O Ermitão de Muquém/III/V

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O Ermitão de Muquém por Bernardo Guimarães
Pouso Terceiro, Capítulo V: Festas triunfais


Enquanto Inimá no fundo das brenhas com o coração a transbordar de ódio só meditava a ruína de seu rival, este nas tabas era o primeiro que se lembrava de Inimá e seus companheiros, e propunha que se expedissem imediatamente alguns guerreiros a saber notícias suas, e que se lhe enviassem prontos socorros, pois que sua demora já era para inspirar sérios receios.

— Tens razão, diz Oriçanga, mas o que queres? os teus triunfos por tal sorte nos têm absorvido a atenção, que íamos deixando em esquecimento Inimá e os seus guerreiros; entretanto já é tempo de pensarmos nisso, e cumpre quanto antes saber o que é feito deles.

Na aurora seguinte, ao primeiro albor do dia, cem guerreiros escolhidos deviam partir a marchas aceleradas em demanda de Inimá a reforçar a sua falange. Mas ao cair da noite chegou ao arraial dos Chavantes e foi levado à presença de Oriçanga um dos guerreiros daquela expedição, portador das mais infaustas notícias; narrou por miúdo os brilhantes sucessos com que fora aberta aquela campanha, e o desastroso desfecho que teve; todos os guerreiros da expedição de Inimá, dizia ele, tinham sido mortos nos combates, ou feitos prisioneiros, ou se tinham transviado e perdido pelos desertos, e não sabia que tivesse escapado mais alguém que não fosse ele, a quem o destino poupara para encarregá-lo da triste missão de trazer aquela desastrosa notícia.

— Opróbrio inaudito! exclamou o velho cacique cheio de dolorosa indignação; vergonha única na vida desta valente e invicta nação! Mas em breve saberão estes cobardes, que se venceram Inimá e seus guerreiros, ainda não venceram a nação dos Chavantes. Itajiba, continua voltando-se para este, como estás ouvindo, o céu acaba de quebrar o último tropeço que existia para o complemento de tua felicidade; mas ah! desgraçadamente esse fatal acontecimento, que vem aplainar-te os caminhos do futuro, é um desastre e um opróbrio para nós todos!

Bem o lastimo, venerável cacique, responde-lhe Itajiba, e não serei eu que me regozije com os reveses da nação que escolhi, e a que jurei fidelidade; o mau sucesso da empresa de Inimá, como para provar ainda uma vez que não há no mundo prazeres perfeitos, vem amargurar a taça de minha felicidade. Mas, Oriçanga, eu aqui estou vivo ainda e pronto a sacrificar-me para lavar essa afronta da nação, e não me julgarei digno da posse da formosa Guaraciaba enquanto não tiver vingado o desastre de Inimá, e infligido a esses bárbaros vizinhos o castigo que merecem.

— Não, replica-lhe Oriçanga, não posso por esta vez condescender com os generosos impulsos de teu nobre coração. Antes de partires, três sóis serão consagrados às festas de tua união com a formosa Guaraciaba; já tens feito de sobejo para merecê-la; e nem mais precioso galardão podia eu ofertar-te em prêmio de teus gloriosos serviços e façanhas de guerra; e com ela força é que eu te abandone também desde já o peso do governo e comando da nação, excessivo para meus ombros enfraquecidos pela idade. Terás ainda oito sóis para descansares das tuas gloriosas fadigas à sombra da taba nos braços da tua gentil Guaraciaba. Passados eles escolherás os melhores de nossos guerreiros no número que julgares suficiente, e partirás a vingar a afronta dos nossos. O sangue de tantos e tão esforçados guerreiros, que Inimá imprudentemente sacrificou, pede pronta e cabal vingança.

— Eu saberei tomá-la, respondeu Itajiba.

Já não era só o amor de Guaraciaba o alvo único das aspirações de Itajiba, nem tão pouco as solenes promessas pelas quais se ligara à nação dos Chavantes, o único motivo que o dirigia em suas ações. Considerações de outra ordem também contribuíam para retê-lo entre os selvagens, e o faziam procurar firmar cada vez mais a sua influência e prestígio entre eles. Na alma ardente e aventurosa do bandido de Goiás despontavam já vistas ambiciosas e cálculos de elevação pessoal. Acoroçoado pelo brilhante sucesso de suas empresas, o feliz amante, o vitorioso cabo de guerra afagava já em seu espírito projetos de dominação e de poder, e delineava nos campos do futuro com largos e atrevidos traços os vastos planos de seu engrandecimento. Uma vez dominador da nação dos Chavantes não lhe seria difícil submeter também pela força das armas, ou mesmo por meios pacíficos e brandos, as outras tribos vizinhas das margens do Tocantins. Ele lhes ensinaria algumas das artes e ofícios mais indispensáveis, os induziria por meios persuasivos a cultivar a terra, para o que procuraria provê-los dos instrumentos próprios, a se aplicar à criação de gado, a construir habitações estáveis e mais sólidas, e enfim pouco a pouco os faria ir abandonando os grosseiros e ferozes hábitos da vida nômade e selvática pelos costumes e usanças dos povos civilizados. Tornado assim o chefe supremo de uma imensa população ativa, industriosa e guerreira, ele se tornaria temível aos fracos governos de Goiás, poderia tratar com eles como de potência a potência, e lhes imporia as condições. Com essa espécie de catequese e organização das tribos indígenas não só ele adquiria grande poder e prestígio naquelas paragens, como também prestaria ao Estado um eminente serviço, do qual ele reservaria para si o direito de marcar o preço e a remuneração.

Proporia submeter ao Estado todas essas tribos assim disciplinadas, contanto que os indígenas fossem considerados como outros tantos cidadãos e lhes fossem garantidos os direitos sociais. Outrossim lhe seria outorgado o governo e a direção daquelas tribos, enquanto vivo fosse, com o título e jurisdição de capitão-mor, que seria transmitido a seus descendentes por morgadio.

No caso de recusa protestava continuar à testa dos mesmos índios sua vida aventureira fazendo guerrilhas e devastadoras correrias por toda a capitania. Assim o terrível e turbulento valentão de Vila Boa, depois de se ter tornado formidável caudilho das hordas selvagens do Tocantins, aspirava agora a trocar o arco e o cocar de cacique pela farda vermelha de capitão-mor. Mas o céu lhe reservava outros destinos, se não tão brilhantes, ao menos mais santos e sublimes.

Chegou enfim o dia em que deviam começar os grandes festejos pela união de Itajiba e Guaraciaba. Tão feliz e tão brilhante união, tão ruidosos e magníficos regozijos jamais tinham presenciado aquelas florestas. O feliz aventureiro ia tocar ao fastígio da ventura e da prosperidade. O amor lhe sorria nos lábios e nos olhos da ingênua e formosa virgem, que como um anjo tutelar lhe aparecera nos caminhos da vida para arrebatá-lo a uma morte cruel e inevitável, e depois levá-lo pela mão por entre risonhas e floridas veredas ao cume da felicidade e do amor. O respeito e veneração dos Chavantes por toda a parte o rodeavam, e tocavam quase ao fanatismo; via sua influência e predomínio firmar-se entre eles sem recear mais rival algum que ousasse contrastá-lo. Suas brilhantes proezas, repetidas de boca em boca, ecoavam como um hino triunfal, e a glória dava-lhe a respirar os seus perfumes inebriantes.

Desde o romper da alva o arraial dos Chavantes começou a arrear-se de atavios de festa e a ressoar com rumores prazenteiros. Bandos alegres de homens e mulheres, ataviados com seus mais garridos enfeites, percorriam as brancas areias da praia cantando e tangendo seus rudes instrumentos; outros em canoas cobertas com toldas de ramos e flores sulcavam as águas do rio em todas as direções, acordando os ecos das sombrias ribanceiras com alegres vozerias ou com estrondo de descargas dos mosquetes, que Itajiba lhes tinha dado; ali um bando de guerreiros, revestidos de vistosas armaduras, executavam exercícios guerreiros simulando combates e cenas de guerra; além grupos de homens e mulheres sentados à sombra de algum copado arvoredo banqueteavam-se alegremente inebriando-se de cauim.

Tudo era festa, regozijo, movimento e ruído, e essas demonstrações eram filha de um sincero prazer e verdadeiro entusiasmo da parte dos Chavantes, a quem Itajiba por seus atos de heroísmo e pela nobreza e generosidade de sua alma soubera inspirar ao mesmo tempo afeição, respeito e fanática admiração.

À noite o espetáculo variava inteiramente de natureza e de aspecto. Os troncos das florestas forneciam a descomunal iluminação desses selváticos festejos: empilhados uns sobre outros de espaço em espaço em fogueiras colossais ao longo da praia ardiam estrepitosos, e como crateras em erupção arrojavam às nuvens borbotões de fumo, e miríadas de fagulhas chamejantes. Ao vermelho clarão das fogueiras o rio fulgurava como larga torrente de lavas abraseadas, e por entre elas via-se cruzando a todos os instantes e em todas as direções uma turba imensa em alegre e festival celeuma, e divisavam-se como espectros as figuras bronzeadas dos guerreiros agitando os cocares ondulantes, e com bizarros esgares e compassados saltos executando danças selváticas e figurando combates e pelejas. Um espectador estranho, que ali se achasse, julgaria presenciar um orgia de espectros.

Na tarde do terceiro dia, em uma vasta sala da taba do velho cacique, em presença dos pajés e dos principais da tribo, Oriçanga entregou sua filha, a meiga e formosa Guaraciaba, ao valente e generoso Itajiba, com as singelas e breves cerimônias entre eles usadas para esses atos, e declarou outrossim que em razão de sua avançada idade transferia a Itajiba desde aquele momento o governo e comando da tribo. A multidão, que ávida e curiosa se tinha aglomerado em torno da taba do cacique, prorrompeu em entusiásticas e ruidosas aclamações, e os festins se prolongaram pela noite adiante ainda mais estrondosos e animados.