O Pão de Ouro/Capítulo IV

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O pão de Ouro
por Bernardo Guimarães


Os tatus brancos[edit]

Chegados ao pé da montanha ao descair do dia, nossos bravos aventureiros trataram logo de explorar qual seria o ponto mais favorável, por onde deveriam procurar galgar ao cimo, em que existia o Pão de Ouro.

Contentíssimos por terem avançado até ali sem o menor contratempo, já não se lembravam dos tatus brancos, nem dos sinistros avisos da índia, senão para rirem-se com a melhor vontade de tudo isso. Percorrendo as abas da serra toparam uma espécie de furna ou mina à maneira da boca de uma fornalha, que se prolongava horizontalmente pelo âmago da montanha até perder-se nas trevas. Esta furna não tinha talvez nem meia altura de um homem, e para nela entrar seria preciso andar de joelhos e mãos no chão. Não lhes causou isto grande impressão; pensaram, que seria alguma lapa natural, provavelmente guarida de animais bravios, e continuaram em suas explorações. Mais uma centena de passos adiante depararam outra furna da mesma forma e do mesmo aspecto; mais adiante ainda outra. Começaram a cismar, e analisaram com atenção a boca da furna, não encontraram rasto algum nem de alimária, nem de homem; penetraram por ela a dentro até onde o podiam fazer sem perigo; nada viram, e nem ouviram. Não sabiam o que pensar.

Prosseguiram seu caminho, e mais adiante encontram outra furna de forma idêntica, e assim por diante outras e outras muitas. O caso tornava-se digno de atenção e próprio para inculcar sérios medos. Os índios da noite, alvos como leite e ferozes como o tigre, vieram à lembrança de todos, e a despeito da incontestável intrepidez e valentia daqueles rudes viajores afeitos a romper por todos os obstáculos e perigos, um sentimento de pavor lhes assaltou o espírito, e fez-lhes tremer o coração. É que tudo que tinham visto naquele dia e naquela região era estranho e extraordinário, e assim já não duvidavam muito, que daquelas gargantas subterrâneas surgissem monstros a devorá-los. A noite, que já vinha descendo, contribuía ainda mais para tornar pavorosa a sua situação.

— Isto não pode ser toca de animais bravios, — disse Gaspar, — Consta a algum de vós, que hajam feras, que tenham seus covis assim dispostos de modo tão regular e uniforme?

— Não; nunca vimos, nem ouvimos falar em tal, — foi a resposta de todos.

— Portanto, meus amigos, — continuou Gaspar, — se existem esses tatus brancos de que nos falou a índia, aqui nestas furnas, deve ser a guarida dessa gente alva, que aborrece o dia, e só de noite sai de suas tocas. Mas não vejo motivo nenhum nisto para nos acobardar, meus bravos amigos. Nós, que temos feito frente a homens, que amam a luz, e não tem receio das trevas, e temos sabido escapar-lhes das garras, nenhum receio podemos ter desses imundos filhos das trevas. Eles só de noite aparecem, portanto tratemos de nos pôr a salvo em algum lugar, onde nos não possam ver, mas de onde os possamos espreitar e observar a nosso gosto. Amanhã, depois que se recolherem veremos o que se pode fazer para dar cabo deles.

— Como de dia não saem, e nada podem fazer, — dizia um deles, — o melhor que se pode fazer é tapar as bocas das furnas entulhando-as com as maiores pedras que pudermos carregar, assim emparedados, veremos por onde podem escapar-nos.

— Isso não tem propósito, — respondia outro, — e seria muito difícil tapar-se tantas bocas de furna em um só dia. Demais lembremo-nos, que são tatus, e podem furar uma saída por onde bem lhes parecer. O melhor é ajuntar bastante lenha na boca de cada furna, e deitar fogo; assim os sufocaremos e os mataremos todos, como se matam as formigas cabeçudas lá em nossa terra.

A pouca distância das furnas havia um montículo, cuja cima era guarnecida de um grupo dessas arvorezinhas que costumam formar bosquetes em meio dos campos. Dali podiam avistar as bocas de quase todas as furnas, e era a posição mais favorável que podiam encontrar para se esconderem e ficarem de espreita.

Para ali pois se dirigiram, ocultaram-se do melhor modo que puderam, e ficaram apercebidos para o que desse e viesse.

A noite caía escura, sem estrelas e sem luar; o céu estava tolhado, e apenas se podia enxergar a mui curta distância. Apenas as trevas tinham acabado de cerrar-se de todo, os nossos heróis começaram a ouvir um rumor confuso e indefinível, que partiu do lado da serra. Eram como uns ecos cavernosos e longínquos, era como o toque de uma matilha de cães, e gritos de caçadores, que perseguem ao longe um veado ou uma anta no seio de uma gruta profunda; ora murmurava confuso a maneira do grunhir de uma vara de porcos. De súbito aquele alarido se tornou mais intenso e distinto; eram gritos, guinchos, ganidos, assobios, bramidos, uivos, uma mistura enfim de sons de toda a espécie, que restrugia pela boca das furnas e se expandia pela valada de um modo medonho e atroador. Por mais de uma hora os desgraçados aventureiros estiveram escutando na mais terrível ansiedade aquela estranha vozeria, que de momento a momento mais se avizinhava e aumentava de intensidade. Nada podiam ver, porque era grande a obscuridade da noite; mas pela natureza dos sons logo compreenderam que eram soltados por gargantas e lábios humanos, e por uma multidão incalculável de pessoas.

Então, — ai deles! já bem tarde! fugiu-lhes do espírito toda e qualquer dúvida que ainda pudessem conceber acerca da existência dos tatus brancos; o que julgavam parto extravagante da imaginação supersticiosa dos selvagens, tornava-se medonha realidade. Eram sem dúvida os tatus brancos, que saíam de tropel de suas tocas, e se derramavam em chusma pela campanha, fazendo toda aquela tremenda algazarra, como um bando de meninos ao sair da escola, porém mil vezes mais atroadora e pavorosa. Começavam a compreender quão desesperada era a sua situação, e arrependeram-se mil vezes de sua louca temeridade; mas era tarde.

Por um momento contudo julgaram-se salvos. Os bandos dos selvagens até então apinhados ao sair das furnas, parecia que se iam espalhando pela campanha; as vozerias diminuíam pouco e pouco, e como que se iam derramando e dissipando ao longe. Alguns grupos apenas pareciam rondar pelas vizinhanças do montículo em que se achavam nossos aventureiros. Estes, para melhor se esconderem, treparam nas árvores e se ocultaram entre as ramas; mas ai deles!

A lua, que estava em seu primeiro quarto depois de cheia, começou a despontar; o céu se desnublou; e o teatro daquela assombrosa cena foi-se clareando.

Uma multidão inumerável de entes humanos perfeitamente nus e alvos como a neve, espalhados por todos aqueles contornos vagavam em todos os sentidos, e se derramavam pelas campinas. Uns se embrenhavam pelos matos, outros corriam através dos campos com a rapidez da corça, outros trepavam nas árvores com a agilidade do macaco, outros esfuracavam a terra com as unhas, como verdadeiros tatus, assim dispersos em desordem se iam afastando da entrada das furnas, com exceção de alguns pequenos ranchos provavelmente velhos e crianças, que se conservaram ao pé delas. Quem tem observado, quando se revolve a terra de um formigueiro, aquela imensa quantidade de ovas brancas carregadas nas costas das formigas, que desaparecem debaixo delas, saindo das células correrem às tontas cruzando-se em todos os sentidos, redemoinharem e se espalharem aos poucos, terá uma justa imagem, se bem que em miniatura, do que eram os tatus brancos ao precipitarem-se de tropel fora das tocas e se derramaram pelas campinas.

Atônitos e transidos de pavor, os aventureiros paulistas, aos quais em tais conjunturas de nada podia valer toda a sua intrepidez e valentia, observavam aquele estranho espetáculo. Já alguns grupos vagueavam à mui pequena distância do lugar, em que se achavam nossos heróis.

Estes de medo de serem descobertos quase que nem respiravam, e murmuravam tremendo quantas orações e rezas tinham aprendido. Mas estavam bem escondidos, e restava-lhes ainda a esperança de que os tatus poderiam passar além sem deles darem fé.

Os malditos selvagens porém, além de terem melhor vista de noite do que os linces de dia, parece que tinham um faro tão apurado como os melhores cães de caça.

Uma chusma deles investiu de repente em altos gritos contra o montículo, em que se achavam refugiados os paulistas. Estes compreenderam logo, que estavam descobertos, e que para eles não havia mais salvação possível. Desceram pois das árvores, rezaram e encomendaram suas almas a Deus, e indignados de morrer às garras daqueles entes abjetos e imundos, fizeram propósito de ceifar antes de sucumbir o maior número deles que pudessem. Os tatus brancos eram de mui pequena estatura, quase anões, mas ágeis e robustos. Suas armas eram seus próprios dentes e unhas que as tinham curvas e agudas como os carnívoros, ou paus brutos que quebravam pelo mato, e as pedras que encontravam pelo chão.

Um montão deles ficaram logo espichados por terra aos golpes desesperados dos paulistas, que às vezes de um só gilvaz de suas catanas faziam morder o chão a dois e três. Mas não puderam resistir por muito tempo ao número infinitamente superior de seus agressores.

A maior parte sucumbiram na luta; alguns porém foram garroteados e amarrados pela turba cada vez mais apinhada dos tatus brancos, e entre esses Gaspar.

Gaspar apertado por uma chusma deles, trepou em cima de um cocurato ou cupim, que a fortuna lhe deparou, vibrando golpes de espada por todos os lados, os ia matando aos montes com a mesma facilidade, com que os nossos caçadores trepados em um touco de árvore costumam matar uma vara inteira de caitetus, que espumantes e furiosos o atacam por todos os lados. Mas o seu número era demasiado grande; atracaram-se-lhe às pernas, e o fizeram tombar de bruços sobre a pilha de cadáveres, que tinha amontoado em torno de si. Uma bordoada na nuca o atordoou; foi amarrado de pés e mãos, como seus companheiros.

Houve grande altercação e horrível algazarra acompanhada de sanguinolentas vias de fato, por ocasião da distribuição das presas, isto é, dos corpos dos prisioneiros vivos e mortos. A carne humana parece que era para eles finíssima iguaria por isso mesmo que raras vezes podiam obtê-la.

Pelo que era grande a ganância e grande também a alegria e o entusiasmo pela bela caçada, que acabavam de fazer, posto que tivessem perdido na luta não menos de cinquenta a sessenta companheiros. No fim de contas, não podendo chegar à acordo algum amigável, os mais atrevidos foram agarrando nos cadáveres e prisioneiros vivos, e sempre em briga uns com os outros às dentadas, unhadas e pontapés, os foram carregando em charola para a boca de suas furnas.

Tocou um paulista a cada uma das furnas, as quais, ao que parece, eram habitadas cada uma por uma família ou tribo, ficando outras muitas queixosas e descontentes. A furna porém, a que foi recolhido Gaspar, teve dois corpos, ele e mais um companheiro também vivo, talvez porque pertencia ao chefe ou primaz daquela gente, que de humano apenas tinha a figura.