O Hóspede (Pardal Mallet)/XX

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O Hóspede por Pardal Mallet
Capítulo XX


Foram então uns períodos de prazeres e de contentamentos. A vida corria fácil e ligeira em pruridos de felicidades mansas e uniformes orquestrando-se numa monotonia sem fim. Eram todos os dias as mesmas cenas - uma espécie de opereta galante que caíra no agrado do público e mantinha-se garbosamente no palco à espera do centenário. Os atores conservavam-se ainda na rijeza embaraçosa das primeiras representações, mas já iam se habituando ao papel, encarnando-se nas personagens, sem mais titubeios, gostando no final das contas da vadiação em que andavam a dispensarlhes novos estudos e aquelas grandes cacetadas do ensaio, movendo-se como maquinismos ao apito do contra-regra. Enfim circundavam-nos uns horizontes azulados e límpidos, puros de névoas, sem prenúncios nem vislumbres de borrascas e tempestades, por debaixo dos quais fazia bem viver nuns anquilosamentos de bem-aventuranças, na grande paz quieta e sossegada dos paraísos - espécie de sono opiado sem perspectivas de acordar.

E o Marcondes sentia-se bem nesse banho tépido de dias uniformes. Deixava-se viver. Todo o seu egoísmo exultava numas modalizações barulhentas de contentamentos. Sonhara sempre a existência assim, sem atrapalhações nem incômodos, tendo quem lhe cuidasse da roupa e lhe pusesse os botões na camisa. Insistira ao princípio com o Pedro para que este fixasse o preço da sua pensão ou pelo menos aceitasse alguma coisa como adjutório aos acréscimos de despesa. Mas, como o outro mostrou grandes repugnâncias à idéia, não lhe falou mais a respeito, resolvido a dar algum presente de valor quando se retirasse, limitando-se por enquanto a trazer algumas músicas para Nenê e voltar sempre da cidade com os bolsos cheios de bolas para o Pedroca. Assim lhe parecia tudo convenientemente arranjado, e ele mesmo não se ocupou mais do assunto. E deixava-se viver tranqüilamente, sem se ocupar muito da promotoria, todo entregue a sua preguiça e à adoração de si próprio, achando muito justas e cabidas as atenções de que o rodeavam, numa grande calmaria de existência.

Em tudo isto surgia-lhe como um incompreensível e um problema a solver a imagem graciosa e simpática de Nenê. Lenta e lentamente, por uma amontoação de ninharias e de insignificâncias ele fora entrando-lhe na intimidade, a cada momento descobrindo-lhe uma nova feição, uma particularidade de caráter. Chegara mesmo a apropriar-se-lhe do aroma, daquele cheiro suave e discreto de jasmim que a moça exalava do corpo inteiro e que ele agora sentia na sua ausência, como parte integrante do próprio organismo. Tanto se habituara a vê-la e a tê-la sempre presente à memória que por vezes, à noite, no grande aniquilamento do sono, parecia-lhe distintamente senti-la junto a si nuns tangíveis de realidade. E quando acordava, meio contente, meio sobressaltado, custava em desvanecer-se daqueles sonhos, procurava a moça por toda parte, não podendo acreditar em uma simples visão, reconstruindo novamente esse perfil sereno das grandes curvaturas sensuais, querendo revê-lo novamente nas decorações fantasiosas do ainda havia pouco, alquebrado por todas essas comoções violentas que acabava de experimentar.

Vinham-lhe então uns desejos de conhecer o passado da moça. Talvez aí encontrasse alguma coisa que lhe servisse de orientação no proceder! Mas por mais perguntas que dirigisse à Marocas, que agora sempre tinha uma qualquer coisa para fazer no seu quarto às horas em que ele ia deitar-se, não conseguia descobrir o que queria. Nenê, através das longas e detalhadas narrações da rapariga, aparecia-lhe constantemente calma e sossegada, numa existência lisa e honesta, toda de meias-tintas. Era um produto genuíno da educação fluminense, sem grandes paixões nem exuberâncias de sentimentos, a viver tranqüilamente entre a mãe, o marido e o filho. E o Marcondes remexia-a por todos os lados procurando algum ponto fraco, talvez mesmo alguma brecha por onde lhe fosse fácil a entrada na cidadela, desanimado de encontrá-lo mas procurando sempre, numa grande teimosia, esforçando toda a veemência dos seus desejos com as dificuldades que encontrava, querendo-a sem discussão de meios, até mesmo à força se não houvesse outro jeito.

E ele raciocinava demoradamente sobre o assunto. No final das contas o passado de quietismo e de sossego não provava coisa alguma. Era bem possível que a moça não tivesse caído até aquele momento porque encontrara sempre a estrada livre e macadamizada, sem uma dificuldade, sem uma pedra que a fizesse tropeçar! Mas por que ele não tentaria conquistá-la? Por mais que procurasse, não encontrava uma razão bastante forte para dissuadi-lo deste desígnio! E voltavam-lhe as recordações das conversas de república, quando os companheiros contavam proezas de seduções e ele ficava muito quietinho a um canto, sem ter nada que dizer, na uniformidade boçal dos seus amores pagos à hora! Mas havia de vingar-se desses tempos de obscuridade! Agora havia de ser como os outros! Teria também em seu passado uma aventura escabrosa de adultério para regar os amigos quando tivesse bebido um pouco mais, e fosse chegada a hora das confissões íntimas! E queria Nenê, veementemente, como um futuro adorno à sua individualidade de homem que conhece tudo, com todos os requintes da sua sensualidade brutal.