O Hóspede (Pardal Mallet)/IV

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O Hóspede por Pardal Mallet
Capítulo IV


O jantar prolongara-se muito, tanto que quando o terminaram já começava a anoitecer. Apesar disto porém o Pedro não quis que se alterasse o hábito contraído de tomarem o café lá fora na calçada. Demais contava aproveitar-se da ocasião para mostrar ao amigo o jardim que rodeava a casa e que lhe parecia muito bonito. E como d. Augusta não quisesse acompanhá-los porque o sereno lhe fazia dor de cabeça, Nenê teve ao princípio desejos de ficar junto dela, com tenções de preparar-lhe o espírito e evitar qualquer incidente desastroso. Mas a moça gostava tanto daquele pequeno passeio por sob as árvores, achava tão boa a estada ali na calçada a ver quem passava, que mudou de idéia e resolveu juntar-se ao grupo. O Pedroca, que começara a simpatizar muito com o Marcondes, abria a marcha, com uns grandes transbordamentos de alegria, querendo mostrar tudo ao seu novo amigo, falando-lhe principalmente do repuxo que espirrava água para cima, e achando muita graça no barulho que os calçados faziam na areia dos caminhos.

Chegados ao portão sentaram-se todos em umas cadeiras de ferro, que haviam trazido do jardim, e houve uma pequena pausa, um momento de silêncio durante o qual puseram-se a contemplar o espetáculo que se lhes oferecia. Lá longe, no princípio da rua do Matoso começavam a acender os lampiões. As luzes surgiam bruscamente do meio das trevas, enfileirando-se como soldados, naquele grande paradoxo do ângulo nulo formado pelas paralelas que se encontram no infinito. O calçamento claro e asseado ia tomando um aspecto elegante de bulevar. Era um grande rio marginado de arvoredos por onde se escorria brandamente a linfa humana. Com os seus vestidos brancos e as risadas argentinas, por entre frases murmuradas aos ouvidos, subiam e desciam lentamente grupos de moças que, numa grande familiaridade, convertida a rua em salão comum, trocavam cumprimentos de uma para outra calçada e entravam em grandes permutas de beijos quando se encontravam frente a frente.

Por detrás deles a atmosfera balsâmica dos jardins. Uma viração suave a farfalhar molemente no verde-escuro das folhagens, impregnando-se de odores bons ao passar pelas murtas e manacás floridos. Ouvia-se o ruído refrescante do repuxo. E dentre aquela mole de árvores e arbustos erguia-se com as suas arestas vivas e os cantos angulosos o vulto, esbranquiçado como um fantasma, da casa onde residiam. Em paralelepípedos de luz a projetarem-se através do jardim, iam-se uma a uma, clareando as janelas que, abertas todas inteiras em suas vidraças de batentes, despejavam de lá de dentro um bafo animado e quente de vida. Uma grande harmonia comunicativa se estabelecia entre quatro. Os estômagos cheios, sem as preocupações da vida do dia a dia, absortos em seus pensares, a refletirem sobre os sucessos do momento, calavam-se todos. Apenas o Pedroca dava-se ao trabalho improfícuo de uns movimentos, forcejando por subir ao colo do Marcondes, e como este o suspendesse e o pusesse a cavalo sobre a coxa, o menino interrompeu o silêncio com uma gargalhada de criança que bota o corpo para trás e deixa sair a alegria aos borbotões.

Entretanto o Valentim aparecera com a bandeja do café e o licoreiro, que foram colocados sobre uma mesinha redonda de ferro. Os dois acenderam os charutos enquanto Nenê servia o açúcar e passava-lhes as canequinhas. E quando concluíram os últimos goles, veio-lhes espontaneamente um suspiro de satisfação. A vida assim era tão boa! Mas a moça não concordava. Para os homens, talvez; mas para as mulheres, não! Eles examinavam aquilo superficialmente, não entravam em minudências, não sabiam quanto trabalho dava essa aparência de quietismo que os rodeava. E como protestassem, entrou em explicações. Só as criadas bastavam para fazer a gente criar cabelos brancos! Eram de uma má vontade e estupidez incalculáveis. Ocasiões havia em que se tornava preciso repetir uma ordem três e quatro vezes, e mesmo assim nunca saía coisa que prestasse! Se pudesse ver-se livre de toda esta cambada de vadios! Mas qual! Infelizmente ninguém podia dispensá-los! E além destas, muitas outras contrariedades! Só mesmo vendo era possível formar opinião a respeito!

Os dois riam-se. Era ela quem não sabia ajuizar claramente os fatos e consideravas falsamente em suas exterioridades! Com efeito devia-lhe parecer muito boa e agradável aquela aparência de liberdade de que gozavam! Mas em troca disto quantas obrigações! Se ela pudesse formar uma idéia a respeito veria que a vida, para os homens, era muito mais atrapalhada e cheia de contrariedades, ao passo que as mulheres tinham apenas para as atormentar aquelas ninharias domésticas de que elas gostavam, no final das contas! Nenê, porém, teimava em suas proposições e amontoava argumentos sobre argumentos para demonstrar que na partilha do mundo o seu sexo tinha ficado com todos os dissabores, enquanto ao outro havia cabido o lado brilhante e fácil. E que não a atrapalhassem nem lhe quisessem fazer acreditar no contrário! Não admitia réplicas! Era força concordar com as realidades! Os homens que deixassem de se adornar com penas de pavões e dessem o seu ao seu dono! Não pedia nada demais!