu-se o jantar, que consistia no infalível e patriarcal feijão com toucinho, lingüiças assadas, arroz e outras coisas de que já me não lembro, regando-se tudo com um cálix de aguardente de cana, que a natureza parece ter criado de propósito nesses lugares para cortar os maus efeitos desses alimentos pesados e gordurosos. Por fim tomou-se o café, não essa tintura negra e detestável que se serve por aí nesses hotéis e hospedarias com o nome de café, mas o verdadeiro café aromático e balsâmico, tal como se sabe preparar em Minas, e cujos deliciosos vapores aquecem o cérebro e expandem tão suavemente o coração.

Enfim, estando já tudo arranjado no rancho, assentamo-nos em nossas redes aguardando a narração que o romeiro do Muquém nos prometera. Tudo foi silêncio imediatamente; cessaram as vozerias e toques de violas dos camaradas, e até os cães, deitados ao pé do fogo estendendo o focinho por sobre as patas encruzadas, pareciam escutar com religiosa atenção as palavras do narrador.

O nosso romeiro era natural dessa risonha e pitoresca região onde tem o seu berço o majestoso e opulento Jequitinhonha, que rola suas águas por sobre rubis e diamantes, dessas donosas campinas caprichosamente acidentadas, e cortadas de cristalinos ribeirões, a cujos habitantes o céu entornou no espírito as centelhas do engenho e da inspiração, como alastrou-lhes o solo de brilhantes e preciosas pedrarias. Poderia ter trinta e tantos anos; era de imaginação viva, inteligência clara, e sua linguagem e maneiras revelavam um espírito cultivado e fina educação. Nos olhos e na boca tinha notável expressão de bondade e franqueza; sua voz era de um timbre claro e sonoro. Nada pois faltava ao nosso narrador para prender todas as atenções.

Como o romeiro de Muquém tinha de seguir sua viagem por alguns dias na mesma direção que nós levávamos, durante quatro noites entreteve-nos ele os serões do pouso com a narração da história que vamos reproduzir, e que por essa razão dividiremos em quatro pousos.