O Parocho da Aldeia/VII

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O Parocho da Aldeia por Alexandre Herculano
Capítulo VII: Tantaene Animis?

Quando Bartholomeu ía entrando no adro viu um taful e uma senhora, que, á porta da igreja, forcejavam para romper a pinha de povo, que a obstruia. Vistos assim pelas costas, pareciam pessoas de conta. Trajava ella um vestido de seda preta, um grande schall vermelho e um chapéu, franzido á ingleza, côr de café: elle calça e casaca preta da moda e chapéu fino, posto que já amarrotado pelos apertões da saloiada, que, fingindo quererem abrir caminho ao elegante par, cada vez se uniam mais, olhando uns para os outros com aquelle sorriso de socapa e malevolo, que é peculiar aos camponios quando colhem algum individuo, cujo porte e apparencia os humilha, para victima das suas graças e perrarias um pouco abrutadas.

O moleiro tinha nascido naquelles sitios, nunca dormíra uma noite fóra do logar, lidava com muita gente em consequencia do seu trafego, ía-lhe já a neve pela serra, e por isso conhecia perfeitamente os habitos, propensões e manhas dos seus patricios. Percebeu logo que os saloios estavam de embirração com as duas personagens cortesans, e desenganou-se de todo vendo vir do lado da igreja um dos moços do Agostinho da tenda, que, fingindo-se bebado e cambaleando, dizia:—­cresça o monte, rapazes; cresça o monte!

O magnetismo animal é um mysterio ainda: a extensão das affinidades magneticas ninguem a póde demarcar. De homem para homem ellas são indubitaveis; mas, porventura, vão mais longe. Ao menos eu creio que os calções, a casaca e o chapéu armado do moleiro actuavam fortemente no seu espirito por influencia occulta. Sentia no coração uma especie de cocegas aristocraticas; uma vontade de mostrar o que podia e valia aos nobres hospedes da sua terra, que, pretendendo assistir á festa, se collocavam naturalmente debaixo da sua protecção como festeiro. Era esta uma idéa que não lhe viria á cabeça quando trajava os seus calções enfarinhados, o seu colete assertoado e a sua jaqueta de saragoça. Mas veio-lhe então, mysteriosa, irreflectida, forçosa, posto que sem quebra da liberdade de a rejeitar, semelhante, se a comparação fosse licita, á graça efficaz. Approximou-se, pois, abrindo passagem por entre a turbamulta. O primeiro individuo com quem topou em cheio foi com Gabriel, que, tendo saído do campanario, tractava tambem de penetrar na igreja para ajustar contas com o sacristão logo que se lhe offerecesse ensejo. Para aproveitar o tempo, Gabriel, informado do que se passava, ía ajudando a augmentar o apertão, que crescia cada vez mais, de modo que a dama do schall e o dandy de preto, entalados juncto do guardavento, nem podiam recuar nem surdir ávante. Apesar, porém, da pequenez do seu corpo, Gabriel parecia ter de olho as duas victimas, como receioso de que voltando a cabeça o lobrigassem. Careteava, ria, empurrava com alma; mas, de instante a instante, punha-se nos bicos dos pés, espreitava por cima dos hombros e por entre as cabeças dos vizinhos, agachava-se ao menor movimento que via fazer aos dous, tornava a empurrar, e nesta lida o garoto renovava, incansavel em novo combate, as façanhas que, havia pouco, practicára no sempre memorando repique.

“Mariola!—­rosnou colerico o moleiro por entre os dentes cerrados, ao chegar ao apertão e agarrando de subito as orelhas de Gabriel, que, com uma cara onde assomava o chôro, encolhia a cabeça entre os hombros, mal comparado, como um caracol quando lhe puxam os tentaculos. Não tanto pela voz, como pelo contacto das mãos, assaz conhecidas daquellas pobres orelhas, Gabriel sentíra o patrão. Era, todavia, já tarde.

“Mariola!”—­repetiu Bartholomeu com o mesmo grito mal sopeado de colera. E ouviu-se o tinir duvidoso de uma fivela acompanhado de um som baço, como quem dissera o do bico de um sapato grosso batendo sobre uma pouca de bombazina estofada de certa porção convexa de carne humana. Gabriel descreveu com o corpo um arco, mas no sentido inverso ao de quem faz cortezia profunda. E começou a soluçar.

“Mariola!”—­accrescentou ainda outra vez o moleiro, com aquelle fatal rugido, que significava o seu profundo despeito. Ao dicto seguiu-se rapidamente o feito. Largou as orelhas do rapaz: recuou o braço, cerrou o punho, e desfechou-lhe tal murro no toutiço, que Gabriel foi ao chão.

A principio, uma certa contemplação com a idade, com o caracter, e mais que tudo com a fama de ricaço de que Bartholomeu gosava, conteve os murmurios dos poucos, a quem as diligencias communs para penetrar na igreja haviam consentido attender ao duro castigo que convertêra Gabriel n’um como bode emissario dos peccados de muitos. Quando, porém, o mesquinho rapaz cahiu em terra, a indignação dos seus co-réus rebentou. O moço do Agostinho, posto que a medo, alevantou a antiphona.

“Tambem é bater á bruta! Agora, a prove creança fez-lhe algum mal?! Vá bater assim no diabo. Olha não matasse aquelles milordens!...”

“Entre, sô doutor!—­atalhou Bartholomeu, atirando umas escorralhas de pontapé, que ainda lhe titilavam nos tendões da perna direita, ao limite inferior das vertebras de Gabriel, já que não podia sem risco applica-las ao orador. Essa fôra, todavia, a sua primeira inspiração.

“Ai, é para isso que uma mãe cria um filho! Coitadinho, já não tens pae! Não fôras tu orfo e prove. Mas cal-te, bôca. A gente sempre vê coisas!”

Ouvindo estas palavras, proferidas por uma voz feminina conhecida, o velho moleiro voltou-se. Era a senhora Perpetua Rosa, que, em companhia da ama do prior, tinha chegado naquelle instante a mata-cavallo, por se havêrem ambas entretido a examinar umas meadas, que a tia Jeronyma dera a curar á lavadeira, e que esta, vindo para a festa, de caminho lhe fôra entregar. Posto que ligados até certo ponto pelo casamento de seus filhos, a mutua má vontade da lavadeira e do moleiro, alimentada por largo tempo, tinha sido como o escalracho: cada anno profundara mais um palmo de raizes. Só havia uma differença, e era que Perpetua Rosa, protegida pelo genro, perdêra pouco a pouco o medo que tomára a Bartholomeu desde aquella historia das saccas, e já se engrifava para elle sem cerimonia. Encontrando-se ás vezes na azenha, nem uma só deixavam de se travar de razões por qualquer palha podre. De resto, tractavam-se com apparente cordialidade. Era como a alliança e sympathia actual entre a França e a Inglaterra.

“Pois não, sua lambisgoia!”—­acudiu o moleiro fazendo-se vermelho.—­“Acha você muito bonito que meia duzia de patifes estejam judiando com as pessoas que querem entrar na igreja? Com um quarteirão de diabos! Quem dá o pão dá o ensino; e este, pelo menos, hei-de eu ensina-lo!... Rosna p’ra ahi, pedaço de bruxa velha:”—­accrescentou elle, vendo que Perpetua Rosa continuava a resmonear, já com acompanhamento de—­“tem razão, tia Perpetua!” —­“olha o maluco!”—­“se queres vêr o villão mette-lhe a vara na mão!”—­“é agora o senhor assaluto!”—­Era uma tempestade eminente: era a revolta eterna do pobre contra o abastado, que resfolga pelo minimo respiradouro. E o sussurro crescia, e Bartholomeu, suffocado pela raiva, batia o pé, e debalde tentava cuspir por cima daquella quasi algazarra as pragas, as injurias, as ameaças, que lhe faziam maior entupimento na garganta do que pão de cevada faria em goellas de peralvilho dengoso. Vingava-se, é verdade, em servir de couces e cachações o misero Gabriel, que se lhe reboleava aos pés; mas isto não era mais que botar lenha ao forno, e augmentar cada vez mais o tumulto. A hirta mó de saloios ao pé do guardavento tornava-se mais flexivel, ondeava, alargava-se, dissolvia-se, e vinha agglomerar-se de novo em volta de Bartholomeu, curiosos de indagarem o motivo daquella assuada. Falavam todos a um tempo; já no meio do borborinho ninguem se entendia; e, apesar da colera e da sua habitual firmeza, o moleiro começava a titubear.

Na furia em que estava incendido contra Perpetua Rosa, contra a ama do prior, que tambem tinha desembainhado a lingua em defesa de Gabriel, e contra outras duas velhas do logar, que ajudavam a atenaza-lo, Bartholomeu não reparou que o taful, por cuja causa se mettêra naquella nora, forcejava por chegar ao pé delle. Por fim, foi a propria Perpetua Rosa que o fez attentar por isso.

“Venha, Manuel, venha cá: olhe a figura que está fazendo seu pae. Forte toirão! Abrenuncio!”

A isto o moleiro alçou os olhos para aquella parte, e viu... Quem havia elle de vêr? O seu Manuel, que, com effeito, rompia por entre a turba approximando-se, seguido de Bernardina, que lá de longe fazia esgares e visagens á senhora Perpetua Rosa e á tia Jeronyma para que se calassem. Os dous tafues, os dous milordens, os dous fidalgos, por quem Bartholomeu affrontava as iras populares, eram nem mais nem menos que seu filho e sua nora. Ficou parvo. O luxo dos noivos fez-lhe esquecer Gabriel, as velhas, as injurias, tudo. Como o corpo electrisado pelo contacto da resina, que é repellido chegando-o de novo a ella, e desembésta para o vidro se lh’o approximam, a sanhuda indignação do moleiro nordesteou para as novas victimas. Cingiu involuntariamente as algibeiras com as mãos; porque cada uma dellas se lhe figurou convertida n’um repuxo de cruzados novos, que, descrevendo uma curva parabolica, íam cahir nos balcões dos arruamentos de Lisboa. Depois, fincando os punhos cerrados nos vazios, e meneando a cabeça de um para o outro lado, poder-se-hia comparar ao oceano nos momentos que precedem a tempestade, quando as vagas, profundamente revoltas, ainda se não encrespam em carneiradas, mas banzam como somnolentas e espertando-se para o combate.

Passa a França pela terra classica da galanteria: parece que o bello-sexo tem alli o seu throno. Nesse ponto cedem a palma aos francezes os outros povos. Dizem-no todos; mas eu digo que não. Vence-os esta namorada terra de Portugal. Os nossos affectos serão menos ruidosos, menos rendidos; são, porém, mais ardentes e duradouros. Se as phrases d’uma lingua podem muitas vezes servir para revelar o caracter, os costumes e até a historia da nação que a fala, a nossa lingua e a franceza nos offerecem argumento da existencia dessa superioridade do coração, pela qual eu ponho, não digo a cabeça, mas quasi. E senão, respondam-me. Que incendio seria maior; aquelle que precisasse de um anno para amortecer e extinguir-se, ou o que durasse apenas um mez?

Indubitavelmente o primeiro. Bellamente. Venhamos agora á hypothese. O matrimonio é de sua natureza resfriativo: a paixão mais violenta acalma, entibia-se, entisica, e morre com o tracto domestico; e feliz se póde chamar a união em que a amizade e a estima vem substituir os sonhos e os delirios de um amor já saciado. Ha, todavia, um periodo em que, apesar de satisfeito, elle resiste ainda: é durante o lento desabar das illusões, que vão cahindo peça a peça. Nesse periodo ainda aos casados cabe o nome poetico de amantes: depois é que se chamam a cousa mais prosaica e positiva que se conhece no mundo; chamam-se marido e mulher. Esta epocha transitoria tem a sua formula diversa segundo as diversas linguas. Exprime-a em francez a phrase lua de mel: o portuguez diz anno de noivos. É claro que em Portugal resiste o amor ao matrimonio doze vezes mais que em França. Lá um mez; cá um anno. Fiquem as raparigas de aviso: nada de amores com estrangeiros. Se em França n’um mez colhem todo o fructo da victoria, que será por essas terras de Christo mais geladas e nevoentas? Eu, por mim, façam lá o que quizerem. Lavo d’ahi minhas mãos.

Bernardina, essa é que a dera em cheio casando com o Manuel da Ventosa. Aos quatro mezes de noivo era ainda um baboso por ella. No principio de julho ajustára contas com os freguezes da azenha, e recebêra algumas moedas: a festa da aldeia estava proxima: Bernardina morria por tafularia; o moço moleiro tambem não lhe era avesso. Tinham o vicio instinctivo da gente moça, vicio legitimo, se em vicios se póde dar legitimidade. Duas forças arrastavam, pois, o pobre Manuel da Ventosa: o amor, e a propria inclinação. D. Thomazia, irman do mestre eschola da aldeia (se Deus me der vida e saude, ainda talvez um dia conte a historia do digno professor) vivêra na côrte muitos annos com o sabio mano. Nisto de modas falava que nem um livro. Quando ía por acaso a Lisboa, nunca deixava de visitar duas ou tres modistas suas conhecidas, de maneira que, por assim dizer, andava sempre ao par da sciencia. Foi n’um aposento interior, no sancta sanctorum da residencia magistral, que se traçou, discutiu, e resolveu a conspiração, que devia baralhar os calculos de Bartholomeu sobre as maquias da azenha naquelle semestre. Seis moedas foram ali barbaramente espatifadas. Foi um orçamento perfeito: talhou-se por cima da risca do necessario, e gastou-se: gastou-se d’ahi a poucos dias até o ultimo real, já se sabe, com severissimas economias, ficando-se devendo apenas uns tres mil e seiscentos a D. Margarida, famosa modista daquelle tempo. A campanha fez-se do modo seguinte: Manuel da Ventosa acompanhou D. Thomazia a Lisboa, para umas compras de certos arranjos domesticos, de que ella dizia muito carecer. Os arranjos eram os da fatal conspiração contra o velho Bartholomeu. Os trances d’esperança e de receio do bom ou mau desempenho de D. Thomazia, por que passou Bernardina em quanto os dous não voltaram, não cabe no possivel narra-los. Apesar d’isso, a elegancia com que se imaginava trajada e o seu homem, namorava-a de si mesma, e dobradamente delle. Chegava a ter ciumes das olhaduras que deitariam ao Manuel as outras raparigas, sem que por isso deixasse de admittir com certa complacencia innocente a idéa do quanto a haviam de achar attractiva os rapazes da aldeia. Emfim, é aqui o caso de dizer com o poeta, ácerca do que se passava no coração da moleira,

“Melhor é exp’rimenta-lo que julga-lo;Mas julgue-o quem não póde exp’rimenta-lo.”

Voltaram os dous ás trindades. O escholar valído do mestre, que aviava os recados de casa, tinha-os acompanhado. N’um grande sacco de damasco amarello, herdado por D. Thomazia de sua avó materna, e em duas grandes caixas de papelão trazia o rapaz os almejados adornos. Quem diria que o monumental sacco era a boceta de Pandora!? Pois era. Bernardina saltou de contente ao desenfardelar aquella feira: estava vestida á moda dos pés até á cabeça, posto que o seu Manuel houvesse cortado para si uma posta de leão. Digo isto, porque, apesar de toda a farandulagem feminina, que a boa da irmã do professor escolhêra com fino tacto, quatro moedas tinham ficado no Adrião, n’um chapelleiro do Rocio e n’um sapateiro ahi proximo, não me lembra em que rua, porque isto já la vae ha muito tempo, e a historia está sujeita a estas deploraveis lacunas. O caso é que elle pela sua parte, envergada aquella fatiota, poderia sem grande favor passar por um fidalgo de provincia chegado de tres dias á côrte. Fugia-lhe tudo um és não és do corpo, e tolhia-o, é verdade; mas ficava um mocetão teso; um milordem, como dizia o moço do Agostinho da tenda.

Segredo, segredo profundissimo (semelhante ao da nossa tão celebre conspiração de 1640 contra os castelhanos, da qual só talvez sabia o primeiro ministro de Castella) se guardou na azenha, olim de Ignacio Codeço, ácerca de todas aquellas tafularias. Quantas vezes não se vestiram a casaca e o vestido de seda! Quantas se não pozeram o chapéu de castor e o franzido! Que viravoltas se não deram, que visagens se não fizeram diante de um espelho de espinheiro com suas cortinas de panninho, que adornava a casa de fóra sobre uma commoda de vinhatico oleado, cujas puxadeiras de metal amarello luziam que nem ouro! Que disputas não houve sobre o abotoar e o desabotoar, o atacar e o desatacar, o pôr o chapéu assim, e o pôr o chapéu assado! E D. Thomazia, que presidia áquellas conclusões, da alteza da sciencia punha termo á questão com o seu parecer decisivo, magistral, oracular. No grande dia da festa a vaidade daquellas duas creançolas, satisfeita com a admiração popular, não valeria, não podia valer, o deleite que a antevista gloria desse dia lhes dava em imaginação. Ai, assim são todas as ambições e esperanças humanas! O goso é sempre o desengano mais ou menos ensosso das fascinações do desejo.

Mas havia uma nuvem negra que entenebrecia o brilho de tão completa felicidade. Era a lembrança do genio de Bartholomeu. Ás vezes, no meio dos mais festivos commentarios sobre a grande vista que haviam de fazer com as inopinadas secias, a figura do moleiro surgia terrivel, enrugada a testa pela severidade, os olhos-ervilhacas faiscantes de colera, a bôca borbulhando pragas. Bartholomeu cortava com o seu vulto ameaçador aquella linda pagina dos sonhos da vida, bem como o pingo de amarellado simonte (perdoe-se o enxovalhado do simile em favor da exacção) que, rolando insensivel pelo estendido beiço do velho sapateiro, vae cahir sobre o Carlos Magno, aberto em cima dos joelhos, e espalmando-se arredondado sobre as linhas mais interessantes do livro immortal, embacia e mata as chispas de Altaclara no momento em que ella rompe o arnez de Ferrabraz. E o mestre pára, e assoa-se; mas a interrupção fatal desvanece as illusões dos officiaes ouvintes, e descerrando-lhes os dentes, lhes quebra os brios com que puxavam a encerolada linha, ou cravavam os pinos no alteroso tacão.

Uma idéa, todavia, asserenava logo a alma de Manuel da Ventosa: o furacão paterno estava certo; mas devia ser passageiro. Elle não havia de pôr-se a ralhar nenhuns vinte annos. Era um dia ou dous; e aquellas louçainhas ficavam para toda a vida. E esta dilatava-se-lhe por horisontes tão illimitados! O bom do rapaz ainda não dobrara o melancholico padrão dos trinta annos, d’onde só se começa a medir bem com os olhos o curto caminho de ferro entre o berço e a cova, pelo qual vae correndo esta especie de locomotiva chamada existencia humana.

Aqui tem, pois, o leitor que gostar da historia lardeada de todas as investigações, exhibições e minudencias gravissimas, de que ella se costuma temperar, com tanto juizo e talento, nesta nossa terra, as causas e items mais remotos e reconditos da difficultosa situação em que achamos Bartholomeu á vista da descommunal tafularia do filho e da nora, cuja defesa tomára sem os conhecer, como verdadeiro paladino, e que dava de todo o coração ao demo desde que víra assim arder sem remedio o seu remedio, como diriam o elegante auctor dos Cristaes da Alma, ou os poetas da Phenix-renascida.

Banzou por alguns momentos o velho. A transição era demasiado violenta e rapida, e a revolução que se operava na sua alma vinha gravida de uma apoplexia. Indicavam-no as veias da fronte que engrossavam, a vermelhidão do rosto que ía tirando a rôxo. Semelhante ao hesitar da grimpa no topo do campanario, quando em trovoada eminente luctam dous ventos contrarios, Bartholomeu não sabia se repellisse as insolencias de Perpetua Rosa, que tivera a ousadia de chamar-lhe toirão, se descarregasse a colera que o asphyxiava sobre os dous barbaros delapidadores da quasi sua fazenda; quasi sua, digo, porque o moleiro bem sabia que a azenha comprada com o dote de Bernardina era em rigor delles, e por consequencia delles o seu rendimento, que por paternal precaução se encarregára de administrar e poupar.

Mas a avareza, superior ao orgulho no animo do velho, fez desembéstar para o lado dos noivos o vento da colera. Abandonando o arranhado e moído Gabriel, rompeu para os novos criminosos, que assim de subito ousavam apresentar-se no seu inexoravel tribunal. Andando, as mãos contrahiam-se-lhe por espasmo nervoso, como as garras aduncas do girifalte, e ao chegar ao pé delles lançou uma á gola da casaca do Manuel e outra ao braço de Bernardina. Eram duas tenazes de ferro.

“Que patifaria é esta, sô tratante?—­disse, dirigindo-se ao filho em voz baixa, rouca, e de vez em quando apipiada pela indignação que lh’a tolhia.—­Você não sabe que o dinheiro custa a ganhar? Para que é essa trapagem toda? Com quê já a sua jaqueta azul tem bichos? E cá a grandessissima tola não podia passar sem sedas! Não se lembra do tempo em que andava de sapatas atrás das vaccas da Josefa Enguia? Diga, senhora mosca morta?... Olha a sonsa, que parece não quebra um prato! Anda-se um homem a matar para lhes fazer casa, e vocemecês, senhores badamecos, a botar o suor da gente pela porta fóra. E eu sem saber nada d’isto! Com trezentas carradas de diabos! Pena tenho eu que essa mariolada os não pozesse n’um frangalho. Não têm vergonha de se fazerem alvo do povo, e de se arruinarem e arruinarem-me a mim, que toda a vida tenho labutado para viver com a minha cara descoberta?... Oh desalmado—­proseguiu depois de um instante de silencio—­que contas me has-de tu dar do dinheiro que extravaganciaste, e que é preciso para me acabar de desempenhar da compra da azenha?...”

Neste momento o discurso de Bartholomeu, que se ía encaminhando ao pathetico, foi interrompido por um rir esganiçado e tremulo, que lhe chiou ao pé dos ouvidos. Era o caso, que Perpetua Rosa o seguíra sem que elle reparasse em tal, e se pozera attentamente a escuta-lo. A ultima phrase que a boa da velha ouvíra tinha produzido nella tão subita alacridade.

“E ri-se você, sua atrevida?!”—­exclamou o moleiro voltando-se para Perpetua Rosa.—­“É natural que fosse intrépece nesta alhada...”

“Pois vocecê nan quer que eu ria a arrebentar ouvindo-lhe essas lérias da compra da azenha? Calo-me eu, bem sei porque. Mas sempre lhe digo, que está paga e repaga. Meu dinheiro, teu dinheiro!... Entende-me, senhor Bertolameu! Minha filha não veio descalça...”

“Oh diabo de bruxa!—­exclamou o moleiro fóra de si.—­Dão-me inguinações de t’esganar! Olha a piolhosa, a estraga albardas, que me deu cabo de seis saccas, as melhores que eu tinha, por desmazelada...”

“Já lh’o disse, seu mirra-mofina, seu manita de carneiro assado, seu sovina-mór! Não me faça falar. Olhe que eu não tenho papas na lingua...”

“Um estupor tivesses tu nella, que te pozesse a bôca á banda, aldrabista de centopeia, basculho de chaminé, carraça do inferno! Falta agora que a senhora diga que a lesma da filha trouxe para o casal mundos e fundos!”

“Antão, como meche nessa borbulha,—­acudiu Perpetua Rosa, agarrando o moleiro por uma das largas abas da veneranda casaca, e sacudindo-o com força,—­é preciso que não faça da gente tola. Assim o quiz, assim o tenha. Saibam vocecês—­isto dizia-o voltando-se para cinco ou seis velhas, que faziam roda e segredavam umas com outras.—­Saibam vocecês que o senhor Bertolameu da Ventosa recebeu mais de cinco centos de mil réizes de dote...”

“Eu deito-me a perder com este diabo!—­interrompeu o moleiro fazendo-se fulo, e soltando as mãos do braço de Bernardina e da gola do seu Manuel, para as lançar ao gasnate de Perpetua Rosa.—­Oh lingua perversa! Quaes quinhentos mil réizes?!...”

“Os que meu amo tinha ajunctado grão a grão, como se lá diz, á custa do suor do seu rosto, com muito gloria in incelsis muito bem cantado, e muito enterro feito, e muitas bátegas d’agua nos ossos, e muito sermão prégado, e muito arranjo e poupança desta sua criada, senhor Bertolameu. Senhor Bertolameu, tenha perposito! que quem não diz, não ouve; que lá resa o dictado: manha do açougue, e com villão villão e meio. Foram setenta caras; salvo seja! Vi-as contar com estes olhos, que ha-de comer a terra. E quem as arrecebeu? Nanja eu. Assim compra-se muita coisa, e arrotam-se postas de pescada. Diz bem, senhora Perpetua Rosa; diz bem! Quem perdeu perdeu; mas não queiram metter os dedos pelos olhos á gente. Nunca vi creatura assim: t’arrenego!”

Este brilhante discurso, até certo ponto, e debaixo de certos aspectos, quasi parlamentar, fez volver o catavento de raiva do moleiro para a oradora, que não era ninguem menos que a tia Jeronyma, a qual abicára ao pé delle na alheta de Perpetua Rosa.

Bartholomeu andava-lhe já a cabeça á roda, e fugia-lhe o lume dos olhos. Largou os gorgomilos da sua estimavel consogra, e começou a menear os braços por tal geito, que faziam lembrar as vélas do moinho da Ventosa. Os olhos saíam-lhe das orbitas, e a escuma dos cantos da bôca: quasi não podia falar. Entretanto Perpetua Rosa, solta do feroz amplexo, exclamava:

“Pouca vergonha! pôr as mãos na cara de uma mulher velha, este gaiato!”

Á palavra gaiato, homens, rapazes, mulheres, que de instante a instante augmentavam a roda, ninguem se pôde conter, pelo contraste monstruoso entre semelhante epitheto e o vulto de capitão hollandez, rhomboidal, vermelho, rugoso, quadrangular, irritado do moleiro. Foi uma cachinnada, um palmear, um ah ah ah ... ih ih ih ... um assobiar de garotos, que fazia tremer as carnes. Debalde Bartholomeu tentava fazer ouvir as suas explicações: o estrepito opposicionista embaraçava a atrapalhada voz do ministro, que pretendia desemaranhar aquella inextricavel questão de orçamento. Ninguem se entendia: era completamente parlamentar.

Neste momento, á porta de um corredor que dava para a sacristia, appareceu de subito, já meio revestido, o padre prior. O motim do adro tinha ecchoado lá dentro. Á vista daquelle aspecto veneravel e venerado fez-se prompto e profundo silencio.

“Que estrupida é esta?”—­perguntou o velho parocho com aspecto carregado e voz severa.—­“É na vizinhança da casa de Deus, na hora em que vão celebrar-se os divinos mysterios, que os meus honrados parochianos vem tecer disputas e travar-se de razões, em vez de guardarem a compostura e devoção com que devem preparar-se para o tremendo sacrificio do altar? Rixas e apupadas no dia do bem-aventurado S. Pantaleão?! Não o soffro. Vamos, expliquem-me a causa de tal barulho. Que foi isto?”

“São estas descaradas....”—­gritou Bartholomeu.

“Saiba vossenhoria....—­acudiu ao mesmo tempo a tia Jeronyma.

“É este insolente...”—­interrompeu Perpetua Rosa.

“Não é nada, padre prior; não é nada:”—­diziam conjuntamente o Manuel e a Bernardina, mais com a mão, fazendo um gesto negativo, que com as palavras, enredadas inintelligivelmente com as do moleiro, da ama, e da lavadeira.

“Fale um!”—­gritou o prior.—­“Assim fico jejuando.”

“Foi.....”--disseram todos ao mesmo tempo.

“Peior!”—­acudiu o parocho.—­“Cada um por sua vez. Vamos.”

“Saiba vossenhoria...”—­vociferou o moleiro, ganiu Perpetua Rosa, flautou a ama, murmurou o Manuel, pipitou Bernardina, clamaram os circumstantes.

“Visto isso, é impossivel saber de que se tracta?”—­interrompeu de novo o prior.—­“Está bom... Não importa! Depois da festa averiguaremos o caso. Tudo para dentro já! Vá tomar o seu logar, Bartholomeu. Estão os mesarios á espera, e você entretido aqui com estas toleironas! Vamos. Nem mais uma palavra.”

E dizendo e fazendo, recolhia-se para a sacristia. No relogio de sol o gnomon estendia exactamente a sua sombra sobre o ponto de intersecção marcado pelo X. As rebecas soltaram a sua chiadeira quasi harmonica, e o grupo, desfazendo-se, escoou-se pelo portal tricentrico, cujas pedras a broxa vandalica havia amarellado; e dentro de poucos instantes o adro ficou silencioso e deserto.

Os instrumentos tambem fizeram silencio passados alguns minutos, e sussurrou lá dentro uma voz humana, cansada e debil, que entoava com suave melopea:

Introibo ad altare Dei.