O Hóspede (Pardal Mallet)/XXIV

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O Hóspede por Pardal Mallet
Capítulo XXIV


Havia já uns dez dias que o Marcondes chegara àquela casa pelo braço do Pedro e a sua situação, bruscamente melhorada logo no seguinte dia, ia lentamente complicando-se tornando-se dificultosa e cheia de entraves com toda essa aventura amorosa que ele ateava constantemente e nunca conseguira deslindar com a sua natural tibieza e falta de prática. Sentia a necessidade de não prolongar por mais tempo este estado todo anômalo de viver. Precisava dar um desenlace a este pequeno incidente! E como não se reconhecia coragem para arcar frente a frente com a situação, como a sua franqueza andasse sempre a atemorizá-lo procurou uns caminhos tortuosos para chegar ao termo da conquista empreendida. Firmemente persuadido de que Nenê acabaria por entregar-se toda inteira, de corpo e alma, à discrição do vencedor, almejava fazê-la render-se sem combate e sem resistência, e pareceu de muito boa tática o despertar-lhe uns ciúmes em cujos acessos violentos a moça viesse procurá-lo; e só esperava um ensejo para por em execução este plano para ele tão cheio de prometedores resultados.

Uma noite quando todos já se tinham retirado do portão, e, reunidos na sala de visitas prestavam atenção a Nenê que preludiava no piano uma romanza italiana apareceu a visitá-los a família Moreira. Foram então uns grandes rebuliços uns transbordamentos de alegrias. Havia tanto tempo que não se viam! E de parte a parte recomeçavam os beijos e os abraços, um desencadear sem fim de efusões ternas o Marcondes foi imediatamente apresentado pelo Pedro ao sr. Moreira - um sujeito alto e bem falante já meio idoso, que ocupava uma posição elevada no funcionalismo. Logo em seguida, à voz de Nenê, que o chamava para o círculo das moças, ele dirigiu-se para junto do sofá onde recomeçaram as apresentações às filhas do tal sujeito. Eram três irmãs, muito galantes, de cabeças louras, os cabelos bastos e sedosos caindo despretensiosamente até a cintura. Trajavam igualmente uns elegantes vestidos de cetineta, com casacos de cetim arremedando fraques, quase disfarçadas em homens, com os competentes colarinhos e as gravatas com pregador em ferradura.

A conversa generalizou-se. Vieram logo a falar sobre modas. Nenê elogiava muito aquele feitio de vestido, e declarou imediatamente que havia de mandar fazer um igualzinho. Achava graça nessa ousadia de fraques e coletes. Mas o Marcondes entendia que cada sexo tinha obrigação de guardar os seus trajes e não se meter a inovações capazes de confundi-los. Então discutiu-se muito o assunto, cada qual trazendo o seu parecer, alterando a voz para se fazer ouvir no grande barulho que reinava. De modas, sem transição, passaram a tratar da rua do Ouvidor. As meninas Moreira tinham estado lá na véspera. Sempre muita gente! Às vezes era até difícil de atravessá-la! E diziam os encontros que tiveram: as filhas do Nicolauzinho, a noiva do Artur - um primo delas, e outras, e outras, um nunca acabar. O Marcondes ouvia-as com muita atenção, não perdendo vaza para encartar uma graçola ou uma amabilidade. Resolvera-se a aproveitar o ensejo para executar o plano concebido e olhava para as três, procurando escolher a mais bonita, indeciso, ainda não sabendo a qual devia dar preferência, acabando por decidir-se pelo narizinho arrebitado da mais moça, que respondia pela alcunha de Linda.

Como viessem a falar sobre música e sá Jovina contasse os concertos habituais da noite, as meninas Moreiras insistiram para que os dois fossem executar. Depois de umas pequenas negaças facilmente vencidas, Nenê dirigiu-se para o piano convidando o Marcondes a pegar da flauta. Então começaram. O rapaz fazia-se porém distraído, raramente acertando o compasso, voltado para a Linda a quem parecia fulminar com os seus olhares ternos a segredarem umas declarações de amor. E como observasse que Nenê apercebia-se dos seus manejos e não prestava mais atenção à música continuou, procurando fazer-se mais notado, muito contente em ter posto em prática o seu plano, prevendo desde já uma próxima cena de ciúmes veementes após a qual a moça se lhe entregaria inteira e completamente, pedindo-lhe que não fosse tão mau, que a amasse pelo menos um bocadinho! Entretanto a música terminara-se sem grandes entusiasmos de aplausos, apenas com uns cumprimentos de civilidade, sem insistência para que executassem mais alguma coisa, todos passando logo a outro assunto.

Desde então, já nas conversas da sala, já durante o chá, Nenê conservou-se muito irascível e cheia de bruscarias. Forcejava em atrapalhar todos os colóquios do Marcondes com a Linda; o rapaz, que notava estas súbitas transformações, fazia-se mais amável para excitá-la e provocar-lhe a tão ansiosamente esperada cena de ciúmes. A moça sentia-se fora de si, não podendo compreender tem o que se passava no seu organismo. No final das contas ela gostava do Marcondes e percebera havia muito tempo que o rapaz lhe retribuía na mesma moeda! Nunca tivera a idéia de aceitá-lo para amante! Ela era muito honesta e não queria de forma alguma ser infiel ao marido! Mas o amor submisso e sossegado do moço lhe parecia muito decente, uma homenagem rendida à sua beleza vaidosa, homenagem recebida sem escrúpulos, nunca lhe tendo passado pela idéia a possibilidade de uma exigência! E agora zangava-se, não o queria para si, mas opunha-se também a que ele andasse requestando outras mulheres, entendendo que o rapaz tinha obrigação de dedicar-lhe uma contemplação gratuita de devoto!