O Hóspede (Pardal Mallet)/XIX

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O Hóspede por Pardal Mallet
Capítulo XIX


Apareceram então umas grandes intimidades. O Pedro falara com a mulher e a sogra a respeito do Incidente do bonde, e houve desde este dia um recrudescimento de atenções. Procuravam cercá-lo de mil afetos e carinhos, reservando para ele os melhores pedaços, numa sinergia inexplicável de simpatias. O Marcondes deixava-os fazer. Gostava dessa vida que lhe davam. Sonhara sempre uma coisa assim - em torno de si gente alegre e satisfeita, passeando umas fisionomias prazenteiras, atentas aos seus menores desejos, a fazer-lhe a existência alcatifada de flores e de prazer, evitando sempre o encontro com as dores e contrariedades essas modalizações horríveis da vida, junto às quais devia-se passar distraidamente! E agora que tinha assim arrumado o seu cantinho calmo e sossegado, preocupava-se pouco com a promotoria e contentava-se em aparecer todos os dias na Secretaria da Justiça e em fazer uma ou outra visita de cerimônia para conseguir alguma carta de recomendação com, em tudo isto, uns modos aboemiados de quem liga pouca importância ao futuro e tem tempo de sobra para esperar.

Fora logo se habituando ao regime da casa e a pouco e pouco granjeara urna certa ascendência. Agora, durante as refeições, falava alto, dava ordens ao Valentim e por vezes, nuns requintes cerimoniosos para com d. Augusta, tomava a si o encargo de trinchar. O Pedro olhava-o serenamente, num tom brando de amizade contínua e inabalável, despida de acidentações. E o rapaz ia lentamente ganhando terreno na conquista daqueles corações todos. Sua grande aliada em tudo isto era sá Jovina, a quem trouxera de presente um leque de fantasia. A boa mulher, que, a insistências de Nenê, resolvera-se a passar um mês ali na casa para consertar a roupa branca que estava toda sem botões e descosida em alguns lugares, deixara-se facilmente fascinar pela superficialidade brilhante e luzidia do Marcondes. Ouvia-o atentamente, gostando muito daquelas histórias novas que ele contava tão bem, envolvendo em meias-tintas e diáfanos de gaze o seu fundo acanalhado. E, quando ele estava ausente, a velha senhora não o esquecia nunca, falava sempre a seu respeito e arvorava-o em árbitro de qualquer questão suscitada.

D. Augusta tinha-o em muito boa conta. Achava-lhe um ar sério de homem prático que sabe encarar devidamente o mundo. Augurava-lhe um esplêndido futuro e chegava mesmo a estabelecer um paralelo entre a sisudez do rapaz e as leviandades inconcebíveis do genro. Ali, antes do jantar, quando ele voltava mais cedo, a boa senhora gostava de fazê-lo sentar-se junto dela. Então os dois começavam a discorrer largamente sobre qualquer assunto que se lhes apresentava, entravam num desnovelar de considerações intermináveis, admirando-se da uniformidade de pensamentos que os animava, E iam por aí afora, cada que dando pasto às suas maledicências, fazendo-se confissões mútuas num grande transbordar de amizades. Ela assumia uns ares protetores e ditatoriais de mãe benévola, que fecha os olhos a muitas escapadelas, mas que às vezes, arrependendo-se das suas condescendências, ralha, já disposta a perdoar. E o Marcondes deixava-a fazer, prestava-se boamente a esta comediazinha, gostando de tudo isto, sentindo-se mesmo ainda um pouco estouvado e precisando ter quem o guiasse, frouxa e bondosamente, neste labirinto dificultoso e complicado que se chama a vida social.

À noite, assim que começava a cair o sereno, iam todos para a sala de visitas e davam então princípio ao concerto habitual. Nenê já tinha aquilo em obrigação. Mal chegava à sala ia para o piano e punha-se a ferir distraidamente as teclas enquanto o Marcondes tirava uns ligeiros acordes da flauta. Depois os dois começavam a execução e caminhavam seguidamente, de partitura em partitura, até a hora do chá. Agora andavam tirando umas peças novas e de muito efeito que ele trouxera da cidade. E os dois entusiasmavam-se, mergulhando-se numa comunidade de ondas harmoniosas a acariciar-lhes a plástica, apenas perturbadas de quando em vez pelos aplausos do Pedro, que ia tomando gosto àquilo e, a modo de graça, falava em comprar um realejo para aprender a tocar. Mas, quando ele prolongava demais as suas manifestações de aplauso ou vinha importuná-los com perguntas, mandavam-no embora tratando-o de desajeitado, dizendo que não podiam compreender como houvesse quem não apreciasse a música.

De tudo isto ia se formando entre os dois uma grande intimidade. Nenê já abandonara completamente os modos cerimoniosos de tratamento e às vezes chegava mesmo a servir-se para com ele desse tu que nivela os terrenos e suprime as distâncias. Depois da execução de cada partitura, quando ainda vibravam-lhes aos ouvidos os acordes sentimentais e tristonhos de Chopin, a moça fitava-o nuns olhos quentes de delírio, como a lhe agradecer aqueles instantes de ventura que lhe tinha proporcionado. Nessa região mística dos sonhos e das fantasias ela lhe permitia uns amplexos de fraternidade artística. E eles juntos iam por ai afora a vogar mansamente, nuns doces enleios lamartinianos, pelos mundos etéreos dos sonhos, absortos nos seus cismares, como que desprendidos da realidade, num idílio murmurado brandamente em linguagem de harmonias. E iam assim através da vida, sonhadores de quimeras com um acordar sem sobressaltos nem inquietações, naquela mansidão de existência que viviam, encontrando em derredor de si apenas umas fisionomias alegres e prazenteiras a lhes sorrirem benevolamente.