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O Homem/XXI

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Magdá, acompanhada pelo pai e pelo médico, foi nesse mesmo dia conduzida à Casa de Detenção.

Delirou por todo o caminho. Afigurava-se-lhe que o carro em que iam era um barco e a rua um grande rio deslizado entre paredes de verdura.

Mais depressa! mais depressa! exclamava a insensata aos dois falsos tripulantes que tinha ao lado.

Não deixem dormir os remos!

Há de ser difícil encontrar semelhante ilha... observou um deles.

E eu duvido muito que a encontremos... considerou o outro.

Ah! disse a filha do Conselheiro, notando que o rio se alargava. Talvez que apareça agora!...

Mas isto já é o mar!... contrapôs um daqueles.

Pois é justamente no mar que ela está... confirmou a desvairada.

No mar? Pois a senhora quer viajar em pleno mar com um barquinho tão à toa?...

Não faz mal! respondeu a senhora. Não faz mal! Vamos adiante!

É que é muito arriscado! Podemos levar o diabo!

Procuremos! Procuremos!

Procurar uma ilha como quem procura uma casa!...

Não tenham medo! Vamos para a frente!

E o barco, embalançado agora pelas águas do alta mar, proejava errante; ora batido para a direita, ora para a esquerda; ora avançando, ora recuando, à procura da ilha encantada. Magdá, erguida de pé, os cabelos soltos ao vento, concheava a mão sobre os olhos e procurava descobrir ao longe, nos limbos do horizonte, algum ponto negro que lhe desse uma esperança.

Por aqui não há ilha nenhuma!... objurgou um dos mareantes. E' loucura continuarmos a procurá-la!...

Mas como se chama esse tal demônio de ilha? perguntou o outro.

Não sei, não sei como se chama, a "Ilha do Segredo" talvez, ou talvez nem tenha nome; porém juro-lhe que ela existe, porque é lá que eu vivo há muito tempo, é lá que moro com minha família! Procuremos! Procuremos! Eu lhes darei todas as minhas jóias, eu lhes darei, senhores, tudo o que possuo, menos meu filho! Não parem! não hesitem, por amor de Deus!

Com estas palavras os remadores pareciam criar novo ânimo.

Espera! gritou um deles, no fim de algum tempo. Há terra naquela direção!

E, se me não engano é com efeito uma ilha... acrescentou o companheiro.

Pois vamos lá! Vamos lá! suplicava a histérica, esfregando as mãos com impaciência.

Mas como é longe!.

Eu já nem sei por onde andamos!...

Não desanimem! Não desanimem! Agora pouco falta! Vamos! Um pequeno esforço!

Enormes vagalhões erguiam-se de todos os lados; o horizonte aparecia e desaparecia quase sem intermitência; o barquinho, tão depressa rastejava pelo fundo de abismos tenebrosos, como se alcantilava deslizando no claro dorso de espumosas montanhas; entretanto seguia, seguia sempre, agora sem mais auxílio de remos, como se fosse levado por uma correnteza.

A ilha aumentava rapidamente defronte dos olhos de Magdá.

É ela mesma! É ela! exclamava a louca. Já daqui enxergo a colina, toda emplumada de bambus

E alçava os braços para o céu, rindo e chorando de alegria. É ela! E' a minha querida prisão! É o meu ninho adorado! Vou tornar a vê-la! Vou habitá-la de novo! Que ventura, que ventura suprema!

E avançavam, cada vez mais aceleradamente, arrastados pelas águas. Em menos de um minuto avistavam-se já as palmeiras da campina; via-se rebrilhar ao sol o areal da praia; destacavam-se caminhos de verdura, e o teto da habitação surgia por entre massas de arvoredo.

Mas já ninguém podia resistir ao ímpeto da carreira que levava o barco; o miserável precipitava-se agora vertiginosamente como se fosse arrebatado por uma, pororoca.

Agüenta! Agüenta! berravam os catraeiros.

Estamos perdidos!

Agüenta!

Proteja-nos Deus!

Valha-nos a Virgem!

Os marinheiros tinham a feroz catadura de quem vê a morte face a face. Praguejaram maldições, blasfêmias; depois abriram a chorar, como duas mulheres.

E Magdá sorria com a idéia de que, se expirasse afogada, o seu cadáver seria levado pelo oceano aos braços do milagroso amante, que a faria ressuscitar imediatamente.

Os dois homens rezaram, para morrer.

Redobrou a fúria da corrente. O barco rodopiava, que nem um tronco que a voragem sorveu. Magdá já não sentia ponto de apoio, já não via ninguém a seu lado, arrebatada por um turbilhão de vagas que a sufocavam.

Remoinhou nessa aflição alguns instantes; de súbito, ouviu um estrondo de onda que espoca e sentiu-se rolar na praia, cuspida numa golfada de espumas.

Correu até onde nascia a relva e deixou-se cair aí, prostrada.

Assim esteve longo tempo, descansando ofegante sobre a grama fresca e macia, completamente nua, os olhos fechados; toda ela penetrada por um capitoso perfume de magnólia. Este aroma, que dantes tanto a importunava, dava-lhe agora inefáveis consolações; era esse o perfume da sua ilha querida; esse o aroma do paraíso de amor, onde nascera o ente que ela mais estremecia no mundo.

Todavia a prostração não a deixava ainda correr ao encontro do filho; e seus lábios estalavam de sede pelos beijos dele, e toda ela ardia na impaciência da saudade.

Maldito abatimento!

Entardeceu. Um vento fresco agitava agora os carnaúbais em melancólicos sussurros; a patativa gemia na mata, chamando o companheiro; e toda a ilha se apurpurava na fúlgida congestão do sol poente.

Magdá ergueu-se a meio na relva, admirada de que o marido ainda não tivesse dado por falta dela e não fosse à sua procura: "Não era aquela a hora em que todos os casais se recolhiam ao aconchego dos ninhos?..."

Ficou a cismar.

Teria acontecido alguma desgraça?... disse consigo. E então, a idéia do envenenamento de Luiz e Rosinha veio-lhe à lembrança com o pânico de um sonho pressago.

Teve um arrepio. Recordou-se de os ter visto mortos, ao lado um do outro, lívidos e enrijados pela estricnina Seu coração encheu-se com um pressentimento horrível. Levantou-se logo e tomou aflita a direção da casa.

A porta estava aberta. Foi entrando.

Achou tudo deserto e silencioso.

Estremeceu aterrada.

Luiz! gritou ela.

Ninguém respondeu.

Luiz! Ó Luiz!

A sua voz perdia-se nos surdos murmúrios da tarde.

Sem ânimo de fazer uma conjetura, correu ao berço do filho.

Encontrou-o vazio.

Apalpou-lhe as roupas, levou-as à face nenhum calor as aquecia.

Estremeceu de novo. E, já aturdida. mais pálida do que a estrela da manhã, foi a todos os cantos da casa, gritando pelo filho e chamando pelo esposo.

Nada! nada!

Saiu a correr; entranhou-se na mata, percorreu vales e montanhas; cercou doidamente a ilha inteira, gritando e chorando.

Não encontrou ninguém! ninguém!

Tornou pelos caminhos andados; bateu de novo todos os recantos da ilha, e voltou à casa, possessa, estrangulada de soluços.

Roubaram meu filho! Roubaram meu filho!

E pôs-se a quebrar tudo que pilhava ao primeiro alcance. Arremessou por terra e de encontro às paredes, as jarras, o tinteiro, estatuetas e faianças; atirando depois consigo mesma ao chão, estrebuchando, torcendo-se em arco, encostando a cabeça nos calcanhares, a espumar entre dentes e a espolinhar-se como um hidrófobo. Em seguida começou a engatinhar, firmada nas mãos e nos joelhos, resbunando prolongadamente, com o pescoço estendido, a boca virada para o alto:

Fernando! Fernando!

Corriam-lhe lágrimas pela face. De repente, ergueu-se e caiu de novo em fúria, a querer dar cabo de tudo; então sentiu que vigorosos pulsos a agarravam por detrás e enlaçavam-lhe os braços.

Fernando! Fernando!

E tentava morder os que a seguravam, arremetendo com a cabeça para os lados.

Mas um homem suspendeu-a pelas costas e outro lhe enfiou pelos pés uma abominável mortalha de linho cru, que se lhe estreitava até ao pescoço, tolhendo-lhe o corpo inteiro.

E Magdá, em vão tentando debater-se na camisola de força, foi entre policiais, conduzida para uma célula nos braços do Dr. Lobão, que praguejava, furioso, por lhe não permitirem as leis carregá-la consigo no mesmo instante para a sua casa de saúde.

Ficou lá dentro sozinha, a roncar como uma fera encarcerada. O pai viu fecharem-lhe a jaula, mais sucumbido do que se aquela porta fosse a lousa de um túmulo.

Está perdida para sempre! soluçou o desgraçado, resvalando no colo do médico,

O esquisitão fez que limpava o suor da testa, para disfarçar duas lágrimas rebeldes que lhe saltavam dos olhos escandalosamente.