O Ermitão de Muquém/II/IV

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O Ermitão de Muquém por Bernardo Guimarães
Pouso Segundo, Capítulo IV: O restabelecimento


Gonçalo, graças ao acertado curativo do sábio e experiente Andiara, e à desvelada solicitude com que o tratava a filha de Oriçanga, foi mais depressa do que se podia esperar sarando de suas feridas e contusões, e readquirindo seu antigo vigor. Para seu pronto restabelecimento sem dúvida mais que tudo contribuiu a amável e interessante enfermeira que o assistia. Guaraciaba, que em língua chavante significa - raio de luz - era com efeito a mais gentil e graciosa dentre as filhas da floresta.

E não se pense que entre esses selvagens não se encontram senão rostos grosseiros e estúpidos, instintos selváticos e ferozes; não é muito raro ver-se entre eles, principalmente entre certas tribos privilegiadas, feições bem modeladas, regulares e expressivas, e nobres e generosos impulsos do coração; encontram-se por vezes entre eles criaturas em que a obra de Deus faz lembrar ainda a perfeição de sua celeste origem. Guaraciaba era o tipo da beleza indígena no mais alto apuro de sua perfeição. Filha mimosa de um poderoso cacique, criada com carinho à sombra da taba paterna, sua tez não se crestara aos ardores do sol tropical, nem se lacerara nos espinhos das selvas enredadas, e tinha em todo o seu frescor e pureza a delicada cor de jambo. Seus cabelos negros, compridos e corridos ocultavam-lhe quase completamente os ombros, e algumas madeixas desgarradas desciam ondulando a beijar os puros contornos dos seios virginais. Seus olhos pretos e oblongos ora eram meigos e serenos como a superfície de um lago dormente em noite de luar, ora cheios de vivacidade cintilavam como o carbúnculo. Seu porte, seus ademanes tinham a flexibilidade e a graça da cecém, que ao sopro das brisas matinais embala-se à beira da torrente. Ela se comprazia muitas vezes com a turba de suas companheiras em banhar os mimosos membros nas águas do seu pátrio rio, que ela fendia com a destreza e rapidez da lontra. Também empunhava com graça e garbo senhoril um arco trabalhado de primorosas esculturas, e um carcás trançado de palhas de coqueiro imitando a pele escamosa e matizada de uma serpente e bem provido de setas, com que fazia crua guerra às avezinhas, cujas penas cobiçava para seus enfeites.

Guaraciaba e Andiara não poupavam desvelos e cuidados para que Gonçalo recuperasse forças e saúde. Ela mesma trazia em vasos de concha de tartaruga, ou de madeira esculpida, os selváticos manjares preparados por suas próprias mãos. Ora o regalava com os mais saborosos peixes e a caça a mais delicada, ora com os tenros palmitos ou a alva mandioca embebida no delicioso mel de jataí, com ovos de tartaruga, com frutos silvestres, e o suave licor extraído do tronco do buriti; e Gonçalo como que ressurgia do túmulo vivificado pela mão de um anjo.

Entretanto os Chavantes em diversos grupos se dispersavam pelas imensas florestas que bordam as margens do Tocantins, em excursões mais ou menos longínquas de caçadas e pescarias, ou em busca dos ingredientes de que fabricam o precioso guaraná, de cuja composição até hoje se ignora o segredo, ou em correrias pelas fazendas dos brancos, onde iam exercer violências e rapinas.

Quanto a Inimá, profundamente ofendido com as cruéis palavras com que Oriçanga o havia humilhado em presença de Guaraciaba e de grande número de guerreiros, se embrenhava à testa de alguns dos seus pelas florestas vizinhas para ocultar seu amargo despeito, e disposto a não aparecer senão para lavar sua afronta no sangue do atrevido forasteiro que dela fora a causa. Nas tabas pois com Oriçanga e sua filha ficara apenas uma pequena parte da tribo, pela maior parte velhos, mulheres e crianças, e uma escolta de guerreiros escolhidos eram como uma guarda do velho cacique.

Logo que Gonçalo se achou fora de perigo e algum tanto restabelecido de suas forças, foi conduzido pela gentil Guaraciaba à presença do velho chefe, para narrar-lhe suas aventuras. Junto à margem do rio, à sombra de uma colossal figueira silvestre, achava-se sentado o velho cacique rodeado de alguns guerreiros veteranos, com os quais se comprazia em rememorar as façanhas das eras de outrora, e com essas lembranças do passado sua alma se expandia como o velho e carcomido tronco da floresta já sem seiva nem folhagem, cujo calvo tope se enrama de viçosas parasitas e floridas trepadeiras. Gonçalo se assentou no meio deles; servia-lhe de assento a saliência de uma das enormes raízes do tronco. A mimosa filha de Oriçanga apresentou a cada um dos circunstantes um vaso de cauim, e um cachimbo aceso, que circulou de boca em boca, em sinal de paz e boa amizade. Assentada sobre a relva a alguns passos em frente de Gonçalo, com os pés encruzados, o braço pousado sobre os joelhos e a face sobre a mão, Guaraciaba, que nesse momento oferecia à estatuária o mais original e gracioso modelo, estava pronta a escutar com a maior atenção e infantil curiosidade.

— Estrangeiro, diz Oriçanga, quem quer que tu sejas, ou descendas do sangue maldito do imboaba, ou tenhas nascido neste país que Tupá abençoou, já que o céu te fez cair em nosso poder, és nosso escravo, e faremos de ti o que nos aprouver. Mas diz alguém que não pertences à raça detestada de nossos perseguidores, e que as tuas tristes aventuras obrigam-te a vaguear pelas selvas foragido sem taba e sem manitós. Conta-nos pois com espírito de verdade a história de teus infortúnios, e à vista dela veremos qual a sorte que mereces.

Gonçalo, prevenido por Guaraciaba de que teria de contar ao pai dela a história dos acontecimentos de sua vida , já tinha fantasiado em seu espírito a narração que devia fazer ao velho cacique. Não lhe era preciso inventar muitas fábulas, mas somente disfarçar certas circunstâncias de sua vida mudando o nome de algumas pessoas e lugares e ocultando a sua verdadeira nacionalidade, para tornar interessante a sua narração. Assim pois misturando às vezes a história real de sua vida, cheia de incidentes e trabalhos, com algumas fábulas por ele mesmo ideadas, disse que pertencia à bela e formidável tribo dos Guaicurus, que habitavam as remotas regiões banhadas pelos rios Paraná e Paraguai. Seu pai era um cacique afamado naquelas paragens por seu grande valor e poderio. Esse cacique à testa de seus valentes guerreiros montados em grandes e velozes cavalos, percorriam as campinas de seu país natal com a rapidez do tufão, e causavam estragos e devastações imensas nos estabelecimentos dos brancos de quem se tinham tornado implacáveis inimigos. Enfim, depois de uma guerra desastrosa, ele, seu pai e toda a sua família tinham caído prisioneiros em poder dos brancos; depois tinham sido conduzidos por seus senhores a Goiás, onde foram vendidos e longo tempo gemeram vítimas de bárbaro e violento cativeiro, e onde vira seu pai sucumbir ao peso de maus tratamentos e excessivos trabalhos. Enfim crescendo em forças e idade, e não podendo por modo algum resignar-se a suportar o jugo infame da escravidão, conseguira evadir-se, e se refugiara nas matas do Alto Tocantins. Acolhido entre os Coroados, que habitavam essas regiões, em breve adquiriu a estima e apreço dos principais da tribo, que o escolheram para comandar uma expedição que tinha de marchar a exercer vinganças e depredações nas povoações dos imboabas. Aproveitou-se com sofreguidão dessa ocasião para vingar a morte de seu pai, matando com a própria mão o seu algoz e reduzindo a cinzas suas fazendas. Em muitas outras ocasiões teve de prestar os mais importantes serviços aos Coroados, quer expondo intrepidamente a sua vida na guerra, quer ensinando-lhes diversos ofícios e artes, que aprendera durante o seu cativeiro entre os brancos, quer enriquecendo-os com instrumentos, armas e mil outros despojos de imenso valor, que saqueava das fazendas que destruía. Mas enfim seus próprios feitos e serviços suscitaram-lhe uma multidão de inimigos, excitando a inveja e descontentamento de muitos, que tinham ciúme do brilho e lustre que seu nome ia adquirindo entre eles. Seus rivais não ousavam guerreá-lo abertamente, mas urdiam-lhe ciladas de todo o gênero, e moviam-lhe uma perseguição traiçoeira, à qual teria inevitavelmente sucumbido, se não tivesse fugido ocultamente a favor da noite em uma canoa confiando sua vida à mercê da corrente do rio sagrado, que o tinha conduzido até ali, afrontando novos trabalhos e perigos em busca de um asilo em qualquer canto do mundo. Chegando àquelas paragens eles Chavantes tomando-o por um inimigo, ou imboaba, o tinham atacado tão bruscamente e com tal sanha, que o colocaram na necessidade de defender-se com encarniçamento até o último trance.

Enfim nenhuma inimizade ou indisposição tinha com os Chavantes, de cujo poderio tinha muitas vezes ouvido falar, e cuja bravura ecoava até as mais remotas regiões. Esperava que dali em diante não o considerassem mais como um inimigo, nem como um estrangeiro, porém sim como um companheiro de mais, um aliado fiel, que não aspira a outra coisa mais do que a ter ocasião de expor sua vida e derramar seu sangue pela causa dos valentes Chavantes, e de seu bravo e poderoso chefe.

Gonçalo entremeara nesta narração os inúmeros e variados episódios de sua vida agitada e aventureira, envolvendo-os em circunstâncias estranhas e fantásticas; pintava com modéstia, porém com animação e calor, os renhidos combates em que tinha suplantado seus inimigos e rivais, os rudes trabalhos e arriscadas aventuras por que tinha passado, as proezas que praticou comandando os Coroados em suas correrias pelas fazendas dos brancos, e assim teve por largo tempo presa a atenção do cacique e mais ouvintes, que absortos e enlevados não se fartavam de escutá-lo.

— Bem! Disse o velho caudilho apenas Gonçalo deu por terminada a sua narração; os teus infortúnios me tocam, e tuas palavras parecem-me ser inspiradas pelo espírito da verdade. Itajiba, tu és um bravo, e as façanhas que tens praticado são dignas dos mais valentes caciques. Mas antes de seres adotado em nossa tribo, como pareces desejar, é mister que proves com os teus feitos e com serviços reais, que não com meras palavras, a força de teu braço, a valentia de teu ânimo, e a lealdade de teu coração. Por agora porém cumpre que continues o teu curativo, e que recuperes completamente com o sangue vazado por tantas e tão graves feridas a saúde e as forças de que haverás mister para te sujeitares a essas provações, e mostrares o que podes e sabes fazer. Não serás mais tratado como prisioneiro; és livre; as florestas e as campinas te são francas; podes por elas vagar e caçar a teu sabor, como se estivesses em teu país natal, pois que essa formosa criatura, a quem por felicidade tua soubeste inspirar interesse e piedade, garante a sinceridade de tuas palavras, e a minha Guaraciaba, que conversa com os manitós celestes, e escuta as falas dos sagrados pajés, não costuma iludir-se.

Gonçalo ou Itajiba, como se chamou durante o tempo que esteve entre os Chavantes, restituído à liberdade, e tratado com o mais carinhoso desvelo na taba do velho Oriçanga, sentia de dia em dia renascerem-lhe as forças e vigorar-se-lhe a saúde. Viu com prazer que todas as suas armas lhe tinham sido fielmente conservadas. Mas suas armas de fogo se lhe tornavam daí em diante completamente inúteis, pois estavam vazias, e nenhuma munição lhe restava para de novo carregá-las; isto causava-lhe bastante pesar, pois essas armas com suas temerosas detonações e seu maravilhoso mecanismo seriam um objeto de assombro para aqueles selvagens e mais um meio para atrair seu respeito e admiração, e dar a Gonçalo ainda mais prestígio entre eles.

Notou ainda mais, com íntima satisfação, que lhe tinham deixado intacto o sagrado talismã objeto de seu fervoroso culto, a imagem de sua celestial protetora em todos os trabalhos e perigos da vida. A curiosa Guaraciaba não pôde deixar de perguntar-lhe o que significava aquele objeto com aquela linda imagenzinha de ouro, que sempre trazia pendente ao pescoço.

— É um precioso e sagrado manitó, que me legaram meus pais, respondeu-lhe Gonçalo, é ele quem me proteje, e noite e dia vela sobre meus passos, e quem leva minhas rogativas até o trono do Grande Tupá. Sem ele há muito teria sucumbido aos imensos trabalhos e perigos que me têm atribulado a existência.

Dizendo isto Gonçalo levou aos lábios respeitosamente a santa imagem, e a apresentou à filha de Oriçanga, para que fizesse o mesmo. Guaraciaba imitou-o com gesto tímido, e disse:

— Eu também quisera ter um lindo manitó como este; mas dar-se-á caso que ele também me proteja, como protege a ti?

— E por que não, uma vez que o veneres com sincero amor e respeito, e invoques com fé viva a sua proteção? Se ele atende à rogativa do infeliz foragido, a quem as paixões e os desatinos da mocidade arrojaram num pego de desgraças, muito mais piedoso ouvido prestará sem dúvida à tímida súplica da casta e formosa virgem do deserto. Tu o terás um dia, eu to prometo, e sentirás os salutares efeitos de sua miraculosa proteção.

Guaraciaba, que desde a primeira vista sentira pelo jovem estrangeiro uma súbita e viva afeição, ingênua e singela como todas as filhas da floresta, abandonava-se sem escrúpulo a esse sentimento, de que apenas tinha consciência e nem procurava dissimulá-lo. Sua união com Inimá, a quem ela não votava nem ódio nem afeição, era apenas um projeto de família, de que ouvia falar desde o berço, e do qual na infantil singeleza de sua alma não compreendia ainda nem a importância nem o alcance, e assim a inocente dando folgas a essa paixão, que começava a germinar com intensidade em seu coração, mal pensava que criava um insuperável obstáculo à sua união com o jovem cacique. Não assim Gonçalo, que não podendo ser insensível a tão casto e tão sincero amor da virgem indiana, bem previa que esse amor devia tornar-se um dia a origem de tristes complicações e fatais conflitos, e olhava com inquietação para o futuro, que antevia eriçado de dificuldades e perigos; por isso quase sempre uma nuvem de tristeza pairava em sua fronte grave e pensativa.

Capítulo V

O TRANSVIO

Logo que Itajiba mais vigoroso se achou em estado de encurvar um arco e ensaiar seus passos pelas sendas da floresta, Guaraciaba, para distraí-lo de sua inação e dos cuidados que pareciam atormentá-lo, convidou-o a um passeio e caçada de aves pelas selvas circunvizinhas. Itajiba teve logo ensejo de mostrar sua maravilhosa destreza em atirar a flecha, com grande prazer de Guaraciaba, que saltava de contente conduzindo para a sua taba uma chusma de avezinhas de variadas cores, derribadas pelas certeiras flechadas de Itajiba.

As roupas velhas e dilaceradas, que Gonçalo trouxera consigo, já não podiam servir a Itajiba; tendo de ser adotado na tribo dos Chavantes forçoso lhe era que se trajasse à maneira dos selvagens. Guaraciaba, auxiliada por suas companheiras, incumbiu-se de vesti-lo e armá-lo com todo o esplendor do luxo selvático. Uma túnica, que lhe descia até os joelhos, enfeitada de penas de brilhantes cores, lhe rodeava a cintura; um carcás formado de pele de uma monstruosa jibóia lhe pendia dos ombros recheado de mortíferas setas.

Em vez do chapéu de couro sombreava-lhe a fronte um diadema de plumas ondulantes de vistosas e brilhantes cores. Um rico tacape e um bem trabalhado arco, que Guaraciaba despendurou da sala de armas de seu pai, foram por ele empunhados. Em forma de manto a pele mosqueada de um enorme jaguar lhe caía pelas espáduas. A estes trajos selváticos Itajiba, pouco afeito a trazer os membros expostos aos rigores do tempo, ajuntou uns borzeguins ou polainas de pele de sucuri, impenetrável à umidade, agasalhou os ombros e o peito com uma espécie de gibão estreito feito de macias e finas peles, apertou o seu cinturão de couro de lontra, ao qual prendeu a sua larga faca, e com estes trajos pareceu aos olhos de todos garboso e belo como um verdadeiro príncipe das florestas.

Os passatempos e caçadas de Itajiba e Guaraciaba repetiam-se todos os dias, e o tempo assim lhes corria suave, como as ondas serenas do pátrio rio à sombra dos arvoredos seculares, e sua mútua afeição, alimentada por aqueles solitários entretenimentos, de dia em dia se aumentava, sem que eles se apercebessem, e se expandia como a flor ignorada e sem nome, que exala seus perfumes na solidão. À medida que cresciam as forças de Itajiba, esses passeios foram-se alargando a maiores distâncias, já deslizando vagarosamente em uma leve piroga ao longo das umbrosas ribanceiras, já pelas veredas escondidas da floresta; e pelo caminho Itajiba fazia cair aos certeiros tiros de seu arco a arara azul ou encarnada, a alva garça, rainha dos lagos, o róseo colhereiro, cujas penas são tão estimadas, o tucano de enorme bico, cujo peito rubro é procurado para enfeite da túnica das virgens, o jaó, o inhambu, a capoeira, cujas carnes são tão tenras e saborosas, e mil outras aves, de cujas lindas penas Guaraciaba com suas hábeis mãos compunha vistosos ornatos para as armas de seus guerreiros.

Guaraciaba tanto tinha de meiga e singela, como de alegre e trêfega; ela se aprazia por vezes em perturbar com encantadoras travessuras as graves e profundas cismas de seu amigo. Ora lesta e subtil como uma lebre sumia-se entre as moitas da floresta, sem que Itajiba o pressentisse; este dando por sua falta, olha inquieto para todos os lados , chama-a gritando seu nome uma e muitas vezes, aplica o ouvido aos ecos; mas Guaraciaba não responde, nem aparece em parte alguma. No auge da inquietação Itajiba perplexo não sabe nem o que pensar nem o que fazer, quando sente por detrás uma ligeiras mãozinhas a lhe tapar os olhos.

— Guaraciaba! lhe diz ele sorrindo, que susto me causaste! oh! não brinques mais por essa forma, que me fazes mal.

— Perdoa-me, Itajiba; quis distrair-te de teus cuidados. Estavas tão triste e pensativo! parece que tens muita saudade dos teus e do teu pai!

— Não; pura e formosa filha de Oriçanga, quando estou junto a teu lado, que me importa o resto do mundo?...

Outras vezes com pena das pobres avezinhas, em que Itajiba fazia a mira, ou lhe espantava a caça, ou lhe fazia perder o tiro tocando-lhe o braço no momento de despedir a seta.

Uma vez ambos atravessavam o rio em uma canoa, que Itajiba remava; estavam ainda longe da barranca oposta, quando Guaraciaba súbito dá um grito, salta na água e desaparece. Itajiba pálido de susto pensa que algum monstro do rio, algum jacaré ou sucuri, a arrebatou; sem perder um momento salta na água com a faca em punho, mergulha e surge de novo à tona da água, torna a mergulhar e a surgir, e nada vê senão a canoa rodando rio abaixo sem governo.

Em desesperada ansiedade estava resolvido a morrer naquelas águas antes do que sair delas sem Guaraciaba, quando uma gargalhada vibrante e harmoniosa como o canto da siriema retroa no barranco vizinho. Era Guaraciaba, que de propósito se lançara ao rio, e de um mergulho ganhara a margem. Itajiba ganha de novo a canoa, e dirige-se para o barranco.

— Ó querida e formosa Guaraciaba, diz ele ao chegar entre risonho e grave, por piedade, não brinques mais assim. Olha que um dia, assim como hoje tomei um gracejo teu pela realidade, poderei tomar a realidade por gracejo e faltar-te no perigo.

Um dia a alegria e contentamento, que sempre reinavam nas partidas de caça dos dois selváticos amantes, foram perturbados por um triste, posto que bem simples incidente. Itajiba avistara pousadas sobre um galho de uma alta canjerana duas lindas e grandes juritis de luzidia plumagem, que se beijavam e se afagavam com os encarnados biquinhos, arrulhando de prazer; imediatamente embebe a seta e curva o arco.

— Pobrezinhas! exclama Guaraciaba correndo a estorvá-lo, não as mate, não; deixa-as.

Mas o tiro tinha partido sibilando, e as duas amantes pombas caíram varadas no coração pela mesma seta.

Uma nuvem de tristeza cobriu o coração de Guaraciaba, que nesse dia não brincou nem sorriu mais, um funesto pressentimento a afligia, e aquele acontecimento parecia-lhe um presságio sinistro, mas não sabia de quê, Itajiba em vão procurava dissipar a triste preocupação de sua amiga, já zombando daquela pueril apreensão, já procurando desvanecê-la com razões sérias. Guaraciaba resolveu-se a consultar os pajés sobre a significação daquele nefasto acontecimento. O primeiro a quem se dirigiu respondeu-lhe abanando a cabeça:

— Ah! filha de Oriçanga, semelhante sucesso não pode ser de bom agouro. Resguarda bem teu coração das chamas do amor: teu coração e o daquele a quem amares não poderão ser unidos senão pela morte.

— Em que te pode afligir um fato tão simples, ó bela e mimosa filha do mais poderoso dos caciques? disse-lhe o venerando Andiara, a quem consultou depois. Essa seta traspassando ao mesmo tempo duas inocentes pombas é o amor unindo para sempre duas almas puras.

Esta engenhosa e consoladora explicação calou no espírito de Guaraciaba, e nesse mesmo dia se desvaneceram todos os seus sombrios pressentimentos.

Gonçalo, que no meio da sociedade civilizada só se tinha afeiçoado por capricho e passageiramente a uma ou outra mulher, agora no meio das selvas sentia brotar com energia em seu coração o gérmen de uma paixão ardente e profunda pela mimosa e encantadora virgem dos Chavantes. Posto que visse que esse sentimento era correspondido de um modo inequívoco pela filha de Oriçanga, nem por isso o futuro se lhe antolhava muito sereno e limpo de tormentas. Sabia que o velho cacique, cioso do lustre de sua descendência, a destinava desde a infância ao jovem e garboso guerreiro Inimá, que também de seu lado a adorava extremosamente, e somente morto renunciaria ao seu amor. E Oriçanga, os pajés, os veteranos da tribo, a nação inteira enfim poderiam ver impassíveis a quebra de tão solenes promessas, e consentiriam de bom grado que a ilustre e formosa noiva de Inimá passasse aos braços de um obscuro estrangeiro, foragido e sem nome? Em outros tempos Gonçalo sem deter-se um momento em nenhuma dessas considerações a teria arrebatado à força de armas e despeito de Oriçanga, de Inimá e dos Chavantes, e teria arrostado o furor da tribo inteira só para possuí-la. Mas os longos infortúnios e reveses por que passara tinham domado um pouco sua índole impaciente e fogosa, tornando-o mais prudente e cauteloso.

Guaraciaba por sua parte ouvia com indiferença desde a infância falar-se em sua futura união com Inimá, e nunca ao nome desse guerreiro sentira palpitar-lhe mais rápido o coração. Porém depois que conheceu o jovem estrangeiro, essa idéia tornou-se um peso para sua alma, e não concebia como poderia ser mulher de Inimá amando Itajiba. Mas seu coração, cheio da confiança que a inocência inspira, repousava no porvir e esperava que o céu aplainaria todas as dificuldades, e portanto abandonava-se sem reserva à paixão que a dominava.

Inimá, retraído na profundez das selvas com alguns dos Chavantes que lhe eram mais afeiçoados, continuava a viver afastado das tabas e quase sem comunicação alguma com o resto da tribo, e o desgraçado amante ignorava ainda que nesse mísero forasteiro, que deixara moribundo e crivado de golpes e somente digno de lástima e piedade, surgia contra ele um poderoso e formidável rival de glória e de amor.

Isolado no fundo das solidões procurava disfarçar o seu pesar e abreviar o tempo ansiosamente esperado de lavar sua afronta, cevando o seu furor nos fragueiros exercícios da caça, e perseguindo animais ferozes, como o touro batido e expelido da manada, que desabafa as iras entre rugidos furiosos escorchando troncos e rasgando a terra com as polidas pontas.

Um dia os dois amantes, enlevados em seus entretenimentos, transpondo arroios, descendo grutas e galgando colinas, não dando fé das distâncias que percorriam, nem das horas que se escoavam rapidamente, esquecidos das tabas, do tempo e do mundo, foram-se alargando mais que de costume em seu passeio pela floresta. Quando enfim já fatigados e percebendo-se do tempo, que fugia, lembraram-se de encaminhar seus passos de novo para as cabanas, acharam-se em considerável distância, e com o dia já quase a terminar sua carreira. O sol descambava rapidamente para o ocaso, e nuvens bronzeadas, que de espaço em espaço enchiam-se de fogo como estofos de algodão ardente, anunciavam iminente tempestade. Itajiba, que desconhecia aqueles lugares, onde pela primeira vez penetrava, e que se achava algum tanto confundido pelos giros e voltas que dera pela floresta, subiu a uma eminência a fim de procurar orientar-se; mas o negrume do ocidente, impelido por uma rija ventania, começava a apoderar-se de todo o horizonte; o sol se escondera completamente entre um montão de negras e carregadas nuvens, e Itajiba, cercado por todos os lados de horizontes nublados e morros cobertos de florestas, não podia atinar com o rumo das habitações dos Chavantes.

Por si só nada receava Itajiba, afeito a assoberbar todos os contratempos suscitados pelos homens ou pelos elementos; nem tão pouco sentia-se sem coragem para proteger contra quaisquer azares naquelas solidões a frágil e mimosa criatura que tão cheia de confiança o acompanhava. Ele bastaria para Guaraciaba, como Guaraciaba era todo o seu mundo ou antes o seu céu. Mas a sua longa ausência, o sol que baixava, a tempestade e a noite, que se avizinhava, as suspeitas e susto de Oriçanga e de todos os Chavantes crendo perdida sua Guaraciaba e talvez roubada por ele, em quem tão generosamente se fiara, e sobre quem iam recair ainda que por momentos suspeitas da mais negra deslealdade, tudo isto eram reflexões que o enchiam da mais cruel inquietação.

O vento rugia cada vez com mais violência; o céu se abria em cataratas de fogo, e a chuva começava a despejar-se em torrentes; açoitadas pela refega as árvores vergavam-se rangendo e uivando horrivelmente, e de tempos a tempos um tronco arrancado pelo temporal baqueava com temeroso estrondo desabando pelos grotões profundos. Itajiba naquela cruel conjuntura, já esquecido de todos os mais cuidados, só tratou de procurar uma guarida, em que pudesse pôr a salvo de tão tremendo temporal a sua amada Guaraciaba. Mas por toda a parte só via as selvas imensas, que rugiam e curvavam-se ameaçadoras como querendo desabar sobre suas cabeças, e as torrentes que estrugiam rolando troncos e rochedos pelas quebradas inacessíveis. Tomando Guaraciaba pela mão e amparando-a contra a fúria do vento, que parecia querer arrancá-la do solo e arrebatá-la pelos ares, Itajiba foi descendo para um grotão, no fundo do qual roncava um ribeirão encachoeirado entre rochedos. Não longe da ribanceira enorme lajedo servia de teto a uma vasta e profunda furna, cuja larga entrada se formava sobre uma esplanada, por baixo da qual a torrente turva e espumosa rolava em catadupas. Essa furna medonha à margem de um abismo, ninho talvez de panteras e serpentes, tornou-se nesse dia como a alcova misteriosa que acolheu em seu seio dois amantes felizes, que a tempestade surpreendeu desgarrados de seus lares, e os abrigou contra a fúria dos elementos desencadeados. Entretanto Guaraciaba, perdida no deserto com seu amante em meio daquela horrorosa borrasca, não mostrava pavor nem inquietação alguma, e sorria-se ao perigo, como a gaivota unindo seus alegres pios ao rugir do furacão dos mares. É que ela se fiava na sua inocência e na eficaz proteção de seu valente e dedicado amante. Ali no interior daquela furna os dois amantes se assentaram ao lado um do outro sobre um musgoso banco de pedra talhado pela natureza, esperando que a tormenta se amainasse. Itajiba enlaçava o braço em torno do colo de Guaraciaba, e lhe apertava as mãos entre as suas, enquanto esta fitava nele seus olhos negros cheios ao mesmo tempo de amor e de timidez.

VI

NA LAPA

As paixões grandes gostam de expandir-se em ocasiões solenes em face dos espetáculos grandiosos da natureza, em meio das solidões. Itajiba, com o coração a transbordar de emoção e de amor, pensou que o céu lhe enviara aquela tremenda tempestade e lhe mostrara aquele recôndito e misterioso abrigo de propósito para que tivesse ensejo de revelar à formosa filha de Oriçanga toda a força e ardor imenso de sua paixão, e todos os cuidados e desassossegos que o acompanhavam. Enquanto pois em roda e por fora da caverna urravam os furacões, de instante a instante os raios estalavam, a torrente entumecida despenhava-se com fragor na profundeza do abismo, e a tormenta desabava furiosa dilacerando o manto verde-negro das florestas, uma paixão imensa como os desertos onde engendrou-se, pura como a casta e inocente virgem que dela era objeto, se desafogava em palavras repassadas de ternura no seio da selvática beleza que a tinha sabido inspirar.

— Ó minha mui formosa e querida Guaraciaba, murmurava Itajiba aos pés da filha de Oriçanga; se teu coração não adivinhou nem compreendeu o puro e ardente afeto que do fundo da alma te consagro, eu não sei por que maneira, nem com que palavras te possa explicá-lo, pois nem na nossa linguagem das florestas, nem naquela que os imboabas nossos perseguidores me ensinaram, não existem expressões que possam dar idéia dos suaves transportes desta paixão imensa e profunda, que tu, ó a mais formosa das filhas da floresta, só tu soubeste inspirar-me. Paixões como esta, que me devora, não as pode explicar a língua dos homens; só os anjos do céu poderiam exprimi-las em seus cantares de inefável harmonia. Ah! e como poderia eu não amar-te, a ti, manitó celeste enviado por Tupá para velar sobre meus dias, a ti, que com teus carinhosos desvelos, com teu divinal sorriso me restituíste à vida, quando eu era já cadáver, a ti enfim, que com teu amor tornando-me o mais feliz dos viventes, vens abrir-me de novo as portas do porvir e da esperança!...

A estas palavras Itajiba cobriu de ardentes beijos as mãos de Guaraciaba, que tinha entre as suas, levantou-se e assentou-se de novo ao lado dela, continuou em tom mais grave:

— Mas ah! minha querida Guaraciaba, quantos embaraços e obstáculos invencíveis não vêm opor-se ao complemento de nossa felicidade! e quão incerta é a nossa sorte no futuro! Teu pai desde o berço destinou-te ao belo e valente Inimá, que também te adora com extremo; e teu pai jamais consentirá em quebrar tão sagrado compromisso. Os guerreiros de tua tribo de há muito te consideram e aclamam à futura esposa desse brilhante chefe, e sem dúvida se oporão resolutamente a que sejas entregue ao obscuro estrangeiro foragido. Bem sei que as florestas imensas estão à nossa disposição, e que em qualquer canto da terra, sem nada mais que o nosso amor, seríamos felizes, como o somos agora dentro desta lapa zombando das tormentas, que aí rugem pelo mundo. Mas tu bem sabes, jurei lealdade e prometi meus serviços a Oriçanga e à sua tribo, e a nossa fuga seria uma torpe traição, em que nem eu nem tu consentiríamos jamais. Entretanto eu te amo com amor inextinguível, e creio que nem na terra nem no céu há poder para apagar esta chama viva e pura que arde-me no coração, e nem de leve posso suportar a idéia desesperadora de perder-te um dia. Ó Guaraciaba, minha doce e pura Guaraciaba! Pudessem estes momentos, que aqui passamos sós nesta caverna ignorada, tendo aos pés essa torrente, amparados por este penedo e guardados pela tempestade, pudessem estes momentos prolongar-se por toda a eternidade!

Estas palavras coavam docemente pelos atentos ouvidos de Guaraciaba, e lhe ressoavam na alma como um hino celestial. Ela sentia-se ao mesmo tempo enternecida e ufana por ouvir aquele altivo e indômito guerreiro pronunciar a seus pés palavras do mais submisso e mavioso amor, e respondeu-lhe cheia de emoção:

— Itajiba, tuas falas são mais doces para a minha alma do que os favos da jataí, ou o suco delicioso do abacaxi. Elas fazem-me palpitar o coração como a flor que estremece ao bafejo perfumado das brisas da manhã. Tu me amas, bem o sei: e o amor que te consagro, também não é para ti nenhum segredo, embora meus lábios não o tenham revelado. A flor mesmo nas trevas se trai pelo seu perfume; a fonte do deserto escondida entre os rochedos se revela por seu murmúrio ao caminhante sequioso. Desde os primeiros momentos tu viste meu coração abrir-se para ti, como a flor do manacá aos primeiros raios do sol. Sinto que não poderei viver mais senão ao teu lado e à tua sombra; se eles quiserem separar-me de ti, ah! morrerei como a flor que da sombra orvalhada do bosque foi transplantada para os areais de fogo. Mas, Itajiba, confiemos na proteção do céu; Tupá é bom e ampara os amores puros. Inimá bem depressa se convencerá de que o não posso amar, procurará esquecer-se de mim, e desistirá de suas pretensões; e meu pai desligado de suas promessas abençoará nosso amor. Amemo-nos, Itajiba, amemo-nos cada vez mais, se é possível, e o céu encarregará de nosso futuro.

E dizendo estas palavras Guaraciaba lançava seus mimosos braços ao colo de Itajiba e o bafejava com seu amor, como a baunilha que enlaça seus tenros vimes ao robusto e altivo tronco do deserto, e lhe distila em torno seu delicioso perfume.

Itajiba, bebendo com avidez as suaves falas de Guaraciaba, foi-se deixando também enlevar pela ingênua e viva confiança que aquela alma inocente depositava na proteção do céu. A tempestade tinha sido tão violenta quanto passageira. O mesmo vento impetuoso que a trouxera a varria rapidamente do firmamento e impelia as nuvens dilaceradas para além das últimas montanhas do levante, como os esquadrões em debandada de um exército derrotado, que foge atropeladamente diante do inimigo vitorioso. O sol já quase tocando ao ocaso, desembaraçado das nuvens que o afrontavam, vibrou subitamente seus raios horizontais por entre os ramos orvalhados da floresta, e um brando clarão róseo insinuando-se pela entrada da caverna iluminou-a de suave crepúsculo e revestiu-a do aspecto fantástico de uma gruta de fadas.

— Olha, Itajiba, exclama sorrindo a filha de Oriçanga, Tupá mandou-nos a tempestade e encaminhou nossos passos para esta caverna ignorada pelos homens a fim de que as juras de nosso amor fossem proferidas longe de vistas curiosas, e não ecoassem em ouvidos estranhos. Vê como ele agora nos envia um raio de esperança e festeja nossa felicidade!...

Itajiba transportado de amor enlaçou ao peito a fronte radiante de Guaraciaba; já seus lábios se tocavam nas delícias do primeiro beijo de amor... súbito um rumor, que se avizinha, chega-lhes aos ouvidos; ouvem-se gritos selváticos, latir de cães, sons de borés e tropear de caçadores. Este estrugido se avizinhava de mais em mais; um instante depois um ligeiro rumor se fez sentir mesmo ao pé da entrada da furna; Itajiba e Guaraciaba sobressaltados olham para aquele lugar e levantam-se de súbito dando um grito de terror . Uma enorme canguçu negra se apresenta parada á porta da gruta com os olhos chamejantes, rosnando e mostrando as agudas presas como que pasmada e indignada de encontrar em seu covil aqueles estranhos hóspedes. Tão perto deles se achava a fera, que Itajiba não tendo espaço suficiente para enristar a flecha, brandiu contra ela o seu formidável tacape. O monstro surpreendido por aquele brusco ataque recuou dois saltos e de novo voltou a face ao seu agressor; este em pé à porta da gruta já de arco feito procurava segurar a mira no coração da onça, quando cheio de pasmo dá com os olhos em um guerreiro, que em pé sobre a esplanada exterior da furna a uns dez passos de distância por detrás da fera, igualmente de arco encurvado também a encarava com assombro, e parecia como que a sua sombra ou o reflexo de sua figura. Era Inimá, que seguido de alguns companheiros perseguia aquela onça e de flecha feita igualmente fazia a mira... contra ele ou contra a fera, que se interpunha entre os dois na mesma direção? Não o pôde saber Itajiba, que em seu assombro esqueceu a fera, que diante dele rugia apresentando as presas ameaçadoras e agitando a comprida cauda a estorcer-se e bater-lhe os flancos como uma jararaca enfurecida. Tendo em frente dois inimigos igualmente ferozes como que hesitava em qual dos dois empregaria o primeiro tiro e aguardava o que primeiro atacasse. Inimá porém, que entre as sombras da gruta entrevira Guaraciaba, espumava e batia os dentes de furor, e na sofreguidão de sua cólera com tal fúria esticou o arco, que este partiu em suas mãos, e a flecha caiu-lhe inerte aos pés. A este rumor a onça, cujos olhos até então estavam constantemente fixos em Itajiba, volta-se rapidamente, em dois pulos se precipita sobre Inimá, tomba-o de costas, calca-lhe o peito com as enormes patas, e apresenta aos cães, que começam a assaltá-la, a boca escancarada guarnecida de buídos dentes, à semelhança de um riso de feroz escárnio. Os companheiros de Inimá, não podendo acompanhar de perto seu infatigável e valente chefe, ainda não eram chegados; mais um instante só e Inimá teria terminado ingloriamente a existência às garras daquele feroz animal. Estava nas mãos de Itajiba o ver-se para sempre livre de seu poderoso rival, sem que sua morte pudesse por maneira alguma ser-lhe imputada. Mas tal pensamento nem por sombra lhe passou pelo espírito, que a isso se recusava absolutamente seu coração leal e generoso. Uma bem despedida seta partiu de seu arco e voou silvando ao coração do monstro, que expirou estrebuchando em seu sangue. Inimá levantou-se desfigurado e torvo, com o peito sangrento lacerado pelas unhas da terrível canguçu. O peito lhe arquejava com violência e seus olhos sanguíneos e desvairados procuravam Itajiba; apenas o avista, grita-lhe com voz convulsa:

— Bem lançada flecha, guerreiro!... cumpriste com destreza o teu dever. Quando o canguçu acossado encontra-se com o jaguar, este o mata, e oferece assim dobrada presa ao caçador. O jaguar se refugia na toca do canguçu, onde o caçador o veio surpreender. É pois forçoso agora que pelejemos. Miserável forasteiro, que vieste trazer a zizânia e a discórdia a nossas tabas, desta vez não me escaparás. Dize-me, insolente e traidor imboaba, como ousaste roubar à taba do cacique essa virgem que te acompanha? Contavas acaso conduzi-la a salvamento para o teu covil tenebroso?... Mas tu vês; Tupá é justiceiro; foi ele que em seus ocultos desígnios dirigiu para aqui meus passos, dando-me por guia essa fera, que acaba de morrer às tuas mãos, como tu morrerás às minhas em punição de teu infame atentado. E tu que fizeste, desgraçada Guaraciaba, incauta pomba, que te deixaste enlear nos laços da astuciosa serpente? como te animaste cobrir assim de vergonha e opróbrio as cãs veneráveis de teu pai?... tu que eras o manitó tutelar de nossa tribo, serás de hoje em diante a sua ignomínia, e verás teu nome pronunciado com horror!...

A raiva, o pasmo, o ciúme de Inimá, vendo a sua adorada Guaraciaba transviada e fugitiva por aqueles desertos em companhia de um estrangeiro, que ele detestava, tinham-lhe ofuscado completamente o espírito, e extinguido em seu coração todo o sentimento nobre, todo o instinto de generosidade. Arrebatando um arco a um dos companheiros, que por fim vinham chegando de tropel, embebe-lhe uma flecha e a dispara contra Itajiba, porém com tal fúria e cegueira, que a flecha passou sibilando aos ouvidos de Itajiba, roçou pelo cocar de plumas de Guaraciaba, que se achava por detrás dele, e sem tocar em ninguém foi-se perder zunindo lugubremente na profundez da furna. Itajiba, que até aquele momento ouvira tudo com impassível serenidade, e só tratava de guardar-se a si e a sua formosa companheira da furiosa agressão do exasperado cacique, rompe enfim o silêncio:

— Inimá, brada ele, és um vil e um cobarde tu, que à testa de tantos guerreiros não te pejas de insultar a um estrangeiro só e sem outra defesa mais que as suas armas, e destilas de teus lábios o veneno da calúnia contra a filha de teu chefe, contra uma virgem adorável digna do respeito e do culto dos homens. És um vil e um cobarde tu, que voltas tuas armas contra aquele que há poucos instantes salvou-te a vida podendo te deixar morrer vilmente entre as garras de uma fera...

Inimá espumando de raiva não o deixou prosseguir, lança-se de um salto sobre Itajiba e atira-lhe um furioso golpe de tacape. Itajiba destro como a onça desvia-se rapidamente dando um pulo para trás, e com a faca em uma das mãos e o tacape na outra está pronto e em atitude de pelejar.

Aquela caverna ia ser testemunha de uma luta tão feroz e sanguinolenta como essa que Itajiba já tivera a sustentar ao chegar entre os Chavantes; mas ah! desta vez ele não quereria morrer, pois o prendia com os mais suaves laços ao mundo e à vida o amor da linda e inocente criatura que ali se achava testemunhando todas aquelas cenas de horror. Entretanto o combate era dos mais arriscados e desiguais; embora matasse Inimá, Itajiba teria de travar-se depois com os cinco ou seis guerreiros da comitiva daquele. Mas o ânimo não lhe franqueia, encomenda-se com mais fervor que nunca à celestial protetora e resoluto aguarda novo ataque de Inimá. Guaraciaba, porém, lança-se no meio dos dois contendores, e voltando-se para Inimá com ar altivo e senhoril exclama:

— Detém-te, Inimá! que furor te cega? é com esse procedimento atroz e indigno que esperas merecer um dia ter a teu lado, em tua taba, a filha do nobre e valente Oriçanga? é assim que pretendes tornar-te digno de comandar a heróica e generosa nação dos Chavantes?... no furor insensato que te alucina, ousas lançar injúrias e baldões contra a filha de teu chefe, e atentar contra a vida daquele que a acompanha e protege por estas solidões! sabes acaso o motivo que nos obrigou a procurar este abrigo, onde nos vieste encontrar? quem te disse que fugimos oculta e traiçoeiramente da cabana de Oriçanga?... Mas não é para contigo, Inimá, que devo justificar-me desta singular ocorrência. Guerreiros, continua ela dirigindo-se aos companheiros de Inimá, guiai-me a mim e a este estrangeiro às nossas tabas e conduzi-nos à presença de meu pai; a ele e a mais ninguém devo dar satisfação do meu procedimento.

Falando assim o peito de Guaraciaba ofegava de indignação, seus olhos cintilavam como diamantes entre as sombras da caverna, e seu talhe e colo elevavam-se garbosos como o da ema, rainha das campinas, quando irritada se ergue contra aquele que pretende roubar-lhe o ninho. Em seu orgulhoso porte, na altivez de sua nobre linguagem, revelava-se a descendente de heróicos caciques, a verdadeira princesa das florestas. A estas nobres e severas palavras de Guaraciaba Inimá sentiu gelar-se-lhe no coração toda a sua cólera, e esteve a ponto de cair de rojo a seus pés suplicando-lhe perdão; mas Itajiba ali estava, o orgulho o conteve e balbuciou apenas timidamente estas palavras:

— Perdoa-me, formosa filha de Oriçanga, se te ofendi com minhas rudes falas; a cólera, o amor, o ciúme me desvairam... Vai, gentil Guaraciaba , vai tranqüila recolher-te à sombra da taba, onde sem dúvida teu pai te espera na mais ansiosa inquietação. Mas esse vil forasteiro, que te acompanha, esse sedutor infame pertence-me; há entre mim e ele um pleito de vida e morte, o qual é forçoso que hoje mesmo fique decidido.

— Inimá, bradou ela com império, este estrangeiro acompanhou-me por vontade minha, e deve comigo voltar às tabas. Itajiba, acompanha-me; guerreiros, segui-me e guiai-nos à taba de meu pai.

Inimá, subjugado por aquelas imperiosas palavras, nada replicou; receava mais a indignação daquela delicada virgem do que todo o valor e destreza de seu audaz e intrépido rival. Comprimiu pois todo o seu orgulho bem no fundo da alma, e acompanhou silenciosamente aos outros sem nada compreender das intenções da filha de Oriçanga. Mas aquela submissão e deferência já vinham tarde e de nada já lhe podiam servir. A sentença do jovem cacique estava irrevogavelmente lavrada no espírito de Guaraciaba.

VII

A VOLTA

Grande agitação e ansiedade reinava no arraial dos Chavantes. Há muito que as sombras da noite tinham descido sobre a terra, e nem Guaraciaba nem Itajiba, que desde pela manhã vagavam pelas florestas, não apareciam. Que grave acidente lhes teria sobrevindo, que assim os retinha à noite pelos desertos? a tempestade tê-los-ia desorientado, e vagariam perdidos pelas obscuras selvas sem acharem quem os guiasse às tabas? ou talvez a cheia das torrentes tivesse arrebatado, o raio fulminado, ou as feras devorado aqueles imprudentes e descuidados caçadores? ou talvez, quem sabe? — e esta era a mais plausível e a mais cruel das conjecturas, — talvez o astuto e fementido estrangeiro, tendo seduzido o singelo coração de Guaraciaba, traindo infamemente as suas promessas, pagasse a generosa proteção e hospitalidade que encontrara na taba de Oriçanga, roubando-lhe a filha, último ramo de sua geração, e única alegria e consolação de seus velhos dias?

Entre todas estas tristes apreensões se dividiam os espíritos preocupados e inquietos com a estranha desaparição da filha do cacique, e de seu hóspede. Já por ordem de Oriçanga grande número de pessoas batiam as florestas por todos os lados à pista dos dois amantes desgarrados ou fugitivos. E que ânsias, que dolorosas angústias não dilaceravam o coração do idoso chefe, que se via em trances de perder sua única e adorada filha, alegria e orgulho de sua velhice! Desatinado e louco não parava um instante em parte alguma; ora se assentava ao pé das cinzas de seu fogo extinto arrancando as cãs, e proferindo imprecações; ora em pé à porta da cabana olhava para todos os lados... a escuridão da noite; escutava a todos os instantes... o silêncio das solidões; a cada momento expedia mais um mais outro batedor para estes e aqueles sítios, e já quase a tribo inteira, deixando desertas as tabas, percorria as florestas em todas as direções em procura dos dois transviados.

Somente o velho Andiara parecia estar tranqüilo e pouco cuidadoso do sucesso, que a todos preocupava. Esse sábio e experiente pajé, que sabia ler no coração dos homens, bem tinha notado o ardente e vivo amor que os dois jovens se votavam um a outro, e longe de condenar esse amor e procurar estorvá-lo, ele o aprovava e aplaudia interiormente, pois tinha em pouco apreço o jovem Inimá, que não julgava digno do comando de sua nação, e concebera desde o começo a mais sincera e profunda estima e admiração por Itajiba, e tinha para si que ele seria capaz de elevar a nação ao mais alto grau de poder e prosperidade.

Andiara pois, que observava e protegia os amores dos dois jovens, e que lia claramente em seus corações, adivinhara o verdadeiro motivo de sua demora, e procurando acalmar a inquietação do velho cacique dizia-lhe:

— Nada receies, Oriçanga, sobre a sorte dos dois jovens passeadores. Sem dúvida procurando abrigar-se da tormenta, que os acolheu longe daqui, asilaram-se no seio de alguma gruta, ou no côncavo de algum velho tronco, e aí esperando que a tormenta amainasse, surpreendidos pela noite adormeceram no sono descuidado da inocência, como duas aves errantes, que ao cair das trevas pousam à sombra do primeiro tronco que encontram em seu caminho. Tranquiliza-te; Guaraciaba e Itajiba te amam e te veneram muito para te fugirem traiçoeiramente. Eles se amam e Tupá vela sobre eles.

Enfim um murmúrio surdo começou a levantar-se na extremidade das habitações, e brandões acesos ondearam através da escuridão da noite. Um grupo de guerreiros avança pela frente das tabas ao longo da margem do rio. No meio deles marchavam Guaraciaba e Itajiba opressos de fadiga, mas com rosto tranqüilo e sereno. Atrás do séquito um vulto silencioso e isolado seguia com ar sinistro; era Inimá. Pelo caminho o séquito se engrossava cada vez mais e agitava-se soltando grandes clamores. Estes clamores eram em grande parte aclamações de alegria pelo feliz reaparecimento de Guaraciaba; muitos deles porém eram também gritos ameaçadores e imprecações contra aquele que eles julgavam ter desencaminhado e pretendido roubar deslealmente a filha do cacique. Já os ânimos se amotinavam, e muitos guerreiros, ignorando as circunstâncias daquele fatal sucesso, com gestos ameaçadores estavam prestes a se lançarem sobre Itajiba. Felizmente chegaram sem incidente algum à taba do velho cacique. Guaraciaba saltou ao colo de seu pai, que a esperava à porta com os braços estendidos e chorou de alegria apertando-a contra o peito. Oriçanga ordenou que se retirasse a turba que se apinhava tumultuosa à porta de sua cabana, e ficou com Guaraciaba e Itajiba.

— Querida filha, exclama ele, que mau espírito te desencaminhou por essas selvas, e ia-te desgarrando da sombra da taba paterna?... Ah! quantas angústias, quantos frios sustos não embebeste no coração de teu velho pai, demorando-te assim até as horas mortas da noite entre os perigos da floresta tenebrosa!... Esse estrangeiro, que te acompanha, por que não te guiou ele mais cedo às nossas tabas? Oh! minha Guaraciaba, por Tupá eu te peço, dize-me, não seria ele acaso quem de propósito transviou-te procurando roubar vil e traiçoeiramente a minha filha, único bem que o céu ainda me conserva, a Inimá a esposa que eu lhe tinha prometido, e à tribo o último ramo de um antigo e ilustre tronco de heróis já quase extinto?... Ai dele se tal era seu louco intento! por enorme e cruel que seja não haverá castigo que seja excessivo para punir tão nefanda traição.

— Tranqüiliza-te, meu pai, atalhou Guaraciaba, nem eu nem Itajiba cometemos crime algum, nem praticamos ação de que possamos nos envergonhar diante de ti. Eu vou contar-te fielmente a história dos acontecimentos que nos detiveram na floresta até estas horas, e se ainda me acreditas, meu pai, verás que somos inocentes e nos perdoarás.

Então Guaraciaba, com a franqueza e ingenuidade de uma alma pura, referiu-lhe por miúdo o seu descaminho, a tempestade que os assaltou e os obrigou a procurarem refúgio dentro de uma furna; pinta-lhe com calor e vivacidade, como quem se achava ainda sob a impressão dos acontecimentos, as terríveis cenas que ali tiveram lugar, e por fim em tom grave e triste acrescentou estas palavras:

— Agora, pai querido, forçoso é revelar-te um sentimento, que não devo ocultar-te por mais tempo; ah! e quanto me custa fazê-lo, pois sei que vou magoar-te o coração.

— Filha, se para repouso de teu coração é preciso que me faças essa revelação, fala, que estou pronto a ouvir-te, embora isso deva doer-me como uma seta envenenada.

— Perdoa-me, meu pai, se vou de encontro às tuas vistas a meu respeito; mas devo hoje declarar-te com franqueza, eu não devo jamais ser esposa de Inimá.

— Que dizes, filha? pois queres que eu falte a minhas sagradas promessas?

— Mas, meu pai, se esse que destinais para meu companheiro e que deve substituir-te no comando da tribo, tornar-se por suas ações indigno dessa hora, se procede como um vil e vai deslustrar teu nome e tua geração, desde esse momento estás desligado de tuas promessas. Desde o berço ouço falar que sou destinada a Inimá, mas posto que não lhe tivesse repugnância, contudo nunca ao seu nome palpitou-me o coração, nem suspirou por essa união. Hoje, porém, tudo mudou-se; sua presença me importuna, seu amor me atormenta, e essa união, com que me acenam, tornou-se para mim uma ameaça de morte. Se é a sucessão no governo da tribo que ele ambiciona, dá-lha, meu pai, mas dá-lha sem mim, que de bom grado a ela renuncio, e nem aspiro a outra felicidade senão a que é dada pelo amor.

— Pelo amor! e acaso amas tu alguém, que não seja Inimá?

— Ah! meu pai! desde que meus olhos viram Itajiba, meu coração voou para ele.

— Oh! sim! meu coração parece-me que já tinha adivinhado esse fatal desvio de tuas afeições... e não te envergonhas de amar um estrangeiro foragido, que o acaso arrojou em nossas praias?

— Não, meu pai; antes me ufano disso e me desvaneço de ser por ele amada, pois que esse estrangeiro é um herói.

— Ah! Guaraciaba, minha querida, raio de luz que me alumias os tenebrosos caminhos da vida, flor mimosa que embalsamas com teus aromas minha taba solitária, em que cruel ansiedade vem colocar-me o teu imprudente amor! Devo eu despedaçar teu coração contrariando tuas afeições, e impondo-te um jugo que detestas? Ah! não; amo-te muito para poder fazê-lo. Mas posso eu sem quebra de minha lealdade iludir as esperanças por tão longo tempo alimentadas do jovem cacique, e faltar vergonhosamente a meus sagrados compromissos?... nunca; antes a morte do que um tal opróbrio. Minha mente vacila incerta entre esses dois tremendos escolhos. Só a voz inspirada dos pajés que sondam os arcanos do porvir e interpretam a vontade do céu, poderá guiar-me na penosa escuridão do meu espírito. Amanhã, ao primeiro canto das aves na floresta, eu os farei chamar na minha taba, e com seus sábios conselhos eles me inspirarão por certo o modo mais acertado de proceder em tão difícil conjuntura. Entretanto, cara filha, vai repousar das fadigas e tribulações deste mal-agourado dia, enquanto eu velo sobre tua sorte meditando os meios de torná-la feliz.

Inimá de volta às tabas, das quais vivia retirado desde o dia em que trouxera Itajiba moribundo à presença de Oriçanga, foi minuciosamente informado por seus amigos de tudo que nelas ocorrera durante a sua ausência. A pretendida origem e nacionalidade de Itajiba, as singulares aventuras de sua vida, que já andavam de boca em boca, seus oferecimentos e a pretensão que manifestara de ser adotado na tribo, o agasalho e cordial hospitalidade que encontrara na cabana do cacique, a viva simpatia e interesse que inspirara a Guaraciaba, seus passeios e caçadas quotidianas pelas selvas vizinhas, a cega condescendência de Oriçanga e a proteção não disfarçada de Andiara para com os dois amantes, tudo isso foi sabido nessa mesma noite por Inimá entre transportes de indignação e furor.

As coisas tinham tomado uma fatal direção, que ele no fundo de suas selvas estava bem longe de adivinhar.

Naquele mísero estrangeiro, que derrubara a um golpe de seu tacape, e a quem de propósito procurara poupar a vida a fim de tornar mais solene o seu triunfo sacrificando-o no dia de suas bodas, via surgir um temível e poderoso rival a suas ambiciosas esperanças de amor e de poder. Inimá bem o compreendeu, e tratou desde logo de estorvar por todos os meios o progresso da fortuna daquele audaz aventureiro. Entregue à raiva e ao ciúme, que lhe envenenava o coração, perturbava-lhe o espírito, andava de taba atiçando o ódio e a zizânia, concitando os ânimos dos Chavantes já predispostos pelos acontecimentos do dia contra Itajiba, ao qual pintava como um embusteiro, um enviado dos imboabas, que viera astutamente insinuar-se entre eles para entregá-los traiçoeiramente aos seus perseguidores.

Comentando os acontecimentos mostrava-lhes como o ardiloso forasteiro, para chegar a seus fins, com fingida humildade e submissão conseguira captar a benevolência do velho e crédulo cacique, e procurara com suas artes infernais seduzir sua filha para dela fazer um instrumento de suas abomináveis maquinações e planos de traição. Fazia-lhes ver, também, que Oriçanga, a quem o peso dos anos tornara imbecil e caduco, com suas imprudentes complacências, com sua estulta credulidade, deixava o campo inteiramente livre às pérfidas maquinações do astuto forasteiro; que eles Chavantes nada podiam esperar mais de um chefe que a idade tinha tornado idiota a tal ponto, que via sem indignação sua filha entregar-se sem reserva a uma vergonhosa paixão pelo ignóbil forasteiro, que sem injúria e desonra da briosa nação dos Chavantes não podia nem mais um dia permanecer vivo entre eles. Quanto a si, Inimá considerava-se instrumento escolhido por Tupá para destruir os sinistros planos e punir a audácia do estrangeiro; os acontecimentos até ali ocorridos bem o estavam revelando, e ele contava com o valor e dedicação de seus bravos companheiros para ajudá-lo a bem desempenhar sua missão.

Estas falas apaixonadas de Inimá caíram nos ânimos de grande parte daqueles selvagens como a chama lançada em tórridas macegas nos ardentes e ventosos dias de Agosto. Os amigos de Inimá protestavam alto e bom som, que na aurora seguinte haviam de arrancar da taba do cacique o traidor estrangeiro, arrastá-lo por diante das tabas, arrancar-lhe os olhos e a língua, e atirá-lo no fundo do rio com uma pedra atada ao pescoço.

Também Itajiba por sua parte já contava entre os Chavantes não pequeno número de camaradas dedicados, dos quais soube granjear a estima e afeição por seu caráter naturalmente bom e generoso, e a quem por seus atos de valor, por sua força e destreza inexcedíveis, inspirava respeito e admiração. Estes o defenderiam com ardor a todo o trance, e se oporiam resolutamente à execução do plano atroz de seus inimigos.

Os espíritos divididos se irritavam, e a noite, que se passou quase toda sem dormir em roda das fogueiras em calorosas altercações, parecia pressagiar para o dia seguinte graves e temerosos acontecimentos.