O Garimpeiro/VII

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O Garimpeiro por Bernardo Guimarães
O Sacrifício


No outro dia Lúcia acordou, ou antes levantou-se, pois bem pouco dormira, cheia de sustos e de tristes pressentimentos; mas procurou ocultar do melhor modo que pôde suas inquietações, e premunir-se de força e resolução para afrontar os novos embates que a ameaçavam. Por um lado a atormentava a posição extrema em que se via colocada pelas instâncias do pai, posição de que não via outro meio de escapar-se, senão rendendo-se à discrição ou por meio de uma confissão, que, em vez de aplaca-lo, atrairia sobre ele a cólera de seu pai. Por outro lado a torturava a cruel incerteza em que se achava a respeito da sorte de Elias, do qual nem notícias tinha, posto que já tivesse findado o prazo de dois anos, dentro do qual prometera voltar ou dar notícias suas. Pensava na distância imensa que os separava, nos imensos perigos que o rodeavam por aqueles sertões infestados de assassinos e salteadores e infeccionados de epidemias mortíferas, e a esperança a abandonava, e sua alma se entregava a um desalento mortal.

Estava extremamente pálida e triste; liam-se no semblante os vestígios de uma noite velada no sofrimento, mas em sua fisionomia como que transluzia a altivez de uma resolução inabalável.

O Major, que espiava com impaciência o momento em que Lúcia despertasse, dirigiu-se a seu quarto, logo que a sentiu levantada.

—minha filha... mas estás tão pálida e desfeita! ! ... estás sofrendo alguma coisa?

— Nada, meu pai... é um incômodo passageiro. Sempre que me deito tarde, passo mal.

— Ah! não admira; não estás acostumada a estas palestras e folguedos até alta noite.

— É verdade, meu pai; e quanta saudade não tenho da nossa boa vida da roça! ... quando voltaremos para lá?

— Não sei dizer-te. Talvez breve, talvez nunca.

— Nunca! ... como assim, meu pai?

— Para falar-te com franqueza, isto depende de ti; está em tuas mãos.

— Em minhas mãos? ... explique-se meu pai; cada vez o entendo menos.

— Sim; de ti e só de ti depende isso.

— Não posso saber como?

—senta-te aí e escuta-me; tenho coisas importantes a dizer-te.

A estas palavras Lúcia sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo, e fechar-se-lhe o coração como a um sopro gelado.

Trêmula e pálida assentou-se na cama, enquanto seu pai puxava uma cadeira e sentava-se junto dela.

—minha filha— começou o Major, abaixando cautelosamente a voz, e quase ao ouvido de Lúcia— o que vou dizer-te, quisera poder ocultar-te para sempre; não quereria por nada deste mundo tornar-te mais aflita e triste do que te vejo há certo tempo.

— Pode falar, meu pai; Deus me dará coragem e resignação para tudo, seja qual for a nova desgraça que vem anunciar-me.

— Sim, é uma desgraça, mas que tu, com uma só palavra, podes converter em felicidade para todos nós.

— Deveras, meu pai? ... pois explique-se, que da minha parte estou pronta a todo e qualquer sacrifício.

— Em poucas palavras vou dizer-te tudo. Depois que deixamos nossa fazenda para vir especular neste garimpo, os meus negócios têm ido de mal a pior. Tenho-me visto forçado a fazer despesas que não posso comportar, e o rendimento, como terás podido observar, tem sido nenhum. Ultimamente uma sociedade em que tomei parte, não tendo dado resultado algum depois de enormes despesas, acabou de arruinar-me completamente, bem como a quase todos os outros sócios. Minha fazenda e meus escravos chegam apenas para satisfazer aos imensos encargos que contraí nessa malfadada empresa, e ficaremos por portas, se te não resolveres...

— A que, meu pai? ...

— A casar com o senhor Leonel.

— Ah! isso nunca! ...

Estas palavras escaparam ao peito da moça com espontânea e rápida explosão. O Major lançou-lhe um olhar severo e exprobrador.

Lúcia reportou-se.

—mas— continuou ela mudando de tom— que tem meu casamento com a sua quebra, meu pai?

—muito, minha filha. Leonel, sabendo que eu me achava nesses transes apertados, ofereceu-me espontânea e generosamente seus serviços e, o que é mais ainda, sua bolsa. Mas se recusas dar-lhe a mão de esposa como poderei aceita-los?

— Ah! meu pai, não me obrigue a semelhante sacrifício; por piedade! a miséria mil vezes! ... mas já não sei o que penso, nem o que digo... meu pai, tenha piedade de sua filha.

— Ah! Lúcia, minha querida Lúcia! ... pondera que não se trata somente de ti. Já não falo de mim, que estou velho, e que pouco me importa o modo por que passarei o resto de meus dias. Mas tua irmãzinha, tão linda, tão inocente, coitada! não terei a legar-lhe senão a miséria. Oh! e a miséria é tão triste para quem já viveu na abastança!

Tendo dito estas palavras o Major enxugou duas grossas lágrimas, que lhe rolavam pelas faces macilentas.

—meu pai! ... — exclamou Lúcia, pondo-se rapidamente em pé, e apertando convulsivamente as mãos uma na outra. Depois deixou pender a fronte, abaixou os olhos e uma chuva de lágrimas, que lhe brotavam das pálpebras ardentes, circundavam-lhe as faces, e caíram no pavimento aos pés do velho. Este também levantou-se profundamente comovido, e, sustendo— a nos braços, já ia quase desistir de suas pretensões. Mas a bela e nobre alma de Lúcia já tinha aceitado o sacrifício.

—tranqüilize-se, meu pai— disse ela com tom firme e resoluto, enxugando a última lágrima que lhe brotava dos olhos; aceito o marido que me quer dar, já que assim é preciso para felicidade sua e de minha irmã.

— O céu te abençoe, querida filha; nem eu esperava outra coisa da bondade de teu coração e da nobreza de teus sentimentos. Não te arrependerás, eu te asseguro: Leonel é um excelente moço, que saberá fazer-te feliz, e Deus abençoará teu casamento, porque o mereces.

—serei feliz! ... por certo! ... -murmurou Lúcia consigo; ao menos abreviarei o meu martírio.

— Posso, portanto, Lúcia— continuou o Major— assegurar desde hoje ao senhor Leonel que dás o teu consentimento? ...

—meu pai tem a minha palavra, e de hoje em diante pode dispor de mim, como lhe aprouver.

O pai saiu satisfeitíssimo com o resultado desta última tentativa, porque não sabia medir o alcance e a importância do cruel e doloroso sacrifício que acabava de impor a sua filha. Homem de alma fria, posto que boa, julgava que as paixões sinceras e profundas não existem senão nas novelas, e que os sentimentos da mulher não são mais do que caprichos da imaginação, que com o tempo se desvanecem.

Lúcia, acabrunhada sob o peso do sacrifício a que acabava de dedicar-se para a felicidade de seu pai e de sua irmã, foi sentar-se junto a uma mesa, e escondendo a cabeça entre os dois lindos braços nus, aí ficou por muito tempo abandonando o coração aos golpes da dor que o torturava.

A voz de Joana veio despertá-la.

— Sinhazinha, aqui está isto, que lhe mandaram entregar.

Lúcia levantou a cabeça e fitou em Joana os olhos úmidos de lágrimas. Joana entregou-lhe uma carta; Lúcia tomou— a, reparou no sobrescrito e um rápido estremecimento convulsivo lhe percorreu o corpo. Rasgou com a mão trêmula a carta e leu o seguinte:

“Minha Lúcia. Cá de longe, a mais de duzentas léguas de distância, participo do prazer que sentirás ao ler esta carta, pois nem um momento ainda duvidei da sinceridade e constância do teu amor. A fortuna, que aí sempre se me mostrou esquiva, sorriu-me aqui no Sincorá. Graças a Deus, tenho feito excelentes negócios. Enfim, Lúcia, já sou rico, ao menos para nossa terra. Não me é possível estar lá no prazo que te marquei, mas faço-te esta para tranqüilizar-te. Em breve lá estarei. Eu quisera ter asas e voar para junto de ti... Sou feliz, só as saudades me atormentam. Adeus, Lúcia; até breve. Teu Elias”.

Descrever o que se passava na alma de Lúcia, enquanto com mão trêmula e olhar desvairado percorria esta carta, é coisa que não cabe no possível. Uma vertigem se apoderou dela; apenas teve tempo para amarrotar depressa aquela carta fatal e esconde-la no seio. De pálida que estava, tornou-se lívida, os olhos se lhe escureceram, e teria caído da cadeira em que estava, se Joana, que ficara ao pé dela, não a tivesse amparado.

— Santa Virgem! exclamou assustada a rapariga, sacudindo— ªQue tem! que tem, sinhazinha? ...

Mas Lúcia ainda não tinha perdido o vigor de sua bela organização, e em poucos instantes voltou daquele breve delíquio.

— O que é isto, menina? ... o que é que está sofrendo? ... fale, não oculte nada à sua negra, exclamou a solícita escrava. Eu vou falar com nhonhô para mandar chamar médico.

— Não, Joana, não é preciso; não digas nada a meu pai, eu te peço. Isto passa já; foi uma vertigem, porque passei mal a noite; mas já estou melhor.

Ah! por que não chegou uma hora mais cedo aquela carta fatal? teria sido redenção daquela pobre alma que penava entre horrorosos martírios; teria aberto para ela um horizonte de esperanças e venturas. Mas naquela ocasião era como nuvem negra que acabava de escurecer para sempre o horizonte de seu porvir.