O Hóspede (Pardal Mallet)/XI

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O Hóspede por Pardal Mallet
Capítulo XI


Lá embaixo já estavam à sua espera para dar princípio ao almoço que esfriava sobre a mesa e ele incomodou-se muito com isto. Por que não tinham começado a refeição sem dar mais importância à sua demora? E ao mesmo tempo procurava desculpar-se. As viagens eram tão afadigosas e cheias de trabalho, de mais a mais enjoara tanto a bordo, que contra a sua vontade prolongara o sono além das horas do costume! Todos ouviam-lhe as desculpas, muito distraidamente, sem responder-lhe mais uma palavra além dos bons dias secos com o que haviam recebido; o Marcondes continuava sempre, numa grande prolixidade de palavras, atrapalhado por esta ducha gelada de cerimônias que lhe caía assim sem mais nem menos pelo corpo abaixo, a resfriar-lhe os seus primeiros ímpetos, fazendo-o bruscamente esquecer todas as suas esperanças e cálculos de ainda havia pouco, trazendo-lhe novamente à idéia a perspectiva de uma mudança obrigatória que vinha agora desordenar-lhe os anos sedutores, exatamente quando o perfil correto de Nenê lhe aparecia numas linhas sensuais por sobre o fundo negro do salão.

Atrapalhava-o de entre tudo o ar reservado com que d. Augusta e a filha ostentavam tratá-lo. Necessariamente elas deviam ter conversado a seu respeito e tudo quanto faziam era a execução de algum plano adotado que ele forcejava por adivinhar, desejoso principalmente de conhecer o juízo que haviam de ter formado sobre ele. E procurava examiná-las cuidadosamente, continuando sempre a falar, num interminável jorro de palavras, a fim de disfarçar o acanhamento que a pouco e pouco lhe ia invadindo o organismo inteiro. A velha senhora de pé, encostada ao espaldar da cadeira da cabeceira, cuidadosamente penteada nos seus eternos bandós de cabelos brancos que lhe passavam por sobre as orelhas, com a pele acetinada e fresca da lavagem, conservava o seu ar esfíngico, apenas sublinhado por um riso sardônico que lhe contraía levemente os lábios delgados. Sentada à cadeira de balanço, Nenê trajava umas vestes caseiras mas não despidas de elegância, seus bastos cabelos divididos em duas largas e compridas tranças que lhe caiam pelo colo abaixo, o olhar verde-azulado mergulhando-se distraidamente no vago do infinito.

Demais, ele não podia compreender nem sabia explicar o modo acanhado e quase cerimonioso com que o Pedro lhe respondia monossilabicamente às perguntas. Na véspera o amigo mostrara-se tão cordial e afável, tão cheio de expansões, numa grande facilidade de frases afetuosas! E agora assumia uns ares discretos e comedidos, como que a refletir sobre o caso, talvez já arrependido dessas primeiras efusões, quiçá mesmo desejoso de vê-lo em mudanças, à procura de algum meio decente de lhe pedir a retirada! Decididamente tinham longamente falado a seu respeito e d. Augusta com toda a sua diplomacia andara a minar-lhe os derredores, trabalhando para circunscrevê-lo em um isolamento atroz! Vinham-lhe então uns desejos de luta, vontades de lançar-se inteira e cegamente à conquista de afeições. Havia muito que sonhava coisas destas, batalhas encarniçadas feitas de sorrisos e de calembures. Ao seu espírito romantizado agradariam muito mais umas encenações medievais, uns montantes pesados de ferro a arrastarem-se pelos lajedos do castelo indo tudo liquidar-se ali adiante nos fossos onde devia ficar o corpo de um dos combatentes. Mas era preciso conformar-se com o espírito da época e aceitar o combate no terreno em que lhe ofereciam.

Entretanto tinha começado o almoço e cada qual acomodava-se no lugar que ocupara na véspera, sem pronunciar uma só palavra, naquele grande silêncio em que se geram os tristes pensamentos. D. Augusta presidia a refeição, com o seu eterno sorriso de cortesias ferinas, como que a petrificar-lhe os lábios, quedando-se flácidos e amolecidos, apenas a remexerem-se para a deglutição da comida. O Valentim circulava preguiçosamente, mudando os pratos, fazendo de longe em longe uma pergunta relativa ao serviço, sua voz a perder-se no imenso da sala. E o Marcondes sentia-se opresso e desajeitado, sem coragem para continuar na sua loquacidade de ainda havia pouco, à espera de um ensejo para reatar o fio da conversa, já meio acovardado, calculando que não podia obter a vitória nessa luta em que tinha vontades de se empenhar, achando até mais conveniente uma retirada airosa que viria contentar a todo o mundo, meditando mesmo sobre o pretexto de que serviria para levar a efeito o seu novo plano que agora lhe parecia muito melhor.

Apenas, de entre toda essa gente, o Pedroca conservava o seu rosto prazenteiro de criança, alheia aos pequenos nadas do convencionalismo social, que não sabe refrear os seus sentimentos nem pode compreender as variabilidades e alternativas de conduta. Ele continuava a testemunhar grandes simpatias ao Marcondes e era o único que lhe dirigia a palavra para lhe fazer umas perguntas esquisitonas de menino ou lhe pedir um qualquer favor. E como o moço lhe prestasse muita atenção e se mostrasse sempre pronto a satisfazer-lhe os menores desejos, gostoso deste diversivo que vinha tão alegremente socorrê-lo na grande atrapalhação de conduta em que se achava, ele ia de momento a momento aumentando a sua afeição, e acabou até passando-se-lhe para o colo onde queria por força tomar o café com leite. Quando terminou-se o almoço e os dois amigos se prepararam para ir à cidade, o Pedroca acompanhou-os até o portão repartindo uniformemente entre ambos beijos e abraços, encomendando-lhes que não se esquecessem de lhe trazer bolas.