O Hóspede (Pardal Mallet)/XXVI

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O Hóspede por Pardal Mallet
Capítulo XXVI


Desde então começaram a reaparecer aquelas friezas e cerimoniosidades dos primeiros dias, agora mais fortes e atrapalhadoras por todo este intervalo de intimidades. Já tinham completamente desaparecido as conversas longas e intermináveis com que eles andavam a matar o tempo. Por vezes o Marcondes ainda tentava as familiaridades de outrora, mas via-se logo embaraçado com as respostas monossilábicas que recebia. O Pedro mesmo não ostentava mais as primeiras expansões, tomava uns ares tristonhos e esquecia as suas boas pilhérias ruidosas de então. Apenas o Pedroca continuava a mostrar grandes amizades ao rapaz e a ir recebê-lo no portão. Durante as refeições a fisionomia séria e reservada de cada um abolira completamente as jovialidades com que eles costumavam apimentar os pratos e preencher os intervalos. Enfim o Marcondes, lenta e lentamente, sentia a formar-se em torno a si um grande vácuo no qual se debatia estonteadamente, não podendo compreender uma tão brusca transformação; ele mesmo achando agora que aquela existência não era tão boa como parecia, furtando-se a ela o mais que podia.

Nenê constituíra o centro deste movimento que ia lentamente minando e solapando o edifício de felicidades que o Marcondes se construíra. Agora a moça tinha-lhe uns ódios e uns rancores veementes. Não podia aturá-lo e ficava nervosa só com a sua presença. Na grande febre dos seus ciúmes fora-lhe dado examinar em toda a verdade a sua situação. Vira-se prestes a cair, a desfalecer nos braços desse homem que o marido trouxera um dia para casa e que neste momento a impressionara tão desagradavelmente. Sentira mesmo que devia à inexperiência e acanhamento do rapaz o ter-se ainda conservado pura e sem mácula. E odiava-o duplamente. Odiava-o por toda a sua honestidade que agora lhe vinha em borbotões à flor da pele, horrorizada do abismo pelo qual escapara de rolar tão desastradamente; odiava-o por causa desse amor que ainda lhe tinha, por causa de toda a sua mulheridade exuberante de moça formosa, por todas estas vezes em que estivera junto a ele a palpitar de sensualidades, por não se ter ele aproveitado dessas ocasiões que ela inconscientemente lhe oferecera tantas vezes! Oh! Odiava-o muito!

Sá Jovina encarregara-se de fomentar todas estas tendências. Toda a sua bílis, acumulada na longa vida de dependências e humilhações, vinha-lhe à tona, numas frases causticantes que endereçava ao moço. Fora ela quem, reconhecendo as latências de animosidades que se convergiam lentamente para o Marcondes, estimulara-se e ousara mesmo pronunciar a primeira acusação, da qual todas as outras não eram mais do que conseqüências. E desde então ela, que já começava a sentir um tanto abalado o seu próprio crédito, firmava-o e restabelecia-o com os destroços dessa outra amizade que estraçalhava. Ao princípio Nenê e d. Augusta limitavam-se a ouvi-la, sem mesmo arriscar uma aprovação com a cabeça, intimamente gostando dessas críticas que concordavam tão inteiramente com as próprias opiniões. E a boa velha continuava lentamente no seu trabalho de toupeira a minar o solo em que pisava o rapaz, esperando já o momento em que lhe faltasse o terreno debaixo dos pés, contando aproveitar da ocasião em que ele desabasse para auferir alguns proventos, ganhar os resíduos dos destroços esparsos.

Todos iam se deixando arrastar insensivelmente, sem saber como nem por que, por esta correnteza a acumular desafeições contra o Marcondes. D. Augusta já não o ouvia mais como antigamente, não mandava-o chamar como dantes para as conversas íntimas de durante o dia, não podendo ela mesma explicar a origem de tudo isto, ouvindo benevolamente as maledicências por sá Jovina segredadas a seu respeito, compreendendo haver da parte de Nenê uma tal ou qual antipatia para com o rapaz. E a boa senhora não se dava ao trabalho de indagar a origem de tudo isto. Conservava-se muito calma e tranqüila sem querer ajuizar sobre o caso, entendendo que se tratava de uma qualquer coisa insignificante e passageira, lamentando até que não voltassem aos imediatamente primeiros dias, àqueles longos serões de músicas sem fim em que o espírito alegre e folgazão do Marcondes podia vagabundar pelos assuntos, animando a conversa, dando-lhe umas feições ao mesmo tempo séria e pilhérica, ajudando a gente a matar as horas enquanto não chegava o sono.

O Pedro mesmo, sem compreender o que se passava em si, começava a aborrecer-se do Marcondes. Já não eram mais aquelas grandes efusões dos primeiros dias, aquelas conversas que se prolongavam pela noite afora. Ele agora fazia-se mais discreto e menos comunicativo. Apenas, nas horas de refeição, sentindo o mal-estar que lentamente se apoderava de todos, procurava animar a conversação, dar-lhe uns aspectos de jovialidades. E como reconhecia-se fraco ele só para tamanha empresa procurava um apoio no Marcondes, tentando espicaçá-lo a fim de rir-se do eflúvio de palavras e teorias pândegas, com que o rapaz costumava responder a esta ordem de provocações. Ao princípio servira-se de uns meios brandos, de umas caçoadas ligeiras. Mais tarde encontrando-lhe, com grande pasmo seu, uma epiderme moral muito coriácea, fora gradativamente aumentando a intensidade dos seus ditos, fazendo-os ferinos, contente quando o Marcondes zangava-se ou um sorriso de aprovação aparecia nos lábios de Nenê, compreendendo que se estava passando alguma coisa estranha, mas muito preguiçoso para se dar ao trabalho deinvestigá-la.