O Hóspede (Pardal Mallet)/XXIX

Wikisource, a biblioteca livre
< O Hóspede (Pardal Mallet)
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
O Hóspede por Pardal Mallet
Capítulo XXIX


Entretanto não lhe era de grande facilidade o formular a resolução tão bruscamente tomada. Ele continuava envolvido nuns círculos de cerimoniosidades que não lhe permitiam franquezas de movimento. Sentia-se como que tolhido e abafado. Não podia chegar lá embaixo e dizer assim sem mais nem menos ao Pedro que se via obrigado a mudar-se daquela casa porque o maltratavam, porque lhe faziam a existência má, porque Nenê se apaixonara por ele e as coisas não tinham ido até o fim e a moça, prestes a entregar-se, fugira bruscamente do abismo em que escapara de se precipitar. Era preciso aparentar cortesias! Lembrou-se então de que estava naquela casa havia perto de um mês e que tinha obrigação de dar um presente de valor, uma jóia qualquer, para pagar a hospedagem. Este pensamento revoltava-o e punha-o em embaraços. Pois ainda em cima de tudo quanto lhe haviam feito, ele tinha de fingir-se agradecido, de ficar devendo um favor, de sujeitar-se a oferecer uma pulseira ou um colar à Nenê?!

E continuava a procurar um pretexto. Temia, dentre tudo, que o Pedro, com o seu sistema de não ver nada, de passar desapercebido por junto de todos estes dramas de família, não compreendesse a situação e insistisse para que ficasse. lembrava-se da cena do bonde, quando ele quisera partir, e lamentava-se de não ter então mostrado mais energia. Quanta coisa não teria evitado com isto! E buscava um pretexto, um pretexto forte que não admitisse dúvidas. Veio-lhe então à idéia uma viagem. E recordou-se que em sua vida acadêmica, lá no Recife, estivera em contato e intimidade com muitos estudantes de S. Paulo que não poupavam elogios a esta última cidade e à sua academia. Por vezes projetara ir concluir aí os seus estudos. E resolveu-se então a dizer ao Pedro que encontrava muita dificuldade em obter a promotoria e formara a intenção de ir defender tese em S. Paulo, porque com esta nova carta aplainava todas as barreiras e ser-lhe-ia fácil arranjar o que quisesse.

Foi no almoço, quando já tinha deixado lá em cima a bagagem pronta, que ele formulou o seu projeto. Tencionava sair logo depois da refeição para comprar o presente e voltar de tarde para entregá-lo e levar a bagagem. Ficaria até a manhã seguinte em um qualquer hotel nas proximidades do Campo de Santana e partiria pelo trem da madrugada. E foi, aos bocadinhos, preparando o terreno, receoso de encontrar uns pedidos de desistência, querendo-os ao mesmo tempo, excitado pela presença de Nenê, pensando ainda possível remover todas as dificuldades e entrar francamente na sonhada existência de amores, que ele declarou a resolução que tomara. Como todos ficassem calados ainda não compreendendo bem o que ele queria, amontoava argumentos, atrapalhando-se visivelmente, tornando-se cada vez mais metafísico à força de querer explicar-se. E só no fim, quando ele não sabia mais o que dizia e procurava safar-se daquela situação falsa em que se achava, concluiu o seu pensamento dizendo que partia no dia seguinte e de tarde viria buscar as bagagens.

Então o Pedro aprovou muito o seu procedimento e continuou na mesma atrapalhação a ajuntar frases, não querendo dizer quanto estimava a notícia da sua imediata partida. Ele também pôs-se a discorrer sobre as vantagens da carta de doutor. A gente ficava mais independente! Os ministros tratavam com mais considerações. E ia por aí afora, nem ele mesmo sabendo o que dizia, apenas dentre toda esta prolixidade, destacando-se como um estribilho, os louvores à resolução tomada. Fizera muito bem em não se sujeitar mais às maçadas das antecâmaras! Quando voltasse com mais este título, a sua pretensão, tão fortemente apostilhada, seria prontamente despachada. Se era uma futilidade aparente, o título de doutor não deixava de influir poderosamente na vida prática! E o Pedro continuava sempre na mesma toada, com receio de um silêncio durante o qual arrebentasse de repente este segredo que todos sabiam e que cada qual fingia ignorar.

Os outros mal podiam ocultar as alegrias que lhe vinham a flux dos rostos. De toda esta lengalenga só tinham compreendido uma coisa - que o Marcondes ia mudar-se, naquele mesmo dia, que logo de noite estariam a sós na grande intimidade da família, sem esse estranho a perturbar-lhes as expansões. D. Augusta, a fim de ocultar o seu contentamento, fizera-se ainda mais severa e cerimoniosa, presidindo a mesa com o seu busto aristocrático de palaciana. Nenê tornara-se francamente alegre, sorrindo para o filho, debruçando-se sobre a mesa para examinar-lhe o prato e picar-lhe a carne mais miudinha. Sá Jovina, essa, nadava em vanglórias. Sentia-se feliz e confiante nos seus préstimos. Tudo aquilo era sua obra! Fora ela, a desgraçada que não tinha casa, quem o pusera pela porta afora! E agora ia ficar sozinha, ali, sem nenhum outro estranho com que eles repartissem a afeição que lhes sobrava! E ficaria ali, a cobrar o trabalho, a pedir a Nenê que lhe pagasse o serviço, que lhe pagasse o sossego de corpo e de espírito em que ia dormir daquela noite em diante!