O Hóspede (Pardal Mallet)/VII

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O Hóspede por Pardal Mallet
Capítulo VII


Ficava ali mesmo na sala de jantar a escada que conduzia ao sótão onde tinham preparado o quarto do Marcondes; e como se fosse fazendo tarde e o bule já estivesse esvaziado o Pedro lembrou a oportunidade de irem deitar-se. Antes porém queria acompanhar o amigo até o seu aposento para ver se faltava alguma coisa e de que modo haviam executado as suas ordens. Demais, era este o seu primeiro encontro depois da formatura de ambos no externato do Pedro II. Havia cinco anos que não se viam, comunicando-se apenas por meio de cartas, na continuação, através da vida séria, daquela grande amizade do colégio uma amizade cheia de veemências amorosas, toda feita com ternuras infantis que iam a caminhar pela existência afora. E eles agora tinham tanta coisa a se dizerem mutuamente - coisas que não se escrevem nas cartas, essas grandes ninharias de cada dia que fazem a vida inteira, que determinam-lhe todas as fases, a cujo instigamento a gente vai andando pelo mundo adentro e que entretanto formam um todo caótico, reconstruível apenas nessas longas conversas de recordações, quando cada um vai trazendo seus parcos subsídios a aviventar a memória.

Nos primeiros transbordamentos, naqueles abraços efusivos feitos com os juros de uma amizade capitalizados durante anos, e depois, quando entre eles andava toda a nova família do Pedro - Nenê tão amorosa e o Pedroca tão vivo e inteligente com a sua cabecinha loura, quando sentiam a moderar-lhes os ímpetos o vulto cerimonioso e gelado de d. Augusta, eles se haviam retraído, guardando para mais tarde as mútuas confidências, para quando pudessem estar mais livremente, em ceroulas e camisa, sem a etiqueta enfadonha das gravatas e colarinhos para dificultar-lhes os movimentos. E trataram de aproveitar a ocasião, planejando uma noite comprida de conversas, precavendo-se por causa das dúvidas com urna garrafa de conhaque e o açucareiro. Principalmente para o Pedro, tudo isto tomava as proporções de uma enorme patuscada. Como havia de ser boa aquela noitada longa de palestras entremeadas com uns grogues fracos e açucarados, bebidos simplesmente para molhar a garganta! E todos os seus instintos represados de boêmio vinham-lhe a flux da pele, enquanto o Marcondes tomava uns modos distraídos de quem lá está farto de semelhantes esbodegações.

Logo de principio não quiseram, porém, entrar no assunto. Precisavam retemperar-se nas evocações daquele passado comum que haviam vivido juntamente - espécie de embasamento por sobre o qual devia assentar o edifício do que iam dizer. Falaram dos companheiros, dessa grande turma de cento e tantos rapazes que tinham entrado no primeiro ano, que a pouco e pouco fora depurando-se, deixando em cada exame um pedaço de si mesma, e que chegara ao sétimo apenas reduzida a oito companheiros. Três estavam na academia de medicina, um em direito e dois na politécnica. Os outros andavam aí pelo mundo, uns já formados, outros empregados públicos, outros caixeiros, e tantos outros mais já perdidos de vista, disseminados pelas províncias! E iam assim, relembrando nomes. Cada um trazia umas grandes recordações - lembranças de outros tempos e de outras alegrias. Rememoravam fatos - os castigos que tinham sofrido, os grandes temores do fim do ano, quando o exame vinha se aproximando e oscilava-lhes pela imaginação o vulto fantástico e aterrador de uma bomba.

Agora, completamente despreocupados das intrigazinhas e pequenos sucessos de então, julgando serenamente os acontecimentos, eles surpreendiam-se de encontrar tanta coisa boa, aí nos tempos buliçosos e alegres das suas primeiras mocidades. Tinham saudade. Saudade dessa vida de meninos! Saudade de toda essa gente que os cercara então! Se eles pudesse revivê-las - essas quadras sorridentes das suas infâncias, ir novamente para o pátio arenoso do colégio jogar a barra com os companheiros, voltar do recreio esfogueados e exaustos, para recordar rapidamente as lições, ouvir de quando em vez o grito dos inspetores chamando-os à ordem e procurando contê-los nos seus ímpetos de crianças, por certo que não teriam dúvida em voltar atrás, em recomeçar a existência! Era tão bom aquilo tudo! Havia ali tanta alegria, tanto prazer! E a imagem desse colégio, onde eles tinham vivido os seus primeiros anos, surgia-lhes de entre as recordações, correta e grandiosamente, como um castelo suntuoso de fadas numa orgia honesta de alegrias santas.

E eles demoravam-se prolongadamente na reconstrução desses tempos idas, tendo talvez vontades de parar aí - nessa primeira pátria dos seus espíritos. Para aquém, para as bandas do presente, havia muita lágrima, muita tristeza e muito dissabor. E fizeram um silêncio grande, cada qual reconcentrado em si mesmo, esgravatando ainda um farrapo de recordação. Quais esses peregrinos que se abalançam para regiões ignotas e que lá do cabeço do monte derradeiro pairam um pouco o olhar para ver a imagem sagrada da casa paterna que se dissolve além, nas fímbrias nevoentas do céu, eles puseram-se a relembrar esse dia em que pela primeira vez vestiram a casaca das solenidades e, joelho em terra, cingiram à fronte aquele barrete branco, imaculado e puro das suas crenças e das suas virgindades. Depois... vinha a vida! E os dois olhavam-se mutuamente, tendo a pelejar-lhes nos olhos umas lágrimas de saudade, com vontade de revivê-lo novamente - esse passado de infâncias que haviam vivido juntos.