O Matuto/XXII

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O engenho, que ainda defendido por Victorino, teria de render-se às armas numerosas e práticas dos agressores , não podia, na ausência dele, sustentar-se a não ser por poucos momentos.

De feito não era ainda de todo claro o dia, quando as portas da casa grande abalada em seus fundamentos caiam a poder de machados e por cima delas entravam em borbotões os malfeitores impacientes pelo saque.

Este foi feito com desabrimento incrível. Aquela malta de homens perdidos que, no rancho do Sipó, explorados pelo chefe, se haviam acostumado a odiar os nobres e a cobiçar os seus haveres, deparava enfim, depois de esforços e tentativas malogradas, ocasião oportuna para matar a sede de vingança e ouro que os abrasava. Para quase todos havia sabor especial nesta negra vitoria. A casa, que destruíam, saqueavam e humilhavam, era propriedade de João da Cunha, dentre os nobres o mais odiado, por ser talvez o mais poderoso e vingativo deles. Por isso destroem e aniquilam o que não lhes excita a ambição ou não podem conduzir em seus sacos. Moveis preciosos são jogados das janelas ao pátio, onde se despedaçam. Cada queda, cada destruição serve de objeto a indecentes motejos e dá lugar a indignos comentários. Enfim, longe iríamos se quiséssemos descrever as cenas aviltantes e lastimáveis que dentro de horas se representaram na aristocrática vivenda do sargento-mór.

Tinham eles dado com o deposito dos vinhos — a rica adega do fidalgo — e já se entregavam aos deliciosos espíritos, quando, trêmulos e aterrados, entraram correndo alguns dos espias que, por ordem do Tunda-Cumbe, estavam vigiando nos cantos mais importantes do cercado.

— Fujamos, fujamos, que ai vem uma grande força.

— Bem se dizia que ela havia de vir — disse Pedro de Lima.

— Vamos a seu encontro — gritou Gonçalo Ferreira.

— Não, não — replicou Pedro de Lima. ganhemos o mato sem demora. Quando tiver passado, iremoa atrás dela, que ficará entre dois fogos — o nosso, pela retaguarda, e o de Luiz Soares pela vanguarda. Luiz Soares a esta hora, se entrou pelo Tanquinho, já deve estar senhor da vila. Faremos a junção e queimaremos os pés-rapados um por um.

— Está dito.

‘Sair’ foi o grito que irrompeu de todos os peitos.

Ao grito seguiu-se o exemplo.

A força, como o leitor já deve ter compreendido, era a que Gil Ribeiro comandava.

Vendo da estrada abertas as portas e janelas do sobrado, espalhados pelo pátio os moveis, alguns dos quais, formando pequenos adjuntos, eram nesse momento presa das chamas, não pode Francisco acabar consigo que não fosse de perto verificar este lastimoso espetáculo.

Quando esbarrou na frente da casa e reconheceu a terrível verdade, uma idéia lhe atravessou o cérebro, iluminando-o como relâmpago. Esta idéia lhe dizia que a sua casa tinha sido abandonada por Lourenço e Marcelina, como o engenho lhe pareceu que o fora por João da Cunha.

— Eles não morreram. Estão todos no sobrado. Oh meu Deus! Permiti que assim seja.

Estas palavras consoladoras, que lhe saíram irresistivelmente dos lábios, foram como as primeiras manifestações de nova alma que lhe entrara no cérebro. Voltou imediatamente à estrada e se incorporou outra vez na tropa que já corria a marche-marche para a vila, por ordem de Gil.

Pedro de Lima não se enganava. Desde o amanhecer achava-se Luiz Soares com suas forças em Goiana e dava ai que fazer à nobreza.

Nesta vila lavrava a anarquia, ora mais, ora menos, extensamente desde 3 de julho, data do primeiro motim. Não menos de oito foram eles, numero que se elevará a muito mais, se aos movimentos das ruas, em certo modo organizados, juntarmos as disputas particulares, os desforços pessoais, as afrontas e os desagravos feitos em publico, enfim todos os conflitos naturais de duas forças políticas que se hostilizam a todo o transe no pressuposto de aniquilar-se mutuamente.

Além destas circunstancias comuns a todas as guerras civis, uma circunstancia especial tornava mais perigosas e freqüentes as agressões e as represálias em Goiana — a de serem os goianistas ardentes assim nas lutas da razão, como nas do sentimento.

De data imemorial é a terra de Nunes Machado, de Arruda Câmara e de tantos outros vultos eminentes, foco de faculdades viris fácil de acender-se, difícil de apagar-se. Filha legitima do Recife — vasto laboratório, em que fermentam as paixões populares sem intermitência, ainda que fria serenidade pareça algumas vezes indicar enfraquecimento ou sono da grande alma pernambucana que tem ai a sua sede, Goiana sempre representou conspícuo papel nas agitações da província.

Conhecedores da influencia, não só comercial, mas também política da vila, puseram os mascates particular empenho em tê-la de seu lado; e neste pressuposto fizeram dela sua segunda praça forte, ou o principal ponto dos seus recursos e forças, depois da capital.

Logo que no Recife se fez sentir a falta de viveres, foi de Goiana que trataram de os enviar para os sitiados. Um óbice porém apresentou-se imediatamente, o qual muito deu que pensar aos insurgentes — a rixa em que estavam com os habitantes de Goiana, os da Ilha, rixa que tem sua natural explicação, que é a seguinte:

De Itamaracá sede de uma capitania independente de Pernambuco, por doação que a Pero Lopes de Souza fizera por carta de 1º de setembro de 1534 d. João III, fora mudada a câmara para Goiana em 1685. Despeitados, começaram desde então os moradores de Itamaracá a ter para os de Goiana o sobr’olho carregado, e não perdiam ocasião de lhes dar mostras do seu desagrado. Altos empenhos a favor da ilha, se não foram falsas informações movidas secretamente contra a vila, deram lugar a expedir-se em data de 20 de novembro de 1709 ordem regia, determinando voltasse para aquela a câmara que de lá saíra. Este ato veio converter em novos ódios ressentimentos antigos. Por isso não foi preciso, para que os da ilha tomassem o lado do governo, isto é, o da nobreza, mais do que saberem que Goiana se amotinara contra ele. Não podendo porém a primeira competir com a segunda, e havendo até suspeitas de que, para impedirem que fossem tomadas pelas autoridades da ilha os gêneros remetidos pelos mascates para o Recife, tentavam estes apossar-se dela, encarregaram os governadores militares o ajudante-de-tenente Gil Ribeiro de ocupar o Forte-de-Orange. O ajudante ai esteve até que partiu, por nova ordem, para Goiana, segundo vimos.

A pacificação desta vila era na realidade empresa que exigia animo e espíritos fortíssimos. Nunca estivera tão acesa ali a fogueira das paixões partidárias, como nos últimos dias que precederam ao da chegada de Gil Ribeiro. A nobreza, em conseqüência da voz, que correra dias antes, de que o bando de Paraíba, de passagem para o Recife, tomaria em Goiana larga desforra das anteriores represálias, entendeu em fortificar-se, posto que sem ostentação, visto como os seus recursos não eram grandes, nas mais importantes embocaduras.

Nesse tempo a vasta campina que hoje se interpõe entre a ponte de Goiana, na Rua-do-rio, e o ancoradouro das barcaças, denominado Porto-da-conceição, era um sitio ocupado por Jorge Cavalcanti, no qual tinha ele grandes olarias. A casa de morada ficava no centro das terras. Do mirante punha-se debaixo das vistas toda a volta do rio Goiana que vinha do Porto-da-conceição, passava pela frente da campina e ia morrer, como ainda hoje, no lugar onde se vê o trapiche, que há poucos anos serviu de casa de teatro.

Não estava então obstruindo o rio. Barcos e sumacas chegavam até ao pé das casas da rua e ai recebiam ou deixavam os seus carregamentos.

Com o pretexto de fortalecer as barreiras para o embarque de tijolos e louça, mandou Jorge Cavalcanti levantar em vários pontos estacadas de pau-a-pique. Por trás das estacadas vastas tulhas de barro, e pela frente, no espaço da margem que ficava descoberto, largos e traiçoeiros fojos, eriçados de mortíferos espeques, davam a esta posição as vantagens da primeira fortificação da nobreza, visto que cortava quaisquer inimigas comunicações da Paraíba com a vila pelo rio.

Do lado do norte eis em que condições se achava a defesa.

Nas terras que ainda se denominam — Tanquinho — tinha o ex-alcaide-mór Manoel Cavalcanti de Lacerda sua casa de morada, a qual ficava na beira da estrada que vinha da Paraíba.

O ex-alcaide-mór sem hesitar um só momento aproveitou-se dessa importante posição. Não somente concentrou ai seus recursos, mas também mandou levantar ao longo da estrada e por dentro dos matos, trincheiras singulares, que grandes danos deveram causar aos assaltantes, se eles por ai tivessem feito a sua entrada. Mas não foi isto o que aconteceu, e assim destas amplas defesas, como das de Jorge Cavalcanti, que não o eram menos senão mais, como vimos, não se disparou um só tiro contra os da Paraíba, visto que, de tudo informados, não obstante serem grandes as cautelas tomadas e o segredo mantido sobre tais fortificações, cortando por diferentes caminhos, entraram na vila por onde não eram esperados como adiante veremos.

Cosme Cavalcanti ocupava o sobrado que ainda existe do lado direito, no fim do Beco-do-pavão e que dá para a Rua-do-meio.

Chamou para junto de se e lhe entregou o comando de varias ordenanças, que estavam de prontidão no pavimento térreo do sobrado, o alferes Diogo de Carvalho Maciel, o qual tão brilhante nome deixou por seus feitos nessa guerra. Felipe Cavalcanti, que morava na Rua-da-Soledade, e José de Barros na Rua-das-porteiras tinham também consigo gente armada, e só esperavam qualquer indicio de rompimento para caírem sobre os inimigos.

Guarnecia a cadeia o ilustre capitão Antonio Rabelo, que, por ocasião dos primeiros motins, fora destacado pelo governo para auxiliar na vila a defensão das autoridades e dos moradores pacíficos; e a todos inspirava a maior confiança.

João da Cunha trazia a sua gente no vasto armazém que ficava por baixo do sobrado por ele ocupado. Varias caixas de açúcar, que a esse tempo ainda ai se viam, porque tanto que se trocaram as primeiras hostilidades, cessaram as transações entre os agricultores e os comerciantes, haviam sido colocadas por trás das portas da frente, de modo que pudessem servir de trincheiras com avançada para o Pátio-do Carmo.

Estava sujeito a especiais perigos o ponto ocupado por João da Cunha, em conseqüência de se achar fronteiro ao convento, que era, para assim escrevermos, o quartel-general dos mascates, sendo por estes os frades, graças à influência dos da recoleta. No convento achavam-se recolhidas armas e munições mandadas de Recife para serem distribuídas pelos amotinados.

Eram estas as condições da defesa dos nobres em Goiana. Volvamos agora rápida vista-d’olhos sobre as dos seus adversários.

O plano destes era realmente tenebroso, e não ficava a dever ao da nobreza.

João da Maia, não obstante se mostrar mais moderado em sua ardência contra os senhores-de-engenho, do que ao principio, escrevera na véspera o Antonio Coelho:

‘Amanhã há de estar logo muito cedinho ai Luiz Soares com seu terço, passante de quinhentos homens.’ O próprio Luiz Soares mandara dizer a Jeronimo Paes por seu parente Joaquim Silverio:

‘Espere por mim com minha gente para almoçarmos. Queremos panelada gorda e bom vinho.’ O Tunda-Cumbe a quem Antonio Coelho escrevera aconselhando-o a que entrasse ao mesmo tempo que Luiz Soares a fim de ser decisivo o golpe que se desfechasse sobre a nobreza, respondera dizendo que não faltaria.

Por volta das cinco horas da tarde do dia anterior ao da entrada de Gil, justamente quando em sua casa fazia Antonio Coelho com Jeronimo Paes o computo das forças, que deviam no dia seguinte tomar Goiana, entrou na sala um pardo, escuro, corpulento, mal encarado, por nome Bartolomeu. Era o mestre de uma barcaça de Antonio Coelho, circunstancia a que talvez devia a particular confiança que nele tinham os principais negociantes da vila.

Ao parecer, sua chegada não era esperada, visto que deu lugar a revelarem surpresa, posto que agradável, os dois amigos.

— Já de volta, Bartolomeu! exclamou Antonio Coelho. Prósperos te foram os ventos.

— Cheguei há poucas horas, respondeu o barcaceiro.

— Então? Inquiriu Jeronimo Paes. Foste feliz na viagem? Chegaram ao Recife sem novidade os viveres que mandamos?

— Por força, respondeu Bartolomeu com segurança.

— É um herói, disse Coelho.

— Não foi sem perigo que cheguei ao meu destino. Da ilha tentaram cortar-me a marcha da embarcação. Mas eu fiz-me no largo com tão boa hora, que ainda me procuram supondo-me fora da barra, quando eu já fui e já aqui estou. E que novas nos trazes? Boas ou más? Interrogou Coelho.

— As novas mais importantes devem vir nestas cartas — disse o barcaceiro, entregando ao negociante um alentado maço de papel.

Coelho rasgou com violência o envoltório que reunia em um só volume a sua correspondência, e pôs a devorá-la.

Entretanto Jeronimo Paes não cessava as indagações sobre o estado do Recife e dos seus habitantes sitiados.

— O que eu sei dizer é que a fome dentro da vila é de meter horror, - disse o barcaceiro. Dá-se um vintém por uma espiga de milho e não se encontra. Não há carne de espécie nenhuma. De farinha não havia nem um caroço antes de eu lá chegar. Um papagaio já serviu de galinha para caldo de um doente. O forte da população é o marisco-pedra, tirado nas coroas quando a vazante as descobre. Mas vosmecê não sabe que perigo corre o que lá os vai apanhar. Mais de cinquenta negras mariscadeiras tem caído no poder dos pés-rapados que fazem o cerco da vila. Muito pescador de marisco tem morrido de tiro.

— E porque não rompem o cerco? Para que servem os que estão dentro? Onde está o animo dessa gente? Que faz Mota? Oh que gente! Que gente!

— A coisa não é tão fácil como parece. Seu governador João da Mota tem metido a cabeça muitas vezes para romper o cerco; mas os pés-rapados são muitos; têm toda a vila rodeada de corpos de guarda. Dormem ainda menos do que tetéu. Estão sempre alerta.

— E que tem feito d. Francisco e o Camarão? Acham cedo ainda para avançar contra os sitiantes?

— Ainda não puderam ser bons em nada. Os pés-rapados cada dia fazem uma das suas pelos caminhos e engenhos onde vão topando gente contraria. Se o cerco durar mais um mês, a vila entrega-se; porque à fome ninguém resiste. Fome tem cara de herege patrão.

Não há de ser assim — disse Coelho, atirando sobre a mesa junto à qual estava sentado, as cartas que acabava de ler — não há de ser assim. Em poucos dias nós os de Goiana havemos de romper o assedio e levantar nas ruas do Recife, livres de qualquer embaraço a autoridade real, agora vilmente abatida pelos rebeldes, já que os de lá não dão acordo de si. Aí tendes, Sr. Paes o que me escrevem Mota, Correia Gomes e Simão Ribeiro, acrescentou dirigindo-se a Jeronimo Paes. Lede. Quando acabardes, mandai levar ao provincial esta carta do padre João da Costa.

E voltando-se para o barcaceiro, perguntou-lhe como por encher o tempo:

— Que mais, Bartolomeu?

— Na botica do Rogoberto estava muito povo reunido agora mesmo. Dizia um que seu João da Cunha tem a fabrica e os moradores na vila para em caso de necessidade saírem armados contra os mascates. Dizia outro que Antonio Coelho e seu Jeronimo Paes não têm armas nem dinheiro para dar ao povo que os quiser acompanhar ao Recife.

— Qual foi o infame pé-rapado que aventurou semelhante aleivosia?

— Quem estava dizendo isto era o Ricardo.

— Ajustaremos já estas contas, disse Paes. Irei à botica para o desmentir, falarei ao povo. Isso não se atura. Hão de ver para quanto presto.

— Sim, sim, meu amigo. É da maior conveniência opor à mentira o desmentido. Ireis à botica sem falta, não é assim, Sr. Paes?

— Irei. Porque não? Irei já, agora mesmo — disse o marchante, levantando-se para sair.

— Antes de irdes, quero lembrar-vos uma providencia. Bem sabeis, Sr. Paes, que sem dinheiro não se fundam reinos. Vinde comigo até cá dentro. Acompanha-nos, Bartolomeu. Quero que vejas com teus próprios olhos as coisas quais são, a fim que possas com segurança saber quanto são infames os que nos irrogam faltas e fraquezas que não temos.

— O pavimento inferior era repartido em duas metades. Para a da frente, na qual estava a loja com todas as suas dependências, entrava-se pelo lado da rua; para a outra descia-se por uma escada que comunicava com o primeiro andar por dentro de um gabinete secreto. Coelho, Paz e Bartolomeu atravessaram esse gabinete, desceram a escada e chegaram ao pavimento, que se esclareceu à luz de um candieirinho de prata de que se munira Coelho quando teve de descer. O vão ocupava uma quinta parte do prédio. Não tinha portas nem janelas, nem sequer frestas. Era um como túmulo, sem nenhuma outra comunicação com o ar e o mundo, a não ser a que se prendia à escada. Espalhados pelo chão viam-se alguns caixões de pinho, e encostados a um canto objetos que reluziam. Coelho levantou a tampa de um desses caixões para que o barcaceiro visse o seu conteúdo. Que é que estás vendo, Bartolomeu? perguntou ele a modo de desvairado.

— Armas de fogo, patrão.

— É verdade; são armas. Foste tu mesmo que as trouxeste, supondo que trazias ferragens para o engenho que estou construindo. São trezentas espingardas e duzentos bacamartes. Aquilo que reluz dali do canto são espadas, catanas e parnaíbas. Já vês que Ricardo não passa de um mentiroso, um desprezível vilão. Agora subamos.

Subiram.

Ao penetrarem no gabinete, onde se escondia a escada, Coelho indicou ao barcaceiro um animal de tamanho descomunal, deitado aos pés da cama de seu uso.

— Que te parece isto, Bartolomeu? perguntou Coelho.

— Um grande cachorro. Oh que monstro!

— É o meu defensor. Ele agora está dormindo. Aproxima-te. Tens medo? É um cão que só tem dentes para os ladrões.

— O barcaceiro, em vez de se aproximar, afastou-se. Coelho e Jeronimo sorriram. Não fujas. O animal é benévolo e inofensivo. Pega neste candeeiro e encosta-te bem a mim para o poderes ver de perto. Ficarás sabendo o que ele vale. Não sem receio, Bartolomeu fez o que mandara o mascate. Este meteu então no canto de um dos olhos do animal adormecido um pequeno objeto que tirara do bolso. Houve um como movimento na fera, o que fez o barcaceiro recuar amedrontado. Não fujas, Bartolomeu. Estou aqui. Aproxima-te.

— Aos olhos de Bartolomeu mostrou-se então um sonho, uma visão deslumbrante e incrível. O animal tinha-se aberto pelo ventre de banda à banda; e naquela sobre a qual estava deitado, o que o barcaceiro descobriu foram dobras em pequenas tulhas, formando carreiras pelo longo vão. Ó xentes! exclamou Bartolomeu maravilhado. Quanta moeda, quanto ouro! Meu Deus! Pois é esta a burra de seu Coelho?!

— Todo este dinheiro, disse o negociante, ganhei-o eu pela minha industria nesta terra. Devo acaso à terra ou ao meu trabalho, as minhas economias? Devo-as ao meu trabalho; a terra não dá dinheiro. Os preguiçosos não serão capazes de o ajuntar, ainda que morram de velhos no país mais fecundo e rico do globo. Dizem que esta terra é deles. Não há tal. O mundo é da humanidade. Povos que vivem hoje em um ponto, podem viver amanhã em outro com o mesmo direito. Assim os homens que trabalham. Pois bem, todo este cabedal, adquirido com o suor do meu rosto, será aplicado em defesa da autoridade real e do interesse do povo, a que os nobres tencionam antepor o seu bem estar, a sua rebeldia. Mas não percamos tempo, Sr. Paes, disse ao marchante, pegando de um açafate e atirando dentro nele algumas das tulhasinhas de dobrões, que se viam enfileiradas no ventre do cão de bronze. Eis a minha idéia. É preciso desfazer imediatamente, com dinheiro, as invenções de Ricardo. Correi à botica do Rogoberto, meu amigo e Sr. Paes. Falai do despotismo da nobreza, da covardia do bispo, da estupidez do bispo e dos nobres. Discorrei com o fervor que vos é natural, sobre igualdade, fraternidade e liberdade. O povo é perdido por estes sentimentos. Espraiai-vos em demonstrardes a conveniência de acabar-se com o cerco do Recife, o qual impede de saírem os nossos produtos, que têm bom preço nas praças estrangeiras, e de entrarem os produtos estrangeiros de que precisamos. Acrescentrai que a fome e a nudez hão de chegar dentro de pouco tempo aos campos e aos sertões. Talvez que, estimulados ou advertidos por vossas palavras, muitos dos que vos escutarem queiram pegar em armas contra o juiz ordinário, o sargento-mór, enfim contra as autoridades atuais que tiveram quase todas por origem monstruosa rebeldia. Se o povo se mostrar deliberado a pegar em armas...

— E porque não se há de mostrar? interrogou Jeronimo Paes.

— Tendes razão, tendes razão. Enfim deixo o resto por vossa conta, Sr. Paes. Bem sabeis que o povo de Goiana deve pegar em armas de hoje até amanhã contra os que se dizem nobres. É indispensável que isto aconteça. É absolutamente necessário que a excitação publica, em vez de se moderar, vá por diante cada vez mais. Ajudados por ela, os amigos, que esperamos, poderão penetrar facilmente na vila e assenhorear-se dela. Acharão os ânimos preparados para a grande empresa.

Estas palavras levaram, como eletricamente, a exaltação, a vertigem ao animo do marchante já de se ardente.

Dou-vos minha palavra que em menos de uma hora havemos de Ter o povo solto pelas ruas em procura de nobres para amarrar, como se foram caranguejos.

A modo de alucinado, Jeronimo correu imediatamente de escadas abaixo, fazendo tinir as moedas dentro do açafate, e dizendo em altas vozes:

— São rosas que me caíram do céu. [1] Cheguem-se a mim, que hão de ver como são bonitas e cheirosas estas flores consoladoras.

Notas do autor[editar]

  1. Histórico.