O Hóspede (Pardal Mallet)/X

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O Hóspede por Pardal Mallet
Capítulo X


Posto que as janelas tivessem ficado completamente abertas e de havia muito o sol clareasse o aposento, o Marcondes continuava a dormir, cansado por essa noitada de conversas, prolongada até as tantas, depois das grandes fadigas da viagem. Demais, ele gostava tanto do sono da manhã! Lá em Pernambuco habituara-se a levantar-se ali pelas 11 horas, e às vezes mesmo prolongava a sua estada na cama até o meio-dia, apreciando muito esses momentos de moleza em que a gente fica inerte por entre a branda quentura dos lençóis e as fofices do colchão, deixando que o pensamento vá boiando à toa pelos mares sem fim da fantasia! E para que acordasse foi preciso que o Valentim batesse por diversas vezes na porta a fim de lhe entregar a xícara de café. Só então levantou-se. Mas como pusesse a canequinha no bidê e se assentasse na beira do leito para enrolar um cigarro, veio-lhe uma grande preguiça a percorrer-lhe os membros, uns desejos de descansar ainda um bocadinho, apenas uns cinco minutos; e deitou-se novamente encolhendo as pernas, envolvendo-se todo nas cobertas ainda quentes do sono.

Foi então que se pôs a refletir sobre a sua estada ali naquela casa. No final das contas era uma coisa sem explicações nem justificativas! O Pedro parecia-lhe bom rapaz, muito seu amigo, mas apesar de tudo quanto lhe dissera na véspera, a sua vida íntima não deixava de andar muito atrapalhada por um mundo inteiro de contrariedades, e até mesmo tinha ares de quem não estava em sua casa! E o perfil cerimonioso de d Augusta surgia-lhe ameaçador, cheio de terríveis perspectivas, como a prometer-lhe um suceder de dissabores. Apesar da afabilidade e simpatia que Nenê lhe mostrara por ocasião das discussões sobre música ele também não deixava de nutrir algumas apreensões por este lado, e recordava a reserva e quase frieza com que a moça o tratara na mesa do chá! Apenas o Pedroca, com a sua cabecinha loura e o seu olhar de criança inteligente, parecia sorrir-lhe meigamente nessa evocação da gente que o rodeava. Enfim, ele e o amigo tinham feito uma grande tolice, admissível aliás na efusão de sentimentos do primeiro encontro, mas que cumpria emendar.

E veio-lhe então a idéia de uma mudança rápida e imediata, enquanto as coisas não se tornavam mais feias, e ela podia ter ainda o aspecto de uma retirada airosa. Se o amigo residisse sozinho não teria dúvidas em aceitar-lhe a hospitalidade, porque os dois poderiam se entender facilmente e entre eles não havia cerimônias! Mas, assim como se achavam os negócios, era impossível! De mais a mais, apesar da grande confiança que aparentava no tocante à rápida obtenção da promotoria, poderiam sobrevir inúmeras dificuldades que o forçariam a prolongar por tempos indeterminados a sua estada no Rio de Janeiro. Enfim, ele havia de falar ao Pedro com toda a franqueza, e os dois juntos arranjariam a coisa da melhor forma possível. E nesses pensamentos, que lhe saiam da cabeça em grandes hélices a acompanhar a fumaça do cigarro, deixava-se ele absorver, esquecido das horas, todo entregue à beatitude da imobilidade, o corpo amolecido, caindo ao azar da sorte naquele ninho fofo de lençóis e travesseiros onde se sentia tão bem, no grande aniquilamento do seu próprio eu.

Urgia, porém, reagir contra esta preguiça. Já ia se fazendo tarde e lá embaixo deviam estar à sua espera, porque o Pedro lhe dissera que costumavam almoçar cedo. Mas estava tão bem! E custou-lhe muito o sentar-se na beira da cama, procurando os chinelos para levantar-se. O café ainda estava ali na xícara. Esquecera-se de bebê-lo e agora ele tinha esfriado, mas não fazia mal! E foi tomando-o aos goles, por entre baforadas de um novo cigarro que acabara de preparar. Só então pôde erguer-se, ainda meio atrapalhado com a arrumação do quarto e dando-se a grandes trabalhos para procurar nas malas, em que não havia medido até aquele momento, a roupa que pretendia vestir. Demais, retinha-o a preguiça que se aproveitava de todas as ocasiões para deixá-lo parado, com vontades de se deitar novamente. Gastara muito tempo em mudar os botões da camisa, praguejando contra as engomadeiras, que não abriam as casas; e para acordar verdadeiramente foi preciso a brusca sensação da água fria com que se pôs a banhar o rosto numa prodigalidade de sabonete.

E como o Valentim viesse bater-lhe novamente à porta chamando, para almoçar, começou a vestir-se apressadamente. No último ano da vida acadêmica, quando prestes a formar-se, contraíra o hábito de brunir-se todo nuns grandes requintes de toalete, e era incapaz de sair do quarto sem estar preparado com todas as regras da arte. Era da sua parte uma adoração constante à própria pessoa que o fazia ficar longas horas defronte do espelho, a contemplar-se, achando-se muito bonito. E naquele dia, por mais pressas que quisesse ter, absorvia-se no exame do seu rosto, profundamente incomodado porque só tinha feito a barba na Bahia, havia três dias, e os cabelos já principiavam a nascer. No final das contas tudo era possível neste mundo! E como lhe aparecessem as suas aspirações a d. Juan de envolta em toda a sua exterioridade canalha, lembrou-se do busto estatuário e correto de Nenê. Era uma idéia como outra qualquer e que de mais a mais o lisonjeava muito! Bem verdade que o Pedro era seu amigo! Mas se havia de ser um outro... por que motivo não seria comele?!