O Ermitão de Muquém/IV/III

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
O Ermitão de Muquém por Bernardo Guimarães
Pouso Quarto, Capítulo III: A conversão


Passados aqueles momentos de emoção, e dissipado algum tanto o assombro que deixara nos ânimos aquele extraordinário acontecimento, o ermitão abriu a porta da capela e convidou os romeiros a entrarem. Ali prostrou-se perante o lindo altar, em que resplandecia a imagem da Santa Virgem; em fervorosa oração renderam graças à miraculosa Senhora pelos assinalados benefícios que dela acabavam de receber.

O disco do sol já se elevava no horizonte; a multidão dos romeiros já começava a inundar o pequeno templo, que mal os podia conter, e sussurrava como um enxame de abelhas em manhã de primavera a entrarem e saírem pela estreita porta da colmeia. Era já tempo de deixar o ermitão, que naqueles dias não pertencia a si, e tinha de dar atenção a milhares de romeiros. Antes porém de se separarem , Mateus pediu a Gonçalo que lhe contasse o que lhe tinha acontecido desde o seu desaparecimento de Vila Boa até aquela época, e que série de singulares acontecimentos o tinha levado a fundar aquela capela e a viver vida de austeridades e penitências no meio daqueles desertos.

— Mateus, lhe responde o ermitão, a história de meus desvarios e desgraças é bastante longa, e decerto não exiges de mim que a conte aqui em alguns momentos e no meio deste tumulto. Durante os dias que aqui tiverdes de demorar, vinde todas as tardes àquela choupana que ali vedes; é ali a minha morada. Posto que me seja bem doloroso rememorar um passado de crimes, misérias e fraquezas, a vós nada devo ocultar; para me tornar digno do vosso perdão é meu dever tudo confessar-vos, e também para que fiqueis conhecendo e proclameis por toda a parte quão valioso e sublime é o poder daquela piedosa Virgem, a cuja celestial proteção devo a existência neste mundo, e por cuja intercessão espero no outro a salvação eterna.

Durante todo o tempo que estiveram no Muquém, os nossos romeiros todos os dias ao declinar do sol dirigiam-se à cabana do eremita, que distava como cinqüenta passos da capela. Era um pequeno rancho coberto de palhas de bagaçu com uma porta e uma janela, mas fresco e asseado.

Tinha junto à porta uma frondosa sucupira, única árvore de algum vulto que se notava naquela paragem. A sucupira diz-se que tem a propriedade de atrair o raio, mas Gonçalo dizia sorrindo:

— Nada no mundo desafia mais os raios da cólera celeste do que o pecado, e eu sou o maior dos pecadores.

De feito depois da morte de Gonçalo o raio derribou aquela árvore, que o céu parecia ter respeitado somente enquanto prestava uma sombra ao piedoso eremita. Junto à cabana havia também um cercado, que Gonçalo amanhava com suas próprias mãos cultivando algumas flores, com que enfeitava os altares da Virgem; e era esta ocupação a única distração que concedia aos rigores de sua vida ascética e solitária.

Ali assentados em um grosso madeiro estendido junto à porta da cabana pelo lado de fora os romeiros de Vila Boa escutavam com a maior atenção da boca de Gonçalo os acontecimentos que ficam referidos nesta história, desde o desaparecimento de Gonçalo até o temeroso e estranho duelo em que matou Inimá, ficando ele salvo por uma espécie de milagre. Ele lhes contava com todos os pormenores suas longas peregrinações e trabalhos, as lutas e dificuldades que tivera a vencer durante o tempo em que, homiziado pelos desertos, se refugiava entre os selvagens procurando sufocar por meio de uma vida inquieta e cheia de azares os clamores da consciência, que mesmo no meio das maiores prosperidades não deixava de pungi-lo com seu implacável aguilhão, as extraordinárias aventuras de sua vida entre os Chavantes, seus amores com a filha do cacique, seus triunfos e a infanda peripécia que pôs termo à longa série de seus crimes e desvarios. Os romeiros, absortos no encanto daquela narrativa simples, animada e cheia de interesse, não sentiam correr o tempo, e era com grande desprazer que ao cair da noite ouviam o ermitão dizer-lhes:

— É hora de oração e de repouso; voltai amanhã para ouvirdes o resto.

E depois de tudo terem ouvido, ainda não contentes faziam mil perguntas a Gonçalo, pediam-lhe que lhes tornasse a contar mais este ou aquele fato, que lhes esclarecesse e explicasse mais esta ou aquela circunstância.

Nós porém tínhamos deixado Gonçalo alta noite voltando sozinho em uma canoa pelo rio Tocantins abaixo depois de ter matado Inimá.

Atônito e confundido pela singular e quase miraculosa maneira por que ainda desta vez escapara à morte, pasmado dessa pertinaz constância com que o destino como que porfiava em prolongar-lhe a existência através de mil trabalhos e perigos, Gonçalo, esquecido de que se achava no meio de um caudaloso rio, em uma canoa que rodava à mercê da torrente, atirou-se sobre o assento da proa mergulhado em amarga e profunda meditação. Seqüestrado inteiramente do mundo, e vivendo só com seus merencórios pensamentos no meio do silêncio profundo da noite e da solidão, deixando boiar sem direção sua piroga ao capricho das ondas, que a levavam, Gonçalo era o emblema vivo do descrido, que percorre solitário as sendas áridas e desoladas de uma existência sem afeto no presente, sem saudades do passado, sem esperanças nem receios no futuro, e abandona sua sorte à torrente da fatalidade.

Que estranho fado o elevava assim alternativamente do último abatimento ao cúmulo da fortuna, da felicidade e da glória, para de novo arrojá-lo em abismo de desesperação e amargura? Que gênio amigo assim protegia tão visivelmente sua existência através de tantas e tão cruéis vicissitudes? Podia ele, que não era mais que um facínora, um bandido coberto de crimes, merecer tão assinalada proteção do céu? Entre estas e mil outras reflexões sua razão acalmava-se pouco a pouco com a paz profunda das solidões, e ao fresco bafejo das brisas da madrugada, que com as asas úmidas de orvalho lhe afagavam a fronte febricitante. Com a luz da consciência enfim ele pôde descer a perscrutar tranqüilamente os profundos abismos de sua alma, e a revolver um por um todos os monstruosos crimes e desatinos que constituíam a história de sua vida passada. Gonçalo então apareceu a seus próprios olhos como um monstro, que a humanidade devia repelir de seu seio com horror. O espectro do infeliz Reinaldo picado a facadas por suas mãos, as sombras errantes e chorosas da bela Guaraciaba e do esbelto Anhambira, cujo sangue ainda lhe tingia as mãos, e a desse mísero cacique, cujo cadáver rolava talvez a seu lado arrastado pela torrente, e de cuja desgraça era ele o único autor, ele os via a todos surgirem diante de seus olhos torvos e sangrentos, e com vozes lamentosas o cobrirem de pragas e maldições. Aquela alma de ferro caía enfim do fastígio do orgulho nos abismos da mais profunda humilhação. A flecha de Inimá não pôde penetrar naquele coração protegido por um escudo invisível e celeste, mas lá deixou para sempre gravada a farpa do remorso.

Este último acontecimento, que o salvava de uma morte quase inevitável e por ele mesmo procurada, foi como um brado do céu, que ecoou profundamente em sua alma obcecada pelo crime e obumbrada pelos fumos do orgulho humano. Compreendeu então que a Santa Virgem, que desde a infância venerara com especial devoção, não o tinha preservado em vão até ali de tantos e tamanhos perigos, e o reservava para algum santo e piedoso desígnio, que ainda lhe era oculto; mas reconhecendo-se indigno da assinalada e miraculosa proteção que do céu recebia, arrependia-se com sincera e amarga compunção de sua indesculpável ingratidão para com a sua celeste protetora, a cujos benefícios tão mal correspondera manchando sua vida com crimes e hediondos atentados.

Sua vocação estava enfim solenemente revelada. Só com uma vida de orações, de rudes penitências e de obras de piedade poderia expiar a longa série de seus crimes e de desvarios, e lavar as hediondas nódoas de sua vida passada.

E quanto mais pensava e refletia, mais se fortalecia neste seu santo e inabalável propósito.