O Ermitão de Muquém/II/IV

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O Ermitão de Muquém por Bernardo Guimarães
Pouso Segundo, Capítulo IV: O restabelecimento


Gonçalo, graças ao acertado curativo do sábio e experiente Andiara, e à desvelada solicitude com que o tratava a filha de Oriçanga, foi mais depressa do que se podia esperar sarando de suas feridas e contusões, e readquirindo seu antigo vigor. Para seu pronto restabelecimento sem dúvida mais que tudo contribuiu a amável e interessante enfermeira que o assistia. Guaraciaba, que em língua chavante significa - raio de luz - era com efeito a mais gentil e graciosa dentre as filhas da floresta.

E não se pense que entre esses selvagens não se encontram senão rostos grosseiros e estúpidos, instintos selváticos e ferozes; não é muito raro ver-se entre eles, principalmente entre certas tribos privilegiadas, feições bem modeladas, regulares e expressivas, e nobres e generosos impulsos do coração; encontram-se por vezes entre eles criaturas em que a obra de Deus faz lembrar ainda a perfeição de sua celeste origem. Guaraciaba era o tipo da beleza indígena no mais alto apuro de sua perfeição. Filha mimosa de um poderoso cacique, criada com carinho à sombra da taba paterna, sua tez não se crestara aos ardores do sol tropical, nem se lacerara nos espinhos das selvas enredadas, e tinha em todo o seu frescor e pureza a delicada cor de jambo. Seus cabelos negros, compridos e corridos ocultavam-lhe quase completamente os ombros, e algumas madeixas desgarradas desciam ondulando a beijar os puros contornos dos seios virginais. Seus olhos pretos e oblongos ora eram meigos e serenos como a superfície de um lago dormente em noite de luar, ora cheios de vivacidade cintilavam como o carbúnculo. Seu porte, seus ademanes tinham a flexibilidade e a graça da cecém, que ao sopro das brisas matinais embala-se à beira da torrente. Ela se comprazia muitas vezes com a turba de suas companheiras em banhar os mimosos membros nas águas do seu pátrio rio, que ela fendia com a destreza e rapidez da lontra. Também empunhava com graça e garbo senhoril um arco trabalhado de primorosas esculturas, e um carcás trançado de palhas de coqueiro imitando a pele escamosa e matizada de uma serpente e bem provido de setas, com que fazia crua guerra às avezinhas, cujas penas cobiçava para seus enfeites.

Guaraciaba e Andiara não poupavam desvelos e cuidados para que Gonçalo recuperasse forças e saúde. Ela mesma trazia em vasos de concha de tartaruga, ou de madeira esculpida, os selváticos manjares preparados por suas próprias mãos. Ora o regalava com os mais saborosos peixes e a caça a mais delicada, ora com os tenros palmitos ou a alva mandioca embebida no delicioso mel de jataí, com ovos de tartaruga, com frutos silvestres, e o suave licor extraído do tronco do buriti; e Gonçalo como que ressurgia do túmulo vivificado pela mão de um anjo.

Entretanto os Chavantes em diversos grupos se dispersavam pelas imensas florestas que bordam as margens do Tocantins, em excursões mais ou menos longínquas de caçadas e pescarias, ou em busca dos ingredientes de que fabricam o precioso guaraná, de cuja composição até hoje se ignora o segredo, ou em correrias pelas fazendas dos brancos, onde iam exercer violências e rapinas.

Quanto a Inimá, profundamente ofendido com as cruéis palavras com que Oriçanga o havia humilhado em presença de Guaraciaba e de grande número de guerreiros, se embrenhava à testa de alguns dos seus pelas florestas vizinhas para ocultar seu amargo despeito, e disposto a não aparecer senão para lavar sua afronta no sangue do atrevido forasteiro que dela fora a causa. Nas tabas pois com Oriçanga e sua filha ficara apenas uma pequena parte da tribo, pela maior parte velhos, mulheres e crianças, e uma escolta de guerreiros escolhidos eram como uma guarda do velho cacique.

Logo que Gonçalo se achou fora de perigo e algum tanto restabelecido de suas forças, foi conduzido pela gentil Guaraciaba à presença do velho chefe, para narrar-lhe suas aventuras. Junto à margem do rio, à sombra de uma colossal figueira silvestre, achava-se sentado o velho cacique rodeado de alguns guerreiros veteranos, com os quais se comprazia em rememorar as façanhas das eras de outrora, e com essas lembranças do passado sua alma se expandia como o velho e carcomido tronco da floresta já sem seiva nem folhagem, cujo calvo tope se enrama de viçosas parasitas e floridas trepadeiras. Gonçalo se assentou no meio deles; servia-lhe de assento a saliência de uma das enormes raízes do tronco. A mimosa filha de Oriçanga apresentou a cada um dos circunstantes um vaso de cauim, e um cachimbo aceso, que circulou de boca em boca, em sinal de paz e boa amizade. Assentada sobre a relva a alguns passos em frente de Gonçalo, com os pés encruzados, o braço pousado sobre os joelhos e a face sobre a mão, Guaraciaba, que nesse momento oferecia à estatuária o mais original e gracioso modelo, estava pronta a escutar com a maior atenção e infantil curiosidade.

— Estrangeiro, diz Oriçanga, quem quer que tu sejas, ou descendas do sangue maldito do imboaba, ou tenhas nascido neste país que Tupá abençoou, já que o céu te fez cair em nosso poder, és nosso escravo, e faremos de ti o que nos aprouver. Mas diz alguém que não pertences à raça detestada de nossos perseguidores, e que as tuas tristes aventuras obrigam-te a vaguear pelas selvas foragido sem taba e sem manitós. Conta-nos pois com espírito de verdade a história de teus infortúnios, e à vista dela veremos qual a sorte que mereces.

Gonçalo, prevenido por Guaraciaba de que teria de contar ao pai dela a história dos acontecimentos de sua vida , já tinha fantasiado em seu espírito a narração que devia fazer ao velho cacique. Não lhe era preciso inventar muitas fábulas, mas somente disfarçar certas circunstâncias de sua vida mudando o nome de algumas pessoas e lugares e ocultando a sua verdadeira nacionalidade, para tornar interessante a sua narração. Assim pois misturando às vezes a história real de sua vida, cheia de incidentes e trabalhos, com algumas fábulas por ele mesmo ideadas, disse que pertencia à bela e formidável tribo dos Guaicurus, que habitavam as remotas regiões banhadas pelos rios Paraná e Paraguai. Seu pai era um cacique afamado naquelas paragens por seu grande valor e poderio. Esse cacique à testa de seus valentes guerreiros montados em grandes e velozes cavalos, percorriam as campinas de seu país natal com a rapidez do tufão, e causavam estragos e devastações imensas nos estabelecimentos dos brancos de quem se tinham tornado implacáveis inimigos. Enfim, depois de uma guerra desastrosa, ele, seu pai e toda a sua família tinham caído prisioneiros em poder dos brancos; depois tinham sido conduzidos por seus senhores a Goiás, onde foram vendidos e longo tempo gemeram vítimas de bárbaro e violento cativeiro, e onde vira seu pai sucumbir ao peso de maus tratamentos e excessivos trabalhos. Enfim crescendo em forças e idade, e não podendo por modo algum resignar-se a suportar o jugo infame da escravidão, conseguira evadir-se, e se refugiara nas matas do Alto Tocantins. Acolhido entre os Coroados, que habitavam essas regiões, em breve adquiriu a estima e apreço dos principais da tribo, que o escolheram para comandar uma expedição que tinha de marchar a exercer vinganças e depredações nas povoações dos imboabas. Aproveitou-se com sofreguidão dessa ocasião para vingar a morte de seu pai, matando com a própria mão o seu algoz e reduzindo a cinzas suas fazendas. Em muitas outras ocasiões teve de prestar os mais importantes serviços aos Coroados, quer expondo intrepidamente a sua vida na guerra, quer ensinando-lhes diversos ofícios e artes, que aprendera durante o seu cativeiro entre os brancos, quer enriquecendo-os com instrumentos, armas e mil outros despojos de imenso valor, que saqueava das fazendas que destruía. Mas enfim seus próprios feitos e serviços suscitaram-lhe uma multidão de inimigos, excitando a inveja e descontentamento de muitos, que tinham ciúme do brilho e lustre que seu nome ia adquirindo entre eles. Seus rivais não ousavam guerreá-lo abertamente, mas urdiam-lhe ciladas de todo o gênero, e moviam-lhe uma perseguição traiçoeira, à qual teria inevitavelmente sucumbido, se não tivesse fugido ocultamente a favor da noite em uma canoa confiando sua vida à mercê da corrente do rio sagrado, que o tinha conduzido até ali, afrontando novos trabalhos e perigos em busca de um asilo em qualquer canto do mundo. Chegando àquelas paragens eles Chavantes tomando-o por um inimigo, ou imboaba, o tinham atacado tão bruscamente e com tal sanha, que o colocaram na necessidade de defender-se com encarniçamento até o último trance.

Enfim nenhuma inimizade ou indisposição tinha com os Chavantes, de cujo poderio tinha muitas vezes ouvido falar, e cuja bravura ecoava até as mais remotas regiões. Esperava que dali em diante não o considerassem mais como um inimigo, nem como um estrangeiro, porém sim como um companheiro de mais, um aliado fiel, que não aspira a outra coisa mais do que a ter ocasião de expor sua vida e derramar seu sangue pela causa dos valentes Chavantes, e de seu bravo e poderoso chefe.

Gonçalo entremeara nesta narração os inúmeros e variados episódios de sua vida agitada e aventureira, envolvendo-os em circunstâncias estranhas e fantásticas; pintava com modéstia, porém com animação e calor, os renhidos combates em que tinha suplantado seus inimigos e rivais, os rudes trabalhos e arriscadas aventuras por que tinha passado, as proezas que praticou comandando os Coroados em suas correrias pelas fazendas dos brancos, e assim teve por largo tempo presa a atenção do cacique e mais ouvintes, que absortos e enlevados não se fartavam de escutá-lo.

— Bem! Disse o velho caudilho apenas Gonçalo deu por terminada a sua narração; os teus infortúnios me tocam, e tuas palavras parecem-me ser inspiradas pelo espírito da verdade. Itajiba, tu és um bravo, e as façanhas que tens praticado são dignas dos mais valentes caciques. Mas antes de seres adotado em nossa tribo, como pareces desejar, é mister que proves com os teus feitos e com serviços reais, que não com meras palavras, a força de teu braço, a valentia de teu ânimo, e a lealdade de teu coração. Por agora porém cumpre que continues o teu curativo, e que recuperes completamente com o sangue vazado por tantas e tão graves feridas a saúde e as forças de que haverás mister para te sujeitares a essas provações, e mostrares o que podes e sabes fazer. Não serás mais tratado como prisioneiro; és livre; as florestas e as campinas te são francas; podes por elas vagar e caçar a teu sabor, como se estivesses em teu país natal, pois que essa formosa criatura, a quem por felicidade tua soubeste inspirar interesse e piedade, garante a sinceridade de tuas palavras, e a minha Guaraciaba, que conversa com os manitós celestes, e escuta as falas dos sagrados pajés, não costuma iludir-se.

Gonçalo ou Itajiba, como se chamou durante o tempo que esteve entre os Chavantes, restituído à liberdade, e tratado com o mais carinhoso desvelo na taba do velho Oriçanga, sentia de dia em dia renascerem-lhe as forças e vigorar-se-lhe a saúde. Viu com prazer que todas as suas armas lhe tinham sido fielmente conservadas. Mas suas armas de fogo se lhe tornavam daí em diante completamente inúteis, pois estavam vazias, e nenhuma munição lhe restava para de novo carregá-las; isto causava-lhe bastante pesar, pois essas armas com suas temerosas detonações e seu maravilhoso mecanismo seriam um objeto de assombro para aqueles selvagens e mais um meio para atrair seu respeito e admiração, e dar a Gonçalo ainda mais prestígio entre eles.

Notou ainda mais, com íntima satisfação, que lhe tinham deixado intacto o sagrado talismã objeto de seu fervoroso culto, a imagem de sua celestial protetora em todos os trabalhos e perigos da vida. A curiosa Guaraciaba não pôde deixar de perguntar-lhe o que significava aquele objeto com aquela linda imagenzinha de ouro, que sempre trazia pendente ao pescoço.

— É um precioso e sagrado manitó, que me legaram meus pais, respondeu-lhe Gonçalo, é ele quem me proteje, e noite e dia vela sobre meus passos, e quem leva minhas rogativas até o trono do Grande Tupá. Sem ele há muito teria sucumbido aos imensos trabalhos e perigos que me têm atribulado a existência.

Dizendo isto Gonçalo levou aos lábios respeitosamente a santa imagem, e a apresentou à filha de Oriçanga, para que fizesse o mesmo. Guaraciaba imitou-o com gesto tímido, e disse:

— Eu também quisera ter um lindo manitó como este; mas dar-se-á caso que ele também me proteja, como protege a ti?

— E por que não, uma vez que o veneres com sincero amor e respeito, e invoques com fé viva a sua proteção? Se ele atende à rogativa do infeliz foragido, a quem as paixões e os desatinos da mocidade arrojaram num pego de desgraças, muito mais piedoso ouvido prestará sem dúvida à tímida súplica da casta e formosa virgem do deserto. Tu o terás um dia, eu to prometo, e sentirás os salutares efeitos de sua miraculosa proteção.

Guaraciaba, que desde a primeira vista sentira pelo jovem estrangeiro uma súbita e viva afeição, ingênua e singela como todas as filhas da floresta, abandonava-se sem escrúpulo a esse sentimento, de que apenas tinha consciência e nem procurava dissimulá-lo. Sua união com Inimá, a quem ela não votava nem ódio nem afeição, era apenas um projeto de família, de que ouvia falar desde o berço, e do qual na infantil singeleza de sua alma não compreendia ainda nem a importância nem o alcance, e assim a inocente dando folgas a essa paixão, que começava a germinar com intensidade em seu coração, mal pensava que criava um insuperável obstáculo à sua união com o jovem cacique. Não assim Gonçalo, que não podendo ser insensível a tão casto e tão sincero amor da virgem indiana, bem previa que esse amor devia tornar-se um dia a origem de tristes complicações e fatais conflitos, e olhava com inquietação para o futuro, que antevia eriçado de dificuldades e perigos; por isso quase sempre uma nuvem de tristeza pairava em sua fronte grave e pensativa.