O Hóspede (Pardal Mallet)/I

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O Hóspede por Pardal Mallet
Capítulo I


Como no relógio da parede soassem quatro horas, Nenê, num movimento de desânimo, deixou escorregar-lhe pelo corpo abaixo o jornal que estava a ler distraidamente. Algum pensamento triste acabrunhava-a. Tanto que por sob as madeixas sedosas da franja adivinham-se umas rugazinhas pequeninas a franzir-lhe a testa, aproximando-lhe os sobrolhos levemente arqueados. Veio-lhe um gesto grande de inquietação e com o pezinho delicado batia febrilmente no assoalho. Depois o braço torneado e alvadio, nas curvaturas graciosas fortemente desenhado pela manga estreita do casaco, apoiou-se ao encosto da cadeira de balanço para suster mais comodamente a cabeça gentil dos traços finos numa pureza ideal de Juno. E dali seus olhos verde-azulados - imensos lagos de ternura a desafiar os pescadores do amor, volveram-se languidamente, absortos na contemplação daquele quadro holandês todo feito com a mansuetude da vida caseira.

A luz viva de um sol, que ao termo da viagem galopava ligeiro com pressas de pernoitar na grande hospedaria do ocaso, entrava francamente pelas janelas abertas clareando aquele salão de gosto antigo, de uma grande prodigalidade de madeiras severas e embaciadas, sem o falso brilho dos vernizes. No fundo escuro paredes forradas em imitação de grandes panos de carvalho embutidos em largos caixilhos de mogno; e a harmonizar-se com elas uma pesada mobília Luís XIV de altos espaldares cheios de obras de entalhe. Apenas como nota vibrante e alegre - o refrangir dos cristais e dos serviços de eletro-prata a rebrilhar no grande armário envidraçado; e no centro da casa a mesa elástica já convenientemente preparada para o jantar com a toalha alvejante e o branco luzidio dos pratos dentre os quais se erguia, a tocar quase no lustre bronzeado, a fruteira de bacará - pirâmide alaranjada que se terminava floridamente num grande ramo de crótons.

No meio deste espetáculo, como a imagem da vida, sonolenta nas paixões, petrificada em sua impassibilidade, o vulto nobre e altivo de d. Augusta. Sentada junto à janela oposta, em uma cadeira baixa a contrastar com a uniformidade da mobília, tendo junto a si uma pequena mesa de costura sobre a qual repousava uma cestinha de vime, entretinha-se em alinhavar umas camisinhas de criança que ia jogando no chão à medida que as aprontava. Suas mãos longas e delicadas de aristocrata moviam-se em grande volubilidade. E por sobre tudo isto a sua cabeça de velha que atravessou uma existência calma, nua de desgostos, conservando a sua pele acetinada, tendo apenas branqueado os cabelos ao suceder dos anos.

Uns cabelos formosos e bastos que penteava em grandes bandos por cima das orelhas às quais se suspendiam uns compridos brincos de charão.

E Nenê esquecia-se do tempo. Achava aquilo tão bonito. Vinha-lhe uma sensação boa de felicidade a beijar-lhe o colo quase nu sob o rendilhado do casaco. Encolhe-se toda na cadeira num gesto elegante de gata friorenta e deixou que o seu olhar boiasse a flux do lago de mansidões. Para que incomodar-se? Ela sentia-se tão bem naquele descanso do organismo inteiro. Demais não estava com fome. Não valia a pena inquietar-se por tão pouco. O jantar podia muito bem ser demorado um bocadinho. E deixou que a embalasse o oscilar da cadeira, seu pezinho delicado surgindo de entre as saias a desenhar-lhe os contornos sensuais da perna.

Voltara-se para as bandas de fora. Gostava do verde escuro das folhagens espessas, e achava graça na voz do vento a sibilar pelas ramadas. Além, no branco arenoso da alameda brincava o filhinho louro muito entretido em encher de terra os vagões de um pequeno trem. Estava tão bonito com a sua roupa azul de marinheiro e o rosto inteligente e rosado a enquadrar-se na moldura dourada de suas longas madeixas! E Nenê sorria-lhe mostrando-lhe os dentes alvos, toda embebida nesse espetáculo, com vontades de ir brincar também, de beijá-lo muito e muito, nuns grandes pruridos de maternidade.

Entretanto o relógio batera quatro e meia. D. Augusta levantara-se e reunia as costuras. A coisa não podia ficar assim! Era preciso dar-lhe uma decisão, e já que o Pedro não vinha, jantarem sem ele! Nenê protestava. Ainda poderiam esperar mais um bocadinho. Pelo menos até cinco horas. E novamente umas rugazinhas pequeninas franziram-lhe a fronte. Qual o motivo dessa desacostumada tardança? Ter-lhe-ia acontecido algum contratempo? Repassava na memória todas as possíveis eventualidades. Semelhantes perspectivas repugnavam-lhe. Em tais condições ela sempre receberia muito cedo a triste notícia. Mas voltavam-lhe visões fantásticas de desastres por mais que ideasse para afugentá-las uns pensamentos alegres. Veio-lhe então um grande desânimo, um abandono de si mesma. Que necessidade havia de preocuparem-na com estes assuntos! E forcejava em voltar ao quietismo de idéias em que se lhe absorvia a existência inteira.