O Matuto/XXIV

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Coelho foi ao encontro de Cosme Bezerra, e com irritante altivez que as circunstâncias atuais até certo ponto justificavam, rompeu o silencio que se seguira à intimação:

Da parte d’el-rei, que quereis em minha casa ao lusco-fusco e com este aparato de força, senhor juiz?

Usais de um direito que pertence à justiça — o de interrogar — respondeu Cosme Bezerra com afetada serenidade que lhe era muito custosa de manter. Mandais distribuir armas e dinheiro pelo povo a fim de derrubar as autoridades legais, e vos admirais de ter a justiça em vossa porta.

— O que se diz é o contrario, retorquiu Coelho, sem diminuir sua arrogância. Diz-se que nós os portugueses, e os que nos acompanham, nós os fiéis súditos d’el-rei nosso senhor, não temos nem dinheiro nem armas com que rebater a rebelião da nobreza.

— Pouco importa às justiças saberem se tendes dinheiro. Falei-vos em dinheiro, porque em dinheiro se fala pelas ruas da vila, Sr. negociante.

— Chamai-me mascate, já que não quereis chamar-me sargento-mór, título que não podeis tirar-me.

— Título que a nós deveis.

— Devo-o a el-rei, não a vós.

— Não vim a praticar convosco. Vim a saber se de feito tendes armas defesas que destinais aos populares por vós comprados para executores ostensivos de vossos tenebrosos desígnios.

Se tenho armas! Exclamou Coelho. Se eu armas tivesse, não as deixaria passar senão depois de morto, das minhas para as vossas mãos. De armas precisamos nós para defender a verdadeira autoridade, vilamente ultrajada por uma nobreza que na rebeldia supõe consistir a sua maior força e o seu primeiro brasão.

Em nome da lei, mascate! Gritou Cosme em tom de quem impunha silencio. Sois apontado como perturbador da ordem, protetor de rebeldes, e um deles. À frente de todos os motins que há dois meses perturbam o sossego desta vila, todos vos vêem comprando os venais, desencabeçando os ignorantes, encaminhando para o mal, que é o vosso alvo, os desordeiros por habito e condição. Os homens bons estão já cansados de aturar as vossas provocações, a autoridade de ser desrespeitada, as famílias fracas de receber insultos e violências dos malfeitores a que estendeis a mão cheia de ouro. É tempo de espezinhar a cascavel que tanta peçonha mortal tem vazado de sua boca imunda; e como o melhor meio de aniquilar a cobra é atacá-la em seu próprio covil, pareceu à autoridade competente que a vossa casa seja corrida, e de vosso crime se tire a devassa, se chegar à certeza de que sois criminoso.

O direito, que vos arrogais, de violar o meu asilo domestico, nem o achais na lei, nem eu o reconheço senão como filho do vosso violento natural, de todos conhecido. O testemunho de que não sou criminoso está em sujeitar-me ao vosso desatino. Outro fora eu, que já me teríeis pago a vossa ousada. Correi, correi à minha casa. Este procedimento condiz com a fidalguia de que rezam os vossos encardidos pergaminhos. Quanto a dizerdes que sou rebelde e amotinador, cego seja para sempre aquele que ousar afirmar que primeiro se insurgiram contra a legalidade os mascates que os nobres. Cosme voltou as costas ao negociante, como quem não levava em conta suas acerbas ironias e rudes exprobrações.

A verdade, porém, é que elas o feriam, como pontas de punhais acerados no coração. Os beleguins cumpriram o seu dever, e o próprio juiz, não podendo vencer o despeito hostil e apaixonado, encaminhou-se ao interior da habitação.

A esse tempo Bartolomeu, que ainda não pudera descer, chegou-se a Coelho e lhe disse à puridade:

— Quer sair, patrão? Atiro-me daqui ao soldado, que ali está de guarda na porta, e quando ele menos esperar, estará sufocado entre as minhas mãos. Então vosmecê poderá descer com seus caixeiros, ganhar a rua e desaparecer por trás dessas moitas de jerobebas que cobrem os fundos da igreja. Eu lhe guardarei as costas. Pode ir descansado.

Pensas que eu poderia realizar o que estás indicando? Olha. A rua está cheia de gente. A casa está cercada. Ali embaixo vários soldados espreitam quem entra e quem sai. Mas porque me ausentaria eu? Que crimes cometi para fugir?

— É que as armas, que estão lá embaixo... tornou o barcaceiro a meia voz.

— Duvido que as encontres tu mesmo que comigo as viste, quanto mais ele. e se queres ter a prova do que te digo, vai à escada por onde há pouco descemos ao subterrâneo.

Sem dizer palavra, o barcaceiro encaminhou-se ao gabinete, atravessou-o e chegou ao ponto indicado.

Desciam o juiz, beleguins e soldados. Verificou então por seus próprios olhos o que lhe dissera o negociante. A escada fazia uma volta para a direita e ia dar na loja, não no esconderijo. Bartolomeu ficou um instante confuso. Lembrava-se que por ali descera para o subterrâneo, por uma volta que a escada fazia à esquerda: mas, essa tinha desaparecido como por encanto, sem deixar o menor vestígio por onde se pudesse descobrir o segredo.

Quando Cosme volveu à sala, Coelho foi a seu encontro, e com expressão de mal disfarçado ódio, lhe disse:

Não achastes nem uma adaga, nem um arcabuz no meu armazém. Voltastes em branco. Pois bem. eu vos asseguro, senhor Cosme Cavalcanti, que dentro em pouco tempo a nobreza de Goiana há de saber para quanto prestam as armas dos mascates, que as têm e de fina tempera.

— Ah! Eles as têm?

— Eles as têm, e tenho-as eu próprio a meu alcance.

— Melhor, melhor. Servirão para atravessar ou degolar os mesmos que as guardam em seus esconderijos.

— Veremos qual de nós se engana, respondeu Coelho.

— Veremos, veremos, mascate — disse Cosme descendo com seu séquito.

Os olhos de Coelho despediam insólito brilho. Na face que a ira fazia subitamente contrair-se e dilatar-se, havia certos tons de ferocidade felina.

Miseráveis! Exclamou ele quando ainda o juiz não tinha descido de todo a escada. São ineptos na própria hostilidade com que pretendem impor seu ridículo poderio.

Então, voltando-se para um dos caixeiros:

— Vai já, já, em procura de Jeronimo Paes — disse. É preciso que ele me fale sem perda de tempo.

— Patrão, precisa de mim? perguntou-lhe Bartolomeu.

— Hoje não, amanhã, talvez. Podes sair. Espera. Quando passares pela porta do Lauriano, dize-lhe que venha falar-me agora mesmo.

Coelho deu alguns passos pela sala, penetrou no gabinete, voltou e logo após tornou a tomar para o interior. Antes de transpor a porta que dava para o quarto secreto, parou e perguntou ao segundo dos seus caixeiros se havia ainda soldados pela rua. Quando o rapaz tomava para a sacada, entrava na sala Luiz de Gouveia, mulatinho musico, de violento e desvairado patriotismo. Vinha acompanhado por diferentes homens do povo, trazia as feições demudadas, os cabelos revoltos.

Que novos ultrajes e atentados nos vens anunciar, Luiz? Inquiriu o negociante, antes que o musico falasse.

Um atentado nefando. Seu Jeronimo Paes acaba de ser ferido de um tiro de pistola, que lhe dispararam da rua, quando estava falando.

Eu esparava por isso, tornou o negociante. É natural que ao ultraje se seguisse o assassinato. Mas enganam-se. supondo aniquilar-nos, não fazem mais do que apressar a sua própria queda.

— Mas que mais esperamos, Sr. Coelho? Interrogou Luiz. Não será ainda tempo de armar o povo e atirá-lo contra os fidalgotes? Havemos de morrer às mãos deles, e só então nos meterão nas mãos as armas? Vamos com isso, senhor, vamos com isso. O povo não pede senão armas, não quer senão ir contra os nobres. E há muito povo pelas ruas?

A vila inteira está nas ruas. O tiro desfechado irritou todos os ânimos. Homens e mulheres correram à botica a saber o que tinha sucedido. Se apanham o assassino, fazem-no em postas. Dizem que é um escravo de João da Cunha.

— Há de ser, há de ser. Não tem ele mandado fazer tantas mortes? Não é useiro e vezeiro nesse oficio? Não é ele o gran senhor desta herdade, e não somos nós seus servos? Mas que a façam bem feita, porque se assim a não fizerem, com seu sangue serão lavados os insultos e agravos com que todo o dia nos batem às faces.

Coelho foi interrompido neste ponto por uma voz rouca e tremula, que partia do meio da rua.

— É a voz de Jeronimo — disse ele.

Todos correram à sacada.

— Ali vem ele — disse o musico.

— Querem a perturbação, o sangue, a morte? Dizia o marchante. Pois hão de ter todas estas calamidades. Sou o procurados do povo de Goiana. Ainda há pouco vos dizia eu que da nobreza só tínhamos que esperar desdens e despotismos. Agora já posso acrescentar que temos também que esperar o assassinato às escurinhas e traiçoeiramente. Não me mataram; apenas feriram-me no ombro; mas a morte dos que defendem os direitos do povo e a autoridade real, essa eles a têm decretado como meio de consolidarem o seu poder, filho da violência e do artificio. São réus de crime de primeira cabeça. Ah! o que nos fazem — tenham certeza — não o botam em saco roto.

Antes de ser ferido pelo tiro que lhe foi disparado por mão até hoje desconhecida, Jeronimo Paes tinha já encaminhado parte do povo para o movimento insurrecional.

Quando chegou à botica, ainda estava ai o Ricardo perorando em favor da nobreza. Ricardo era um rapaz de condição obscura, que à proteção de um nobre devia certo emprego de que vivia. Não tendo podido completar a carreira sacerdotal, que encetara em vida do pai, viu-se obrigado, por morte deste, a voltar à Goiana onde esperava por ele a família acéfala.

Jeronimo não teve para ele a menor cortesia na linguagem, e muito menos no gesto.

— Tuas palavras são suspeitas, rufião — disse ele ao rapaz, rudemente, mostrando-lhe um punho cerrado. Cada uma delas representa uma das migalhas com que teu protetor te matou a fome, dando-te o emprego que tens. Disseste há pouco que não temos nem armas nem dinheiro. Enganas-te, vilão. Em nossos armazéns temos armas para levantar a vila inteira contra a nobreza sem freio que jurou aniquilar-nos. Quanto a dinheiro, olha daí, e dize lá se já viste rosas tão bonitas como estas que me caíram das alturas.

Assim falando, Jeronimo Paes fez saltar as dobras ao ar e as aparou com o açafate.

Ao sonido das moedas, um sem-número de mãos se estendem para sua banda, e diferentes vozes dizem à porfia:

— Dê-me uma rosa.

— Uma ao menos dessas rosinhas amarelas, seu Jeronimo Paes. Cosme Cavalcanti, a quem foram logo levar a declaração, imprudentemente feita por Jeronimo, de que havia armamento nos armazéns dos mascates, corre a cercar a casa de Coelho que vareja, segundo vimos.

Entretanto Jeronimo, no ardor da exaltação e calculando o efeito da sua generosidade, distribui, pelos que lhe parecem mais dignos do presente, uma por uma, as dobras tentadoras.

E ao mesmo tempo que com a mão as distribui, segreda com os lábios quase à puridade, ao que as recebe:

Quando sair daqui vá a casa de Coelho, José. Não deixes de ir, Antonio. Vê lá o que fazes, Martinho. Ele tem que falar a vocês acerca de uma diligencia importante e rendosa. Não faltes, Justino, nem tu, Jacinto; nem tu Sebastião.

Todos estes sujeitos respondiam afirmativamente e embolsavam a moeda.

O ouro dá calor e eloquência; dos tímidos faz audazes, dos prudentes temerários. A corrupção é feia, mas eficaz no momento; que tem que depois semelhe chaga podre, nojenta, mortal? Quando o tiro feriu o marchante, todos aqueles que tinham na algibeira uma rosa, tomaram imediatamente parte pelo ofendido e em altas vozes pediram armas para o desagravarem. Era mais o cheiro da flor do que o impulso da indignação natural o que lhes dava esta animação.

— Armas, armas, meu amigo, eis as primeiras palavras de Jeronimo quando entrou em casa de Antonio Coelho. Armas ao povo! Ele as pede; ele as quer. A vila é por nós.

Em menos de meia hora Goiana estava nos braços da anarquia. As paixões populares, exacerbadas e açuladas por Jeronimo Paes, por seus filhos, que correram em seu favor tanto que souberam do acontecido, por Belchior — o rabula, Manoel Gaudencio — o alfaiate, Romão da Silva — o meirinho, Manoel Rodrigues — o taverneiro, e por outros conhecidos e desconhecidos parciais, desafogavam em gritos, ameaças, insultos.

O sinos e os tambores deram logo sinal de rebate.

Dos moradores, uns, manifestado o motim, correram a tomar parte nele; outros, já escarmentados das violências praticadas por ocasião dos motins anteriores, fugiam, como podiam, com suas famílias, para fora da vila; outros, não tendo para onde ir, ou receando por pé na rua com tanto povo revolto, se deixavam ficar em suas casas, resolutos a defender-se ou a resistir se acaso fossem atacados pelas turbas. Dos que se atiravam na vertigem muitos não o faziam tendo a mira em outro alvo que o de ser sua casa respeitada pelo saque — epilogo negro de quase todos os motins populares.

Gritos contrários começaram a ressoar de pontos diferentes.

Daqui se ouvia este:

— Vivam os mascates! Morram os nobres!

D’acolá já era est’outro:

— Viva a nobreza de Goiana! Viva a nobreza de Pernambuco! Morra pé-de-chumbo.

Os adjuntos donde partiam estes últimos gritos, eram menos numerosos e menos densos. Dir-se-ia que estavam ainda em formação ou que tinham medo de formar-se. ressoavam à porta de fidalgos conhecidos e daí não se alongavam muito.

Quando algum forte bando se aproximava deles, as manifestações diminuíam ainda mais. Era medo, desdém, ou prudência?

— Silencio, escravos! Respondiam de cá os mais exaltados.

Os de lá não retorquiam.

E o dragão popular passava revolto, espumante, vertiginoso, cuspindo injurias e obscenidades contra os que considerava seus adversários, e pensando no desforço pessoal e no roubo publico.