O Hóspede (Pardal Mallet)/XXVII

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O Hóspede por Pardal Mallet
Capítulo XXVII


O Marcondes, que nos últimos tempos havia abandonado completamente a sua pretensão de obter uma promotoria, voltara a se ocupar assiduamente do negócio, contente em achar qualquer coisa que o prendesse na rua. Agora andava a fazer muitas visitas e a procurar cartas de recomendação para o ministro da Justiça que não mostrava muitos desejos de servi-lo. E ele teimava em ser bem sucedido, querendo seguir imediatamente para junto da família, já cansado da vida que levara, meio pessimista, a acusar o mundo das contrariedades que sofria, sobretudo não poupando sarcasmos à amizade - uma coisa com que a gente sempre se sai mal! Uma ocasião demorara-se fora além das horas do costume e fizera com que o esperassem muito tempo para o jantar. Então, como notara um recrudescimento de antipatias, pedira para que nunca mais o esperassem além das quatro horas, e dois dias depois, convidado para um jantar de cerimônia em que esperava ser apresentado a um amigo intimo do ministro, prevenira o Pedro de que só voltaria de noite.

Foram grandes as alegrias experimentadas pela família ao saber da notícia. D Augusta mesma já andava cansada das etiquetas a que se sujeitava por causa da presença do rapaz. No final de contas ele era um estranho e a gente não podia ter, à sua vista, a grande expansão das intimidades! Era preciso tomar alguns cuidados nas expressões, ostentar uns modos severos. Enfim, era sempre um estranho, um homem que se metera por ali adentro e que já começava a importuná-los! E todos apresentavam-se com uns ares prazenteiros, fisionomias rejuvenescidas, prometendo-se uns mundos de prazeres. Até mesmo Pedroca parecia mais risonho, contente em poder ficar perto da avó que agora o enchia de carinhos, dizendo também as suas gracinhas, encantando a todos com as suas boas e argentinas gargalhadas infantis, comunicando aos outros toda a sua alegria de criança que gosta das novidades selam quais forem e que se aborrece logo que se sente dentro de uma habitualidade enfadonha.

Nenê, que andava sorumbática e amortecida, fez-se também alegre, voltando aos seus belos tempos despreocupados, servindo ao marido, querendo picar a carne do filhinho, num grande transbordamento de amizades. De momento para momento aumentava-lhe o ódio que dedicava ao Marcondes. Não podia mais aturá-lo e ficava nervosa com só ouvir-lhe a voz. Ele a fizera sofrer tanto! E sem formular bem claramente a acusação, sem mesmo compreendia inteiramente, exprobrava-lhe o ter ofendido a sua honradez e despertado a sua sensualidade, nem maculando a primeira, nem satisfazendo à segunda. Ela perdoar-lhe-ia tudo, uma declaração forte e veemente, uma audácia espantosa, o segurá-la de repente quando eles estavam a sós e beijá-la, beijá-la por muito tempo, indefinidamente. Nunca, porém, o que fizera o Marcondes - excitá-la, fazer-lhe passar pela nuca uns hálitos quentes de arreitações para largá-la em seguida exausta e não satisfeita, a pedir mais, a pedir tudo e sem conseguir coisa alguma - espécie de gota d'água a aviventar a sede de quem a prova nos lábios ressequidos pela abstinência!

E no meio do bem-estar que sentiam todos com a ausência do Marcondes, sá Jovina julgou prudente lançar algumas das frases sarcásticas que lhe ditava a maledicência. Como elas fossem muito bem acolhidas e d. Augusta arriscasse mesmo um comentário, a velha voltou à carga, muito satisfeita por lhe acharem graça, fiel à sua posição de divertidora, de quem paga a hospedagem com histórias engraçadas e até mesmo escabrosas, ao paladar do freguês. Então redobrou de causticante, haurindo coragem e incentivos nos aplausos que encontrava. Não o achava tão bonito como parecia. O nariz era muito grande; o corpo sem jeito, desengonçado. Depois passava-lhe em revista o moral, relembrava fatos, reconstruía-o em todos os seus ruins aspectos. Acusava-o de pretensioso, pensando-se uma grande coisa quando não passava de um bacharel sem fortuna, enfatuado, acreditando que todo mundo devia estar-lhe debaixo dos pés em contínua adoração.

O Pedro ao princípio tentara defender o amigo. Achava sá Jovina muito exagerada! O Marcondes não era tão mau assim! Tinha boas qualidades que o recomendavam logo de primeira vista! Depois, fora sempre um bom companheiro, muito prestadio e serviçal! No colégio prestara-lhe muitos obséquios e ele não queria mostrar-se ingrato! Mas a pouco e pouco, vendo o modo pelo qual lhe acolhiam as palavras, e os aplausos que sá Jovina continuava a receber, atrapalhou-se um bocado. No final das contas nem ele mesmo sabia explicar o que sentia, o que lhe ia pelo corpo adentro. Deixava-se porém arrastar pela correnteza de antipatias que convergiam para o Marcondes. Ele mesmo já estava cansado de encontrá-lo a todo momento, já gastara toda a reserva de amizades que acumulara durante anos, durante a prolongada ausência do amigo de colégio. E além disto, agora que o outro não estava ali, parecia-lhe tão boa a vida assim, sem um estranho a colocar-se de permeio às suas afeições! Tanto que se calou deixando a velha inteiramente senhora do campo, continuando indefinidamente nos seus sarcasmos e maledicências.