O Pão de Ouro/Capítulo II

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O pão de Ouro
por Bernardo Guimarães


Os jardins de Tupã[editar]

Do vale de S. Paulo de Piratininga, habitado outrora pela famosa tribo dos Tibiriçás, partiram a maior e mais notável parte das bandeiras ou expedições exploradoras, que nos fins do século XVII e até o meado do XVIII se internaram pelos sertões de Minas, Goiás e Mato Grosso com o fim de explorar essas regiões desconhecidas, submeter e escravizar as tribos indígenas, e principalmente para descobrir as minas de ouro e pedras preciosas, sobre as quais se contavam coisas estupendas e fabulosas.

Os paulistas foram pois os mais encarniçados inimigos da Fada do Ouro, os mais incansáveis e porfiados em descobrir os cofres ocultos, em em que ela procurava esconder seus maravilhosos tesouros. A descoberta do Eldorado era o sonho ardentes desses audazes aventureiros, que por sertões inóspitos cruzavam toda a extensão da América portuguesa em demanda do ouro, expondo-se a toda sorte de azares, e afrontando fadigas e perigos incríveis.

Entre os nomes desses denodados sertanejos avultam em primeira plana os de Bartolomeu Bueno e seus filhos, cujas viagens e assombrosos trabalhos sem dúvida são bem conhecidos dos leitores. Um dos filhos de Bartolomeu Bueno foi encarregado pelo Governador da Capitania de S. Vicente, Rodrigo Cezar de Menezes de explorar e formar estabelecimentos no território de Goiás, onde o pai de Bueno já tinha achado indícios e provas de imensas riquezas minerais. À testa de um destacamento de cerca de duzentas pessoas, Bueno penetrou por aqueles sertões, cuja fama de riqueza aurífera trazia enlevadas todas as imaginações. Dizia-se que pelas regiões banhadas pelo rio Caiapó era tão espantosa a abundância de ouro, que para colhê-lo não seria preciso mais lavar as areias dos rios, nem quebrar o granito das montanhas; via-se distintamente o ouro em grossas barras cintilando ao sol no veio dos rios cristalinos; não seria mais com bateias e almocafres que seria extraído; mas com alavancas e talhadeiras seria arrancado ou cortado aos pedaços, como pedras, que se tiram das pedreiras. A proporção destas assoalhavam-se outras tais e quejandas maravilhas, que excitavam de mais em mais a imaginação e a cobiça daqueles infatigáveis exploradores.

Três anos o denodado paulista andou entranhado pelas matas e chapadões sem termo daquelas regiões só povoadas de feras e gentios. Enfim vendo baldados todos os seus trabalhos e pesquisas, e tendo perdido quase toda a sua gente por enfermidades e desastres inseparáveis de uma tal empresa, resolveu-se a retroceder, e foi somente alguns anos depois que voltou e estabeleceu a primeira colônia em Goiás, para onde foi nomeado capitão-mor.

Quando Bueno cansado de viajar resolveu-se a voltar, um de seus companheiros, por nome Gaspar Nunes, disposto a perecer naqueles sertões, e a não voltar a seu país sem levar ao menos a notícia das minas, que procuravam, decidiu-se a continuar as explorações encetadas. Associaram-se-lhe uns oito ou dez companheiros, dos mais resolutos e aventureiros. Separaram-se de Bueno, que em vão tentou dissuadi-los de tão louca empresa, e seguiram rumo do norte.

Levavam por armas somente uma faca de mato, uma azagaia, e um arco e flechas, que lhes servia para matar a caça para seu sustento, e substituía-lhes as escopetas, que tinham abandonado como carga inútil, pois não podiam achar naqueles desertos munição para elas.

Assim se foram desprovidos quase de tudo, munido somente de audácia e resolução. Atravessaram sertões imensos, transpuseram cordilheiras, passaram rios caudalosos sem nada encontrar, que pudesse compensar um dia só dos rudes trabalhos e privações, por que iam passando.

Já quase esmorecidos e arrependidos de sua louca tentativa, quando um dia avistaram uma índia, que à beira de um capão embalava à sombra um menino doente em uma maca de palha de buriti. A índia trazia braceletes e outros ornatos de ouro. Foi um achado, que encheu de alegria os nossos aventureiros.

Chegaram-se a ela; assustou-se, tomou o menino nos braços, e quis correr; mas eles, que em suas longas excursões pelos sertões tinham aprendido alguma coisa da língua dos tupis, tranquilizaram-na, e a resolveram a não fugir. Gaspar, que era algum tanto curandeiro, preparou e aplicou alguns remédios do mato, com os quais a criança começou a ter melhoras.

A índia agradecida tornou-se sumamente dócil, e contou-lhes que os de sua tribo perseguidos por outra tribo inimiga viram-se obrigados a fugir, e a tinham abandonado ali sozinha por não poderem salvá-la com o filho doente. Tinham querido matar a criança, mas ela opusera-se a isso desesperadamente, e por isso a tinham abandonado.

Os paulistas perguntavam-lhe onde achava aquele ouro, que trazia nos braços e no pescoço. Quis ela dar-lhe aqueles adornos, mas eles recusaram, e insistiram, para que lhes indicasse o lugar, em que os havia. A índia declarou, que não longe daquelas paragens existia um lugar, em que era pasmosa a abundância de ouro, e de pedras preciosas…

— Aí, — dizia ela, o cascalho dos rios é de diamantes, e os rochedos das montanhas são de ouro, e o que há de mais extraordinário ainda, é um grande penedo todo inteiro do mais puro ouro, que existe em cima de uma serra, e que alumia tanto, quando o sol lhe bate defronte, como se fosse um outro sol. Mas ai de vós, acrescentava ela com certo ar de terror, — ai de vós, se lá entrardes! lá são os jardins de Tupã, e nenhum mortal ainda lá entrou, que voltasse nem vivo, nem morto.

— Se é assim, — perguntaram-lhe — como se sabe que lá existem todas essas riquezas?

— Avista-se de longe, respondeu a índia; e alguns já tem entrado lá e apanhado muito ouro e diamantes; mas saem logo; os que ficam lá de noite é que não escapam.

E não se sabe então, quem é que assim acaba com os que lá vão ter? perguntou Gaspar, cuja curiosidade, bem como a de todos os seus companheiros, subia de ponto com as revelações da índia.

— Oh! sim! sabe-se; sabe-se muito. São os tatus brancos.

— Tatus brancos!… que diabo de qualidade de bicho é essa?

— Não é bicho, não; é uma casta de gente terrível, que vive debaixo da terra como o tatu durante o dia, e só de noite sai do buraco. São brancos, brancos como o leite destes meus peitos, e numerosos como as formigas, e ai de quem lhes cai nas garras; não deixam ficar nem os ossos. Tupã não quer que ninguém pise nos seus jardins, e pôs lá essa raça maldita para vigiá-los.

— E podes nos guiar a esses lugares? protesto, que havemos de dar cabo dessa corja de tatus brancos, que vos faz tanto medo.

— Eu pôr lá meus pés?! Tupã me defenda; tenho muito medo…

— Não será preciso, nem queremos, que chegues até lá conosco; basta, que vás até certa altura, em que possas mostrar de longe esses sítios; depois irás para onde quiseres.

— Lá isso pode ser, mas vós,— pensai bem, vós ides correr à uma morte certa…

— Não te dê isso cuidado; estamos acostumados a afrontar a morte todos os dias; é-nos preciso absolutamente ir lá.

A índia em vão tentou demover os audaciosos paulistas de seu temerário propósito; movida enfim pelos rogos e instâncias dos mesmos à muito custo resolveu-se a ir guiá-los até às proximidades desse sítio tão cheio de maravilhas e perigos.

Os paulistas com a fantasia exaltada pela pintura, que a índia lhes fizera das assombrosas riquezas dessa região, não cabiam em si de contentes, e davam ao desprezo a história dos tatus brancos, de que riam-se a bandeiras despregadas, divertindo-se à custa da credulidade dos pobres índios.

— Bruxarias de bugres!—diziam eles entre si. — Que perigos poderemos nos aí encontrar, que já não tenhamos afrontado por uns medonhos desertos, que temos atravessado! animais bravios, serpentes venenosas, gentios ferozes?… com esses de há muito estamos avezados a nos haver, e não nos faltará astúcia e valor para lhes escapar. — Se esta pobre gentia não está zombando de nós, vamos enfim colher o fruto de nossa audácia e de nossos trabalhos; havemos de entrar nos jardins de Tupã, e tocar com a mão no grande sol de ouro, bem que pese aos tatus brancos e ao mesmo Tupã.

Portanto puseram-se a caminho guiados pela índia. Depois de três dias de bom caminhar chegaram à uma eminência, donde descortinaram um vasto e formosíssimo vale, formando um quadrado quase regular, e encaixado por todos os lados entre serros de pouca elevação.

— É ali! — disse a índia apontando para o vale, mas quase sem olhar para lá. — Ali embaixo as areias dos regatos são de ouro, e o cascalho de diamantes. Amanhã, quando o sol levantar-se daquele lado, olhai para acolá (e apontava para o poente) e vereis em cima daquela serra brilhar uma coisa como um sol defronte de outro sol. Porem cuidado! lembrai-vos bem do que vos disse da gente, que aí mora; ai de vós, se vos pressentem. De noite escondei-vos, e resguardai-vos bem. Agora, adeus! Tupã vos preserve das garras dos tatus brancos. Daqui ao país de meus irmãos não é longe, em breve estarei com eles.

Ditas estas palavras a índia deitou-se a correr para trás. Em vão quiseram detê-la chamando-a em altos gritos; a índia tornava-se surda, e corria a bom correr, até que de todo desapareceu a seus olhos.

Era já sol posto; a perspectiva que tinham diante dos olhos era das mais belas e magnificas; mas a noite, que começava a descer, não permitia que devidamente a apreciassem.

Os aventureiros assentaram de pernoitar ali mesmo para no dia seguinte descerem a explorar o extenso e formoso vale, que tinham diante de si.