O Ermitão de Muquém/IV/II

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O Ermitão de Muquém por Bernardo Guimarães
Pouso Quarto, Capítulo II: O reconhecimento


Na manhã seguinte, apenas a primeira barra do dia clareou os horizontes, mestre Mateus tratou pressuroso de despertar sua gente para irem ter com o ermitão, antes que a turba dos romeiros o rodeasse e tornasse difícil o acesso junto dele.

— Vamos, disse ele tomando Maria pela mão, vamos procurar o santo ermitão, entregar nossas esmolas, e rezar aos pés da Santa Virgem. Tenho fé, minha pobre Maria, que Nossa Senhora dA Abadia há de curar-te desse teu mal e aliviar-me também os meus sofrimentos.

Maria, acostumada há longos anos a obedecer automaticamente a mestre Mateus, acompanhou-o silenciosamente sem nada compreender do sentido de suas palavras, e juntamente com Josefa se encaminharam para o lado da capela. O sol, que começava a aparecer, cintilava sobre o orvalho, que a noite peneirara sobre os tetos de coqueiro dos ranchos e as cobertas de couro dos carros dos romeiros, onde começavam a rumorejar a vida e o movimento como em um vasto colmeal.

A alguma distância da capela os três romeiros avistaram o virtuoso eremita de joelhos sobre a relva do adro em face da ermida com os braços abertos embebido em extática oração. O sol, que surgia por defronte deles, destacava vivamente os contornos da figura venerabunda do ermitão naquela piedosa e solene postura, e rodeando-o de esplendores o apresentava aos olhos dos romeiros como a imagem viva desses patriarcas do cristianismo cingidos com a auréola da bem-aventurança. A barba grisalha lhe descia ao peito e os grandes olhos pretos se volviam ao céu como que nadando em profundos êxtases. A tez crestada da fronte e do rosto era atravessada por longos e fundos sulcos, e a cabeça pendida para trás se lhe debruçava sobre os ombros alquebrados. Via-se, entretanto, que sua idade não podia ser muito avançada, e que aqueles prematuros caracteres de velhice eram resultado de longos sofrimentos e fadigas extremas.

Nem em sua figura nem em suas palavras se revelava desejo algum de impor à multidão e de atrair cultos e venerações de que se julgava indigno. Seu porte era modesto, e em seus olhos e em toda a sua fisionomia lia-se uma dor sincera, uma verdadeira e profunda compunção.

Mateus e suas companheiras, cheios de assombro com aquele espetáculo, cuidando ter diante dos olhos uma visão beatífica, pararam e o contemplaram em respeitosa distância sem se atreverem a interrompê-lo em sua mística ocupação. Apenas porém o eremita, terminada a sua oração, levantou-se, os nossos romeiros encaminharam-se para ele. Maria, ou antes Mateus por ela, levava em oferenda à Santa Virgem um rosário de grossas contas de puro ouro com uma pesada medalha do mesmo metal, em que vinha esculpida a imagem da Virgem, obra primorosamente trabalhada nas oficinas de Vila Boa.

Tinha esta medalha sido dada em outros tempos a Maria pela mãe de Gonçalo, que a tinha conduzido à pia batismal, e era em tudo semelhante e igual à que Gonçalo possuía. Mateus e sua mulher também levavam objetos de ouro do mais fino quilate, de que eram abundantíssimas nesse tempo as minas de Goiás. Mateus apenas se aproximou do ermitão, lançou-se-lhe aos pés procurando beijar-lhe as mãos e o hábito; mas este estorvou-o tomando-lhe as mãos, e disse-lhe com mansidão:

— Que pretendeis, irmão? eu não sou nenhum santo para merecer vossas adorações; sou um miserável pecador, que para nada valho, e que choro nestes ermos minhas enormes culpas. Ide prostrar-vos, continua ele apontando para a igreja, diante daquela que é digna de vossos cultos e dos de toda a humanidade, e a única que pode dar alívio a vossos sofrimentos.

Mateus levantou-se e passou às mãos do eremita os preciosos donativos que em cumprimento de suas piedosas promessas trazia a Nossa Senhora da Abadia. Antes porém de entregar o rosário e a medalha oferta de Maria, disse ao ermitão mostrando-lhe esta:

— É esta pobre mulher quem faz este oferecimento à milagrosa Senhora da Abadia, e é ela sobretudo quem mais precisa de seu valioso patrocínio pela triste doença que há vinte anos padece. Sim, virtuoso irmão, já vai para mais de vinte anos, esta infeliz rapariga caiu neste estado em que a vedes, ficando muda e sandia, ela que era a mais linda e mais viva menina de todo Goiás. Um rapaz desordeiro, que por desgraça havia então em Vila Boa, rapaz turbulento e espancador, que parecia ter no corpo uma legião de demônios, Deus me perdoe, e que se chamava Gonçalo...

— Gonçalo! interrompeu o ermitão estremecendo e encarando com atenção para Maria e Mateus.

— Sim, Gonçalo, bom irmão, prosseguiu este sem reparar na surpresa e crescente perturbação do ermitão: foi ele o causador da desgraça desta coitada, que aqui vedes. Em uma noite de folguedo em minha própria casa esse malvado assassino...

— Basta, irmão! exclamou o ermitão, e com o peito arquejante e a fronte inundada em suor frio estendia para Mateus os braços trêmulos. Por piedade, basta! eu sei de tudo...

Depois tomando precipitadamente o rosário de ouro, que Mateus ainda tinha nas mãos, examina com atenção a medalha e olha fixamente para Maria.

— Maria! exclama ele caindo aos pés da romeira, Maria, perdoa-me!

Maria, sobressaltada com aquele grito e aquela atitude do ermitão, fita nele os olhos com pasmo, e por sua vez exclama:

— Gonçalo!...

— Milagre! milagre! murmuraram com assombro Mateus e Josefa ao ouvirem aquela primeira palavra inteligível que depois de vinte anos Maria pronunciava; mas cheios de surpresa ao reconhecerem no ermitão o assassino de Reinaldo não sabiam o que pensar daquele extraordinário acontecimento.

— Maria! continua Gonçalo sempre de joelhos aos pés da romeira; ah! tu me reconheces ainda!... Maria, perdoa-me; ninguém melhor do que tu sabe que eu não sou nenhum santo, mas um miserável pecador, para cujos enormes crimes é pouca ainda toda a misericórdia de Deus e dos homens. Dize-me pois, Maria, por piedade, por amor daquela soberana e imaculada Virgem, que eu e tu veneramos desde a infância, e que guiou teus passos à ermida do deserto, dize-me, Maria, vieste aqui para me acusar ou para perdoar?...

Maria, adormecida há vinte anos naquele torpor de espírito que lhe paralisara todas as faculdades da inteligência, acordou subitamente ao som daquela voz, que outrora tinha ouvido entre pragas e sangue, e que agora maviosa e humilde implorava o perdão a seus pés. Surpreendida e atônita como quem despertava bruscamente de um profundo dormir, sua alma vacila alguns momentos como que procurando em vão reatar ao presente um remoto passado; mas enfim clareando-se-lhe subitamente as idéias como por uma inspiração do céu:

— Para perdoar-te, respondeu com voz calma e firme.

Os olhos do ermitão, até ali extintos e cravados no chão, encheram-se de luz e volveram-se para o céu.

— Eu vos dou infinitas graças, meu Deus, murmurou ele levantando-se dos pés de Maria, por me terdes concedido a inefável consolação de ouvir o meu perdão dos próprios lábios de minha vítima, e de vos terdes dignado baixar vossas vistas sobre este mísero pecador para torná-lo instrumento da vossa bondade e misericórdia.

Mateus e sua mulher, que atônitos contemplavam de parte aquela cena tocante e quase sobrenatural, como que custando ainda a capacitar-se do que viam e ouviam, possuídos a um tempo de timidez e respeito, até ali não se tinham atrevido a aventurar uma só palavra. Mateus por fim aproximou-se respeitosamente do ermitão e disse-lhe:

— E nós, Gonçalo, acaso já nos conheces? não te lembras mais do velho Mateus?

— Há muito já te reconheci, Mateus, a ti e a tua boa mulher. Mas desculpai-me; este inesperado encontro, este abalo tão profundo... ah! perdoai-me... preciso também de vosso perdão...

E como a emoção embargava-lhe as falas, ele abraçou-os chorando.