O Matuto/XXIX

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Lourenço tinha tirado para o engenho à desfilada, e antes de chegar ai nuvens de fumo já lhe tinham indicado o que ele suspeitava, pelo que fora vendo ao sair da vila. Em seu trajeto do Cajueiro para esta, os bandoleiros de Pedro de Lima tinham posto fogo nos canaviais, e casas fechadas ou desamparadas, que ardiam agora como se a terra por ali, na combustão primitiva, lhes houvesse comunicado o incêndio.

— Não há que duvidar - disse o rapaz. Andaram por aqui os ladrões. Estiveram no engenho, e quem sabe o que por lá fizeram?

Como tinham cortado quase por dentro do mato os bandoleiros, pode o rapaz chegar ao Cajueiro sem com eles se encontrar; e cedo testemunhou com seus próprios olhos, dando de face com a casa de Vitorino, o estrago, o desbarato, as ruínas, que ai deixara a horda sem freio.

Das portas algumas tinham sido arrancadas, outras postas por terra. Só as janelas estavam nos seus lugares.

Lourenço não pode fugir de entrar, não obstante sua pressa em chegar à casa grande. O estado interior da habitação do almocreve não era mais animador do que o seu estado exterior. Tamboretes, caixas de madeira, giraus de varas, potes, estavam despedaçados e destruídos. Lia-se ali só perversidade, porque nesses moveis e vasilhas ninguém suspeitava a existência de objetos que pudessem tentar a cobiça, e explicar até certo ponto a sua violação ou arrombamento. E para onde teriam fugido as mulheres? inquiriu de se para se o matuto. Ao montar de novo, o espirito cheio de pesar e incertezas, lançou Lourenço as vistas casualmente ao chiqueiro, onde Joaquina tinha o cevado, que devia dar uma fartadela à família no dia de S.Thomé. A sangueira, que cobria o chão desde o chiqueiro até a meia-agua de palha, a cuja sombra as mulheres lavavam a sua roupa, fazia certo que o cevado passara pela execução capital antes do dia aprazado, e que se tinham aproveitado dele, não a família, que devia encher de alegrias, mas os salteadores e assassinos. O banco de lavar roupa, coberto de sangue, e aos pés dele uns restos de palha queimada indicavam que ali mesmo se praticara o cruento sacrifício.

Triste e colérico ao mesmo tempo, Lourenço prosseguiu o caminho.

Adiante apareceu-lhe a casa de Manoel das Dores, matuto muito pegado com Victorino, de quem se dizia contra-parente. Este sujeito era solteirão do lugar. Vivia muito metido consigo mesmo, e só uma vez ou outra surgia sem ser esperado em casa dos vizinhos.

Ainda de longe o rapaz reconheceu que por ali passara também o devastador soão. As portas, às escancaras, deixavam à mostra a destruição efetuada dentro. Não havia ficado ai pedra sobre pedra. Pela estreita sala viam-se espalhadas esteiras e roupas velhas. O chão fora revolvido à ponta de espada ou de ferro-de-cova. Praticando assim, os salteadores deixavam manifesta a sua intenção. Tinham procurado dar com o mealheiro em que se dizia guardava o velho a pratinha que podia ajuntar.

— Oh meu Deus! Não vejo ninguém. Onde se meteu esse povo? Nem morador nem negro do engenho! Parece que todos fugiram para o mato com medo dos ladrões.

Estas palavras escaparam dos lábios de Lourenço como uma dor que não cabia no coração.

Adiante da casa do velhote, era a de Sabino, em cuja companhia morava Saturnino. Do lado de fora, ao pé da porta da frente, via-se um volume imóvel, no meio de uma poça de sangue, por cima do qual esvoaçava um enxame de moscas. Era o cão de Sabino, que por ser fiel defensor da morada de seu senhor, e ter feito fortes e repetidas investidas sobre os assaltantes, para impedir que entrassem, recebera uma bala, que o deixou por terra, com a cabeça aberta e a língua a nadar sobre sanguinolento escumeiro.

Começou a impressionar-se Lourenço com esta solidão, este deserto cruel em que só se lhe deparavam indícios de atrocidades e carnificinas, de fraqueza e terror.

Tinha já descoberto o oitão da casa grande e ia passar para ela por entre a capela e o pomar, quando um vulto se lhe apresenta do lado dos canaviais. Afirmando a vista, reconheceu Marianinha.

Correu para ela tomado de súbita alegria. As antigas reservas e aborrecimentos não lhe lembraram nesse momento. A presença da moça fora como um raio de luz que atravessara as densas sombras que enchiam o espirito do rapaz.

— Você por aqui, Marianinha?! Estou cansado de ver solidão, estragos e sangue. Onde está sua gente? Não ouço nenhum rumor, nem vejo ninguém na casa grande. Que quer dizer isto?

— A primeira resposta da moça foram as lagrimas. Depois, em rápidas palavras, ela contou toda a desgraça, ou antes a serie de desgraças de que o engenho fora teatro momentos antes.

— Ouvindo a fúnebre narração, Lourenço não soube o que dizer por alguns instantes. Ficou a modo de privado, do uso da razão. O pesar, a cólera, o desejo de vingar-se o tiveram entre o idiotismo e a loucura. O estado melindroso de suas faculdades aumentou ainda mais, quando ele soube que no engenho não havia ninguém com quem contar para ir em socorro dos que estavam precisando dele na vila. Alguns corpos sem vida era só o que restava das forças que tinham ficado para defesa da casa grande. Os negros que no combate não tinham caído mortos ou feridos, esses haviam fugido para o mato, determinados a não voltarem segunda vez para a escravidão.

— Para contar o acontecido, Marianinha parara ao pé da ingazeira centenaria que se levantava de um dos lados do caminho, e que com outras formava uma como galeria por cima do braço de rio que cortava por dentro do cercado. Foi ai, na sombra e no retiro, que davam mais solenidade às suas palavras, mais gravidade a seus prantos, que ela desfiou o rosário dos episódios de que tinha conhecimento. Quando chegou ao da morte de Victorino, a pobre rapariga entrou a chorar como louca.

— Vamos para fora, Marianinha, disse Lourenço, vencendo a custo sua comoção. Quero ver sua mãe. Vamos, sim, disse a moça. Eu tinha vindo em busca de Saturnino para ajudar minha mãe...

— Ajudá-la a que...?

— Você vai já saber, Lourenço — respondeu a moça, deixando-se banhar cada vez mais em suas aflitas lagrimas. Do lado de fora da galeria, à luz livre da manhã, luz graciosa e tépida que parecia um sorriso de noiva, luz que patenteava os mínimos acidentes da natureza, pode Lourenço ver melhor Marianinha.

Trazia ela os cabelos revoltos, avermelhados os olhos de muito chorar, crestada a macia pelúcia das faces, que não obstante mais acesas se mostravam de natural rubor. Mas esses olhos, posto que chorosos, tristes e afligidos, eram ainda tão matadores, tão ternos, que parecia concentrarem em se toda a suavíssima beleza, esparzida pelas várzeas, pelos vales distantes, na luz que caia do céu como chuva de ouro, nas flutuações da folhagem, na frescura das vastas sombras, atiradas como leitos de paz e tranqüilidade no meio da solidão rica de esplendores e cantos.

Entraram na capela pela portinha da sacristia.

Ao penetrar na estreita e sombria nave, o espetáculo que a Lourenço se mostrou, foi o seguinte:

No meio da igreja, ao lado de um monte de terra fresca, jazia um cadáver; era o de Victorino. Entre esse cadáver e o monte, uma mulher tirava do chão onde estava abrindo uma cova, pás de terra, que atirava sobre a que havia fora. Era Joaquina.

Lourenço quase a não conheceu, tão demudado estava o resto da infeliz. A dor envelhecera-a em poucas horas. A dor tem mais violência e rapidez na sua obra do que o próprio tempo.

— Joaquina só se deixava ver da cintura para cima. A outra parte do corpo estava metida na cova. Os cabelos, em sua maior parte embranquecidos pelas necessidades usuais da vida do pobre, e agora pelo sopro da adversidade que lhe enrelegara os últimos alentos, caindo sobre as faces murchadas e macilentas, davam-lhe uma feição que gerava vexame em quem a via.

— Sem dizer uma palavra sequer, Lourenço que aprendera de Marcelina a Ter para os cadáveres pias demonstrações, ajoelhou-se aos pés do corpo de Victorino, rezou em silencio sua oração, e, erguendo-se, aproximou-se de Joaquina, tomou-lhe a pá das mãos e pôs em lugar dela a prosseguir o ultimo trabalho que o morto exigia dos vivos na terra. A mãe e a filha, mudas e taciturnas, acompanharam com suas lagrimas as que o rapaz verteu, abrindo o leito final do seu vizinho, amigo de seu pai e quase seu parente, a quem votava estima e prestava respeito.

— Chegou enfim o momento de ser entregue à sepultura o corpo do finado. O pranto das mulheres redobrou. Marianinha fazia exclamações de cortar o coração. Joaquina carpia-se inconsolável, envolvendo com o nome do marido o da filha mais velha que lhe fora arrebatada momentos antes da perda do primeiro. A mão tremula, o braço hesitante, começou Lourenço a impelir para dentro da cova, depois de se haver sumido nela para sempre o seu mudo habitador, com a pá que lhe pesava como barra de ferro, a terra acumulada nas bordas. A tristeza era profunda, solene o momento, indescritível o espetáculo. Que será de mim sem meu marido? exclamou Joaquina soluçando.

Que será de mim sem meu pai? acrescentou Marianinha, desfazendo-se em lagrimas e suspiros. Lourenço tinha posto na cova a ultima pá de terra.

Sua mão descaíra sobre o cabo do instrumento.

Por impulso irresistível de espirito, ele voltou-se para as mulheres, ouvindo aquelas palavras, e disse-lhes:

— E onde estão os outros filhos de Deus? Onde está meu pai? Onde está minha mãe? Onde estou eu? Deus é Deus em toda a parte, e quando tira um arrimo ao necessitado, já tem posto outro diante dos olhos dele.

Ouvindo estas palavras, Marianinha sentiu descer-lhe ao intimo do coração um como bálsamo reparador e divino. Ergueu os olhos ao rapaz. estavam inundados de um clarão suave. Havia ali talvez um agradecimento que lhe dirigia pela doce esperança que, depois de tantas contrariedades, penas e agonias, muitas delas ocasionadas por ele próprio, ressurgia agora, posto que banhada em prantos, no solo crestado, que de repente se tornava fresco e fecundo ao calor dessa bendita consolação.

Nesse momento ouviram bater a porteira do engenho, e logo após o estrepito das pisadas de um animal que corria à toda a brida. Lourenço lança-se à porta da igreja, a fim de ver quem era o cavaleiro, e dá com olhos em Marcelina.

O conforto no coração de Joaquina e de Marianinha aumentou com a chegada da cabocla, e especialmente depois que souberam que Francisco estava na vila, e que os mascates naquele momento deviam ter já perdido a mão.

Lourenço quis voltar imediatamente a Goiana, mas Marcelina não consentiu que o fizesse, dizendo-lhe que em pouco tempo Francisco se acharia com eles.

De feito, não se meteram duas horas que o matuto se reuniu à família, trazendo a importante nova da vitoria. Para Marianinha a vitoria maior foi a que o matuto exprimiu nestas palavras:

Não chores, Marianinha. Perdeste teu pai, mas ali tens teu marido. E indicou Lourenço que, com os olhos pregados na imagem do Crucificado, se mostrava nesse momento diante do altar, inteiramente alheio ao que se falava a seu lado.

Eis em que estava absorvido o rapaz.

Quando viera de Goiana horas antes, encontrara caído, entre a casa de Victorino e a de Manoel das Dores, um bandoleiro de Pedro de Lima à sombra de uma arvore. O malfeitor tinha passado a noite em claro, e na adega do senhor-de-engenho fora do que mais entraram pelo vinho generoso, o qual, dando-lhe na fraqueza, o impossibilitou para preencher o seu oficio naquele dia. Em uma das mãos tinha ainda um saco, de que marejava sangue.

Lourenço saltou do cavalo abaixo, tirou o saco das mãos do dono que estava ressonando, e abriu-o para ver o que continha. Era a cabeça do cevado de Joaquina, com que o salteador tencionava aumentar o almoço que por eles devia estar esperando, segundo calculava, em casa de Coelho ou de Paes.

Teve então o rapaz a idéia de tomar uma vingança original. Com cordas do seu cavalo suspendeu por baixo dos braços o bandido ao alto da arvore. Ligou um pé ao outro, para que não tivesse meios de passar as pernas no tronco, e desprender os braços, que atou pelos pulsos na altura da cabeça da vitima, porém afastados. Enfim o todo figurava uma crucificação.

Planejava Lourenço queimar vivo o infeliz. Além de ser de seu natural mau, acabava de ver os males trazidos pela horda de que o malfeitor fazia parte, à inofensiva propriedade de pessoas de seu conhecimento e estima. Apanhara-o mesmo com o roubo na mão, praticado na casa a que mais se sentia preso por gratos elos dentre todas as casas das vizinhanças. Enfim, vinha da vila trazendo o coração repleto de fel e chama pelo que ai faziam desde a noite anterior os companheiros do malfeitor. Por tudo isso não hesitou em levar a efeito a abominável inspiração do seu ódio e da sua maldade. Quem o visse então, o acharia outro do que era. A brandura de coração, obra de Marcelina, tinha cedido o lugar, que não era ainda exclusiva propriedade sua, à paixão animal, que o acompanhava do berço. A educação pode muito, quando ajudada de muitas lições e exemplos e ao cabo de tempo bastante, converter, pelo processo que em fisiologia é ainda um mistério, o espinho original em rosa filha do artificio, da delicadeza e da perseverança.

Como tinha pressa, Lourenço deixara ai bem segura a sua presa, calculando sujeitá-la ao repugnante suplicio depois de vencidos os inimigos.

Agora, porém, casualmente erguendo as vistas ao crucificado, lembrara-lhe a crucificação, de que um momento o tinham feito esquecer-se os últimos acontecimentos.

Francisco aproximou-se do rapaz, bateu-lhe no ombro e perguntou-lhe a causa do seu enleio.

— Vosmecê não viu suspenso na gameleira do caminho o cabra que matou o porco de sinha Joaquina? tornou elle.

— Vi, sim. Sabes quem era? Leonardo, sobrinho de Gonçalo Ferreira. Quem foi que lhe fez aquella crueldade? Coitado! Por um pouquinho não morreu.

— Pois eu estava agora mesmo pensando em ir acabar de matar aquelle ladrão, aquelle assassino.

— Quem? Tu, Lourenço?

— Eu mesmo, sim senhor.

— Não digas isto. Estás já um homem e deves pensar melhor. Até onde quererás levar o teu máo natural?

— Mas então eu não devia ter feito o que fiz? O ladrão não botou portas abaixo, não poz fogo nos cannaviaes e nas casas dos outros, não tirou o que não era seu?

— Fez tudo isso, mas tu não és juiz, não és Deus para julgar os homens.

— Eu pensei — replicou o rapaz com ironia — que qualquer homem podia por suas mãos vingar-se de um malfazejo, matar um malvado que tivesse tirado a vida a muita gente.

— Estás enganado. Nem eu te quero para palmatoria ou espada do mundo. Sabes o que fiz quando vi o pobre gemendo e esperneando pendurado sem saber o que fazer para soltar-se? Subi-me ao páo, cortei as cordas e disse a Leonardo que corresse, que fugisse para não cahir no poder dos soldados do ajudante-de-tenente. Foge dessas maldades, Lourenço, foge delias. Deus não hade permittir, por esta hora, em que estou fallando, que pratiques ainda acções como essa. Olha. Eu te quero para bom, e não para máo. Quero-te para servires de arrimo aos teus na velhice. Quero-te para casares com esta pobre menina, que hoje mais do que nunca precisa de quem olhe por ella, e que está morrendo de te querer bem.

E indicou a filha de Victorino.

Lourenço que tivera os olhos postos no chão durante todo o tempo em que Francisco discorria com tão boa moral, levou-os á cova, a Marianinha, ao Crucificado, ao templo — morada de Deus, seja o templo catholico, judaico, chinez ou arabe — e não disse nada.

Marianinha cruzou os delia, ainda rasos de lagrimas, com os do rapaz, e enrubeceu.

Mais córada não se mostra fresca rosa de maio, aljofrada pelo orvalho da madrugada.


FIM DO MATUTO.