O Pão de Ouro/Capítulo V

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O pão de Ouro
por Bernardo Guimarães



No interior da furna[editar]

Quem tiver reparado no modo por que as formigas costumam carregar para a cova o mísero insetozinho, que teve a desgraça de cair-lhes nas garras, fará uma ideia justa da maneira por que Gaspar e seus companheiros, amarrados com cipós de pés e mãos, carregados cada um por sete, oito e mais selvagens, uns puxando para aqui, outros para acolá, uns pegando, outros largando, uns arrastando, outros empurrando, foram introduzidos aos trambolhões pelas furnas a dentro no meio de uma selvática e imensa grita de triunfo.

Gaspar durante o trajeto com os abalos e empuxões dos condutores, foi voltando a si do atordoamento que lhe causara a bordoada que recebera na nuca. Lá dentro a escuridão era completa, impenetrável, e a despeito disso aqueles selvagens, afeitos às trevas, pareciam enxergar, pois moviam-se com toda a presteza sem se abalroarem, e faziam tudo com todo o desembaraço, como se estivessem à luz do meio dia. Inimigos da luz não faziam fogo, e o clima tépido daquelas regiões os dispensava de se aquecerem.

Gaspar pensava ter caído vivo no inferno, e sua pavorosa situação ainda mais cruel se tornava pela lembrança do rico e delicioso vale, que tinha ali tão perto de si, e que ainda a pouco acabava de atravessar com o coração a transbordar de esperanças e o espírito cheio dos mais brilhantes projetos. Atravessar o paraíso para cair de chofre naquele inferno de eterna escuridão! Oh! que era um transe de pungir, de ralar o coração!

Gaspar foi atirado no chão, amarrado como estava como um porco que se vai sangrar. Pelo tropel e vozeria dos selvagens compreendeu que a furna se dilatava interiormente em um vasto subterrâneo, cuja atmosfera pesada e quente estava carregada de miasmas infectos e nauseabundos. Posto que transido de horror sua curiosidade era grande e, ao menos para disfarçar sua angústia, desejava conhecer aquele inferno, onde a sorte o precipitava por modo tão estranho e desapiedado. Esperava que ascendessem algum lume; mas em vão; aquela gente, inimiga da luz do sol, ignorava até o uso do fogo.

Estava pois condenado a perpétuas trevas; estava como no túmulo em vida. O único pensamento que ainda o consolava, era a esperança de que aqueles selvagens não deixariam em breve de dar-lhe cabo da vida. Uma cena horrorosa, que lhe feriu os ouvidos, ainda mais o veio confirmar naquela ideia.

Por entre o alarido sinistro dos selvagens, Gaspar ouviu um ruído como de pauladas sobre um corpo humano, de ossos que se quebravam a repetidos golpes, e os gemidos de uma vítima nas agonias da morte. “Ai! meu Deus! meu Deus! piedade!” foram as últimas palavras que saíram dos lábios do padecente, e ecoaram lugubremente pela escuridão infernal daquelas abóbadas. Gaspar conheceu a voz de um de seus mais queridos camaradas; deu um arranco e um rugido de desespero; ai dele! o que poderia fazer senão esperar também com resignação a sua vez!…

Daí a pouco um novo rumor ainda mais estranho chegou-lhe aos ouvidos. Era o de um corpo, que se rasgava, que se esquartejava brutalmente entre as mãos daqueles ferozes selvagens, que se lançavam à preza e a disputavam entre si como um bando de cães esfaimados. Seguiu-se depois o ruído da mastigação das carnes, que se rasgavam dos ossos, que estalavam entre os dentes caninos daquelas feras humanas, que devoravam quentes e ainda palpitantes os membros da vítima. Quem não os tivesse visto, julgaria estar num antro de lobos ou panteras. Gaspar sentiu o cheiro das entranhas palpitantes e do sangue ainda quente de seu companheiro. Os cabelos se lhe eriçaram, bagas de suor frio rolaram-lhe pela testa, cerrou os olhos em uma vertigem, e teria caído em terra, se já não estivesse amarrado e estendido no chão.

Passados aqueles momentos de turvação, os olhos de Gaspar, já um pouco familiarizados com a espessa escuridão que reinava na furna, começaram a divisar mui confusamente os vultos branquicentos dos selvagens, que se moviam mais perto dele. Um destes se avizinhou, pôs-se de joelhos, debruçou-se sobre ele, tocou-o com as mãos, e esteve como que o contemplando por algum tempo. Gaspar estremeceu.

“É chegada a minha vez!” disse consigo; rezou o ato de contrição, e encomendou sua alma a Deus.

Imediatamente um grupo numeroso se acercou dele dando gritos de feroz alegria, Gaspar esperava a cada instante os golpes, que deviam matá-lo, e avançava a cabeça para nela recebê-los a fim de morrer mais depressa. Já os cacetes estavam alçados sobre ele; súbito o índio ou índia, que estava debruçado sobre ele, levanta-se bruscamente, estende os braços sobre o prisioneiro, e suspende os golpes dos selvagens; dirige-lhes depois algumas palavras, antes gritos em tom imperioso, e com um gesto fá-los se retirarem como um bando de urubus, que o cão só com um rosnar enxota da carniça, sentou-se depois outra vez junto de Gaspar, tocou-lhe o corpo com as mãos, encostou as faces em suas faces, os lábios em seus lábios, e pousou seu peito sobre o dele. Gaspar reconheceu que era uma mulher, e sentiu um horror e um asco irresistível. Essa mulher, que assim o afagava, tinha as mãos e a boca besuntadas do sangue de seu camarada a pouco devorado, e seu hálito tresandava um cheiro infecto e nauseabundo de sangueira. Gaspar sentiu as entranhas se lhe revolverem em ânsias cruéis. Se ele se visse com o pescoço enleado entre as roscas de uma serpente, que com a farpada língua lhe lambesse as faces e os lábios, não sentiria tanto horror e repugnância, como ao ver-se enlaçado nos braços de tão repulsiva criatura.

A índia retirou-se, e um momento depois voltou trazendo uma pele, que estendeu no chão junto a Gaspar; desatou-lhe os cipós das mãos somente, e por gestos o convidou a repousar, e tornou a retirar-se. Daí a momentos tornou a aparecer trazendo-lhe para alimento o que! Santo Deus! o braço de seu camarada esquartejado, ainda quente e fumegante! A tal vista Gaspar soltou um grito de horror, voltou bruscamente o rosto, e o escondeu entre as mãos. A mulher parece que compreendeu sua repugnância, e foi lhe buscar frutos; estes eram sãos e saborosos, colhidos a pouco nos vales próximos aquela espelunca infernal. Gaspar não tinha fome, mas sentia necessidade de alimentar-se; comeu-os, e ao comê-los não pode deixar de exclamar: “Ah! frutas do paraíso, quanto sois deliciosas! mas ai de mim, que sou condenado a comer-vos no inferno!” A índia retirou-se, e não voltou mais essa noite.

Gaspar deitou-se na pele e refletiu amargamente sobre seu cruel destino. Já não havia para ele dúvida, que aquela mulher, que pelo ascendente, que exercia sobre os outros parecia ser filha, irmã ou talvez mulher do cacique ou chefe daquela gente, se tomara de amores por ele, e a esse fato devia ele o ter-se-lhe poupado a vida. Mas que vida, meu Deus! e por que preço!

— Descer vivo a escuridão dos túmulos, — pensava Gaspar, — para viver em perpétuas trevas e completa solidão no meio desta corja de monstros repulsivos, que mais parecem um bando de tatus a esfuracarem as sepulturas de um cemitério infecto! e para cúmulo de misérias ter de ser ainda o alvo, em que se devem cevar os desejos amorosos de uma harpia repugnante e asquerosa! que sorte mesquinha e amargurada! quanto é preferível o destino desse meu companheiro, que ainda a pouco devoraram! antes minhas carnes, como as dele, já estivessem sendo digeridas por esses estômagos esfaimados! Oh! meu Deus! antes a morte, mil vezes a morte!

E o mísero paulista pedia a morte de todo seu coração.

Mas refletindo depois melhor e com mais calma, lembrou-se que talvez lhe não seria impossível evadir-se daquele inferno, e que o amor da índia longe de ser um estorvo, poderia proporcionar-lhe os mais favoráveis ensejos a sua fuga, contanto que ele soubesse haver-se com astúcia e habilidade. Pensou muito nisso, e por fim resolveu-se a viver e a esperar, e o que era mais penoso ainda, a corresponder aos repulsivos afagos de sua abominável amante.

A noite, que para eles era o dia, estava ainda longe de seu termo; portanto os tatus brancos tinham saído todos de novo a correr os campos, ficando apenas alguns rondando a caverna e guardando o prisioneiro. Extenuado pelas fadigas do dia, cansado de emoções violentas e de amargas reflexões, Gaspar adormeceu pensando nos meios que empregaria para obter a sua evasão.