O Hóspede (Pardal Mallet)/VI

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O Hóspede por Pardal Mallet
Capítulo VI


Já ia porém se fazendo tarde e o Valentim viera preveni-los de que o chá estava na mesa. Com grande pena de Nenê, que queria ainda tocar mais uma peça, dirigiram-se todos para a sala de jantar e o Marcondes, para se fazer amável, ofereceu o braço a d. Augusta. Havia entre todos uma alegria comunicativa, e a boa senhora, a pesar seu, sentia-se arrastada na correnteza de simpatias que se dirigiam ao hóspede tão bruscamente aparecido. Mas o aspecto severo da sala de jantar com o seu papel e adornos escuros, limitando a luz do lustre a um pequeno círculo no centro da casa, fez esfriarem-se quase aqueles primeiros ímpetos. Não se respirava mais aquela atmosfera saturada pelos acordes do piano e da flauta. A mudança de aposento transtornara a direção das correntes magnéticas, e o abandono dos lugares já aquecidos e aos quais se haviam habituado parecia ter também contribuído para semelhante sucesso. Demais, pelas janelas abertas entrava um ar frio, fazendo experimentar umas sensações más de isolamento, por sob as roupagens.

Foi pois quase cerimonialmente que eles tomaram assento à mesa nas mesmas posições que haviam ocupado ao jantar - d. Augusta à cabeceira, o Pedro e Nenê à direita, o Marcondes e o Pedroca à esquerda. Cada qual atento a si mesmo, começaram a tomar o chá que fora servido em xícaras delgadas como folhas de papel, cobertas com essas pinturas burlescas da chinesaria. O silêncio prolongava-se, todos à procura de uma frase para dar princípio à conversa, não a achando e parecendo-lhes que a cada momento aumentavam as dificuldades. Como porém estivessem a comer as infalíveis torradinhas com manteiga forcejassem debalde para não fazer barulho ao mastigá-las, o Pedroca riu-se muito, mostrando por entre os lábios rubros e úmidos de chá os dentinhos brancos e ainda não completamente unidos. Todas as noites era sempre essa história, e o menino julgava não ter tomado o chá com prazer quando não dava essa risadinha e não dizia que a mãe parecia um ratinho. Sempre acolhiam com grande entusiasmo a caçoada da criança e era esse o ponto habitual de partida para a viagem dos felizes horoscópios.

Mais do que tudo isto, era em tal momento um ótimo meio de entabular novamente a conversação e o Marcondes aproveitou-o. Desde que o vira, quando ele fora ao portão para recebê-los, que achara no Pedroca um arzinho de inteligente e decidido! Sim senhor, a criança prometia! O Pedro aprovava muito com a cabeça estas frases. Era essa também a sua opinião. O filhinho desde pequenino revelara grande presença de espírito e um gênio empreendedor! Não podia estar parado um só instante e o seu grande prazer era ir lá para o fundo do quintal onde levava uma porção de tempo a remexer na terra fazendo buracos com a colher de pedreiro das plantações. Dentre tudo achara-lhe muita graça uma ocasião em que o encontrara a querer pregar na parede uma torneira quebrada que andava rolando pelo chão e da qual, quando terminasse o trabalho a que se entregava com tanto afã, e ele esperava ver sair água. E o Pedroca sorria-lhe maliciosamente, muito contente em que se ocupassem com ele, admirado porém de acharem graça numas coisas que lhe parcelam tão naturais, lá um pouco sonolento, a cabecinha loura encostada à beira da mesa, tendo ainda na mão um pedacinho de torrada.

E a conversa generalizava-se. Nenê voltara a tratar de música, elogiando muito o Marcondes pelo seu talento e facilidade em tirar qualquer pedaço. O rapaz fazia-se modesto. Não era tão habilidoso como parecia, até mesmo não sabia nada de música e tocava muito de ouvido! Também isto até em certo ponto desculpável na vida que levara lá em Pernambuco, onde nunca recebera uma lição, mesmo porque também não tivera tempo para isto, muito ocupado como andava sempre! Chegara mesmo a abandonar quase a flauta e fizera-se muito forte no violão, que era aí muito estimado nas pândegas de estudantes! Nenê mostrou então vontades de ouvi-lo ao violão.

Devia ser muito bom, sobretudo quando o tocador tinha boa voz. E como insistisse muito o Marcondes prometeu fazer-lhe a vontade. No dia seguinte, quando fosse a cidade, havia de procurar um, porque ao partir do Recife dera o seu a um amigo. Apenas d. Augusta não simpatizou muito com a idéia, achando a filha estouvada em fazer o pedido, atendendo a que o violão era instrumento de gente ordinária.

E como o Pedroca tivesse adormecido durante a conversa, um pouco zangado porque não se ocupavam mais dele, conservando ainda a atitude engraçadinha em que se pusera para ouvi-los, com a cabeça à beira da mesa reclinada sobre o bracinho esquerdo e um pedaço de torrada na mão, a velha senhora propôs que o fossem deitar. Então ela e a filha suspenderam a criança muito delicadamente a fim de não acordá-la e antes de se retirarem para o quarto deram boas noites, contando não voltar mais à sala. Todas as noites era aquilo mesmo e o Pedro que gostava muito de chá e tomava cinco ou seis xícaras antes de se deitar já se habituara a ficar sozinho, na debandada dos pratos, esvaziando o bule e acabando as torradas. Era então, nesse grande isolamento, sentindo atrás de si os últimos ecos murmurantes do dia que findava e a atmosfera abafada da casa lá fechada, que ele se sentia inteiramente feliz, quase sem aspirações, num embotamento de fantasias, todo entregue à elaboração sossegada de suas digestões burguesas.