O Pão de Ouro/Capítulo III

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O pão de Ouro
por Bernardo Guimarães


Os jardins de Tupã[editar]

Apenas alvoreceram os primeiros clarões do dia, já os nossos intrépidos aventureiros estavam em pé, e impacientes já como que devoravam com os olhos os imensos tesouros, em cuja posse esperavam entrar daí a pouco sem a menor contestação. Colocados em um cômoro eminente, donde podiam descortinar o vale em toda a sua extensão, presenciaram o mais esplêndido e assombro espetáculo que é dado a olhos humanos contemplar.

O sol começava a surgir no oriente a direita dos paulistas, que anelantes de curiosidade e impaciência aguardavam o seu aparecimento. Apenas o seu disco resplandeceu no horizonte, os olhos de todos eles volveram-se como por encanto para o lado do ocidente, e um grito de surpresa e admiração rompeu a um tempo dos lábios de todos eles. Ali um rochedo enorme aprumado sobre a grimpa mais elevada da montanha brilhava como uma lâmina de ouro polido, e parecia mesmo, como dissera a índia, um sol, que assomava defronte de outro sol a competir com ele em beleza e resplendor. Este estranho e maravilhoso espetáculo os teve longo tempo em muda contemplação suspensos e absortos de admiração.

Voltados apenas daquele primeiro assombro, estenderam suas vistas pela encantadora paisagem, que se desdobrava à seus pés. Ao norte o vale se prolongava muito ao longe encrespando-se em colinas levemente acidentadas, que se iam perder nas brumas cinzentas dos remotos horizontes. O terreno compreendido entre as serras, que formavam como um cinto de muralhas em torno dele, era dividido em vastas leiras abauladas cobertas da mais esplêndida verdura e separadas entre si por uma multidão de ribeiros, que descendo da serra de oeste, se encaminhavam por um leve pendor para o lado oposto a se confundiram em um rio, que lambia as faldas da serra do oriente. Desta também se despenhavam em cristalinas espadanas cascatas, que aqui e acolá pelo roto das águas deixavam ver lâminas de ouro cintilando ao sol.

Capões tufudos cheios de viço e fresquidão se estendiam pelas orlas dos córregos, como cercas de verdura dividindo em vastos canteiros de relva aqueles deliciosos sítios.


Fartos já de dar pasto aos olhos por esse magnífico panorama, Gaspar e seus companheiros desceram a serra, e como a encosta não era extensa, em breve se acharam enredados pelos viçosos vargedos daquela deliciosa valada, toda entremeada de vergéis, de veigas matizadas de flores, de lezírias extensas, formando um labirinto, em que com dificuldade se orientariam nossos bravos sertanejos, se não fosse a rocha de ouro, que lhes servia de farol, e que pela elevação, em que se achava sempre lhes ficava à vista. A cada vertente que passavam, a cada córrego que transpunham, escapava-lhes um grito de surpresa e admiração. Aqui deparavam com um montão de areia de puro ouro acumulado pelas torrentes pluviais; acolá ao passar de um regato seus pés pisavam uma barra de ouro maciço; além era um arroio, cujo álveo estava marchetado de palhetas cintilantes; mais adiante no seio azul de um límpido remanso, os diamantes, os rubis, as safiras rutilavam como as estrelas no fundo do firmamento.


Além dessas maravilhas do reino mineral, também a vegetação era a mais esplêndida e opulenta que se pode imaginar. A mangabeira, o araticum, o cajueiro, espalhavam por todas aquelas veigas o suavíssimo cheiro de seus frutos. O maracujá enlaçando pelos arvoredos suas ramas flexíveis formava berços e grutas de verdura da mais amena fresquidão, embalsamadas do aroma de sua flor simbólica e de seus frutos deliciosos. Renques de altos buritis se estendiam ao longo das verdentes como filas de selváticos guerreiros balanceando na fronte seus vistosos cocares.

Aves de mil variadas espécies povoavam essas encantadas solidões e as enchiam de mil alegres rumores. Manadas de veados pastavam tranquilamente pelos campos sem temer as matilhas do caçador. A lontra e ariranha de pelo auriluzente saltava a emborcar-se n’água dando caça aos peixes, que em cardumes vagueavam pelo veio cristalino dos córregos alardeando a beleza de suas escamas de ouro e prata, de púrpura e azul. Pacas aos bandos retouçavam à beirados arroios, e mergulhando n’água recolhiam-se às tocas conhecidas. O saguim, a irara, o quati e outros animaizinhos inofensivos saltavam e brincavam pelas ramas das árvores. Por toda a parte a natureza ostentava vida, magnificência, esplendor e beleza.


E tudo naquela aprazível solidão se achava intacto e virgem. Nenhum sinal indicava que jamais ali houvesse penetrado pé humano; nem um ramo quebrado, nenhuma relva trilhada, nem uma pedra aluída de seu lugar nativo. Era como um Éden, que acabava de sair das mãos do Criador, e que só esperava o Adão e a Eva, que deviam povoá-lo. Mas todas essas louçanias da natureza pouco atraíam as vistas de nossos aventureiros, que deslumbrados pela prodigiosa abundância de ouro e pedrarias quase que eram cegos e surdos para tudo o mais.

— Meus camaradas, — disse um deles, — acho bom que voltemos sobre nossos passos. Já conhecemos, quanto é bastante este sítio e suas imensas riquezas; já as vimos com os nossos olhos e as tocamos com as nossas mãos. Somos poucos, e tentar avançar mais seria grande temeridade da nossa parte. Em outra ocasião poderemos voltar em maior número e mais bem apercebidos contra qualquer eventualidade. Quem sabe se a índia, que nos não há enganado a respeito da riqueza destes lugares, também nos não disse verdade a respeito dessa nação alva como leito…


— Quem pode acreditar nas bruxarias dessa pobre gentia! — atalhou um outro. — Como entre nós outros há quem acredite em almas do outro mundo, também essa pobre gente tem suas abusões de que não devemos fazer caso algum.


— E demos graças a Deus, — acrescentou outro, por haver entre ele dessas abusões; à elas devemos nós a ventura de achar intactos estes imensos tesouros. Aliás, já tudo isto estaria revolvido e estragado.

— Mas, — objetou o primeiro dos interlocutores, — é esta mesma extraordinária abundância de riquezas que temos diante dos olhos, entre as mãos e debaixo dos pés, que me faz ficar assim temeroso e pensativo. A fé de paulista, que me parece, que estamos em uma terra de feitiçarias e encantamentos. Quer me parecer que tamanha riqueza não pode existir senão por milagre de algum mágico ou de alguma fada, e que não pode deixar de ser guardada ou por essa nação alva, de que nos falou a bugre, ou por alguma enorme serpente ou dragão de fogo…


— Mal hajam tuas histórias de encantamentos e bruxarias! replicou Gaspar com enfado. Pensas acaso que com essas bugigangas hás de meter medo a nós os companheiros de Bartolomeu Bueno, que temos corrido quantos azares e afrontado quantos perigos há neste mundo?


—A fé de paulista, que me não compreendes Gaspar, e te zangas debalde, — retrucou o outro. Apareça esse, que já me viu recuar diante de perigo algum, e muito menos procurar desanimar outros! Isto que eu digo, são abusões cá de minha cabeça; mas não estorva, que marchemos avante, ainda que nos leve o diabo. Hajam embora tatus brancos ou pretos; serpentes ou dragões de fogo, haja o diabo a quatorze, por minha alma vos juro, não serei eu, quem recue um só passo.


— Sem dúvida, meu bravo companheiro, nem eu digo o contrário; nós, que ainda não tivemos pavor diante de perigo algum visível e palpável, nem diante de inimigos de carne e osso, havemos de recuar diante de fantasma da meia-noite! Recuar agora seria dar um coice na fortuna, que nos abre seus braços. Até agora ainda não encontramos vestígio algum que denote haver por aqui criatura humana nem branca nem preta, nem coisa alguma, que nos possa inspirar receio. Temos já visto muita coisa; mas ainda não vimos tudo. Seríamos uns poltrões dignos do desprezo e do escárnio de nossos patrícios, se tendo chegado até aqui sem o menor contratempo, por um vão terror deixássemos de ir ver de perto e tocar com as nossas mãos aquela grande maravilha, que lá resplende do lado do ocidente. Avante pois, companheiros! nada de vãos receios! avante!

Estas palavras de Gaspar foram aplaudidas com calor e eletrizaram a companhia. Continuaram pois seu caminho em direção à montanha do Pão de Ouro como eles a apelidavam, e que sempre lhes ficava em vista por causa de sua elevação, pisando sempre um chão crivado de prodigiosas riquezas minerais, e coberto da mais esplêndida e luxuriante vegetação. Ao cabo do dia chegaram à base da montanha, que não era de grande elevação, mas cujas abas eram bastantemente íngremes e alcantiladas, formando a modo que uma muralha, que, como a dos outros lados, servia de cerco e limite à aquele recinto de delícias.