O Hóspede (Pardal Mallet)/VIII

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O Hóspede por Pardal Mallet
Capítulo VIII


De todas essas evocações do passado que eles tinham vivido juntos na grande efusão dos primeiros anos nascia-lhes um imenso bem-estar, uns redobramentos de e amizades que os reuniam em desejos enormes de comunismo. E os dois olhavam-se com exuberâncias de ternura, rearquitetando aquele edifício transposto da sua vida, com vontade de encontrá-lo novamente, saudosos desses tempos em que os prazeres lhes pareciam mais agradáveis, e não andavam cheios de preocupações, irrefletidos sobre o mundo, às soltas pelos campos sem fim da fantasia. Agora eles tinham inúmeras responsabilidades, eram homens feitos a principiar a vida séria; impunha-se-lhes a obrigação de construir umas pousadas - casulos tirados do próprio organismo, onde pudessem descansar mornamente, na grande elaboração biológica da família, às voltas com a atmosfera opressora do convencionalismo. E essa imagem alegre dos tempos que foram rejuvenescia-os, deixava que eles se embalassem as virações boas do ideal, blindava-os contra todo o meio opressor que os circundava.

Veio-lhes então imperiosamente a necessidade de completarem aquele quadro, de dizerem-se um ao outro tudo quanto lhes havia sucedido, esse desfilar peripecioso dos dias no lento trabalho do gota a gota que faz os estalactites das cavernas. E eram tão diversos os rumos que haviam seguido! o Pedro logo depois de sua formatura no colégio, sem mais detenças nem estadas pelas academias, entrara para a vida prática, achando-se sem família, sozinho no mundo, único arrimo de sua velha e entrevada mãe que morrera algum tempo depois. O emprego público fora para ele a única franquia que se lhe oferecera a mitigar as vicissitudes da sorte. Nem outra direção lhe era possível dar às suas aspirações, pois as outras carreiras andavam cheias de sobressaltos e de imprevistos. Ao princípio encontrara grande dificuldade em sujeitar-se a esse modo de existência, e ainda conservava umas tristes recordações dos tempos em que andara pelas secretarias a fazer concursos e a arranjar cartas de empenho. Fora mesmo uma campanha gigantesca o conseguir a sua nomeação como praticante da Secretaria de Agricultura.

Habituara-se porém àquilo tudo, e desde então começara a saborear pacatamente as beatitudes do sossego. Regrara a vida, numa grande atrapalhação para gastar o tempo que lhe sobrava. Bastava-lhe estar na repartição às horas e sair às duas horas para ter cumprido exemplarmente as suas obrigações. E todo o resto do dia, esse longo suceder de horas, parecia-lhe muito enfadonho, difícil de passar. Sem encontrar atrativos na vida boêmia da rua do Ouvidor, incapaz até de uma leitura, tendo abandonado os livros todos, vira-se numa grande inação, necessitado de ocupar-se em alguma coisa para não morrer de tédio. Pusera-se então a freqüentar os salões e as casas de família, muito bem recebido em toda parte porque granjeara a reputação de rapaz ordeiro, considerado como um bom partido, moço inteligente e cheio de futuro. Foram nesses tempos uns encadeares intermináveis de aventuras galantes, três em quatro namoradas ao mesmo momento, viajando pelos bondes da casa de uma para a da outra, colhendo um beijo aqui, outro ali! tudo aliás feito com uns requintes de honestidades, não ultrapassando as raias do decente simples curioso a viajar pelos balcões onde a gente compra uma mulher.

Em uma dessas excursões agradara-se de Nenê, numa grande exuberância de paixões, fanatizado por aquela figura esbelta, tão gentilmente enquadrada na moldura singela da vida retirada que a moça vivia junto à mãe. E historiava todas as alternativas do seu namoro, as grandes esperanças que o arrebatavam às regiões sem fim da fantasia, os súbitos desânimo que o surpreendiam de momento a momento - enormes castelos abastilhados, erguendo-se de uma frase, de um incidente, à mão possante e tenebrosa do ciúme. Casara-se enfim e desde então sua vida tomara umas composturas burguesas, uns ares calmos e refletidos, sem desperdício de efusões, rotineira e uniforme como a evolução de um ponteiro por sobre o mostrador. Nascera-lhe o Pedroca, e convergira na criança toda a seiva apaixonada que porventura lhe circulava através do corpo. Ao mesmo tempo tinha melhorado a sua posição oficial. Agora, graças às relações que adquirira e às de d. Augusta, ia a pouco e pouco ascendendo na hierarquia burocrática, construindo silenciosamente um ninho acolchoado e tépido onde sonhava descansar a sua velhice satisfeita.

E vinha-lhe um desejo de ostentações, vontades de mostrar ao amigo esse esquema alegre da vida que ia vivendo pelo mundo afora, num grande sonho de aspirações. Bem verdade que por sob aquela capa de mansidões andavam disfarçadas as contrariedades de cada momento, os pequenos nadas da existência, toda a guerra surda e sem tréguas que ele pelejava constantemente com d. Augusta. Mas o que eram essas ninharias! Coisas que a gente esquece nesse bosquejos risonhos! Grãos de argila que turvam por um instante as águas, mas que acabam sempre por se depositarem no fundo, deixando que lhes corra pelo dorso a limpidez cristalina do regato! Naquela ocasião ele mesmo os esquecia - esses pontos negros na fotosfera de suas felicidades. Não precisava de cálculos nem de reservas, nas descrições que ia fazendo ao amigo dos encantos que o rodeavam. Bastava-lhe deixar às soltas as suas impressões para que todo o seu otimismo de burguês contente e superficial banhasse de luzes o quadro imaginoso de sua vida, tal como ele a via através da sua convicção de homem satisfeito, sem aspirações, a sonhar um sonho alegre de festins floridos, sem ter ao menos como perspectiva admissível o receio de despertar no meio de alguma realidade tenebrosa.