O Momento Literário/XXXVIII

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O Momento Literário por João do Rio
XXXVIII: Os que não responderam


MACHADO DE ASSIS. — GRAÇA ARANHA. — ALUÍSIO AZEVEDO. — ARTUR AZEVEDO, ALBERTO DE OLIVEIRA. — GONZAGA DUQUE, EMÍLIO DE MENEZES E JOSÉ VERÍSSIMO.

Naturalmente, a ausência de certos nomes notáveis num inquérito, que procurava as respostas dos corifeus dos espíritos brasileiros, poderá parecer estranha. Talvez o seja, mas, como todas as coisas verdadeiramente estranhas, é perfeitamente explicável. Há nomes que deviam aqui estar, mas que não estão porque a isso se opuseram uma sensibilidade grande, a vaidade doentia, a noção de responsabilidades graves e principalmente talvez a balbúrdia das idéias. A sensibilidade grande é a do ilustre mestre Machado de Assis. Quando fui pessoalmente levar-lhe o inquérito, o admirável escritor recebeu-me com um acesso de gentilezas, que nele escondem sempre uma pequena perturbação.

— Um inquérito? Pois não: às suas ordens, com todo o gosto.

Passaram-se os dias. Voltei à carga.

— Francamente, disse-me o autor do Brás Cubas, o assunto é grave, é muito grave. Mas eu respondo, respondo quando tiver ânimo para escrever.

Logo os amigos e admiradores do mestre disseram-me:

— Perdes o tempo, o Machado não responde...

Resolvi então cultivar a relação preciosa em bocados de palestra, ouvidos nos balcões do Garnier, por onde todos os dias passa o glorioso escritor. Soube assim que o Brás Cubas fora ditado, durante uma moléstia de olhos de Machado, à sua cara esposa; que o humorista incomparável da "Teoria do Medalhão" tem uma vida de uma regularidade cronométrica, que as suas noites passa-as a tentar o sono...

Espírito de tamanho fulgor tem, entretanto, a nevrose de se incomodar e sofrer com os pequenos nadas da existência. Se por esquecimento deixa de cumprimentar um homem, perde-se em conjecturas. Que irá pensar o homem? Que dirá dele? Nesse período, uma vez, o grande mestre chegou à livraria nervosíssimo. E contou por quê. Fora à secretaria um cavalheiro pedir-lhe qualquer coisa. Não o satisfizera e estava incomodado com isso quando passou o contínuo com a bandeja do café. Aceita uma xícara? Se me fizer companhia!

— Ora eu não tomo café; mas já tinha recusado ao homem uma coisa e achei que seria demais não o acompanhar. Tomei a xícara e estou com dores de cabeça...

Do inquérito cheguei a saber que Machado de Assis tem como livros de cabeceira o Hamlet e o Prometeu, que acha as predileções passageiras como o próprio homem, e respeita a mocidade olhando-lhe as extravagâncias com um pasmo sincero.

Mas, por fim, o mestre incontestável percebeu que eu o acompanhava para lhe arrancar frases e tornou seco um pedaço de intimidade nascente entre o meu louvor e a sua bonomia.

Outro escritor de monta a interrogar seria o Sr. Graça Aranha. S. Ex.ª começou por não responder absolutamente nada. Pessoalmente, depois, deu-me, com a sua alma de heleno, alguns conselhos. O ilustre autor da Canaã é de opinião que se deve escrever pouco. Plutarco, Luciano e Zola poriam as mãos na cabeça se o ouvissem; todos os trágicos gregos abririam a boca de pasmo. Felizmente estava eu só, que concordei com o superior espírito.

Aluísio Azevedo mandou-me de Cardiff uma carta. Tenho diante de mim uma torre de papéis a despachar! O cônsul inibe o escritor de responder!

Artur Azevedo não disse nada.

Gonzaga Duque esqueceu.

José Veríssimo, o conhecido crítico, não gostou do inquérito, e numa roda chegou mesmo a dizer que era esse um processo de fazer livros à custa dos outros.

Tamanha amabilidade impediu-me de insistir, e obrigou-me a pedir a Deus que a produção da literatura nacional aumente. Só assim o sr. José Veríssimo não insistirá na pesca na Amazônia para continuar a sua série de Escritos e Escritores.

Os poetas Alberto de Oliveira e Emílio de Menezes adiaram infinitamente as respostas.

Mas, ainda assim, apesar de não ter essas curiosas opiniões e as luzes de conceitos superiores, catalogando as pessoas que não tinham recusado a formação de um livro — idêntico a muitos outros — do estrangeiro, eu tive a certeza de que ia assinar um livro feito à custa do escol literário brasileiro.

E só não tive a vertigem porque, obrando assim, estava de acordo com o mestre Machado de Assis, pois não dava opinião minha e definitiva; estava de acordo com o Sr. Graça Aranha, pois escrevia pouco; e ainda estava de acordo com o venerável Sr. José Veríssimo, porque realizava, embora sem as suas letras, a sua mais exata previsão interna nestes últimos três lustros...