O Hóspede (Pardal Mallet)/IX

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O Hóspede por Pardal Mallet
Capítulo IX


O Marcondes, esse passara em Pernambuco uns intermináveis cinco anos de vida acadêmica, longe da família, que residia em Santa Catarina de onde era natural, quase completamente entregue a si mesmo, tendo polido o seu espírito na convivência da rapaziada boêmia da qual gostava de imitar as teorias e as aspirações. Seu maior prazer era fazer-se de debochado, rodear-se com a reputação de homem pervertido e mau, culotado nas orgias, militante ativo nas fileiras da crápula. Dava-se uns aspectos dramáticos de d. Juan tenebroso que anda aí pelo mundo a conquistar mulheres; e para emprestar a tudo isto uns ares de verossimilhança citava fatos, contava histórias complicadas de adultérios em que vivera envolvido e nas quais reservava sempre para si os papéis simpáticos de galã nos romances da velha escola. Até mesmo a força de repetir as mesmas anedotas, os mesmos episódios, forjicados nas longas noites de insônia, chegara a convencer-se da sua veracidade, firmemente crente de que tudo aquilo se havia passado, apelando para o testemunho dos companheiros.

E ele não se esqueceu de reeditar todo esse peripecioso suceder de aventuras escabrosas. Aos olhos admirados do amigo, a quem iam-se um a um revelando bruscamente os mistérios insondáveis de uma vida para ele completamente desconhecida e inacreditável, fazia o Marcondes deslizar lentamente o caudal majestoso das epopéias à la Murger. Eram aqueles longos, intermináveis dias de fome em que até faltava dinheiro par cigarros, existência penosa, coberta de maldições, bruscamente transmudada em risonhas orgias, o vinho correndo em profusões, sorvido a longos tragos por entre os beijos das mulheres bonitas que faziam coro a orquestrar-se no estampido do champanha que desarrolhavam. A sempre eterna história das sete vacas gordas e das sete vacas magras, alternativas isocrônicas de abundâncias e de misérias, de risos e de prantos, do meio às quais, em carnaduras fortes e risos epicurianos, surgia a imagem fantástica da vida descuidosa boiando sem rumo, num grande abandono de si mesma, aos vaivéns da sorte.

Mas veio-lhe logo em seguida uma volta à realidade das coisas. Todo o seu temperamento ordeiro e pacato acatava sempre confessando a si mesmo os dissabores e vexames dessa vida que ele pintava tão alegre e da qual chegara a viver um bocadinho. No final das contas isso não era tão bonito como parecia. Havia enormes contrariedades, ocasiões em que tivera vontade de romper com os companheiros, de liberar-se completamente dessas relações que só lhe traziam prejuízos. Essa mesma reputação, que a si fazia, incomodara-o extraordinariamente por diversas vezes. Enfim! Por mais que o quisesse, faltava-lhe vocação para Schaunard e, se se deixava fascinar pelo exterior formoso dessa existência aboemiada, não lhe faltavam momentos em que se arrependia de ter seguido uma tal diretriz. Em todo caso achava desculpas ao seu procedimento, procurava justificar-se aos seus próprios olhos e concluía atribuindo tudo isto à irreflexão própria da rapaziada. Agora porém que já estava formado e ia começar a vida séria e responsável, deixava-se atrair por outras aspirações, aparentando uns ares honestos de burguesia.

E os dois, dando de mão àquele lado fantasioso da vida, puseram-se a conversar num grande desdobramento de filosofias práticas. O Pedro já estava arranjado; bastava-lhe apenas dar tempo ao tempo, deixar que os anos fossem no seu lento trabalho de petrificação a consolidar-lhe as felicidades. O Marcondes, porém, só agora ia começar a existência, lançar os embasamentos do seu futuro viver, E ele dizia os seus sonhos, Queria ver se arranjava a promotoria de Santa Catarina e para isto contava com algumas relações de que dispunha a sua família. Fora até para conseguir isto que resolvera-se a ficar uns cinco ou seis dias na Corte, porque contava levar ao presidente umas cartas do Ministério. Depois bastava-lhe deixar correr o barco. E ia numa longa vista pelo futuro adentro acompanhando o seu lento progredir através da magistratura. Havia de acabar ministro do Supremo Tribunal! Apenas em seus cálculos, um x imprescindível e incógnito - o seu casamento, que se lhe apresentava como necessidade imperiosa para o complemento do seu próprio ser e a consolidação das suas alegrias.

Entretanto ia-se fazendo tarde. Já por duas vezes Nenê mandara chamar o marido que, absorto naquela mútua confissão, perdia a noção das horas e rompia brutalmente com todo o seu costumeiro viver. Mas infelizmente tinham esgotado o montão de comunicações que desejavam permutar. Bem verdade que ainda havia uns pontos duvidosos, uns pequenos incidentes, umas grandes ninharias que eles tencionavam não deixar ocultas naquele entusiasmo do primeiro encontro. Isto serviria porém de tema às futuras conversas! Ainda tinham tantos dias para viverem juntos que não valia a pena esgotarem-se logo de uma vez, e parecia prudente guardar algumas reservas para as noitadas vindouras. Demais, estavam com sono e o conhaque, que tomaram em repetidos grogues, quase insensivelmente, na grande febre de intimidades, pesava-lhes na cabeça e amortecia-lhes os olhos, principalmente os do Pedro que não estava habituado a estas coisas. E foi num grande transbordamento de amizades, por entre palavras arrastadiças, que eles se despediram um do outro, augurando prazeres ainda maiores nessa convivência em que iam viver.