O Hóspede (Pardal Mallet)/XXI

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O Hóspede por Pardal Mallet
Capítulo XXI


Para se aproximar de Nenê, tê-la sempre junto a si, sentir-lhe o hálito perfumado, contemplá-la nas suas formas esculturais de carnações sadias, o Marcondes tornava-se de mais em mais freqüentador da sala de jantar. Ele gostava de ficar ali em meio às intimidades, por entre as saias e as conversas das três senhoras. Quase sempre tinha umas pequenas caçoadas para com sá Jovina, e a boa velha, sem mexer-se, continuando nas suas costuras e remendos, ia-lhe dando o troco respondendo-lhe no mesmo tom, não se recusando até a entrar francamente em uns duelos de espírito a que muito aplaudiam d. Augusta e Nenê. Eram então umas frases de duplo sentido, meio acanalhadas, a deixarem ver o pensamento por entre umas obscuridades fáceis, todo um mundo ligeiramente entrevisto a alegrar os circunstantes sem ferir-lhes as suscetibilidades em ostentações de rudezas, deixando uns refúgios já preparados a tendências moralizadoras, carnaval da bandalheira, em que ninguém repara, e que todos podem aplaudir sem comprometer os foros de boa educação e de severidade.

Às vezes d. Augusta tomava a direção das conversas dando-lhe um aspecto serioso de quem já viveu muito e fala em nome de uma longa e bem formada experiência. Ela gostava das investigações pelo passado adentro com súbitas e extemporâneas evocações de amigos, concluindo sempre por umas apaixonadas diatribes aos tempos que correm. Outrora a vida era mais amena, mais cheia de prazeres honestos e singelos, as amizades mais duradouras e veementes, os homens mais delicados, incapazes de fumar na presença de uma senhora, tudo enfim apresentava uns ares virtuosos e refletidos de quem media o alcance de qualquer ato antes de praticá-lo! E quando tinha acabado o elogio dos tempos que foram, fazia-se satírica, analisava com uns sarcasmos brutais todo este modernismo enfezado e hipócrita que lhe fazia mal aos nervos. Não poupava nenhuma minudência, carregando o quadro de forma a fazer sobressair o lado ridículo das coisas. Os outros riam-se, achavam-lhe graça nos comentários e não tentavam discutir, eles mesmos um pouco sectários da religião do passado.

Em outras ocasiões o Pedroca só a si tomava conta das atenções, divertindo os circunstantes com as suas ingenuidades, mostrando-se muito alegre e folgazão. Ele continuava a gostar muito do Marcondes, que lhe trazia bolas sempre que voltava da cidade, e nunca cessava de acariciá-lo. Ia quase constantemente esperá-lo no portão e saudava-o com umas alegrias ruidosas, procurando repetir-lhe as histórias que ouvira a sá Jovina, acabando por trepar-lhe ao colo. E, quando entravam na sala de jantar, começavam entre os dois umas grandes brincadeiras infantis. O menino escondia o rosto com as mãos e perguntava ao outro: - Onde estou eu? Então o Marcondes fingia procurá-lo em todos os cantos e por debaixo da mesa, acabando por perguntar a Nenê se o Pedroca não tinha ido para o jardim. E a moça continuava o brinquedo, debruçava-se na janela, chamando pelo filho, gritando com ele por estar apanhando sol e não obedecer às suas ordens, até que o menino, tirando as mãozinhas do rosto, corria ora para um, ora para outro, dizendo que estivera escondido ali mesmo na sala de jantar, que ouvira tudo quanto haviam conversado, achando muita graça na grande admiração que os outros mostravam.

O Pedro vinha também misturar a sua nota de boemia alegre àquelas conversas da sala de jantar, e quando voltava mais cedo da repartição tomava parte em toda essa intimidade de viveres. Ele trazia sempre um bafo quente da vida barulhenta lá de fora, andava muito bem informado dos escândalos da véspera e não perdia vaza para encaixar as pilhérias do momento. Atualmente o seu maior gosto era zangar alguém. Ia constantemente andando pelas suas teorias afora, de dedução em dedução, até que a mulher ou sogra lhe saltasse em cima, chamando-o de ateu ou de republicano, prometendo-lhe a maldição eterna, e as chamas de satanás. Então fazia-se alegre gostando daquilo, sentindo prazer em apregoar-se homem moderno, de idéias adiantadas e revolucionárias, tomando umas atitudes guerreiras de quem quer dar cabo do mundo. E continuava, sem atender às exprobrações que lhe faziam, ostentando uns radicalismos inconcebíveis, até que d. Augusta se zangava seriamente e Nenê o mandava embora para o jardim, dizendo-lhe que não viesse mais aborrecê-la com as suas tolices e extravagâncias.

Era enfim uma boa vida honesta e pacata a que o Marcondes andava vivendo no meio de toda essa gente cujas simpatias iam aumentando de momento a momento. E o rapaz sentia-se bem, deixava-se embalar nesse quietismo de aspirações, não querendo mais do que isto mesmo, apenas escaldado por uns desejos sensuais que lhe faziam grandes placas vermelhas nos olhos e lhe aumentavam a intensidade das pulsações. Tão fortes lhe vibravam por vezes semelhantes desejos que ele punha-se a fitar longamente Nenê, tendo nos lábios uma torrencial de palavras prestes a desabar, retido bruscamente por umas atemorizações repentinas, temendo que a moça o repelisse logo à primeira palavra, preferindo mil vezes ficar-lhe assim na intimidade sem que ela suspeitasse a mais insignificante das suas intenções. Vinham-lhe por momentos umas vontades de abandonar completamente estes desígnios, de contentar-se com a vida mansa que ia vivendo, mas voltavam-lhe logo as primeiras aspirações aguilhoadas sobretudo pela necessidade que sentia de arremedar um homem, de ter uma conquista no seu passado.