O Hóspede (Pardal Mallet)/XVII

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O Hóspede por Pardal Mallet
Capítulo XVII


E debaixo destas impressões benfazejas, em sonhos gentis de alegrias que caminhavam do futuro para si, que o Marcondes dirigiu-se para o quarto. Já não lhe vinham mais as tristezas do amanhecer, não palpava mais aquelas hostilidades surdas a atrapalharem-lhe a existência, a ditarem-lhe uma pronta e imediata retirada. Todos estavam conquistados a si, envolvendo numa atmosfera benevolente como um desdobramento das primeiras efusões com que o recebera o Pedro. E toda a flacidez de suas carnes, que no aboemiado da vida acadêmica sonhara tantas vezes um cantinho assim macio e acolchoado onde pudesse descansar, ideavase em perspectivas sorridentes, fazendo-lhe achar a existência tão boa e cheia de bem-estares! Ali pelo quarto tão asseado, a despertar-lhe uns desejos preguiçosos, ele passeava nuns compassados de movimentos, despindo as roupas, preparando-se para dormir, a ruminar todos estes pensamentos, enfeixando-os ao grande poema otimista que andava compondo nuns versículos de risadas burguesas e de digestões pacíficas.

Depois, sentou-se à beira da cama, vestindo apenas um chambre, as pernas cabeludas saindo-lhe pelas aberturas, a balançarem-se compassadamente. A luz da vela tinha uns palores mórbidos clareando vagamente o aposento. E ele recostara-se, a cabeça por sobre o travesseiro. Esperava. Antes de se retirar tinha falado a respeito com o Pedro, e este lhe prometera arranjar tudo imediatamente. Desde a viagem que andava um pouco incomodado e na véspera tomara apenas um banho frio.

Contava porém melhorar com um de água morna, e como o amigo lho prometesse, admirava-se de que tardasse tanto, já quase adormecido. Entretanto um barulho de balde a gemer nas argolas vinha subindo pela escada acima. Enfim a Marocas entrou-lhe pelo quarto, desculpando-se da demora, apressando-se em dispor as coisas. E o rapaz soerguera-se um bocadinho, a fitar nuns olhares lúbricos a mulata que circulava pelo quarto, remexendo garbosamente os quadris das grandes curvaturas sensuais, desenhando pela parede em sombras fantásticas o seu perfil provocador.

No final das contas ele conhecera-as muito inferiores! E examinava-a com uns grandes gestos de conhecedor blasé que não discute grandemente estas coisas e vai buscar o prazer onde o encontra. Então, para dar princípio ao negócio, pôs-se a falar-lhe, numas frases acanalhadas, cheias de subentendidos que a rapariga ouvia em sorrisos benévolos e provocadores com que acompanhava as suas respostas sempre prontas. Aos poucos a conversa ia tomando uns ares sérios de operação comercial não muito debatida e em que as partes entram imediatamente em acordo. O Marcondes levantara-se, e teve pequenas brutalidade a fim de vencer umas mascaragens de negaças. Ele não gostava destas criançadas! Preferia-as arrogantes no impudor, levantando o pano de boca ao estrídulo do apito, franqueando bruscamente os cenários ocultos esses palcos feéricos dos dramas carnais! E sem mais parlamentações atirou-a, ali para cima da cama, deixando-lhe as pernas pendidas para o assoalho num amortecido gentil, enquanto galgava-lhe o corpo na febre da sensualidade. Depois, quando o organismo inteiro se lhe arrebentou num desmoronamento de prazeres, ele levantou-se meio enjoado, achando aquilo simplesmente porco.

Vieram então a falar em grande intimidade, a Marocas respondendo-lhe às perguntas enquanto a água do banho esfriava-se a pouco e pouco. A rapariga contava-lhe tudo quanto ouvira entre d. Augusta e Nenê, quando na véspera o Pedro estivera cá em cima a palestrar com ele. E o Marcondes ia ouvindo-a, num súbito aniquilamento de si mesmo. Parecia-lhe impossível continuar a viver naquela casa depois de informado sobre os juízos acabrunhadores de ridículo que mãe e filha haviam formulado a seu respeito. Agora só lhe cumpria retirar-se! Nem lhe restava outro alvitre desde que a moça o achara um importuno a perturbar-lhe o calmo da existência! Far-lhe-ia a vontade! Deixá-la-ia a sós com a sua gente! Admirava-se apenas de que ela após tudo isto ainda o tivesse convidado para os acompanhamentos de piano! Não podia também compreender como a velha senhora lhe tivesse mostrado tanta afabilidade no dia presente quando na véspera falara até em exigir do genro a sua pronta retirada!

E ele adormeceu nestas tristezas de pensamentos, firmemente resolvido a mudar-se no dia seguinte, não querendo mais ficar numa casa em que o tinham qualificado de importuno. Entretanto, e apesar dos esforços que fazia para afugentá-la, sorria-lhe meigamente uma visão feita de memória e fantasias a inspirar-lhe uns pensamentos cálidos de voluptuosidades canalhas. O busto encantador das curvaturas graciosas e carnações sadias de Nenê aparecia-lhe animado com aquele sorriso de desejos que a moça lhe dirigira havia pouco tempo quando lhe pedia que viesse buscar a flauta para acompanhá-la. No final das contas só podia ser uma conquista cheia de honrarias para quem a conseguisse, prometedora de felicidades sem fim! E recordava todas aquelas palestras da vida acadêmica em que os companheiros afirmavam não haver mulher que não tivesse sua hora de fraquezas. Repugnava-lhe a forma genérica e absoluta da proposição. Mas por que Nenê não seria dessas que caem?! E, como de repente se lhe evocasse a imagem sincera nas amizades do Pedro, procurou enxotar de si estes pensamentos satânicos e assentou definitivamente para o dia seguinte a sua partida.