O Hóspede (Pardal Mallet)/XXV

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O Hóspede por Pardal Mallet
Capítulo XXV


O Marcondes exultava. Agora só lhe bastava deixar que a semente germinasse! Nenê devia necessariamente fazer uma qualquer, uma demonstração repentina, um desses atos que desmascaram os mais íntimos sentimentos, e ele contava aproveitar-se do ensejo para a realização de todos Os seus desejos. Dera-lhe boas noites, assim como quem diz - até logo. Lá em cima, no quarto, esperava-a. Todo o seu romantismo natural fazia-lhe pensar que a moça arranjaria qualquer pretexto, aproveitar-se-ia do sono do Pedro para ir esprobar-lhe o seu procedimento, chamá-lo de traidor, acabrunhá-lo com impropérios, por trás dos quais se sentiria veementemente um mundo de paixões a calciná-la. Ele então seria bom, perdoar-lhe-ia todos estes insultos, procuraria acalmá-la, gastando-lhe o fogo nuns beijos longos, amorosos e quentes! E esperava sempre, indefinidamente, num exaltamento de sensualidades, tendo apagado a luz e deixado a porta aberta, estremecendo ao menor ruído, julgando a cada momento palpar-lhe, entre os braços, o corpo gentil das boas carnações sadias, das desenvolturas fáceis de serpente.

E de fato, Nenê com a longa meditação da noite, ali na cama, sentindo por entre a branda quentura dos lençóis o corpo do marido todo entregue à satisfação de dormir, burilava umas elaborações penosas de pensamentos maus. Achava que o Marcondes procedera muito canalhamente querendo namoricar, ali mesmo às suas vistas. Vinham-lhe uns verdadeiros ciúmes a escaldar-lhe o sangue. Queria-o para si, não como um amante mas como um adorador! Habituara-se àquelas demonstrações silenciosas e humildes de veneração. Toda a sua vaidade de mulher bonita gostava desse incenso com que lhe acariciavam a plástica graciosa. Chegara mesmo a sonhar a existência assim. Numa grande calmaria de paixões e de rivalidades ela queria viver entre a mãe, o marido e o filho e tendo o Marcondes como um sacerdote da sua religião; ela lá em cima, em um altar, bela e impassível como uma deusa a respigar todos os fanatismos histéricos dos seus crentes, muito boa, consentindo que a adorassem!

E no dia seguinte a moça acordou muito enraivecida e de mau humor, ralhando com todo mundo e a qualquer propósito, fazendo-se má castigando o Pedroca porque fora ao jardim contra a sua ordem expressa. Durante o almoço mostrara-se muito cheia de bruscarias, tratando o Marcondes com umas ostentações de friezas. E assim levara todo o dia, sempre irritadiça, mudando constantemente de lugar. À noite, quando foram para o portão, naquele hábito contraído desde tantos tempos, continuou a perturbar todos os prazeres e divertimentos, interrompendo as conversações dizendo que estava incomodada, que os outros não lhe ligavam importância, que a deixavam sozinha sem lhe prestar atenção. Mais tarde, à hora costumeira da reunião na sala de visitas, ela ainda redobrou de maus modos e declarou positivamente que não queria mais tocar piano, que estava farta de cansar-se para divertir umas pessoas que não sabiam lhe agradecer e levavam a debicá-la e a criticar-lhe a execução, que chegavam mesmo a negar-lhe vocação musical!

Então a noitada tornou-se enfadonha e entristecida. Todos andavam inquietos, sentindo vagamente no ar que respiravam a ameaça de um cataclismo. D. Augusta quis mesmo fazer umas pequenas observações à filha, nas foi recebida com um olhar tão ameaçador que recolheu-se prudentemente aos bastidores. Nenê não era má, mas quando se zangava ficava insuportável, incapaz de atender a quem quer que fosse, e nessas ocasiões era sempre melhor deixá-la sossegada para não azedar-lhe o ânimo!

O Pedro também tentou intervir no negócio, não podendo compreender esta brusca reviravolta na mulher, ainda na véspera tão contente, cantarolando alegremente, tendo também de recuar ante o modo pelo qual foram recebidos os seus comentários. E sá Jovina, que não gostava destas brigas, propôs que tomassem imediatamente o chá e fossem todos deitar-se cedo, ela mesma resolvida a partir no caso de piorar a situação, adivinhando alguma coisa do que se passara.

O Marcondes lamentava-se agora de ter posto em prática o plano tão longamente concebido e do qual esperara tanto. Se ele não se tivesse metido a querer rapidez no desenlace daquela pequena aventura que ainda se conservava oculta, não lhe teriam acontecido coisas destas. Atualmente parecia-lhe que havia procedido mal e arrependia-se do que fizera. Tinha mesmo vontades de chegar junto à Nenê e de dizer-lhe que o incidente da véspera não passara de uma farsa improvisada no momento. Mas a moça olhava-o com tanto rancor que não se animava a isto e conservava-se silencioso, não sabendo que jeito havia de dar a esta complicação, saudoso da boemia alegre dos outros tempos, com vontades de aniquilá-lo este dia que lhe parecia tão fatal aos seus amores, como que o esvaimento de todas as suas esperanças. E ficava irresoluto, não sabendo o que fazer, confiando no tempo para apagar todas estas reminiscências, esperando ainda na possibilidade de voltarem às grandes intimidades iniciais, apressando-se em ir para o quarto a fim de fugir a essa realidade opressora.