O Gaúcho/IV/VIII

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Embora seja domingo, as ruas de Piratinim estão desertas. Os habitantes recolheram-se fugindo aos raios abrasadores do sol.

Faz um calor de sufocar.

O céu tem o lívido azul de uma lâmina de aço. Algumas nuvens brancas e densas que surgem no horizonte parecem estanhadas na atmosfera pesada e baça.

A trechos passa uma lufada ardente, como o bafo de uma fornalha. Lânguidas e flácidas pendem as folhas das árvores, crestadas por esse respiro do deserto. Os pássaros emudecem; o gado bufa, e toda a natureza anseia como opressa por uma angústia inexprimível.

Os peões, vaqueanos da campanha, pressentem a aproximação do pampeiro.

A essa hora, Lucas, presa de viva inquietação, percorria de uma extremidade à outra o corredor da casa. Quando passava pelo quarto da filha, insensivelmente abafava os passos, e escutava na porta, com a sofreguidão de perceber qualquer rumor. Chegado à entrada da varanda, onde terminava o corredor, parava um instante e deitava um olhar oblíquo à Maria dos Prazeres, que estava no canto habitual da janela, a cochichar com a cunhada.

Depois de uma pausa, em que se manifestava bem claramente a oscilação de seu espírito entres os sentimentos encontrados que o agitavam, continuava o interrompido passeio.

O furriel tinha envelhecido anos nesses poucos dias, decorridos depois da fuga do chileno. Essa tenacidade que nenhum revés abatera nunca, antes carecia da luta e do perigo para não consumir-se, não pôde resistir ao golpe que sofrera com a desgraça da filha.

Fora ferido na honra, que é o cerne da raça gaúcha, altiva e cavalheiresca. O extermínio da família inteira não o esmagaria, como a vergonha atirada à sua face e na pessoa da filha a quem ele adorava.

O corpo direito e inflexível do furriel vergou ao peso daquela desgraça; os pesares sulcaram seu rosto abrindo rugas profundas; até a voz estrepitosa que no formidável diapasão parecia condensar todas as energias dessa organização, mostrava ter-se espedaçado no grito da dor, e se tornara rouca e surda.

Desde a noite fatal, Lucas evitava de encontrar-se com a filha, a qual por seu lado, sentindo a família retrair-se, se refugiara nessa esquivança, para entregar-se completamente a seu infortúnio.

Naquele dia, porém, o amor do pai, até então subjugado pelo pundonor do soldado, reagiu. O furriel pensou que a filha também sofria, e teve pena dela. Ao mesmo tempo uma idéia sinistra relanceou em seu espírito.

Lembrou-se que no momento de sua alucinação, quando se arrojara sobre Catita para traspassar-lhe o coração, a faca do Canho, caindo no chão, se escondera sob a fímbria do vestido, e ali ficara. Através do horror que ainda lhe inspirava aquele ímpeto homicida, ele via o olhar morno da moça fito na ponta do ferro; e o sorriso de escárnio com que ela parecia despedir-se da existência.

Muitos dias tinham passado depois daquele acontecimento; e era natural que o tempo houvesse apagado no espírito da moça qualquer pensamento funesto. Todavia o furriel estava inquieto e a custo continha sua impaciência.

Não se animando a bater à porta do quarto e chamar Catita, adiantava-se disposto a informar-se com Maria dos Prazeres do que fazia a filha. Mas o pudor de seu profundo ressentimento o tolhia, receoso de mostrar-se fraco diante da mulher e da irmã.

Afinal, não pôde resistir, e avançou até ao meio da varanda.

— Onde está ela? disse com voz soturna.

— Lá no quarto, respondeu a mulher.

— Fazendo o quê?

— Chorando. Que mais? tornou a Maria dos Prazeres levantando os ombros.

— E... e a faca?

— Que faca, Sr. Lucas?

O furriel pôs os olhos na mulher, surpreso de que ela não o compreendesse, e afastou-se logo sem responder.

— Sabe, comadre; o homem não anda bom, não! Depois dessa desgraça, parece que lhe virou o miolo.

— Não é para menos! acrescentou a Fortunata.

O pressentimento de Lucas não o enganava; o perigo que pressagiava seu coração de pai era real.

Catita, sentada no seu quarto, contemplava justamente a faca do Canho, esquecida a um canto desde o dia em que seu pai a ameaçara. Naquela manhã, no meio das tristes cogitações que a assaltavam de novo, seu olhar percebera na sombra a cintilação do aço.

Foi o luzir de uma esperança.

De que lhe servia a ela a vida senão de sofrimento e vergonha? O assomo de orgulho que no primeiro instante a excitara a ponto de considerar a sua desgraça como uma glorificação do amor, abateu-se. O homem por quem se perdera, aparecia-lhe agora no seu verdadeiro aspecto, como um sedutor vulgar.

Ao mesmo tempo, pensava que sua falta a tornara um suplício constante, senão um opróbrio, para aqueles que mais a queriam. Viva, eles a desprezavam; morta, haviam de chorá-la e, quem sabe, talvez lhe perdoassem.

Sua consciência como um juiz severo a condenou, e ela aceitou consolada essa expiação, que seria o termo de seu martírio. Resolvida a realizar imediatamente seu pensamento, ajoelhou-se diante de um registro de Nossa Senhora. Sua oração foi breve; ela sentia a impaciência do desespero.

Apanhando a faca, apalpou o lindo seio para dirigir o golpe pela palpitação, e atravessar logo o coração. Apoiou o ferro na ombreira da janela e se atirou sobre, para cravar nele o peito.

Mas estacou trêmula.

Ouvira o relincho argentino, que outrora lhe anunciava a chegada de Manuel. Absorta na emoção daquele acontecimento, e numa vaga expectação, ficou a moça por muito tempo imóvel, na mesma posição em que a surpreendera o incidente.

Um sorriso de júbilo despontara em seu lindo semblante fanado pelas lágrimas. Por que voltava Manuel, a quem não esperava mais ver? Ela sabia que o gaúcho só tinha em Piratinim uma coisa que o prendesse: era seu amor.

Como o frouxo vislumbre de uma alvorada que se desprende a custo das sombras da noite e de repente some-se no seio da procela, assim desvaneceu-se o sorriso nos lábios da moça.

— Não! balbuciou. Ele não pode mais amar-me!... Nem eu a ele...

De novo seus olhos se embeberam no espelho da lâmina de aço, e sua alma refugiou-se na idéia de morrer.

— Se ele quisesse matar-me!

Nesse momento bateram com força à porta. A moça conheceu a voz de seu pai, que dizia:

— Abre, Catita!

Depois de um instante de hesitação em que a moça perscrutou debalde a razão desse chamado do pai, e da sofreguidão alegre que denunciava sua voz, ela ocultou a faca embaixo do travesseiro da cama e abriu a porta.

Lucas entrou de um ímpeto, e travando das mãos da filha, disse-lhe açodado:

— Ele está aí! Veio para se casar contigo! Assim é como se nada tivesse acontecido!... Não vês como eu choro de alegria?... Há de ser hoje mesmo, agora, neste instante. Já se mandou avisar o padre. Vai te vestir. Não te demores.

Catita ouvia o pai de surpresa em surpresa. As palavras de Lucas a arrebatavam a tal ponto à realidade de sua triste posição, que ela não se animava a interrompê-lo para pedir-lhe uma explicação, temendo que a ilusão se desvanecesse, e sua alma fosse de novo precipitada no desespero.

Foi quando seu pai terminou, que lhe escapou dos lábios essa exclamação:

— Então ele ainda me quer?

— Pois duvidas?

— Depois do que houve?

— Por isso mesmo!... Anda, veste-te.

Desta vez a moça pensou enlouquecer. Lucas saiu deixando-a naquele pasmo de uma angústia cruel.