O Ermitão de Muquém/IV/I

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O Ermitão de Muquém por Bernardo Guimarães
Pouso Quarto, Capítulo I: Os romeiros


Já vinte anos eram passados depois que tinham tido lugar em Vila Boa os deploráveis acontecimentos que ficaram referidos no começo desta narração. O nome de Gonçalo, que todo o mundo julgava morto, já quase completamente esquecido, apenas existia na memória de alguns velhos, como uma tradição dos tempos passados, que eles se apraziam em referir aos rapazes para lhes servir de exemplo e escarmento dos maus costumes. É verdade que corria como certo entre os habitantes de Goiás que o comandante dos índios selvagens, que havia anos tinham assolado o norte da capitania levando o terror e a devastação até as imediações de Vila Boa, era um branco, que em razão de seus crimes se tinha refugiado entre eles para subtrair-se às perseguições da justiça; mas nem por sombra passava pelo pensamento de quem quer que fosse que o assassino de Reinaldo fosse o terrível caudilho dos Chavantes, que Itajiba fosse Gonçalo, do qual tinham como certo que já nem ossos existiam.

Maria, a gentil causadora e vítima ao mesmo tempo daquela triste catástrofe, existia ainda, mas sempre mergulhada naquele torpor profundo, naquela paralisia da inteligência que a tinha acometido há vinte anos, quando viu expirar Reinaldo picado a facadas pela mão de Gonçalo depois de porfiosa e desesperada luta. Ela existia, mas ninguém reconheceria mais na fisionomia desfigurada e macilenta da pobre idiota as feições tão delicadas e espirituosas da gentil e travessa Maroca. Órfã e sem abrigo, Maria teria morrido à míngua e ao desamparo, se mestre Mateus, que era seu padrinho, não a tivesse recolhido em casa, onde a tratava com todo o desvelo e caridade. Mestre Mateus e Josefa sua mulher fizeram os esforços que estavam ao seu alcance para restituir o uso da inteligência àquela infeliz criatura; porém cuidados, remédios, passeios, distrações, romarias e promessas devotas, tudo foi baldado, até que por fim perderam toda a esperança de vê-la restabelecida.

Começava então a derramar-se por toda a capitania de Goiás a grande fama das maravilhosas curas operadas pela intercessão da Virgem Nossa Senhora da Abadia, que era adorada em sua capelinha, erigida havia quatro ou cinco anos no lugar denominado — Muquém — à custa das esmolas e contribuições do povo, por um santo ermitão, o qual se dizia ter achado nesse lugar em uma lapa à margem do regato, que teve o nome de Córrego das Lágrimas, uma grande e perfeita imagem da mesma Senhora. Corriam na boca do vulgo a respeito desse ermitão muitas histórias e tradições diversas; mas ninguém sabia ao certo quem ele era, nem donde viera. Vivia sozinho em completo retiro subsistindo de esmolas, de frutos e legumes silvestres; trajava um hábito de algodão grosso tinto de negro, apertado por um cinto de sola, do qual pendia um grosso rosário de camândulas. Passava o tempo em contínuas penitências, orações e exercícios piedosos, e ocupado em zelar a pequena ermida, que com o auxílio dos fiéis tinha erigido à sua celestial padroeira. Demais, sua vida era simples, e despida do afetado espírito de austeridade desses que se querem inculcar como santos aos olhos do mundo e como tais serem venerados em vida; sua humildade era sincera, e seus atos de penitência e contrição eram filhos de uma verdadeira abnegação das coisas do mundo.

A imensa reputação da virtude desse santo homem, as prodigiosas curas que tinham sido operadas pela intercessão da milagrosa Santa, deram em breve tempo extraordinária voga às romarias ou peregrinações ao Muquém. A quinze de Agosto, dia em que se celebra a festa da Santa, uma imensa multidão, que acudia de todos os ângulos da capitania de Goiás e mesmo das capitanias vizinhas, vinha reunir-se em torno da capelinha do Muquém, e depor aos pés da Virgem, em cumprimento de promessas, piedosas oferendas e valiosos donativos. Nessa quadra as mal trilhadas e solitárias sendas, que dos diversos pontos da província conduzem à isolada ermida, viam-se apinhadas de viandantes de todas as classes, sexos e idades, que iam em devota romaria cumprir suas promessas levando preciosos presentes em dinheiro, escravos, gado, animais, objetos de ouro e prata, cera, paramentos, alfaias e mil outras coisas, com que ornavam e enriqueciam o santuário da miraculosa Virgem. Nessas estradas encontravam-se então a cada passo tropas e carros atulhados de víveres e efeitos de toda a espécie, numerosas cavalgatas, que lá iam em ruidosa e alegre comitiva, caravanas de homens e mulheres a pé conduzindo crianças e bagagens, ou acompanhando vagarosamente um carro puxado a bois, que com seu monótono chiar lá ia em lentas jornadas atravessando os chapadões.

Quem ignorasse o motivo desse movimento, julgaria achar-se nas vizinhanças de uma grande cidade. Também em Vila Boa não havia quem não quisesse ir em romaria ao Muquém beijar o hábito do virtuoso ermitão, adorar a milagrosa imagem, e implorar-lhe alívio a seus males.

— Nunca mais iremos à romaria do Muquém cumprir nossas promessas, Mateus? perguntava Josefa, a velha companheira de mestre Mateus, a qual, como todas as velhas beatas, tinha o mais vivo e ardente desejo de ir àquela romaria, e julgava que sua alma não se salvaria se morresse sem ter cumprido sua promessa. Há dois anos, continuou ela, que fizemos promessa de lá ir, e levar Maria, e até agora nada! Olha que Agosto está à porta, e nós não somos crianças para deixarmos os anos passarem assim. Já vai para vinte anos que a pobre Maria está naquele estado, muda e desmemoriada. Se Nossa Senhora da Abadia não lhe der alívio e não lhe restituir o juízo e a fala, não sei quem lhe poderá valer.

— Tem paciência, minha velha, responde flegmaticamente mestre Mateus; tu bem sabes que meus incômodos e negócios me têm atrapalhado essa viagem. Mas vai-te aviando, que este ano, custe o que custar, havemos ir ao Muquém com o favor de Deus. Também eu preciso bem apegar-me com a milagrosa Virgem a ver se me dá alívio a esta maldita gota, que me atormenta, e que já nem me deixa ir trabalhar à forja.

— E eu também, que há mais de seis anos não sei o que é lograr boa saúde.

Mestre Mateus, que apesar dos seus incômodos, que ele exagerava, e de contar já seus oitenta anos, era ainda vigoroso e ágil, como um velho ciclope, começou a tratar com atividade dos preparativos para a projetada romaria. O Muquém ficava a cerca de oitenta léguas ao norte de Vila Boa de Goiás, por caminhos desertos, baldos de recursos e por vezes infestados pelos Bugres das margens do Tocantins. A viagem era longa e não sem dificuldades e perigos. Mas nenhuma dessas considerações detinha os romeiros, que em seu devoto ardor expunham-se de bom grado a todas as fadigas, privações e perigos. Mestre Mateus aprontou um grande carro-de-bois, no qual tratou de encerrar grande quantidade de víveres, roupas, utensílios e outros objetos necessários para uma longa peregrinação de mais de dois meses através de sertões desertos e inteiramente baldos de recursos.

A caravana de Mestre Mateus, que se compunha dele e sua mulher, de uma filha casada, Maria, e mais dois camaradas, pôs-se a caminho em princípios de Julho, e tangeram alegremente pela estrada do Muquém o seu pesado carro rodeado de esteira de taquara e toldado de couro, que por espaço de dois meses lhes tinha de servir ao mesmo tempo de habitação e de veículo por aquelas desertas regiões.

Os carros puxados a bois, com seu eixo móvel, pesados e vagarosos, são por certo grosseiros veículos, que bem denunciam o atraso dos meios de condução no interior do nosso país. Mas talvez por isso mesmo que revelam a infância da indústria da viação, tem um não sei quê de primitivo e poético, que enleva a imaginação. Eu nunca pude ver sem um singular e indizível sentimento de melancolia essas grandes e pesadas máquinas cobertas de couro, arrastadas vagarosamente por vinte e mais bois, quebrando com seu chiar agudo e monótono como o canto da cigarra o silêncio das solidões, atravessando os desertos em lentas e peníveis jornadas. São casas ambulantes, que muitas vezes vão transpondo para grandes distâncias famílias emigrantes com todos os seus haveres, seus móveis, animais e aves domésticas. Logo que o sol descamba do meio-dia fazem alto à beira de qualquer córrego, onde haja abundante pastagem, disjungem os bois, e aí estabelecem durante a metade do dia e durante a noite uma cômoda e agradável vivenda, qual se continuassem como sempre sua vida simples e uniforme. O rio lhes fornece água fresca e por vezes peixe abundante e saboroso; no mato acham mel, a caça e o palmito; a criança embala-se em seu berço à sombra do toldo do carro: em roda deste mugem as reses, vagueiam aves caseiras, e reina movimento, ruído e alegria como no lar doméstico.

Assim iam os nossos romeiros, pelo que depois de uma viagem vagarosa, mas alegre e sem acidentes, chegaram enfim poucos dias antes da festa ao vale triste e retraído em que se achava edificada a capelinha de Nossa Senhora da Abadia. Já aquele sítio ermo e sem habitação alguma durante o resto do ano se ia transformando em uma pequena cidade de barracas, carros e ranchos de capim ou palhas de coqueiro alinhados e formando ruas freqüentadas por uma multidão de romeiros, que afluíam de todas as partes. Depois de ter escolhido o lugar em que deviam plantar sua tenda rodante, mestre Mateus tratou de fazer um apêndice a ela formando com os arreios do próprio carro uma barraca coberta de folhas de coqueiro, e aí estabeleceu-se com sua família de romeiros.