O Hóspede (Pardal Mallet)/XXVIII

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O Hóspede por Pardal Mallet
Capítulo XXVIII


No dia seguinte o Marcondes encontrou mais fortemente acentuada a frieza dos dias anteriores. As palavras de sá Jovina, tudo aquilo que eles pensavam em segredo mas que não tinham a coragem de formular, pensamentos anônimos que acabavam de encontrar na boa velha um editor responsável, produziam o seu efeito. Agora eles sabiam de que acusá-lo, corporizara-se a aversão vaga e indefinida - espécie de humores a vagabundar pelo organismo inteiro determinando umas perturbações gerais que acabam por assestar-se em uma região qualquer e apresentam-se francamente nos conjuntos sintomáticos do tumor. Evitavam-no. Procuravam subterfúgios para não lhe responder, deixavam-no sozinho na sala de jantar a braços com um rumor indeterminado de acusações murmuradas. Ele fazia-se forte. Aparentava uns ares calmos e sossegados de quem tem a consciência tranqüila, fingia não se aperceber dessa corrente de antipatias que se dirigia para si como umas duchas fortes, tendo ainda a acalentar-lhe os sonhos uns laivos de esperanças.

Entretanto sentia-se a incomodar. Vinham-lhe aquelas sensações más dos primeiros dias em que aparecera ali, pelo braço do Pedro. E agora elas lhe pareciam mais fortes, mais veementes, mais difíceis de aturar. Não se tratava mais de uma reserva para com desconhecido, de uma inimizade gratuita. Por mais que quisesse pensar o contrário e se deixasse embalar pelos ventos brandos da esperança a sua situação não era a mesma. Não se tratava de conquistar afeições, mas sim de reconquistá-las. Era preciso, agora que o atacavam, defender-se, provar as suas boas intenções, entrar novamente em campanha, mas numa campanha mais difícil porque não tinha aliados, sentia-se só, inteiramente só, quase abandonado pelo Pedro! E além disto, intimamente apareciam-lhe a contê-lo nos seus ímpetos guerreiros umas espécies de remorsos a reprovarem-lhe o procedimento, a dizerem-lhe que fizera mal em querer seduzir a mulher do amigo que tão fraternalmente lhe abrira a casa. Oh! Estava bem só, sentindo-se e mesmo contra si!

Até o Pedroca, que antigamente lhe dispensava tanta amizade e ia sempre recebê-lo ao portão, mostrava-se agora arredio às suas graças e amabilidades. Parecia também enfastiado da sua pessoa, com vontades de vê-lo pelas costas. E o Marcondes impressionara-se muito com isto. Tinha pela criança uma grande e verdadeira afeição. Achava-o tão galante com a sua cabecinha loura e os olhos claros e inocentes, a boca pequenina e rubra que sorria tão bem, tão engraçada quando se remexia ao fluxo das palavras e das idéias! Demais redobrara-lhe a paixão por Nenê. Queria-a ainda. Queria-a sempre, fosse como fosse, custasse o que custasse! E o Pedroca parecia-lhe um pedacinho da moça, a trazer-lhe o seu aroma suave, a destilar aquela beleza das carnações sadias. Gostava de tê-lo ao colo como uma emanação do objeto amado. E a criança fugia-lhe, torturando-o, aumentando-lhe os padeceres, fazendo-o sentir mais grandemente todo esse isolamento e essa repulsão que haviam cavado em torno a si, onde ele se debatia em vão, onde gastava a sua energia inteira, sem encontrar ao menos um pretexto para romper, preso num círculo de cerimoniosidades.

Então e quis saber ao certo do que se tratava, acreditando ainda que a sua imaginação coloria negramente o quadro, fazia as coisas pior do que eram, esperando ser dissuadido, sonhando ter-se enganado e suspeitado aversões e ódios onde talvez houvesse apenas alguma dor íntima que lhe queriam ocultar. Recorreu à Marocas, crivando-a de perguntas, não lhe dando tempo para responder, desejando e receando ao mesmo tempo uma revelação. E quando a rapariga principiou a falar, entrando em detalhes íntimos, repetindo-lhe parte da discussão que ouvira ao jantar, achando prazer em remexer bem o ferro na ferida, ela mesma cansada de encontrá-lo a todo instante e das brutalidades de cada noite, o Marcondes sentiu umas lágrimas umedecerem-lhe a face. Por mais que tivesse dado pasto à sua imaginação nunca lhe passara pela cabeça a possibilidade de tantos horrores. E ficara abatido, sem coragem para reagir, arrependido de ter feito estas perguntas à Marocas, preferindo agora ignorar tudo quanto diziam a seu respeito.

E ele conservou-se assim, não sabendo o que devia fazer. Vieram-lhe a princípio vontades de lutar, de ir lá embaixo, de pedir satisfações a cada um, de brigar com o Pedro, de esbofetear sá Jovina. E em pouco abandonou completamente estas idéias belicosas. Lembrou-se de fazer-se humilde, de pedir perdão, de dar dinheiro à velha para que ela desmanchasse a sua obra e principiasse a falar bem a seu respeito. E andava assim, de um para outro alvitre, acobardado dentre tudo com a perspectiva enfadonha de romper bruscamente com aqueles sonhos de existência que fizera tão belos, de abandonar aquele ninho acolchoado onde se sentia tão bem. Mais tarde, e só depois de muita reflexão e de muito desânimo, resolveu-se definitivamente a mudar de casa. Pareceu-lhe isto a melhor forma de sanar todas as dificuldades, de resolver aquele súbito problema que o acaso dos fatos lhe punha na frente. E com uma rapidez de execução, ali mesmo de noite, pôs-se a arrumar a bagagem, querendo retirar-se no dia seguinte, achando repugnância em conservar-se por mais tempo naquela casa.