O Esqueleto (Victor Leal)/IV

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O Esqueleto por Victor Leal
Capítulo IV: Ele


Naquela noite o Satanás não tinha muita pressa em encontrar-se com o seu real discípulo de armas. Sabia-o sossegadamente em lugar seguro, em uns amores desses que só fazem correr perigo à bolsa dos galantes.

História escandalosa de momento, grandemente comentada pela corte, onde a Domitila intrigava, a tal paixão do príncipe era, entretanto, cousa muito honesta.

Ficava para longe, para o Valongo.

Fora ali que uma companhia de saltimbancos, recentemente chegada da Europa, erguera a sua tenda, uma grande barraca de lona sobre sarrafos de pinho. A companhia compunha-se do velho saltimbanco Vampa, que se apregoava muito entendido nessas cousas de teatro e chegava até a compor pantomimas lisonjeiras e bajuladoras, em homenagem a qualquer fidalgo endinheirado. Compunha-se mais de Zabanila, esposa de Vampa, cigana nostálgica das suas terras do Oriente, onde a brisa tinha o perfume do sândalo e o beijo dos homens tinha mais volúpia, mas em todo o caso sempre obediente ao marido e pronta a aceitar o rendoso amante que este lhe indicava. Compunha-se também de seis cavalos, um elefante e três comparsas.

O Vampa, empresário da companhia e autor dramático nas horas vagas, como Shakespeare, Moliêre e Gil Vicente, era um tipo bem falante, vocalizando as sílabas, arteiro e manhoso, cheio de invenções para atrair o público, e gostando de se acercar das rodas de fidalgos onde encontrava os amantes para a mulher e os parceiros para a jogatina.

Chegado aqui ao Rio de Janeiro, fez logo grande escândalo com uns anúncios nunca vistos, que só ele seria capaz de imaginar: sujeitos de zabumba com o letreiro do espetáculo a zabumbar por todas as ruas da cidade. O povo não entendia o letreiro, porque não sabia ler, mas isto não fazia mal porque adivinhava. E o circo do Valongo tornou-se logo o rendez-vous noturno da gente alegre que lá ia, principalmente para aplaudir a Zabanila. Ela resistia, porém, a todas as aclamações. Fazia-se muito séria. E os despeitados souberam em pouco que a requestava e possuía quem muito alta e poderosamente mandava naquele tempo.

Por isso o Satanás não se apressava muito em ir buscar o jovem discípulo governante. Por isso, e porque desprezava o Vampa que, ao em vez de procurá-lo para intermediário tivera o arrojo de meter o d. Bias no negócio.

Vagaroso de andar por aquela lama das ruas, ele chegou, entretanto, e bateu três pancadas maçônicas na porta traseira.

- Entre! gritaram-lhe.

Levantou a aldraba, empurrou a porta e achou-se num pequeno aposento com paredes de tábuas mal juntas, onde d. Pedro bebia com Zabanila e Vampa, e ria-se a bom rir de umas cousas que lhe dizia uma esquálida cigana feiticeira, com um corpo de pergaminho enrugado sobre os ossos.

- Vieste a propósito. A Mãe Velha estava aqui dizendo que eu havia de ser duas vezes rei e de morrer envenenado, sem cetro, nem coroa, como um qualquer pobre diabo!

E acrescentou:

- Pergunta-lhe pelo teu destino. Talvez ela nos diga o teu futuro e pelo menos metade desse misterioso passado, que tu gostas de esconder. Eu gosto de rir.

- Pois fala, velha feiticeira! disse o Satanás, sentando-se e estendendo a mão esquerda à cigana.

Esta debruçou-se sobre a mesa, gastou uma longa pausa no exame, e depois, fitando alternativamente o príncipe e o escultor, sentenciou:

- Para quê? sabem melhor vocês dous, porque um, não sei qual, tem de morrer pelas mãos do outro.

- Ora!

E d. Pedro levantou-se em toda a altura robusta do seu porte elegante, senhoril e belo.

- Tolices de velha! disse. E, voltando-se para o Satanás, acrescentou: - Vamos.

Partiram.

Pela noite escura e chuvarenta, seguiram os dous, um ao lado do outro, silenciosos, quase apreensivos com a lúgubre profecia da velha feiticeira, que o Vampa, entretanto, surrava lá no Valongo para que ela não fosse em outras vezes dizer cousas desagradáveis aos visitantes, que pagavam bem e não deviam gostar de semelhantes asneiras.

- Envenenado! Sem cetro e sem coroa! rosnou o príncipe como que a concluir uma meditação. E acrescentou: - Tu acreditas em feitiçaria, e pensas acaso que a previsão humana pode rasgar o tenebroso véu do futuro?

O escultor teve um gesto incerto de dúvidas, e murmurou um - talvez.

- Eu acredito, preciso acreditar, afirmou d. Pedro.

E, ali no campo de Santana onde estavam, parou em compostura elegante de homem que posa para estátua.

- Escuta! ordenou violentamente numa grande voz vibrante de comando. - Eu sou um infeliz. Não nasci para estes tempos sossegados de agora. Pela minha imaginação perpassam de constante os vultos desses heróis antigos que fizeram o mais nobre da minha ascendência. E eles fizeram tanto que nada mais tenho a fazer. Entretanto eu quisera ser o construtor de um grande povo...

E, depois de uma longa pausa, durante a qual, de braços cruzados, ele parecia a sombra de Napoleão, visitando a sepultura de Santa Helena, acrescentou:

- Vês, Satanás! Fervilha-me dentro das artérias o sangue dos heróis. É preciso acreditar no horóscopo das feiticeiras porque elas me predizem sempre um desses futuros tenebrosos, tão cheios de desgraças, que só podem pertencer aos valentes lidadores do progresso humano.

E disse mais, visionariamente:

- A história - o sagrado tribunal da inquisição, onde comparecem as sombras dos reis - há de me julgar. Pouco me importa a sentença. Eu quero ser julgado. Ela dirá que eu fui despótico e brutal. Mas a mim nunca deram educação. Deixaram-me crescer como esses animais bravios da floresta que só conhecem a lei de seus apetites e para quem a luta é a própria vida. Não posso ser melhor do que me fizeram. Tenho, preciso ter, essa independência selvagem do leão que a nada se curva e triunfa sempre. E sinto-me bem, assim como sou. Hei de cumprir o meu destino todo inteiro de homem que nasceu para as altas empresas legendárias!

E mais baixo, confidencialmente e quase triste:

- Ouve-me, Satanás! Eu sou um infeliz.

Fez-se então um longo silêncio, merencório e fúnebre como a antítese dos grandes que se confessam pequeninos.

- E tu? falou o príncipe galhofeiramente. - Lembra-te que um de nós duos tem de morrer pela mão do outro, conforme disse a feiticeira.

- Elas mentem às vezes. Em todo caso mais vale morrer de mão de amigo.

- E tu és de verdade meu amigo?

- Que pergunta!

- Sim. Faço-te confidente de todos os meus planos. Melhor do que ninguém tu sabes o que eu penso sobre as cortes. Tu sabes que não posso aturar essa canalha de pairadores letrados, que quer deitar leis ao meu orgulho e a quem meu pai se entrega com toda a moleza do seu caráter. Mas...

- Eu o traio, porventura?

- Não. Mas tu me aborreces, porque te fazes necessário demais. A tua dedicação enfarta-me como a festa insistente dos rafeiros.

- Ora. O príncipe bem sabe que Zabanila é minha inimiga. Não deve, pois, ligar importância no que ela diz, nem permitir que esta cigana de mau olhar queira torná-lo o instrumento das suas vinganças pessoais.

- Sim. Falemos de Zabanila. Todo o ódio que dedicas à pobre rapariga consiste em não seres tu o descobridor daquela pérola.

- Pérola rachada!

- Que importa! Eu insubordino-me e quero emancipar-me da tutela que tens exercido sobre todos os meus amores.

- Revolta de criança que prefere o pão preto das estrebarias ao repasto das mesas do castelo!

- Não, Satanás! É o meu orgulho. Eu quero conquistar uma mulher por mim mesmo. E posso garantir-te que vou em bom caminho.

- Faz bem. Eu velarei, entretanto, sobre os seus dias, como esse cão rafeiro de que falou há pouco, e que tanto o incomoda com as suas carícias.

- Não. Ordeno-te que me deixes só nesta aventura. E, olha, ela não será muito prolongada. Daqui a três dias partiremos para Santos. São, pois, três dias de liberdade que te peço apenas.

- O príncipe ordena.

- Pois bem, então separemo-nos.

E os dous se despediram um do outro, mergulhando nas trevas os seus nobres vultos fidalgos.