O Hóspede (Pardal Mallet)/II

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O Hóspede por Pardal Mallet
Capítulo II


Ouvira-se porém o parar de um carro e os gritos alegres do menino que correra para o portão. Nenê debruçara-se na janela, intimamente sobressaltada, presa ainda daqueles pesadelos medonhos de suas cismas de havia pouco, querendo saber do que se tratava, receosa ao mesmo tempo de conhecer a realidade que podia muito bem não lhe deixar a zona vaga da esperança onde arquitetar um castelo de felicidades. O ver o marido que caminhava alegre trazendo o filhinho ao colo foi-lhe de um grande alívio. Respirou mais livremente, como se lhe tivessem tirado de sobre o peito algum peso que a oprimia. Correu ao seu encontro, desejosa de abraçá-lo logo e logo, de lhe fazer mil perguntas, de conhecer a causa de semelhante demora, cheia de contentamentos, feliz até com as suas primeiras apreensões que lhe faziam saborear com muito mais prazeres aquele beijo afetuoso que ia receber. E foi com a fisionomia assim animada, numa grande gentileza de movimentos, que ela se lhe ofereceu ao costumado ósculo vespertino.

No afã de abraçar o Pedro não reparara que ele vinha acompanhado por um outro homem; e ao vê-la - essa fisionomia estranha que divisava pela primeira vez - ficou muito perplexa, levemente ruborizada, não sabendo o que devia fazer nem como acolhê-la. Ao rápido relancear de olhos com que o examinara pareceu-lhe achar-se em presença de um amigo e julgou prudente dar-lhe um desses sorrisos benévolos de mulher bonita. De mais achou-o muito simpático, com a sua epiderme fina, olhar azul e cabelos castanho-claros. E como o marido lhe pegasse no rosto e a beijasse longamente nas duas covinhas da face fez-se de muito escandalizada. Mas o Pedro gostou desse movimento arisco de pombinha branca que limpa as penas e voltou-se para o companheiro com uma risada franca e jovial. A mulher tinha dessas coisas! Também a culpa era dele que não começava pelo princípio e estava de braços cruzados em vez de apresentá-lo!

E para obviar o esquecimento foi logo dizendo à moça que aquele era o Marcondes - o tal companheiro de colégio de que lhe falava tantas vezes. Então os dois cumprimentaram-se quase como velhas relações, conhecendo-se um ao outro por intermédio do Pedro, contentes de se verem, achando-se mais ou menos semelhantes às pinturas que deles havia feito o amigo comum. Agora Nenê examinava-o mais detidamente e agradou-se muito do seu aspecto correto com as roupas elegantes e os bonitos bigodes cuidadosamente retorcidos; e o rapaz por seu turno deixava-se prender pela atmosfera atraente de canduras que parecia circundá-la em suas formas graciosas de mulher bem feita.

Não havia porém tempo a perder! Era preciso quanto antes aprontar o quarto lá de cima do sótão porque as malas já estavam em caminho e chegariam de um momento para outro! E o Pedro entrou em explicações. Estava na rua do Ouvidor quando se encontrara com o amigo que naquele instante mesmo desembarcara de Pernambuco onde acabava de se formar, e andava à procura de um hotel. Ele entendera de seu dever não consentir em semelhante projeto, e trazê-lo para casa na qual se acomodaria muito bem porque o sótão tinha uma entrada independente. Além disto era questão de dias, apenas enquanto o Marcondes arranjava uma promessa de promotoria!

Esta resolução do marido surpreendeu-a algum tanto, se bem que já estivesse habituada a semelhantes inconsiderações de franqueza. Dentre todas as coisas preocupava-a essencialmente a forma pela qual a mãe receberia a notícia. Sabia-a muito cheia de etiquetas e de severidades no tocante a certos assuntos e de mais a mais de algum tempo para cá andava a evitar um choque entre a velha senhora e o marido. No final das contas e apesar dessa aparência de afabilidades em que viviam sentia haver de parte a parte um quer que fosse de hostil. Mas o mal já estava feito, não havia mais possibilidade de dissuadir o marido da idéia e a única obrigação pareceu-lhe o ajudá-lo na empresa.

Foi em tais disposições de espírito que ela dirigiu-se para o interior da casa a fim de ordenar as arrumações necessárias. Manobrou porém de forma a achar-se presente quando o Pedro apresentou o amigo a d. Augusta que, muito tem educada e gostando pouco de escândalos, contentou-se em corresponder-lhe com uma grande frieza. Mas tanto ele como o Marcondes, atarefados com as malas que acabavam de chegar, não se aperceberam disto. Ambos tratavam de acondicionar tudo aquilo da forma mais rápida possível, desejosos de se porem à fresca e com grande apetite porque tinham apenas tomado uma xícara de café ali no beco das Cacelas. E era então um desencontrado de opiniões, uma grande lufa-lufa que demorava ainda mais o serviço. Só depois de meia hora de contínuos e intermináveis vaivéns ficou tudo provisoriamente arrumado e eles puderam tirar as roupas que traziam e vestir os paletós de palha de seda com que compareceram à sala de jantar.